quarta-feira, 20 de junho de 2007

INEXPRIMÍVEL GOYAZ III

Somos duas
Crianças adultas
Repassando estórias:

- Trocas de pedrinhas
em vidraças coloridas

(farpas, entrelinhas
que se quebram sozinhas)

terça-feira, 19 de junho de 2007

INEXPRIMÍVEL GOYAZ II

Por que tudo que dizes
Assim, de chofre

Açoite

Ao vento, à sorte

Perfura, assim
Meu norte

(itinerário de um destino só)?...

segunda-feira, 18 de junho de 2007

INEXPRIMÍVEL GOYAZ I

Não sei
(mesmo, não sei)

O que da sombra fresca
A tua doce presença

(alfazema)

Esquenta
Em mim.

domingo, 17 de junho de 2007

FREQÜENTE

Por que sinto
E ressinto

[aqui, contigo, ali
dormindo, acordado
pensativo (por acaso)
vivo]

A mesma coisa boa
Repetida à toa

Quando tua coxa
Roça meu sonho eterno de menino?...

sábado, 16 de junho de 2007

A FADA DAS LOUÇAS

apareceu por aqui. Ali
enquanto eu sonhava
(com flocos de goiabada)

as panelas do meu amor inteiro
dançaram da pia ao escorredor
num ato perfeito

(de caseiro esplendor)

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Inexprimível amor

sobre outra impossibilidade, novamente Roland Barthes

"ESCREVER. Engodos, debates e impasses provocados pelo desejo de 'exprimir' o sentimento amoroso numa 'criação' (particularmente de escrita).

1. Dois mitos poderosos nos fizeram acreditar que o amor podia, devia se sublimar em criação estética: o mito socrático (amar serve para 'engendrar uma multiplicidade de belos e magníficos discursos') e o mito romântico (produzirei uma obra imortal escrevendo minha paixão).
Entretanto, Werther, que antes desenhava abundantemente e bem, não pode fazer o retrato de Carlota (mal pode esboçar-lhe a silhueta que é precisamente o que, dela, o capturou). 'Perdi... a força sagrada, vivificante, com a qual criava mundos ao meu redor.'

2. 'La pleine lune d'automne,
Tout le long de la nuit
J'ai fait les cent pas autour de l'étang.'

[À lua cheia de outono, / Ao longo de toda a noite / Perambulei ao redor da represa.]

Nenhuma indireta mais eficaz, para dizer a tristeza, do que este 'ao longo de toda a noite'. E se eu, também, tentasse?

'Ce matin d'été, beau temps sur le golfe,
Je suis sorti
Cueillir une glycine.'

[Nesta manhã de verão, bom tempo no golfo, / Saí / Para colher uma glicínia.]

ou:

'Ce matin d'été, beau temps sur le golfe,
Je suis resté longtemps à ma table,
Sans rien faire.'

[Nesta manhã de verão, bom tempo no golfo, / Fiquei durante muito tempo à mesa, / Sem fazer nada.]

ou ainda:

'Ce matin, beau temps sur le golfe,
Je suis resté immobile
A penser à l'absent.'

[Nesta manhã, bom tempo no golfo, / Fiquei imóvel / Pensando no ausente.]

De um lado, é não dizer nada, de outro, é dizer demais: impossível ajustar. Minhas ânsias de expressão oscilam entre o denso haikai, resumindo uma enorme situação, e um grande carregamento de banalidades. Sou ao mesmo tempo grande demais e fraco demais para a escrita: estou ao lado dela, que é sempre rigorosa, violenta, indiferente ao eu infantil que a solicita. O amor tem decerto um pacto com minha linguagem (que o mantém), mas não pode alojar-se em minha escrita.

3. Não posso me escrever. Quem seria este eu que se escreveria? À medida que entrasse na escrita, a escrita o esvaziaria, o tornaria vão; produzir-se-ia uma degradação progressiva, na qual a imagem do outro seria, também ela, pouco a pouco envolvida (escrever sobre alguma coisa é corromper esta coisa), abominação cuja conclusão não poderia deixar de ser: para quê? O que bloqueia a escrita amorosa, é a ilusão de expressividade: escritor, ou considerando-me tal, continuo a me enganar sobre os efeitos da linguagem: ignoro que a palavra 'sofrimento' não exprime nenhum sofrimento e que, por conseguinte, empregá-la, não apenas significa nada comunicar, mas ainda, e bem depressa, irritar (sem falar no ridículo). Alguém deveria me ensinar que não se pode escrever sem fazer o luto da própria 'sinceridade' (sempre o mito de Orfeu: não se virar). O que a escrita exige, e que nenhum amante lhe pode conceder sem dilaceramento, é que ele sacrifique um pouco de seu Imaginário, e que assegure assim, através de sua língua, a assunção de um pouco de real. Tudo o que eu poderia produzir, no melhor dos casos, seria uma escrita do Imaginário; e, para isso, eu teria que renunciar ao Imaginário da escrita - me deixar laborar por minha língua, sofrer as injustiças (as injúrias) que ela não deixará de infligir à dupla Imagem do amante e de seu outro.

A linguagem do Imaginário não seria nada mais do que a utopia da linguagem; linguagem perfeitamente original, paradisíaca, linguagem de Adão, linguagem 'natural, isenta de deformação ou de ilusão, espelho tímido de nossos sentidos, linguagem sensual (die sensualische Sprache)': 'Na linguagem sensual, todos os espíritos conversam entre si, não têm necessidade de nenhuma outra linguagem, pois é a linguagem da natureza.'

4. Querer escrever o amor é afrontar o atoleiro da linguagem: esta região desesperada em que a linguagem é ao mesmo tempo muito e muito pouco, excessiva (pela expansão ilimitada do eu, pela submersão emotiva) e pobre (pelos códigos mediante os quais o amor a rebaixa e reduz). Diante da morte de seu filho-criança, para escrever (nem que fossem farrapos de escrita), Mallarmé se submete à divisão parental:

Mère, pleure
Moi, je pense

[Mãe, chora / Eu, eu penso]

Mas a relação amorosa fez de mim um sujeito atópico, indiviso: sou meu próprio filho: sou ao mesmo tempo pai e mãe (de mim mesmo, do outro): como poderia dividir o trabalho?

5. Saber que não escrevemos para o outro, saber que essas coisas que vou escrever jamais me farão amado de quem amo, saber que a escrita não compensa nada, não sublima nada, que ela está precisamente ali onde você não está - é o começo da escrita."

Roland Barthes, Fragmentos de um discurso amoroso. Tradução de Márcia Valéria Martinez de Aguiar. São Paulo: Martins Fontes, 2003, pp. 157-161.

Sobre o mal

O mal opera nos interstícios da atenção.

quarta-feira, 6 de junho de 2007

NÃO ESCREVO

Porque vivo
(indefeso)
O avesso
Do avesso do avesso

Toda vez que arremedo
A vida literária que desejo
(e desconheço)

sexta-feira, 1 de junho de 2007

O CHÃO SAGRADO

acerca de um sonho caro, e ameaçado

São oitocentos metros quadrados
riscados em cerrado de sonhos coalhado
dos outros; o retângulo aeroporto
do já alto vôo que encetamos abraçados.

Qual castelo? Imaginamos, enlevados
o canto íntimo de um ao outro, renovado
aço místico finíssimo redobrado ao infinito:
- espada samurai de cortes sem coágulos.

Que espaço? Da tertúlia generosa dos portões
abertos ao eterno encontro; dos cuidados
mutuamente cultivados, extensíveis

flores aos convidados; e do silêncio
enfim mais caro - amorosamente tecido
rítmico na alcova dos carinhos...

22/05/05

terça-feira, 29 de maio de 2007

VINTE DE MAIO

O perfeito raro, avesso
De todo temporário pesadelo
(verborrágica ventania)
Ao contrário, mal descrevo
(sussurra a brisa):

- Trata-se de nada, nada mesmo
além de muito, muito beijo
(num enlace benfazejo)
com fundo de piaf e aznavour
em dueto por um detour

contudo sereno; nada mesmo além
de estar-se nisso muito bem
a dois, há muitos; porque conosco
estão cada mil de nós
anos juntos

(tantos, vezes mudos
refazendo mundos)

Romance/Drama

o elusivo em Sheherazade, por Roland Barthes

"DRAMA. O sujeito amoroso não pode escrever ele mesmo seu romance de amor. Apenas uma forma muito arcaica poderia recolher o acontecimento que ele declama sem poder contar.

1. Nas cartas que envia ao amigo, Werther conta ao mesmo tempo os acontecimentos de sua vida e os efeitos de sua paixão; mas é a literatura que comanda essa mistura. Pois, se eu, pessoalmente, escrevo um diário, pode-se desconfiar que esse diário relate acontecimentos no sentido próprio do termo. Os acontecimentos da vida amorosa são tão fúteis que só acedem à escrita através de um imenso esforço: desanimamos de escrever o que, ao ser escrito, denuncia sua própria vacuidade: 'Encontrei X... em companhia de Y...', 'Hoje, X... não me telefonou', 'X... estava de mau humor', etc.: quem aí reconheceria uma história? O acontecimento, ínfimo, existe apenas através de seu ressoar, enorme: Diário de minhas ressonâncias (de minhas mágoas, minhas alegrias, minhas interpretações, minhas razões, minhas veleidades): quem entenderia alguma coisa? Apenas o Outro poderia escrever meu romance.

2. Como Narrativa (Romance, Paixão), o amor é uma história que se cumpre, no sentido sagrado: é um programa, que deve ser cumprido. Para mim, ao contrário, essa história já aconteceu; pois o único acontecimento é o rapto de que fui objeto, e cujas conseqüências repito (infrutiferamente). O enamoramento é um drama, se concordarmos em devolver a essa palavra o sentido arcaico que Nietzsche lhe dá: 'O drama antigo tinha em vista grandes cenas declamatórias, o que excluía a ação (esta acontecia antes ou depois da cena).' O rapto amoroso (puro momento hipnótico) acontece antes do discurso e atrás do proscênio da consciência: o 'acontecimento' amoroso é de ordem hierática: é minha própria lenda local, minha pequena história sagrada que declamo para mim mesmo, e essa declamação de um fato consumado (congelado, embalsamado, apartado de todo fazer) é o discurso amoroso."

Roland Barthes, Fragmentos de um discurso amoroso. Tradução de Márcia Valéria Martinez de Aguiar. São Paulo: Martins Fontes, 2003, pp. 133-134.

sexta-feira, 25 de maio de 2007

DE VOLTA

Estou no centro.
Caminhei até aqui
Por dentro, de ti
Alternância do momento.

Não vi - inda não vejo
A contento um roteiro - da estrada
(eu exposto em movimento)
Teu mapa, poderoso sinaleiro

Do sinto-mesmo-o-centro:
- Mas não importa menos
se sinto-o agora, que o tenho

vento da aurora; se em ti
estive outrora, e a demora
valeu a tempo...

sexta-feira, 18 de maio de 2007

PINE TREE

Não ir a qualquer lugar
(nem devagar)
Estabelece-se norma
Deste penar

Que pena!, pena leve
(de frango, de pato, de lebre)
Breve seja!, que do santo
O barro se foi

Pena máxima: dói
Um pouco saber de novo
Que disposto ser amoroso

Resto de modo
Remoto, removido
De qualquer outro...

domingo, 13 de maio de 2007

"Que fazer?"

no diálogo suspenso com Sheherazade, um fragmento de Roland Barthes

"CONDUTA. Figura deliberativa: o sujeito amoroso se coloca, com angústia, problemas, na maior parte das vezes fúteis, de conduta: diante de tal alternativa, que fazer? Como agir?

1. Devo continuar? Wilhelm, amigo de Werther, é o homem da Moral, ciência certa das condutas. Esta moral é de fato uma lógica: ou isto ou aquilo; se escolho (se marco) isto, então, de novo, isto ou aquilo: e assim por diante, até que, dessa cascata de alternativas, surja enfim um ato puro - puro de todo arrependimento, de todo tremor. Amas Carlota: ou tens alguma esperança, e então ages; ou não tens nenhuma, e então renuncias. Tal é o discurso do sujeito 'sadio': ou, ou. Mas o sujeito amoroso responde (é o que faz Werther): tento me esgueirar entre os dois membros da alternativa: quer dizer: não tenho nenhuma esperança, mas mesmo assim... Ou ainda: escolho obstinadamente não escolher; escolho a deriva: continuo.

2. Minhas angústias de conduta são fúteis, cada vez mais fúteis, ao infinito. Se o outro, incidentalmente ou negligentemente, me dá o número do telefone de um lugar onde posso encontrá-lo a tais horas, desespero imediatamente: devo ou não devo telefonar? (De nada serviria alguém me dizer que posso telefonar para ele - sentido objetivo, razoável, da mensagem -, pois é precisamente com esta permissão que não sei o que fazer.)

É fútil o que aparentemente não tem, não terá conseqüência. Mas, para mim, sujeito amoroso, tudo o que é novo, tudo o que desarranja, é recebido, não sob a forma de um fato, mas sob a forma de um signo que é preciso interpretar. Do ponto de vista amoroso, o fato torna-se conseqüente porque se transforma imediatamente em signo: é o signo, não o fato, que é conseqüente (por seu ressoar). Se o outro me deu esse novo número de telefone, de que isso era signo? Seria um convite para usá-lo imediatamente, por prazer, ou apenas se fosse o caso, por necessidade? Minha resposta será ela própria um signo, que o outro interpretará fatalmente, desencadeando assim, entre ele e eu, uma tumultuosa contradança de imagens. Tudo significa: com esta proposição, prendo-me, enleio-me no cálculo, impeço-me de gozar.

Às vezes, à força de deliberar sobre 'nada' (no dizer do mundo), esgoto-me; tento então, num sobressalto, voltar, tal como um afogado que bate com o calcanhar no solo marinho, a uma decisão espontânea (a espontaneidade: grande sonho, paraíso, poder, gozo): pois bem, telefone para ele, já que você está com vontade! Mas o recurso é vão: o tempo amoroso não permite alinhar o impulso e o ato, fazê-los coincidir: não sou o homem dos pequenos 'acting-out'; minha loucura é temperada, não é visível; é imediatamente que tenho medo das conseqüências, de qualquer conseqüência: é meu medo - minha deliberação - que é 'espontâneo'.

3. O carma é o encadeamento (desastroso) das ações (de suas causas e de seus efeitos). O budista quer se retirar do carma; quer suspender o jogo da causalidade; quer ausentar os signos, ignorar a questão prática: que fazer? Eu, eu não cesso de me colocá-la e suspiro por esta suspensão do carma que é o nirvana. Do mesmo modo, as situações que, por sorte, não me impõem nenhuma responsabilidade de conduta, por mais dolorosas que sejam, são recebidas com uma espécie de paz; sofro, mas pelo menos nada tenho que decidir; a máquina amorosa (imaginário) move-se aqui por si só, sem mim; como um operário da era eletrônica, ou como o estúpido do fundo da classe, basta-me estar ali: o carma (a máquina, a aula) rumoreja diante de mim, mas sem mim. Na própria infelicidade, posso, por um brevíssimo momento, arrumar para mim um pequeno recanto de preguiça."

Roland Barthes, Fragmentos de um discurso amoroso. Tradução de Márcia Valéria Martinez de Aguiar. São Paulo: Martins Fontes, 2003, pp. 75-78.

sábado, 12 de maio de 2007

CACHORRINHO

Face (colada) ao aço
Mudo do teu muro opaco
(liso ar-condicionado
hirto e gasto)

Descanso e medito
(mal, que o frio é real)
Sobre asas e barbatanas
Sobre penas e escamas

Dos caminhos que não sigo
Por tomá-los quebradiços:

- Aquém, circunscrito
a um além mortiço

(da precisa impotência
da impaciência, ilustrativo)

domingo, 6 de maio de 2007

NUMA TARDE CAINDO DE DOMINGO

Cansaço.
Silêncio.
Um suspiro entediado
(consigo mesmo)

Traga o ar seco
O quarto
O tempo
Da vitória do Flamengo.

(e por dentro
do colapso do pensamento
o sentimento que ressente

momento tão recente
perde-o seguidamente - vácuo no vão
dum átimo indiferente)

terça-feira, 1 de maio de 2007

DO DICIONÁRIO XVII

Distância: desmedida
Ânsia de te antever
Dobrar a esquina.

DO AMOR LOUCO DE JUÍZO

Onde estiveste
Agora, há pouco?

A tua mente, que parece
Que fugia ao corpo?

Quis segui-las - a ti menos
Que tua suspensão reflexiva
De momento - porque sentimentos
Adensam, rotineiros, perspectivas

De novo descabidas; e eu primeiro
Queria subida, por inteiro

A colina pensativa da tua fantasia
Tranqüila - para ali, de cima

(numa conversa que não termina
a madrugada atravessada linda)

Ver nada que cansa
Que desgasta
Que acaba ainda...

segunda-feira, 30 de abril de 2007

GÁSTRICA

O agora absoluto abarca tudo
Desta barca ora sem fundo;
Estrutura, circunstância, o mundo
Todo junto

Num impulso redondo, bojudo
De engolir-te viva, comigo
Comido no mesmo bolo
Encorpado de saliva

Duma carícia infinda, extraída
Suada maresia, à deriva
Na noite desatada; e de dia

Nessa barca que abarcaria
A vida digerida, antiácida drogaria
Eu em ti acordaria...

domingo, 29 de abril de 2007

PLANALTO ABISSAL

Plana a verticalidade
Da possibilidade
De felicidade.

A verticalidade vertiginosa
Do que verdadeiramente importa
Do mundo lá fora

Interiorizo cerrado
Horizontalizada. Chapada
De eterna florada. Assim:

- O hálito vertical
dum abismo que se deita
talvez precocemente

numa espiral entorpecente

(algo impaciente
do cansaço economizado
de tão pouca visitação).

E então

- Qual dobrado precipício
vez colado a chão íntimo
precipite talvez cordas
que rotas lhe atravessem?

(e breves me levem
ao teu coração?...)

sábado, 28 de abril de 2007

DO DICIONÁRIO XVI

Abismo: vazio
Entupido de silêncios
Todos gritos.

FANTASIA

Os dedos
Digitando tuas costas

São os mesmos
Delicados anjos pequenos

Por quem oras
A vir ligeiros

Quando gozas

(em pensamento
emulando-os terceiros)

sábado, 14 de abril de 2007

ÀS AVESSAS

Ela, secretamente
Mente, aberta à mente
Quando nega, prontamente

(como aleivosia do presente)

A curva ascendente
Da luz tênue, travessa

Que nos atravessa
Reta, obliquamente
A longa via deserta

Àquela estrela à vista:

- Carícia das dobras das fímbrias
do seu leito de sombras compridas...

PASTORAL

Entre as sombras
Das poucas verdes
Folhas descendentes

Desta árvore antiga
Que se desdobra, amiga
E tortuosa, te abriga

Tuas sombras
(todas contundentes)
Confundem(-se)
(N)o presente.

sexta-feira, 13 de abril de 2007

Paraninfando II

(na formatura dos Cursos de Comunicação Social e de Ciências Contábeis do Centro Universitário de Brasília, ontem)

Cronometrei dois minutos e trinta segundos para esta fala; menos que o tempo de um político candidato a cargo eletivo, sem interrupção, num debate televisivo. Portanto, atenção!...

"Boa noite! Em primeiro lugar, gostaria de agradecer aos formandos desta noite pela oportunidade de estar aqui, na condição de seu paraninfo. Talvez seja esta a maior das honras para um professor que aprendeu a amar a sala de aula - representar seus colegas junto aos estudantes neste momento de júbilo e reconhecimento. Definitivamente, sou privilegiado por estar aqui representando os professores e professoras dos Cursos de Comunicação Social e de Ciências Contábeis do Centro Universitário de Brasília, professores e professoras tão competentes no desejo de ensinar quanto no que lhes cabe ensinar. Considero-me privilegiado porque sei das dificuldades enfrentadas pelo trabalho docente num mundo que parece negar, reiteradamente, a importância da verdadeira educação na formação de seres humanos integrais - seres críticos, capazes de pensar e agir com independência, e autônomos na medida em que reconhecem o caráter interdependente da vida social, ou seja, a responsabilidade de cada um para com todos nesta vida.

Nesse sentido, gostaria de aproveitar esta hora de celebração retribuindo um pouco do convite que me foi feito. Convido os formandos desta noite para uma pequena reflexão sobre um pequeno aspecto do papel da escola neste mundo em que vivemos. Dizem por aí que a escola mal prepara para a vida; que a escola, ingênua e idealista, na melhor das hipóteses teoricamente impraticável, ignora ou subestima as asperezas e as contradições do mundo real. Que ela, ao defender a possibilidade de um mundo melhor, termina despreparando seus estudantes para o mundo que está aí - o único lugar, afinal, no qual todos temos de sobreviver.

Como professor - melhor dizendo, como professor sobrevivente neste mundo real -, gostaria de sugerir a vocês a inversão desse argumento, inversão que resumo na seguinte tese: nunca, nunca como agora, este mundo em que vivemos tem precisado tanto da escola! Se quisermos um dia superar os males que nos afligem, que nos fazem desacreditar na possibilidade de uma vida bem vivida - isto é, uma vida próspera tanto material quanto eticamente -, teremos não de simplesmente levar este mundo que está aí para dentro da escola, como muitos defendem, mas sim de proceder metódica e persistentemente o contrário: trazer os valores da escola para este mundo; contaminá-lo daquele idealismo algo ingênuo, mas que hoje parece tão necessário.

Enfim, é o que venho aqui desejar, de coração, aos formandos desta noite. Até agora, vocês estiveram na escola; daqui em diante, carreguem a escola consigo, dentro de vocês, para dentro do mundo! Porque, cedo ou tarde, todos nós terminamos descobrindo, invariavelmente, que meramente sobreviver não é suficiente. Portanto, desejo que todos possam desejar uma vida plena, plenamente humana - a única vida que, verdadeiramente, vale a pena!...

Muito obrigado!"

quarta-feira, 11 de abril de 2007

CASERNA

O fim da tarde que arde
Subitamente fria
É a hora e a vez (sombrias)
Da tua cavalaria;

Soberba, consciente
Condecorada ricamente
De certeza variada, repassada
Continuamente;

Uma linha compacta defensiva
A desfilar garbosamente
Contida - frente

A um desejo inocente, assim
Como se espelho perfilasse
No gargarejo - enfim

Assistindo ao cortejo (de mim)...

terça-feira, 3 de abril de 2007

Mulher

Habita em mim uma dialética alma feminina, cheia de perguntas que nunca se encerram. Tenho dúvidas e certezas, choros contidos e sorrisos distribuídos. Não sei quantos sonhos invento ou quantos medos carrego. Sou vírgula, ponto final, reticências. Tenho entranhas que geraram vidas, fantasias que não aconteceram, cicatrizes abertas, desejos.

Meus olhos alcançam além do que permite a retina, os fatos chegam depois do que revela o meu sexto sentido, meu coração adoece a cada vez que me desencanto, e me despedaça, e me machuca. Sou a mão que bate, a voz rígida que ensina, mas sou o beijo que consola, que ameniza. E essa complexidade desgasta, corrói, violenta.

Mas há em mim força, coragem, mistério. Sirvo-me das máscaras que guardo para me transformar em tantas... Grito, choro, me arrependo, e depois consigo sorrir do meu próprio descontrole. Vivo ao extremo angústias e momentos bons. Carrego na face todos os sentimentos de uma só vez. E sei que sou feita de sensibilidade e contradições porque nasci mulher.

Ju

quarta-feira, 28 de março de 2007

RATO

Às vezes, gostaria de deixar um canto
Me observando.

O silêncio costurado num pano
Amordaçando, invisível

O ruído certeiro do tiro
(esburacando meu queijo suíço)

Fogo amigo.

sábado, 24 de março de 2007

SHEHERAZADE

Meus ouvidos roucos
De tanta escuta; de tanta
Palavra que desacostuma
O que de mim procura

A lua, pela rua larga
Da tua madrugada escura

Devoram, aos poucos

- Do cesto bem-disposto
que tua ousadia, contida
revira, conosco

As laranjas perfumadas
Que caem, silábicas
Dádivas, uma a uma
(úmida, pétala, regada)

Da tua boca
Abençoada...

sexta-feira, 23 de março de 2007

Novas tecnologias e possibilidades expressivas

artigo para o Esquina, jornal-laboratório

Somente há dois anos, na última edição do Fórum Social Mundial realizada em Porto Alegre, pude finalmente começar a perceber o alcance e profundidade dos múltiplos usos humanos das novas tecnologias. Após quase duas décadas envolvido com estudos sobre legislação e políticas de comunicação - regulamentação de mídias tradicionais e novas -, até então eu subestimava as perspectivas potencialmente revolucionárias da transição em curso: embora já reconhecesse o caráter estrutural de tais mudanças, em épocas de alegada desmobilização política a economia política por mim advogada tendia a absolutizar o que, das históricas desigualdades características de nossa sociedade, subsistiria na nova sociedade da informação. Não que a abordagem dos mecanismos de reprodução do poder dominante em novas condições não seja de importância fundamental; afinal, é da competência histórica do poder sua capacidade de bem reproduzir-se. Mas tal abordagem, se de fato histórica, tem de dar conta também dos aspectos insubordináveis das transformações sociais - aqueles elementos a princípio intratáveis que, uma vez fatores atuantes nas fissuras do real, abrem caminho para o (im)possível. Enfim, como indagou certo filósofo barbudo no século XIX, de que valeria compreender o mundo senão para transformá-lo?...

Assim, no turbilhão caleidoscópico de um evento extraordinário como aquele em Porto Alegre - o qual, diga-se de passagem, só se tornou possível com a mobilização dos novos movimentos sociais operando em rede -, meus olhos sofreram sua transição correspondente: ao invés de apenas procurarem o velho no novo, passaram a atentar cada vez mais para as particularidades do presente em rápida transformação.

Dali para cá, tenho procurado identificar nas novas tecnologias de comunicação - especialmente na Internet de incalculáveis implicações, conseqüências e possibilidades - as condições ditas materiais, objetivas, que permitiriam a um número crescente de seres humanos (segundo informações recentes, hoje ultrapassando um bilhão de indivíduos) reorganizarem, em graus variados e de diferentes maneiras, parte significativa de suas relações com o mundo; e ao longo desse processo, reciprocamente alterarem tais condições no sentido de uma superação acelerada, quantitativa e qualitativa, da velha ordem. Para além das discussões tornadas corriqueiras sobre a crise do jornalismo e seu impacto na formação dos novos profissionais - eixo temático do meu trabalho docente no UniCEUB -, gostaria de chamar atenção para um aspecto da transição menos discutido nas disciplinas que ministro: as novas tecnologias como veículos de possibilidades expressivas exponencialmente ampliadas, experimentadas integralmente como possibilidades comunicativas.

Aqui, refiro-me especificamente à expressão estética, cônscio de que, pelo menos desde Pierre Lévy, uma vasta literatura acadêmica e não-acadêmica tem se constituído sob a rubrica-tema da "cibercultura". À parte questões relacionadas à produção coletiva, arquitetura aberta, fim da autoria etc., neste rápido artigo desejo mencionar um tópico algo prosaico, que creio comum à maioria das pessoas, embora pouquíssimo valorizado: o novo alcance da dimensão íntima, afetiva, daquela expressão.

Por exemplo, no que respeita à expressão escrita, muitos de nós tentaram, em algum momento da vida, registrar impressões acerca tanto do que nos cerca quanto do que nos vai por dentro. Diários, poemas, comentários avulsos, diálogos íntimos freqüentemente tomados como infantis, pueris, costumavam ter antes o mesmo destino: o fundo da gaveta. Se dotados de qualidade literária - isto é, capazes de mobilizar afetivamente um número indeterminado de pessoas, entre outras implicações -, deles pouco se poderia saber, vez que, numa cultura onde o senso comum entendia o talento artístico como sobrenatural, os constrangimentos à divulgação eram consideráveis. Dessa forma, as aspirações de muitos a uma vida plenamente criativa encerravam-se prematuramente, assim como a perspectiva de interlocução em círculos afins e mais amplos.

E agora? Weblogs, sites, páginas pessoais decretam, segundo apocalípticos e integrados respectivamente, do fim da distinção entre o público e o privado ao florescimento de um cultivo ampliado da sensibilidade. O que antes não circulava encontra a oportunidade de se fazer conhecer muito além da experiência sensível, independentemente de instâncias (críticos, editoras etc.) sobre as quais a imensa maioria não tem controle. Se uma vez Jürgen Habermas definiu o século XVIII como "o século das cartas" - quando a explosão das correspondências pessoais deu partida à formação da esfera pública burguesa que posteriormente revolucionou o planeta -, o que amanhã dirão do século XXI, que se inicia com a promessa da expressão pessoal que enfim comunica - estética e afetivamente - de maneira irrestrita?

domingo, 18 de março de 2007

DOMINGUEIRA MENTAL

Um passeio ao passado acidentado dos temores
Adequado ao ocaso dos atores, de amores
Estirados de cansados desencontros
De sonhos oleosos de refregas

Dá-se por atalho forrado de cores
Que etéreas mitigaram dores
Colhidas flores - embora sabidas podres
Frutas fora de estação.

Um senão. Que nem corte tão íngreme
Nem por demais pedregoso
Comprometa um juízo
Este obtido penoso:

- Porque o bom retorno do retorno
faz-se adocicado dum acordo
estivado pelo tempo

(se da paixão, mau senhor
de mim não, por favor!...).

quarta-feira, 14 de março de 2007

sexta-feira, 9 de março de 2007

Estranha forma

Estranha essa minha forma de viver, que me faz pensar que estou condensando o tempo para resolver tudo depois. Na verdade, apenas deixo que ele passe matreiro e arraste consigo todas as chances, todas as oportunidades, todas as coerências e, quem sabe, para sempre.

Mais estranha é minha desambição de galgar caminhos que me não apontem apenas limites. Desejo estradas sortidas, condutoras, sedutoras. À frente, quero enxergar saídas e não bloqueios, flores e não apenas perfumes, sentir e não somente querer sentir.

Distante, vivo o inverso de tudo. Preparo-me para receber da vida o que ainda não lhe pedi. Espero o amanhã diferente, mesmo sabendo que nada virá. Sofro, antecipadamente, pela falta de tudo o que quero fazer porque sei que não o farei. E tenho saudade do tempo em que eu não era nada disso.

Ju

quarta-feira, 7 de março de 2007

TROIANA

Azuis e quentes
São os dias sem poentes
Que, pessoalmente
Assim, interiormente

Escondo em mim;
Contemporâneos doutras vezes
Alargados de repente
Tais buracos ascendentes

Consistem, gêiseres
Num presente à minha mente:

- Sem a noite que alterna
a caverna necessária
à malária descoberta
enfim; ainda que vera, ao fim

para além da vaporosa hera
desta bela, cálida quimera

a queda do trampolim...

domingo, 4 de março de 2007

CORPORAL

Freqüente, penso
Tomar-se todo movimento
A esmo no presente

(independente, mesmo
de intenção que o movimente)

Por outro, alheio
Ao que se passa no momento;

Desloca-se, penso
Continuamente entendimento

(no vácuo entre o rabo fugidio
e a certeza do cabelo em desalinho)

Pelo tempo dividido de maneira
A esquecer de si o ocorrido;

Daí, o que em mim contraditório
Divórcio num hiato remanesce

(o fracasso permanente, a ser
um transitório sempre dever
que se esquece)

Incendeia, geleira carcomida
(do calo ralado à cabeceira)

A mente cuspida inteira
(desmedida dos pés à cabeça)...

sábado, 3 de março de 2007

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

SAÍDA DE QUINTA

Os sinais
Percebo iguais - acesos
Atalhos para o entendimento.

E se tais vejo
Tua sombra discretamente
Remover um dedo - serena

Meia-presença
De minha mente

Acalmo os nervos
Pretensos - e sento
Algo confortado

Na ampla poltrona do tempo parado.

E cotejo - silenciado
Aquela possibilidade
Longe de medonha

(pois conforme a vontade
rarefeita da imobilidade)

De ser verdade apenas isto:
- Se só peso
pensamentos
e despeço
sentimentos

(e de pensar mais sinto
muito! querida)

inexisto
o que existia...

domingo, 25 de fevereiro de 2007

EXPOSTO

Acima da média
Esta agonia - sem trégua
Sem aproximada medida

Ou régua - sem escala
Que reflita a rua larga atravessada
Avenida, quase infinita

Que tua ausência infinitiva
Enseja, desmedida

(sem qualquer perspectiva
da enregelada madrugada
amanhecer apenas fria)

Excita

A fina arritmia
Que lâmina, me fatia

Transparente
(sem qualquer anestesia)

Imprudente
Rente à vida...

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

Jardinagem

... vou entrar numa biblioteca sem fim, escolher poltrona confortável, sob luz adequada, sentar e aguardar com meus botões a coisa maturar. Por ti. Enquanto transitar entre pausas e leituras, corredores e estantes, esperar que a natureza cumpra o seu percurso; que o tempo faça o seu trabalho com o espaço necessário. Se houver por perto mesa, caneta e agenda do ano que se inicia, melhor, pois assim não rabiscarei o livro da hora que finda; em páginas nuas, antecipando o frescor do que não há ainda, tentarei mapear o caminho até o limite da alegria infinita de te saber. Não importa se na dor, na ausência, na chuva - pois pressinto a existência de algo neste vácuo cinza entre os dias que me lembra semente. Muda. Jardim...

Por ti, não há o que não valha a pena cultivar.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

Cinzas

Quero de volta minha inocência, minhas crenças, a velha e boa mania de esperar pela melhor parte da história com a certeza de que chegará brevemente. Quero de novo acordar feliz, sem amargo na boca, sem me lembrar do que acabou de acontecer. Quero voltar a dormir.

Preciso sonhar com novos dias, viver novos amores, deixar que a vida se faça bela mais uma vez. Tenho cá dentro de mim um coração sofrido, castigado, quase inerte, que já não se ocupa em bater mais forte. E me ofusca. E despe dos meus olhos o brilho. E do meu sorriso, a lisura.

Os carnavais que outrora brinquei não se acabavam na quarta-feira e nada virava cinzas. Quero vestir, outra vez, fantasias. Quero sonhar, outra vez, todas as minhas eternas fantasias. Quero apagar da memória tudo o que aprendi nos últimos tempos. E voltar a ser feliz dentro do meu oportuno esquecimento.

Ju

DO DICIONÁRIO XIII

Retorno: pródiga
Revisita do amor
Por toda a vida.

domingo, 18 de fevereiro de 2007

Movimentos

Para correr mundo, construí asas. Colei-as nas costas, marcadas pelas cicatrizes de todas as quedas, mas já não havia ventos que me soprassem para tão longe. As asas apodreceram e caíram junto aos meus pés, que ainda suportavam o peso do corpo, do cansaço, da falta de ventos.

Se hoje sigo meu caminho correndo mundo em terra firme, não é somente pela ausência de asas. É por entender que os ventos jamais soprarão com a intensidade exata de que necessito. Mas meus pés haverão de acelerar os passos e me lançar mais longe; de me fazer demorar, se assim a vida pedir; e, quando for chegada a hora, interromper essa difícil caminhada.

Ju

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

Cidade dos sonhos

para mitigar a saudade da melhor cronista do mundo

Tenho amigos de infância que a vida se encarregou de deixar longe de mim. Venho do interior de Minas Gerais, de uma terra esquecida pelo tempo, onde o futuro ainda não aconteceu. Lá, meus amigos esperam por alguma coisa que nenhum deles sabe bem o que é, mas esperam. Indefinidamente.

Vim morar na capital do país e uma distância, muito mais que física, nos separou. Quando volto à minha cidadezinha, encontro-a exatamente como deixei. Os amigos também, quase iguais, não fosse o castigo dos anos. Para eles, vivo longe demais. Bem mais que os quatrocentos quilômetros marcados nas placas à beira da rodovia.

Para eles, moro na cidade dos sonhos. Chique. Os vizinhos que me dão bom dia são aqueles que os jornais exibem: deputados, senadores, ministros e o presidente da República. Acreditam que, por aqui, não vejo miséria: carros imponentes deslizam em asfaltos sem buracos nem lixos; o céu incomum é igualmente azul para todos; o verde abundante traz sempre a sensação de paz e conforto.

De certa forma, contribuo para manter a imagem que meus amigos formaram de Brasília. Quando vou até eles, levo fotos brilhantes que revelam o céu realmente azul, mas escondo que ele brilha menos para alguns. A arquitetura majestosa dissimula o contraste que eles não vêem. Melhor assim. Talvez o que aguardam seja exatamente isso: que os filhos ou netos cheguem até onde cheguei e testemunhem o futuro que eles só conseguiram ver pelas lentes da minha câmera.

Ju

11/07/06

domingo, 11 de fevereiro de 2007

DISTRAÇÃO ESPECULAR

Um silêncio uniforme de carteiro
(de agência interiorana de correio)
Embalando a vácuo o pensamento
No primeiro ar fresco da manhã

Atento o extravia ressentimento
Entre mim todavia e eu mesmo;
Por cedo encontrar-me ao relento
Na manhã do penúltimo aceno

À matéria obscura do universo:

- O que lá fora adentro
tenso imprime à hora
a definitiva pergunta

(na forma de verso
no verso da obra)

à infinita massa oriunda
de lama supostamente fecunda

perspectiva - a que indefinida perdura
(eternamente desconhecida)
outra coisa vivida.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

(SER)ESTANDO

recordação de um dia perfeito

Sentado sobre a linha divisória de um instante
Fitando o azul branco no arvoredo verde-escuro
Entre o passado inconcluso e o futuro lusco-fusco
Estanco o momento extasiado deste dia claro
Por um minuto:

- A mesa, a comida, a bebida
do garçom, a atenção recebida

(os teus pares de mãos
de olhares, de lábios)

(sem presságios)

- Não é tudo perfeito, querida?!...

02/03/02

domingo, 4 de fevereiro de 2007

IMPOSSÍVEL VAZANTE

Se pudesse agora, eu iria
Embora de mim; iria
Assim, sem demora
Num instante basculante
De desespero profundo, adiante
Fecundo, quem sabe?

Iria sem medo, a pretexto
De avançar, cérebro adentro
Uma fórmula de inversão do sentimento
Que bem sinto o mal perfeito:
- O sentido duma onipresença
num código que me ausenta - que não entendo.

[seguir afora
desta hora parada
que morta não passa

de mais ilusão naufragada no familiar
mar mediterrâneo do tudo vegetativo
(das algas todas afetivo)
raso e tentacular

inimigo: pântano cansado
de ser meu deserto aflitivo

(jardim ferido de promessas
desatentas das pedras
decerto a caminho)]

quarta-feira, 31 de janeiro de 2007

Da relação entre poesia, jornalismo e idiotia na contemporaneidade

Meseritscher, jornalista, saudado como 'o Homero de nossos tempos'

"Sem entrar na sutil distinção entre idiotas e cretinos, deve-se recordar que um idiota de certa gradação já não consegue formar o conceito de 'pais', enquanto a idéia de 'pai e mãe' é bastante corriqueira para ele. Esse simples e conetivo 'e' era o elo com que Meseritscher ligava os fenômenos da sociedade. Deve-se lembrar também que idiotas, na simples concretude de seu pensamento, possuem algo que segundo a experiência de todos os observadores fala misteriosamente à alma; e que poetas também falam especialmente à alma, até de maneira bastante parecida, pois devem se destacar por uma mentalidade o mais possível palpável. Portanto, se Friedel Feuermaul tratava Meseritscher como poeta, poderia do mesmo modo - quer dizer, pelas mesmas sensações que tinha obscuramente, o que nele significava: com súbita iluminação - tratá-lo como a um idiota, e de maneira significativa para a humanidade. Pois o que há em comum aí é um estado de espírito que não é sustentado por amplos conceitos, nem purificado por distinções e abstrações, um estado de espírito da mais baixa estruturação, manifesto na limitação àquela mais simples das conjunções, o 'e' que vai ligando tudo desamparadamente, que substitui, no fraco de espírito, relações mais complexas; e pode-se afirmar que também o mundo, sem falar em todo o espírito nele contido, se encontra num estado de imbecilidade semelhante ao aqui descrito, e não se pode evitar isso, se quisermos entender como um todo os fatos nele ocorridos."

Robert Musil, O homem sem qualidades. Tradução de Lya Luft e Carlos Abbenseth. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, pp. 1069-1070.

domingo, 28 de janeiro de 2007

METAFÍSICA NO BOTEQUIM

Mas nem sempre, do tempo ainda
Nublado; da porta afora, ao lado
Acima e abaixo, numa entrelinha
Vizinha; à sombra, à revelia
(por ora)
Da sinestésica toca

Celebro vivas
Alcoolizadas, tão minhas
Às mentais alamedas floridas

Impregnadas daquela espessura
Que perfumada asfixia - anestésica
Tijolada pouco aguardada, ou dura

Demais; vez que teimo, otimista
(no hiato entre o copo e o hálito)
Um fiapo daquela expectativa
De encontrar-me, a tal vida

Num guardanapo ordinário - qualquer dia

No qual perceba que exista
A perfeita identidade das coisas
Virando tranqüilas esquinas

(grão entre grãos moídos
pela eternidade / alma das covas
nesta terra corpórea / teatro
de operações não raro
auspiciosas)

sábado, 27 de janeiro de 2007

A ilusão do outro

"... as grandes paixões desenfreadas ligam-se ... ao fato de que o ser humano imagina que seu mais secreto eu o espreita atrás das cortinas dos olhos alheios."

Robert Musil, O homem sem qualidades. Tradução de Lya Luft e Carlos Abbenseth. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, p. 953.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

AMEBA

O nada
Aleatoriamente nada
Na vasta emulsão hidrogenada

Que mediatamente transparece
Outras oleosas pequenices
Em viscosa sensação.

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

VIDA AQUÁTICA

Há, transparente
Uma parede
(silêncio de vidro)

A visão, o sentido
Parcialmente exercido
(fragmento ordenado
da coisa existindo)

O expresso ingerido
À pressa (a nado)
Por nada, adocico:

- Vez prevista
(aquário, peixes)
a manhã-piscina
(líquida e certa)

liquida comigo

(embaça a leitura
que me acontece)

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

CREPUSCULAR

O ar úmido, quente
Vindo luar do outro
Lado diário do rosto
No espelho, dormente

Reacende a memória
Do corpo; e conota
(decerto escrupulosa)
Dedo indecente de prosa

Consigo somente
Acerca de outros
(noutras mentes)

Corpos remotos
Num cuidado recente
Frente ao estio

(pressentido negrume
breve definitivo)

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

Argumentum ornithologicum

de Jorge Luis Borges, contido num e-mail a mim enviado anos atrás

"Fecho os olhos e vejo uma revoada de pássaros. A visão dura um segundo ou talvez menos; não sei quantos pássaros vi. Era definido ou indefinido o seu número? O problema intercala o da existência de Deus. Se Deus existe, o número é definido, porque Deus sabe quantos pássaros vi. Se Deus não existe, o número é indefinido, porque ninguém pôde fazer a conta. Nesse caso, vi menos de dez pássaros (digamos) e mais de um, contudo não vi nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três ou dois pássaros. Vi um número entre dez e um, que não é nove, oito, sete, seis, cinco, etc. Esse número inteiro é inconcebível; ergo, Deus existe."

quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

REEDUCAÇÃO ALIMENTAR

Fecharam-se cedo portões
Aos sentidos; por todos idos
Vãos desejos de caminhos
Precisos de felicidade

Aborto a mais tola vontade
De toda devorar-te:
- Dos beijos aos refrescos
(ante a próxima tempestade)

por rios caudalosos
entre diques cautelosos
(as margens calculadas)

Cuidadoso ao volante
Navegante em espírito
Doravante inteiriço

Fronteiriço o bastante:
- Dos apetites, a princípio
de incêndios, o cinzeiro...

(para não mais ter
de cedo despender
essa energia; sofrer
ainda outro dia
breve desta vida
contigo a ponderar)

quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

terça-feira, 9 de janeiro de 2007

ESPARSA

Um mar envidraçado
Trinca de repente; e cinza
Ex-aquário reluzente

Despenca peixes

Aos pedaços

Sobre a gente

E os carros
(e carroças e escarros)
Da Capital da República.

Da náufraga, suja correria
Sob o sobretudo escuro
(levemente curvo)
Que veste janeiro deste clima

Resulto esquina; caótica
Oficina, paralítica alegoria
Do tráfego que predomina.

sábado, 6 de janeiro de 2007

CONSELHO PARA O VERÃO

Apreciem
Com moderação
A beleza fria
(em plena estação)

Da fina hipocrisia
(no rótulo verão!)
Da cerveja esguia...

(delícia!...)

sexta-feira, 5 de janeiro de 2007

VIZINHO

Esse ruído moído
[gralha metálica sobre a madeira áspera]
Que cedo tanto faz maltrata
Quantos forem nervos do ouvido

Quando cedo rasga aquela vista interior
(perspectiva da noite quietamente escura
amanhecida grande angular de idílica presença)

Felizmente logo dá-se por
Insatisfeito.

(como se cônscio vulcano
fosse, do apolíneo
desencanto da vígília)

quinta-feira, 4 de janeiro de 2007

A justa medida

"Entre um abismo de céu sobre a cabeça e um abismo de céu maldisfarçado sob os pés, somos capazes de nos sentir tão absolutamente tranqüilos na terra como num quarto fechado. Sabemos que a vida se perde igualmente nas desumanas vastidões do espaço e na desumana estreiteza dos átomos, mas, no meio disso, tratamos uma camada de formações como as coisas do mundo, sem nos deixarmos minimamente incomodar pelo fato de que não passam de uma preferência por impressões que captamos de uma certa distância média. Essa atitude está muito aquém de nosso entendimento, mas exatamente isso prova a força com que nossa emoção interfere. E com efeito, os mais importantes dispositivos intelectuais da humanidade servem à manutenção de um estado de espírito estável, e todas as emoções, todas as paixões do mundo, nada são diante do esforço gigantesco mas totalmente inconsciente despendido pela humanidade para manter sua soberba serenidade. Aparentemente, nem vale a pena falar disso, tão impecável é seu funcionamento. Mas, olhando melhor, é um estado de consciência altamente artificial, que permite ao homem andar ereto entre o giro dos astros, e enfiar dignamente a mão entre o segundo e terceiro botões do casaco, em meio a esse desconhecimento praticamente infinito do mundo."

Robert Musil, O homem sem qualidades. Tradução de Lya Luft e Carlos Abbenseth. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, pp. 561-562.

PERFEITO

O melhor amor do mundo
(do perfeito intento
nesta terra de extremos)

Não consegue esquecer
Deste esforço supremo
(pero no mucho)

O que acabei de lhe dizer
(em pensamento):

- Inexplicável a alegria
da dor que caminha
junto ao ausente
presente de rever-te...

quarta-feira, 3 de janeiro de 2007

DO DICIONÁRIO X

Ela: a viva
Quiçá bela
Outra vida.

Eu: sinto
Logo existo
Em exílio.

Nós: a arte
De desatá-los
Barcos.

terça-feira, 2 de janeiro de 2007

DOS ELEITOS

Por que assim tolos
São aqui aqueles
Sôfregos de poderes
Em sociedade

Se logo ali jogos
Perderemos
Trôpegos os prazeres
Da mocidade

E enfim de todos
Descansaremos
Espertos, néscios - entre dizeres
De fôlego derradeiro

No Jardim
Da Saudade?...

segunda-feira, 1 de janeiro de 2007

O maior desejo

... que seja esta a última vez que entro o ano sem o brilho amoroso dos teus olhos, o teu abraço macio, a tua palavra de estímulo - sem o beijo que roubo da fenda eterna do teu sorriso. Que das próximas vezes - todas as vezes, até que não mais seja - o destino me conceda o privilégio da tua presença a iluminar as passagens, todo o caminho: a viagem de viver neste mundo fazendo sentido.

domingo, 31 de dezembro de 2006

POR BRASÍLIA

Todos meus sonhos
De andarilho;
As muitas coisas
Que mal consigo
(diretrizes, objetivos
planos no infinito)

Gestei a caminho
(espremido entre a branca lua
explodindo sobre a branca rua)
Do reflexo labirinto:

- A cidade quebra-cabeça
numa tarde de domingo.

sábado, 30 de dezembro de 2006

Encruzilhada

A desordem dos acontecimentos entortou meus caminhos. Hoje estou numa encruzilhada. Dela vejo tantas estradas que já não posso escolher a minha. O medo de abrir mão da melhor faz com que meus passos sigam mais lentos, mais atentos, menos vorazes.

Já não me conduzo com a pressa que me trouxe até aqui porque é ela a razão do desassossego dos meus dias. Na ânsia de não me perder, percorri trilhas sem olhar para os lados e sem cuidar do que existia à margem delas. Não pisei nas flores, mas saltei sobre elas sem lhes sentir o cheiro e sem lhes perceber a cor.

De agora em diante, vou quebrar o retrovisor e fazer do coração o meu guia. Que ele imponha meu compasso! Não desejo colher todas as flores, mas quero apurar os sentidos para tirar delas a inspiração que preciso para recomeçar diferente.

Ju

MARINHA

O que evocas
Das focas
No extremo sul do mundo

A partir das docas
Ruidosas
No vaivém de tudo

Basta agora
(marujo)
Ao que me vem do fundo.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

ANTES DE VIRES

Onde estive
Anteontem?

Naquele tempo
De estranhamento
À flor da pele?

De paisagens
As tais miragens
Comigo à margem?

E de estios
À foz dos rios
Desentendido?...

O que de mim
Eterno esteve
Tão breve?

(agora que
encontra-se
tão leve?)

[quem souber
desavise]

terça-feira, 26 de dezembro de 2006

LIKE A STEADY ROLLING STONE

ao renitente Sísifo interior

Amanhã, sei que amanhecerei
Assim; sei, não estarei mais
Tão tranqüilo encruzilhado
Atracado em qualquer cais:

- Pendurando vácuos num varal de cenários
azuis tipicamente emoldurados
(senões estrangulando opções
as mãos gentilmente atadas).

A cimentar incertezas previsíveis
(estáveis as conclusões indizíveis)
Sei que não mais acidentarei

Inerte: rolarei o precipício
Do desnecessário sacrifício
De subir a escadaria comigo.

sábado, 23 de dezembro de 2006

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

Momento

O muro é muito alto e me traz insegurança. A queda promete ser grande, tenho medo das conseqüências. A escuridão à frente ameaça e me faz recuar um pouco.

Somado a tudo isso, não conheço nada do que está por vir. Recolho-me, então, no meu mundo e deixo em aberto todas as possibilidades futuras para quando eu acreditar mais no coração do homem.

Ju

O TERCEIRO PASSO

Meneio gracioso de dois dedos sinuosos
A mecha desatada por trás do teu ouvido
Desata outro dedo de atenção ao que digo:

- Cuide as palavras, ó Belmiro
cuide as palavras!...

(que dos lábios brote uma lavra
de vocábulos do amor bendito)

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

DO INESGOTÁVEL PODER DE QUERER-SE

Na tua tristeza de agora
(de árvore abatida descaminho)
Me situo; e solidarizo
Embora criatura doutro abismo

Mas transpiro, de todo jeito
Um desejo novo, e caseiro
De fazer a hora primeiro
Contigo; e logo a segunda

Conosco noutro caminho:
- Por entradas recém-picadas
todas conversíveis em estradas

(todavia, entre os movimentos
nenhuma algaravia; só silêncios
todos conversíveis em momentos)

terça-feira, 19 de dezembro de 2006

FRESTA

Que fátua visão silenciosa
A minha, extração distraída
(gráfica - embora tímida)
Dos meandros da memória:

- A curva linda dos teus ombros
de macia morenice, onde corvos
pousam negros teus cabelos; moldura
da suave meninice dos meus dedos
onde beijos bordam enlevos
tecedura sem pintura...

(embora vazada de brilhos
faróis a porem nos trilhos
este herói de ti recente, que pressente
sua hora encantada de príncipe chegar)

domingo, 17 de dezembro de 2006

sábado, 16 de dezembro de 2006

INCONDICIONAL

(não estás só
não estás só
não te deixarei só
cuidar-te-ei
darei
serei-te
eu somente...)

Um mantra martela um cérebro

[divisor/discriminador
analítico/sintético
ponderado/hesitante
(covarde num instante)
suscetível/maleável/mutável

funcionalmente hermético
moderadamente confiável]

Vindo do coração.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

MELHOR ASSIM

Um poema.
Pediste um poema
Nesta hora suprema:

- Da dor incontornável da perda
do que nunca se tem de verdade;

- Da saúde que se avizinha doença
no vácuo anterior à saudade;

- Do amor desenganado de véspera
que se colorido for novidade...

Um poema.
Pediste um poema
Nesta hora extrema:

[uma vez poema ruim]

- Melhor convidar tua beleza
(incontornável)
ir adornar qualquer mesa
(que se avizinhe amigável)
do mais próximo bar
(novidade!...)

Brindarei contigo a tudo que sobrevive.

Despedida

Fiz minhas malas. Guardei nelas o que cabia e joguei fora o resto. Não vou precisar desse excesso. Limpei as gavetas para não lhe deixar nada sujo. Limpei a garganta para manter a voz na nossa despedida. Ensaiei uma breve fala no espelho, avaliei minha postura e aprovei. Estava pronta para não chorar.

Com meu olhar derradeiro, gravei na memória todos os detalhes da casa. Cada um com sua história. Vivi uma década em cinco minutos. Envelheci outra década nos mesmos cinco minutos. Engoli a sensação de fracasso e perda para dar espaço à esperança de não ter que me retirar mais uma outra vez.

Encontrei seus olhos parados, fixos, aguardando. Eles traziam toda coragem que me faltava naquela hora. Não me lembrei de nada do que havia repetido tantas vezes para dizer a você. As malas pesavam e as deixei no chão. A cabeça pesava e a senti rodar. Saí sem olhar para trás, para não ter que dizer adeus à minha própria história.

Ju

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

SEMPRE SEI, MEU BEM

Eu sei
Quando rondas
Teu desejo

Quando vagas pensamentos
Aos pedaços noite adentro

(por frios caminhos
percorrido o silêncio)

Sei
Quando sonhas
O teu medo

Quando rufas tambores
Vários, parcos amores
Em opacas vitrines
Coloridas as fachadas

(quando fazes qualquer coisa
que te evite, imensa si mesma
que te oprime
colorida fachada...)

Sempre sei
Porque cá estive

(no teu lugar)

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

domingo, 10 de dezembro de 2006

THE LOCKED GATE I HAVEN'T SEEN

A linha logo adiante
partindo distante o espelho

(da aurora)

naquilo que morde agora
aquilo que escorre dentro

risca do momentâneo
quadro-negro
a possibilidade tão nossa

(tão tua)

do acolhimento.

sábado, 9 de dezembro de 2006

DEZEMBRO

Pendente, um sol pesa às costas
Viradas à úmida claridade;
Inclemente nas andanças, cozinha
No asfalto uns miolos da cidade.

Um sol-pivô ao meio-dia
Babel derrete a perder de vista:
- Desamarrota uns horizontes
sitiando azuis esta ilha.

Se leve a noite, ocasional
Madruga um reflexo sol
Passeando veleidades:

- Luz-de-vela celestial
traz à mesa, o pálido farol
um hálito de pomares.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

DO DICIONÁRIO V

Sonho: tão verdade
Cristalina quão negado
Na vigília.

Rendição

E então você me aparece, me abre braços e sorrisos, e diz que eu sou a dona do brilho dos seus olhos. E quer me convencer que seus melhores momentos são as nossas horas, que ninguém jamais o levou tão alto.

E eu, que andava disposta a deixar de lado a fantasia de me entender sua, que ensaiava discursos para sufocar suas triunfantes tentativas, me vi desabada, sem forças, sem razão.

Esqueci-me, então, das falas ensaiadas e me rendi à insensatez de nada calcular. Guardei a balança para não ver o peso da sua sedução. E agora, dos seus braços, nada vejo além de você e de mim, além de você em mim.

O mundo cinge nossa cama a cada vez que percebo que você me basta.

Ju

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

Comprovação

Inspirei-me nas doces palavras que ouvi de você e preparei o mais lindo dos textos. Pincelei meu discurso com o mel que suguei da sua boca, há pouco. Dei-lhe formato, cor e vida e lhe dediquei também um dono.

Mas vou guardar nossos momentos na minha memória e meu belo texto nos meus arquivos sem publicação. Tantas poesias, crônicas e sonetos, que se chocam... Difícil lidar com um coração tão grande!

Ju

domingo, 3 de dezembro de 2006

PROVAÇÃO

Silêncio. Ar condicionado.
O ruído do meu olho adensado
(errando certeiro a tua procura)
Corta estreito o espaço.

E afinal encontra, franzida
A tua atenção, constrangida
Num canto pensativo de sala
Ecoando distante dali:

- Da mão que gesticula, alada
quereres à larga entre deveres
tardiamente (do braço) desatada;

- Da boca cerrada nos dizeres
que contradizem tais quereres
porque deveres - de casa...

quarta-feira, 29 de novembro de 2006

Viagem

O pensamento voa por caminhos distantes, à minha revelia, nas minhas horas à toa. Ele me conduz, muda e serena, a lugares desconhecidos. Do outro lado, ouço você, que me chama em silêncio. Sem pressa nem urgência, me aproximo para sentir o calor do seu corpo e o toque dos seus dedos.

Vejo-me sempre encenando roteiros que a minha fantasia escreveu. Não existem regras, contra-regras, começo nem fim. Não há público, não há vaias, ninguém aplaude ou pede bis. Mas eu estou lá. Você também. É o bastante.

Se o toque do telefone vem adiar o desfecho, recobro-me do susto e retomo as rédeas da vida real. Se fico triste? Não. Junto os pedaços do meu sonho dilacerado, colo com a umidade que ele mesmo me provoca e levo até você. Agora de verdade. Algo me diz que você assistiu a tudo e me espera.

Ju

DO DICIONÁRIO IV

Espera: sincera
Disposição de trair
O tempo.

domingo, 26 de novembro de 2006

COMA INDUZIDO

Te quero tanto
Há tanto

Que embora espanto
Com o quanto

Finjo entretanto
Que espero.

sábado, 25 de novembro de 2006

quarta-feira, 22 de novembro de 2006

Tentativas

Tentei ficar distante, longe de você, para entender nosso caso. Pensei encontrar na sua ausência o sentido de querer tanto estar ao seu lado. Afastei-me, embora sempre colada nos seus passos, nos seus dias sem mim, nos dias em que buscou outros caminhos só para se esquecer de nós.

Tentei. Juro que tentei. Dormi horas de sono a mais nas minhas noites frias para não me perceber sozinha, mas as manhãs chegavam para denunciar meu abandono. Fiz dessas mesmas manhãs tentativas de nascer de novo a cada dia, só que você estava nos meus pensamentos a cada vez que o sol aparecia lá fora.

Tentei amá-lo um pouco menos; não consegui. Lutei para ser feliz longe da sua cama; não pude. Quis me esquecer do seu cheiro, mas ele ficou no meu corpo, assim como seu suor, como as marcas dos seus dedos, como o seu prazer. Hoje jogo a toalha. Perdi em todas as tentativas. Vencida, aqui estou eu, de novo. Não quero tentar mais nada.

Ju

MESMO FILME

- Fingida decerto
a desatenção que encanta
meu lábio mordido
em desalinho

pois dali o drama
do destino em aberto
não mais consigo

(levar a sério)

terça-feira, 21 de novembro de 2006

segunda-feira, 20 de novembro de 2006

DIALÉTICA DA UMIDADE

Cerveja num dia chuvoso
De vento frio no rosto
Possibilita, tão-somente
A aproximação da bruma
Na mesa em frente:

- E a percepção indiferente
de cunha apartando a gente
deste cinza-cigarro
pigarreado chuva.

domingo, 19 de novembro de 2006

COMEÇO DO FIM DE QUALQUER PRETENSÃO POÉTICA

(o porquê de bem cuidar do físico que mal registrar o anímico)

[não tenho mais vontade de escrever num silêncio amolecido de quem mal exercitava os sentidos e acabava encerrado num labirinto-com-labirintite e dores nos pés, nas costas, nos olhos desfocados borrando tudo (borrei o teu rosto da memória, meu bem!) - daí, que pensamentos, que sentimentos!...]

Adventício és, nublado horizonte
Claramente espírito nesta límpida apreensão
Ao alcance da mão trêmula:
- Flâmula ilusão, olímpica onipotência!

(embora senil onisciência
que não tardará tanto quanto pensa)

E passando asfalto, embaixo, o Eixão
Dos passos bissextos de atleta acavalado
Correndo urgente do destino geriátrico:
- De onde o medo, em qual enredo?

Os músculos, esqueço-os atrofiados
Na imaginação; se travam, recalcados
É da cristal disposição desta euforia
Anestesiada das vergonhas:
- Das peçonhas da idade...

(otimismo naturalmente dopado
por todas endorfinas do universo
disponíveis nas veias da cidade)

Se desentupo artérias, prometo férias
A tudo em mim que rui ruidosamente
Da gravidade em frenética atividade:
- Dores seculares cheias de vontades
na enfermaria encalacrada da razão.

(mas que não deterão esta quieta promessa
da decadência adiada em lenta queda
de flores sempre frescas sobre a tumba!)

[ah, que pensamentos, sentimentos
me acometem assim físico, o caldo bioquímico
desse humano sacrifício dominical!...]

sexta-feira, 17 de novembro de 2006

SOBRE A UTILIDADE DE TUDO ISSO

Se me lembro
De preencher o tempo
Com palavras:
- Concateno-as (enganadas)
na desordem do pensamento

(...)

E quando esqueço
Delas arrumadas desse jeito
Percebo enfim:
- Nada preciso de mim
se desconheço.

quarta-feira, 15 de novembro de 2006

Um ano

Passado um ano, é hora de fazer o levantamento. Começo o balanço e descubro que nada mudou. Seus olhos ainda dizem tudo no meio do nada. Seu toque ainda queima, arde e provoca. Você continua desnorteando meus caminhos e eu ainda sigo seus rastros, em busca das emoções que me uniram a você.

Ontem mesmo passei em frente à Adega. Aquela que nos serviu de palco quando nossa história procurava um cenário. Nela estreamos como protagonistas do melhor amor do mundo. Nela quero voltar para brindar com você o nosso primeiro ano.

Beba do vinho com a mesma sede. Crave-me os olhos com a mesma fome. Diga baixinho as coisas que só você sabe dizer e deixe que tudo continue como está, porque há um ano, ao seu lado, tornei-me muito melhor do que eu era...

Ju

domingo, 12 de novembro de 2006

Das artes que adivinham

(nota para o Café da Manhã, promissor jornal estudantil)

Astrologia. Tarô. I-Ching. Jogo de búzios, runas, numerologia. Borra de café turco. Tentativas de apreender o quase inapreensível - o que significa tratar-se de puro desejo, antever a fim de antecipar-se, corrigir antes de errar. Controlar o de outra maneira inteiramente humano.

Artes divinatórias nada têm a ver com ciência; nelas não se aplicam os processos típicos de validação, e a questão da confiabilidade é de outra natureza. O que a divinação encerra diz respeito ao território velado, semi-oculto do pressentimento; o que ela enseja (se devidamente compreendida e utilizada) é o acesso da consciência desarmada ao abismo interior - às várias ante-salas do que por dentro nos leva a tudo mais que existe. Não há nada nas cartas do Tarô que você, de alguma forma, já não saiba.

Aqui, cabe uma heresia: a rigor, não há distinção entre "boa" e "má" astrologia; horóscopos de jornal podem ser tão 'válidos' quanto os melhores trabalhos de Liz Greene (uma das minhas favoritas). Segue o porquê: se acreditarmos que o universo é uma totalidade estruturada operando segundo uma lógica a princípio identificável - isto é, que sempre há sentido nos fluxos e movimentos de suas partes constitutivas, percebidas como interrelacionadas direta e indiretamente em todos os níveis imagináveis e inimagináveis -, então a questão de se ler 'adequadamente' a realidade se reduz a um exercício de sensibilidade. Dado o caráter polissêmico de qualquer representação - seja fidedigna ou enganosa, até mentirosa -, o seu sentido - seja primeiro, intencional, fortuito, circunstancial ou derradeiro - dependerá do sujeito que percebe o que lhe apetece de si, dos outros, do tempo e do espaço.

Assim, se tudo tem sentido, isso necessariamente inclui quaisquer leituras para o bom leitor - no nosso caso, do presente que se adivinha prenhe de possibilidades...