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Sexta-feira, Setembro 29, 2006
DO INESGOTÁVEL PODER DE ILUDIR-SE
Sempre houve um calmo dia Macio que sonhei claro, de brisa Morna, quase líquida carícia Soprando aquém da via vivida
E nesse falso dia de eterna calmaria (de superlativa falta de expectativa) Noite a anoitecer havia, e não ver Arrefecendo o que em seguida vinha
Despertava, da surpresa ira (matéria escura que tortura a vista) Esmagada certeza científica:
- Aquela ternura, infinita e obtusa escorrendo onírica de tal pintura evoca, no seu ocaso alaranjado maior ternura ainda, inda obtusa...
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15:43
BIOQUÍMICA DO EU
a Paulo Paniago
Não há quem viva bem Se além do que limita À razão cognitiva Seu buraco condensado:
- O mínimo adocicado de ração imperativa para ação integrativa ao nível molecular.
(significando que)
Sou carbono e hidrogênio Num invólucro augusto Cujo óxido contexto
Oxida por inteiro: - Precipito-me egoísta centrípeto a contento!...
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01:19
Terça-feira, Setembro 26, 2006
Miopia
Ainda bem que a sua guerra é santa. Eu não suportaria vê-lo distante de mim porque sou míope, não enxergo de muito longe. Para vê-lo com mais clareza, preciso que esteja ao alcance das minhas mãos. Para sentir-lhe o calor, é necessário tocá-lo. E para descobrir o quanto o quero, não posso esperar que eu o perca.
Seria doloroso demais ter as mãos vazias: eu não saberia o que fazer delas. Um tormento sentir a realidade pungente da sua ausência: já me acostumei com seus afagos e preciso deles agora mais do que nunca. Fique um pouco mais, e um pouco menos distante: os sonhos ainda perduram e meus óculos se quebraram.
Ju
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19:38
Domingo, Setembro 24, 2006
NA TURBA
A consciência espessa do ar Aspira gradativa meu pensar O momento; o vácuo denso Que pressinto adentro
Preexiste inexato o espaço E qualquer movimento; em silêncio Pulsa paradoxo o composto Precário de carne e osso
Que sobro - elo derradeiro Da cadeia vária de passados Que nada desencadearam
De peso - só esta aspirante Aspereza de tal espessura (do gás paralisante na rua).
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15:32
Sexta-feira, Setembro 22, 2006
NÃO SEI LATIM
Não sei de onde, se ontem A idéia tão cara da vida edificada Numa dura jornada, tão magra De vitórias e justificada de revezes
Veio em sono numa noite limpa De angústia; nem sei se minha A impressão de algo ex abrupto Varrendo a hora, e clarificativo
Virou-me dormindo, de forma Que sinto agora, dormente Um passo de jornada, cativo
Do desejo de algo ex nihilo Varrendo para fora do meu dia Esta idéia tão cara de vida...
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19:51
Quarta-feira, Setembro 20, 2006
Vigília
Prestes a assistir de muito perto o avesso preponderar, o gosto amargo na minha boca dita o sabor da saliva e do que mais eu venha a engolir. A dura sensação de estouro sobrepuja e faz com que eu não me preocupe com mais nada fora dos recentes acontecimentos. Sob meus pés, aos poucos, o chão vem-se rompendo, abrindo crateras que parecem ter vida e me querer lá dentro. De longe, você acompanha o decorrer da história. Mas escolta, avalia, pondera e me dá a mão. E faz promessas de eterno e incondicional amparo. Essa vigília me conforta e faz de mim alguém quase capaz de impedir a ruína. Sim, apenas “quase”, porque me sinto sem forças para competir com a sorte.
Na esperança de que meu destino dê alguma trégua para que eu mesma o reescreva, corro ao seu encontro. Se eu não puder vencer, quero ao menos estar nos seus braços, no seu colo, quando meu solo se quebrar de vez. Permita que eu fique ali, quieta e distante de tudo, como mera testemunha do meu próprio desmoronamento.
Ju
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16:55
A LÓGICA DA COVARDIA
Do meio da rua viva Uma atenção empurra O medo de atropelar-se (à vista do longínquo) Para a calçada segura
Porque, a bem ver A ida, cabe, arisca Uma tensão arriscada (e rica!) Que só o meio da via Ao olhar possibilita
Mas se tão curta vida (atribulada em demasia) Caminhar esta vista (ao longo do fluxo de chumbo que o risco caracteriza)
Não restará paisagem Mal-retida em retina (se verdade ou mentira miragem longínqua) De tal tentativa...
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11:43
Terça-feira, Setembro 19, 2006
DE OUTRO SERTÃO
Quase fui como vários outros Daqui - zeloso de órgãos Dos gostos de manada; cedo Quis esticar-me corda, afiar-me
Seta de qualquer inábil arco Alheio de todo alvo, giratório Tal que primeiro esquecesse Qual animal e prisca flecha era
Contemporânea da pedra: - O mediterrâneo ressecado conterrâneo do vasto espaço
vago que, entre chapadas cerrado ficara - eu, soldado apetrecho imaginado, à pedra...
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16:47
Sábado, Setembro 16, 2006
FENDA
Justo agora, há instantes (neste gole, pouco antes) Abriram-se vastas portas Aos dias, meses e horas
Da memória; um silêncio voraz Quanto aos anos a fio, estações Nas quais peculiarmente ativo (acredito) estive vivo, tal porteiro
Que desdevora o resolvido; insepulta Passagens de granito neolítico, num ofício Para crânios bem polidos, de propósito
Vazio; justo agora, floridos os sentidos (entre damas da noite toda sorriso) Perfuma, vívido - esse flash idiota!...
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12:01
Quinta-feira, Setembro 14, 2006
Bom dia
Um passarinho me visitou hoje bem cedo, pela manhã, e contou que viu você olhando uma foto minha. Descreveu você deitado, com a cabeça sustentada por uma das mãos. Nos lábios repousava um breve sorriso e os olhos, marotos, sorriam também. Enquanto eu lia, quieta, no quarto, ele entrou pela janela com uma rosa vermelha no bico. Um presente seu para mim. Deixou-a sobre a cama, contou o segredo, sem embaraços, e voou para fora, na mesma urgência com que entrou. Pela janela aberta vi-o pousado no fio por algum tempo, como quem espiasse meus atos para lhe enredar depois.
No quarto ficou o perfume da rosa. Nos meus lábios, seu sorriso. Na minha cabeça, sua imagem, tal qual ele descreveu. E no coração, o veemente desejo de que tudo não fosse apenas um sonho perfeito. Para mim, não há melhor forma de se começar um novo dia...
Ju
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16:36
Segunda-feira, Setembro 11, 2006
Ontem
É num dia como este que quero me despedir - um dia de brilho, o tempo limpo, passarinhos, vozes calorosas de amigos. Do álcool afagando doce e lentamente os sentidos, de refeições parcimoniosas e música dançando por mim. É assim que quero um dia morrer - do tanto viver na indolência tranqüila, desculpada, de uma vida enfim apaziguada.
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16:25
Domingo, Setembro 10, 2006
Castelos
A saudade hoje chegou bem cedo, antes mesmo do café e do jornal. Pensei em você e senti nosso cheiro no ar. Sua voz, quase real, me chamou e repetiu, baixinho, palavras que me fizeram estremecer. O vazio gelado me trouxe, então, a vontade louca de correr para você.
Incitando minha agonia, as horas quase correram para trás. Dei mais corda no velho relógio da sala, na tentativa frustrada de fazer acelerar o dia. Por fim, venci o tempo, os contratempos, desintegrei minha decência, abri portas que não devia e destruí paredes para estar ao seu lado.
A intenção era surpreender e bati de frente com a realidade: você não me esperava. Então me dei conta de que sua vida segue sem mim. Voltei os quilômetros percorridos com um bolinho nas amídalas e a certeza de que os castelos imaginados são bem mais coloridos que os de verdade.
É! Talvez não deva mais construir castelos. Mas se um dia voltar a fazê-lo, cuidarei para usar menos lápis de cor.
Ju
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19:54
PESCARIA
Você vai Sempre que a hora vem.
Nuvem escurecida de minúcias Acerca do insuperável modo de ter de obedecer À própria argúcia Informada por esta decência (sem sombra de dúvida) Integralmente tua.
Você vai Sempre que a hora ronda Aquela porta desguarnecida; aquela Ambígua, travestida Parede:
- Inadvertida rede.
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12:05
Quinta-feira, Setembro 07, 2006
LEI DA ATRAÇÃO
Ei ei ei Presta atenção Quando por um fio Mal falo O que digo:
- O que reviro na contramão disto (convertido granito)
digere o preciso daquilo que nada chulo, todo chucro um telefonema ambíguo
(costurado de sentido) úmido escamoteia do teu registro.
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13:34
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