"As almas de muita gente
são como o rio profundo
- a face tão transparente
e quanto lodo no fundo!..."

Belmiro Braga


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Desenhado por
Grasielle Castro

 

Sexta-feira, Outubro 27, 2006

CONSTATAÇÃO

O que colapso
Adentro
Do tempo segundo
Meu conceito

Me ensina
Da sua passagem
Acima (e ao lado):

- Do amor
(embora amor se crê)
nada posso esperar.

posted by Mauro Belmiro at 07:16


Domingo, Outubro 22, 2006

Na longa estrada para a velhice

Meu labirinto bichou. Entre todas as afecções que imaginei adquirir quando a máquina que sou começasse a falhar, esta nunca cogitei. A leve tontura permanente que traz levou-me ao recolhimento - para senti-la melhor, se possível apalpá-la, decompô-la para saber dos seus limites, das mudanças que ela porventura trará ao resto de mim. Por enquanto, a registrar, a impressão desagradável de ter enfim de recorrer a outras instâncias que não a farmácia maravilhosa do corpo e sua mente, mobilizáveis num ato independente, solitário, de vontade de resolução.

No mais, a constatação de que o espelho não será, adiante, o único meio de checar existencialmente a passagem do tempo: a partir de agora, a máquina maravilhosa que habito torna-se relógio, creio, com um número crescente de ponteiros impossíveis de ignorar.

Começo - de fato, porque forçosamente consciente - a caminhada em declive.

posted by Mauro Belmiro at 10:46


Sábado, Outubro 21, 2006

DERROTA DE VESTIÁRIO

Do ardor que em tudo dispensa
O argumento que enfim despeita
Não falo (se tanto, tolo o sinto
preciso emborcando os sentidos)

E caso nele penso (no desvario
deliberado deste tiro perdido)
Desarmado, só calado dele faço
Palavreado sem registro, placa

Indicativa de nada, desapontada
Guia de caminhos que não digo
Estradas - desnecessárias vias
Sacras iluminadas avenidas:

- Por onde brancas faixas retilíneas
curvam a vista, que senão turva
acredita que desvia...

posted by Mauro Belmiro at 12:51


Segunda-feira, Outubro 16, 2006

NA TORRE

Às vezes, ainda reivindico
Do orvalho matutino, o imprevisto
Carvalho à sombra do cansaço
Da estrada poeirenta a pino;

É que quase acredito conceber
O mito de poder surpreender
O nada-a-fazer nisto; outras vezes, antecipo
Vicioso cenário de virtudes, pressuroso

Campanário emparedado partitura
Repetida, há muito urdidura
De canários restritiva, embora trilha

Sonora da estrada percorrida:
- Do imprevisto emparedado
campanário de carvalho.

posted by Mauro Belmiro at 16:35


Sábado, Outubro 14, 2006

Insônia

Deixe que eu encontre nos lençóis da sua cama o aconchego que me falta em dias como o de hoje. Quero ser a dona dos seus pensamentos e a realizadora de todas as suas fantasias. Deslize as mãos na minha pele até encontrar o que procura em mim e ali demore o tempo que quiser.

Dono da minha insensatez, é por você que vou juntar meus pedaços! E quando eu puder me contemplar outra vez inteira, que você esteja no mesmo espelho, dentro do mesmo olhar. Faça de mim a cúmplice dos seus segredos, seu brinquedo preferido. E que essa expectativa vença minhas noites de insônia e me faça dormir todas as horas que mereço.

Ju

posted by Mauro Belmiro at 00:52


Sexta-feira, Outubro 13, 2006

SALA DE ESPELHOS

Retorno aonde estive
Mil vezes, e neste piso
Gasto de revezes, repasso
Comigo o velho caminho

Até a porta dos mil erros
Novos, daqueles acertos
Tortos, desapercebidos
Prazeres que pressinto

Deveres com outrem:
- Algum desconhecido
aquém desse antigo

modo de ser abismo
opaco, qual narciso
que igual naufrago...

posted by Mauro Belmiro at 19:34


Quinta-feira, Outubro 12, 2006

QUE PERGUNTA É ESTA?

ao José Matias, de Eça de Queirós

Por que o destino
Qual esquina a dobrar

[véu, semente, a promessa
daquelas próximas férias;
o belo adormecido
(num descanso imerecido)
princípio feminino;
o que, desconhecido
assegura-se definitivo
tonificante capilar]

Eterna em outra rua
(noutra tarde, lua, lugar
à parte do sistema solar)
Cinderela andará?...

posted by Mauro Belmiro at 21:39


Segunda-feira, Outubro 09, 2006

TÃO CEDO ASSIM

Ao sentir o chão
Penosamente branco
Da manhã nascente

Entrando a estação
Úmida dos cacos
Pisados reluzentes

Reflito mães d'água
Iaras alquebradas:
- Sereias decadentes
de fala enluarada...

(caso recorrente
de mente fraturada:
- calçando o passo
até o poente)

posted by Mauro Belmiro at 18:19


Domingo, Outubro 08, 2006

FUGA NO BARQUINHO DE PAPEL

Quando chove forte, e a água pura
Lava a pedra imunda, e verticaliza
Ruidosa a expectativa de, em seguida
- ao inundar a hora, a rua, a vista -
Confirmar-se quase limpa

Tenho ímpetos de dissolver-me
Antiácido, sem efervescências
De consciência, ou sentimentos
Cristalizados açucareiros:

- Desobedecer a gravidade dos fatos, e tubular
(obedecendo estreito à gravidade dos ratos)
vazar de onde contrafeito estive
(num respeito fugaz ao declive)

para outro lugar...

posted by Mauro Belmiro at 13:17


Sábado, Outubro 07, 2006

CONTEMPORÂNEA

Às vezes desapareço
Sumidouro de vontades: e o apreço
Com que quase experimento a cidade
(da colina além-vazia de olhares
desarmada à vista de verdades)

Amesquinha-se vila, removida
Da sociedade magnífica dos prazeres
Vagarosamente palafita nos dizeres.

E às vezes se soergo (um braço)
Deste tédio pleno, vácuo
Chumbado ao leito, contrário

À cosmopolita urbanidade
De uma vida de oportunidades
(das cinzas fotografadas
em desdobradas paisagens)

Paro. Para tentar despovoar
Um cansaço secular.

posted by Mauro Belmiro at 10:37


Minhas histórias

Muito longe da calmaria da minha criancice, vivo amarguras que só conhecia nas histórias. Ainda me lembro do aperto no peito ao ler historinhas infantis e ver que o mal prevalecia tempo demais. O fim era bom, mas sempre achei que não era bom o suficiente para compensar a agonia do enredo. Fechava o livro, deixando entre as páginas minha repulsa, minha indignação.

Hoje me vejo personagem desses episódios. Vivo, de novo, as mesmas angústias. Sinto o peito apertado e sofro com o desenrolar das minhas histórias. Como na infância, aguardo ansiosa o final feliz, mas torço para que ele demore um pouco mais. Pois quando o desfecho chegar, e eu tiver que fechar o meu livro, no lugar da repulsa inocente entre as páginas, deixarei a madura anuência de quem já não acredita em bicho-papão.

Ju

posted by Mauro Belmiro at 09:37