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Quarta-feira, Março 28, 2007
RATO
Às vezes, gostaria de deixar um canto Me observando.
O silêncio costurado num pano Amordaçando, invisível
O ruído certeiro do tiro (esburacando meu queijo suíço)
Fogo amigo.
posted by Mauro Belmiro at
10:12
Sábado, Março 24, 2007
SHEHERAZADE
Meus ouvidos roucos De tanta escuta; de tanta Palavra que desacostuma O que de mim procura
A lua, pela rua larga Da tua madrugada escura
Devoram, aos poucos
- Do cesto bem-disposto que tua ousadia, contida revira, conosco
As laranjas perfumadas Que caem, silábicas Dádivas, uma a uma (úmida, pétala, regada)
Da tua boca Abençoada...
posted by Mauro Belmiro at
12:31
Sexta-feira, Março 23, 2007
Novas tecnologias e possibilidades expressivas
artigo para o Esquina, jornal-laboratório
Somente há dois anos, na última edição do Fórum Social Mundial realizada em Porto Alegre, pude finalmente começar a perceber o alcance e profundidade dos múltiplos usos humanos das novas tecnologias. Após quase duas décadas envolvido com estudos sobre legislação e políticas de comunicação - regulamentação de mídias tradicionais e novas -, até então eu subestimava as perspectivas potencialmente revolucionárias da transição em curso: embora já reconhecesse o caráter estrutural de tais mudanças, em épocas de alegada desmobilização política a economia política por mim advogada tendia a absolutizar o que, das históricas desigualdades características de nossa sociedade, subsistiria na nova sociedade da informação. Não que a abordagem dos mecanismos de reprodução do poder dominante em novas condições não seja de importância fundamental; afinal, é da competência histórica do poder sua capacidade de bem reproduzir-se. Mas tal abordagem, se de fato histórica, tem de dar conta também dos aspectos insubordináveis das transformações sociais - aqueles elementos a princípio intratáveis que, uma vez fatores atuantes nas fissuras do real, abrem caminho para o (im)possível. Enfim, como indagou certo filósofo barbudo no século XIX, de que valeria compreender o mundo senão para transformá-lo?...
Assim, no turbilhão caleidoscópico de um evento extraordinário como aquele em Porto Alegre - o qual, diga-se de passagem, só se tornou possível com a mobilização dos novos movimentos sociais operando em rede -, meus olhos sofreram sua transição correspondente: ao invés de apenas procurarem o velho no novo, passaram a atentar cada vez mais para as particularidades do presente em rápida transformação.
Dali para cá, tenho procurado identificar nas novas tecnologias de comunicação - especialmente na Internet de incalculáveis implicações, conseqüências e possibilidades - as condições ditas materiais, objetivas, que permitiriam a um número crescente de seres humanos (segundo informações recentes, hoje ultrapassando um bilhão de indivíduos) reorganizarem, em graus variados e de diferentes maneiras, parte significativa de suas relações com o mundo; e ao longo desse processo, reciprocamente alterarem tais condições no sentido de uma superação acelerada, quantitativa e qualitativa, da velha ordem. Para além das discussões tornadas corriqueiras sobre a crise do jornalismo e seu impacto na formação dos novos profissionais - eixo temático do meu trabalho docente no UniCEUB -, gostaria de chamar atenção para um aspecto da transição menos discutido nas disciplinas que ministro: as novas tecnologias como veículos de possibilidades expressivas exponencialmente ampliadas, experimentadas integralmente como possibilidades comunicativas.
Aqui, refiro-me especificamente à expressão estética, cônscio de que, pelo menos desde Pierre Lévy, uma vasta literatura acadêmica e não-acadêmica tem se constituído sob a rubrica-tema da "cibercultura". À parte questões relacionadas à produção coletiva, arquitetura aberta, fim da autoria etc., neste rápido artigo desejo mencionar um tópico algo prosaico, que creio comum à maioria das pessoas, embora pouquíssimo valorizado: o novo alcance da dimensão íntima, afetiva, daquela expressão.
Por exemplo, no que respeita à expressão escrita, muitos de nós tentaram, em algum momento da vida, registrar impressões acerca tanto do que nos cerca quanto do que nos vai por dentro. Diários, poemas, comentários avulsos, diálogos íntimos freqüentemente tomados como infantis, pueris, costumavam ter antes o mesmo destino: o fundo da gaveta. Se dotados de qualidade literária - isto é, capazes de mobilizar afetivamente um número indeterminado de pessoas, entre outras implicações -, deles pouco se poderia saber, vez que, numa cultura onde o senso comum entendia o talento artístico como sobrenatural, os constrangimentos à divulgação eram consideráveis. Dessa forma, as aspirações de muitos a uma vida plenamente criativa encerravam-se prematuramente, assim como a perspectiva de interlocução em círculos afins e mais amplos.
E agora? Weblogs, sites, páginas pessoais decretam, segundo apocalípticos e integrados respectivamente, do fim da distinção entre o público e o privado ao florescimento de um cultivo ampliado da sensibilidade. O que antes não circulava encontra a oportunidade de se fazer conhecer muito além da experiência sensível, independentemente de instâncias (críticos, editoras etc.) sobre as quais a imensa maioria não tem controle. Se uma vez Jürgen Habermas definiu o século XVIII como "o século das cartas" - quando a explosão das correspondências pessoais deu partida à formação da esfera pública burguesa que posteriormente revolucionou o planeta -, o que amanhã dirão do século XXI, que se inicia com a promessa da expressão pessoal que enfim comunica - estética e afetivamente - de maneira irrestrita?
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16:47
Domingo, Março 18, 2007
DOMINGUEIRA MENTAL
Um passeio ao passado acidentado dos temores Adequado ao ocaso dos atores, de amores Estirados de cansados desencontros De sonhos oleosos de refregas
Dá-se por atalho forrado de cores Que etéreas mitigaram dores Colhidas flores - embora sabidas podres Frutas fora de estação.
Um senão. Que nem corte tão íngreme Nem por demais pedregoso Comprometa um juízo Este obtido penoso:
- Porque o bom retorno do retorno faz-se adocicado dum acordo estivado pelo tempo
(se da paixão, mau senhor de mim não, por favor!...).
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21:24
Quarta-feira, Março 14, 2007
DO DICIONÁRIO XV
Vácuo: espaço De tudo desprovido Num ato criativo.
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17:21
Sexta-feira, Março 09, 2007
Estranha forma
Estranha essa minha forma de viver, que me faz pensar que estou condensando o tempo para resolver tudo depois. Na verdade, apenas deixo que ele passe matreiro e arraste consigo todas as chances, todas as oportunidades, todas as coerências e, quem sabe, para sempre. Mais estranha é minha desambição de galgar caminhos que me não apontem apenas limites. Desejo estradas sortidas, condutoras, sedutoras. À frente, quero enxergar saídas e não bloqueios, flores e não apenas perfumes, sentir e não somente querer sentir.
Distante, vivo o inverso de tudo. Preparo-me para receber da vida o que ainda não lhe pedi. Espero o amanhã diferente, mesmo sabendo que nada virá. Sofro, antecipadamente, pela falta de tudo o que quero fazer porque sei que não o farei. E tenho saudade do tempo em que eu não era nada disso.
Ju
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17:26
Quarta-feira, Março 07, 2007
TROIANA
Azuis e quentes São os dias sem poentes Que, pessoalmente Assim, interiormente
Escondo em mim; Contemporâneos doutras vezes Alargados de repente Tais buracos ascendentes
Consistem, gêiseres Num presente à minha mente:
- Sem a noite que alterna a caverna necessária à malária descoberta enfim; ainda que vera, ao fim
para além da vaporosa hera desta bela, cálida quimera
a queda do trampolim...
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15:11
Domingo, Março 04, 2007
CORPORAL
Freqüente, penso Tomar-se todo movimento A esmo no presente
(independente, mesmo de intenção que o movimente)
Por outro, alheio Ao que se passa no momento;
Desloca-se, penso Continuamente entendimento
(no vácuo entre o rabo fugidio e a certeza do cabelo em desalinho)
Pelo tempo dividido de maneira A esquecer de si o ocorrido;
Daí, o que em mim contraditório Divórcio num hiato remanesce
(o fracasso permanente, a ser um transitório sempre dever que se esquece)
Incendeia, geleira carcomida (do calo ralado à cabeceira)
A mente cuspida inteira (desmedida dos pés à cabeça)...
posted by Mauro Belmiro at
11:58
Sábado, Março 03, 2007
DO DICIONÁRIO XIV
Melancolia: sutileza Dolorida, se tristeza De beleza distraída.
posted by Mauro Belmiro at
14:56
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