segunda-feira, 17 de setembro de 2012

CAUTELA DE CANJA

a Orígenes Lessa
(acrescente, bem cozida, a vagem do feijoeiro)

Quando tudo é perfeito
quando tudo é risonho

- o emprego da tua vida
justo dobrou quantias;

- a mulher da tua vida
justo dobrou a esquina;

- a vista da tua vida
justo dobrou gratuita

retira outro proveito
dos proveitos da ocasião:

- tempera-os (teus sonhos)
com tempero de feijão...

(tudo bem perto do chão)

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

TEVÊ

à minha mãe
a George Gerbner

Televisivo, o lixo
se lixa pro recinto:

- entranha teus sentidos
até apodrecidos;

estranha teus vizinhos
ao veres inimigos;

estraga teus domingos
até segunda a pino...

(teus olhos, teus ouvidos)
[teus modos, teus caprichos]

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

PAIXÕES DE RAZÕES

similaridades

As gotas do momento
pingam o seu ritmo

nem lento, nem ligeiro
ordenado e finito

como é um pensamento
pensado algoritmo:

- certo procedimento
de certo regramento

com certo objetivo
que é exatamente isso...

***

As gotas do momento
pingam o teu ritmo

nem lento, nem ligeiro
acamado (do viço)

como é um sentimento
passado os particípios:

- certo procedimento
(certeiro o encantamento)

com certo objetivo
que é plenamente isso...

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

CAATINGA

O deserto
(de não vê-la)
que atravesso

me resseca
a consciência
tão severa

[de um hábito
dos seus lábios]

quanto inteira

(por não tê-la).

OPACO

bloqueio criativo

Embotado
pouco faço
(ou desfaço)

das palavras

sem auxílios
interiores
que me digam

quais as cores
(corredores)

que despintam
exteriores

nos exílios...

domingo, 9 de setembro de 2012

DO INÍCIO

Enclausurados
amanhecemos
quase entranhados
nos tantos mimos

ensimesmados;
talvez surpresos
(quase estranhados)
de quão carinhos

novos, antigos
(re)costurados
(re)conhecemos

nesses cuidados
cedo colhidos
do sempre fresco

amor do início...

sábado, 8 de setembro de 2012

VAZIO

Os minutos que não passam agitados
passarinhos no arvoredo dos sentidos

são o tempo que me desloca do espaço
(o tempo que me descola repassado)

sem correias que o amarrem de sentido...

ANIMAL

... a particularidade dela

(uma especificidade velha
enquanto quieto vegeto à sombra):

- a tal paz mineral lhe atravessa...

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

AFTER DRINKING

Ímpar, furtiva
quão ordinária;

da madrugada
tão lentamente

imperativa;

claramente
a imperatriz
[a bendita

meretriz]

do dia...

A luz do amanhecer
(às seis e quinze)

vem e acaricia
(com mão firme)

esta vontade de remanescer

... rijo:

- estátua
alongada

[olímpica]

esparramado
pela calçada...

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

CELSIUS

No pico da tarde branca
o calor repisa a dança

dos mil pares acrescidos
de neurônios derretidos

que cem vezes convidados
a operarem seus contatos

circuitados encurtaram
palavreado meu de passos...

E assim pouco se escreve
(nada ao menos que preste)...

***

[mas se o ardor desse clima
não fosse autor todavia

verão qualquer haveria
no verso de um par de vidas?...]

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

PINGENTE II

Espero

(a hora)

[seguro
de guardá
-la puro]

(embora)

[machuque
aguardar
-te chuva]

me molhar...

PINGENTE

Espero

(segundo
o que vai
no peito)

[teu tempo
operar
primeiro]

somente...

domingo, 2 de setembro de 2012

A VER

Edulcorante

narcotizante

edificante

periclitante...

Falho determinar
o que houveste de amar

(e amei sem terminar)

ontem na noite
(do ar sem pernoite)

tão longe do mar...

PARTIDO FALSO

Gralha-azul
ou pinheiro?

Pássaro
ou poleiro?

Segundo
o primeiro?

Antes penso que posso estar
sob o céu de qualquer lugar;

depois sinto que posso ser
o que for apto a manter...

(pois o passo derradeiro
raramente é verdadeiro)

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

SOFÁ DE LUXO

a Carolina (que despediu esta crítica)

... então aquela amiga, de si compadecida
refeita sofá a couro, seu bordado a ouro
saiu-se bem - e como ninguém performativa
eis o que nos repassa qual receita de bolo:

1. Sê compassiva
mais tolerante
face o impudente
- mas com a faca nos dentes;

2. Dê-lhe guarida
o mais radiante
quanto imprudente
- mas com a faca nos dentes;

3. Abra a folia
a mais dançante
(o mate quente)
- lembre a faca nos dentes;

4. Feche a cortina
jamais falante
discretamente
- sempre a faca nos dentes...

Enfim, sê sofá - e já
vez que tudo tem seu fim:
- teus sonhos não sepulte, mas do teu sono cuide
assentando catapultas para tuas pulgas...

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

EQUIDISTANTE

Acordo, durmo
(e acordo e durmo...).

O resto, ocupo

com parca consciência da intimidade das estrelas...

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

MÍNIMO

Quero ir
a nenhum lugar.

Parar
de porvir

(de sentir
passar).

Cessar
de (se) iludir

por compensar
sem repartir

e atribular
que dirimir;

de especular
haraquiris...

Até lograr

(intuir)

meu nadir

molecular.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

DO BLOG

Na correria

concedo ao vício
(o vitalício)

quatro sílabas:

- volto logo!...

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

AS OPERAÇÕES

numa perspectiva ingênua e necessária

Da cultura de ter

quero somar
(pra dividir)

multiplicar
(sem diluir)

subtrair
(se precisar).

A esta altura de estar
quero ver se alguém há

que aperceba
(sob a barba

por trás dos óculos
debaixo do boné)

- no invólucro, a soleira
à espreita do que seja...

DA CORTE

seu sentido

Ir devagar
(cavalheiro)

devo poder
quando dever
(seu primeiro):

- quando em si a circunstância
delicada solicitar.

Contudo, à intenção
cabe a concordância:

- ao sinalizar
de antemão, clara
e suavemente

(de onde, para
se fino estou)

sempre...

domingo, 26 de agosto de 2012

ALTEREGO A PASSEIO

Se passo por ali ainda

(do carro descendo, solícito
bem acompanhado desse hábito)

e à mesa sustenta, consigo

o mesmo olhar à paisagem costumeira
da mesma aragem tipicamente seca

é porque esta familiaridade
com aquela parte da cidade

o permite
sem alarde...

sábado, 25 de agosto de 2012

PELO TUBO

Eu sem tempo:

- ocupado
(tô sem tempo)
com trabalho
(tô sem tempo)
nesse estado
(tô sem tempo)
agitado
(tô sem tempo)
do cansaço
(tô sem tempo)
irritado
(tô sem tempo)
a um passo
(por enquanto)
de atacado
(tô sem tempo)...

Entretanto
espremendo
(entre tantas
sobrevindo)
no intervalo
rarefeito

mais palavras
- menoscabas
de caroço
suculento

pelo cano
espartano
do momento
rotineiro

sobrevivo.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

'TANO QUENTE É TUDO GENTE'

"tamo aí pra esfriar" (o avô de K., segundo eu)

Então será por isso
que o frio antes do frio
(de finalmente ido)

desse vento cíclico
(entardecido alísio)

perfura tanto a gente

porque ainda querentes
nosotros tan calientes?...

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

MULHER

Por baixo dos modos elegantes
- tecido vestido doravante

ainda a rubra anágua - fornalha
de mais emoções protuberantes...

terça-feira, 21 de agosto de 2012

DAS MEDIAÇÕES DO OFÍCIO

síntese do contra

Lido - o que significa?
Seu impacto na vida

do autor, do leitor - da escrita?

Nada, nada deveria
ferir o que foi um dia

do contador melhor lida:
- da estória, prerrogativa...

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

PROMESSA DO DIA

Há uma voz específica
em meio à multidão ruída

de tão particular timbre
(que parece me distingue)

à qual atenção dedico
(escutando com o ouvido)

[não coração nem fígado]

por enquanto... (presumindo...)

ROUPA SUJA

"molho longo" - diz a máquina de lavar
mas a vida é curta - como conciliar?

Tanto o que limpar, esclarecer, concluir
(notar por merecer, corrigir e dispor)

antes do enfim todo horizontal a quarar...

domingo, 19 de agosto de 2012

OCUPADO

"Só o presente é real e verdadeiro: ele é o tempo de fato preenchido, só nele está a nossa existência." (Schopenhauer)

Tenho ventanias a acalmar
nas cercanias do ser que está

aqui e agora - não mais ali
(ou no pensamento de acolá).

Tenho cataventos a girar.

E se há epifanias neste ar

percebê-las
corriqueiras
corredeiras

além de alternadamente aquém...

Presente inteiro absorvente:
- presente, presente, presente!

[o resto - que espere mormente]

DAS AJUDAS

a Carolina
a João Otávio e Pedro Sérgio

Posto ao ar, o então excessivo
(antes de indevido inquilino)

álcool prisioneiro do vinho
sai e civiliza o paladar.

Não quereria a substância
sucos subtrair de entranhas

- de tripas que queimam estranhas
nas escuridões das câmaras?

Não... Astrólogos, terapeutas
pastores cercados de acercas

(e padres, comadres de altares
e aqueles de fé em alteres)

sobrevivem todos de tetas:

- conversas ao pé esfolado
do Grande Químico mediado...

sábado, 18 de agosto de 2012

AGRADECIDO

Se numa de moucas horas o destino oferece possibilidade
outra pede em resposta - espelho igual do entranhado arranjo, peso, tamanho

e da mais desapegada generosidade.

(de uma das dobras da pele experiente
ou do emocionado cérebro sempre)

terça-feira, 14 de agosto de 2012

O ESTABELECIDO SOBRE O RISCO DO VACILO

embora desnecessariamente nessa ordem

O momento outonal
deste curto período

(na periferia suspeita do infinitivo)

acompanha-se mal
de maior equilíbrio:

- como se o tédio, cevado da longa estadia
nessa vida esquisita, licenciasse o juízo

de sua responsabilidade objetiva...

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

DA CONDUTA

a quem (se) estuda

Aqui, entre os seres que estão

há aqueles que (outros) tecem
àquilo que têm.

Também há os que (se) medem
pelo que querem.

E há (talvez) os que percebem
que de fato são.

O que perceber do querer
(e bem ter-se-ia de ser)
a fim de como estar, tecer
e medir-se com correção?

domingo, 12 de agosto de 2012

PORQUE TÃO PÁLIDO

aos conectados

O sol de domingo
me é tão curtido

que fico internado
(no tempo do espaço)
internetizado

feliz por contraste:

- situado no negro
da luz do aconchego...

(por entre utensílios
de claro artifício
- meus trastes e fios)

[rumores nos rios
(vãos eletrônicos)
correndo infinitos]

AINDA TE BEIJO QUERIDA

A tarde
opala
que te arde
já gasta

rebrilha
remoto
(de um dia
novato)

[na boca
do oco
buraco
da noite]

o açoite
tardio
que esfola
e cola

tua pele
vermelha
(tingida
de índia)

na minha
(de velha
centelha
fingida).

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

DEDO NO OLHO

Teu dedo
no desenho

da linha
do cabelo

contorna
tua orelha
(a esquerda):

- capela
(à direita)
do segredo.

Meu olho
no desejo

da nuca
(tão nua
de teus pelos)

acompanha
teu dedo

atentos:

- pelas curvas
que aventuras...

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

[SEM ASSUNTO]

mas sempre mais é melhor que menos

Há que dizer
- se não o quê.

E desdizer
- mas com porquê.

A palavra
pedida, dê:

- mesmo que mal
se souber qual.

A sentença
esquecida

(ou a escrever
em bom dia):

- ache-a, e lê.

(que precisa)

terça-feira, 7 de agosto de 2012

NOTA TRISTE

Soube de uma linda menina
qu'em vão machucou-se brincando.

Soube que da vida uma esquina
feriu-a (talvez por engano).

Por que desandou seu bom anjo?
Por que distraído do ofício?

Por que tal amor de criança
exposto a tão frio se encontra?...

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

RECEITA DERRADEIRA

para assentar controvérsias
a tempo de compreendê-las

Uma noite entre dois dias
para melhor decidi-las:

- uma madrugada fria
(encerrada a ponderações)

quieta, escura, opaca - tida

como o tal berçário de ações
primitivo do animal são

que acorda, sobrevivido
entre os milhões que logo irão...

domingo, 5 de agosto de 2012

DEPOIS DE LÁGRIMAS

Antessalas.

Aço emparedado onde o tempo
ganha absoluto o seu peso.

O granítico castelo
do restelo desperdício.

O martelo quebradiço
(do vidro);
o que se revela agulha
(perfura).

Do vento
estufa
ao frio
propensa.

Infensa ao que passas.

Lâmina do instante
retalhando ânsias do viverá intenso.

Extremo
entre o último e o próximo céu...

ÓBVIA

rumo ao muro a cem por hora

Quando não se interfere

na tautológica
malsã trajetória

da paixão que se converte
em razão sempre alegada

o que então acontece?

(de tanto que se repete
cimenta-se ensimesmada?)

sábado, 4 de agosto de 2012

CLOSED

Fechar a porta
isola - o vento
a poeira, a aorta

do batimento
que se repete
no sentimento

de ser o mesmo
- o confeiteiro
dessa quermesse

(pois acontece).

Fechar a porta
trancar à chave
(jogá-la fora)

cultiva - a horta
verde-presente
do enfim é hora;

o pensamento
sonha ligeiro
até a aurora

do movimento
relojoeiro
marchando a horda...

Fechar a porta

- um capítulo
definitivo
do grande livro

aparta o lido
(o ido do vindo)
partido agora

entre o sabido
(porquanto outrora)

e este caminho
de vida nova...

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

ÀS TRÊS

Será cada consciência
a prisão de si mesma?

Saturada da essência
solitária do uno?...

***

Rasgou a noite passada
um inventário - o gelo da madrugada
acordou-me que estou frio
a esta altura da jornada;

interrompendo-a, quedou-me
à consciência danificada, havendo
a desmemória do erro:
- a leitosa amnésia em que me esqueço

de então enganos compreendidos
como suaves mal-entendidos

de restos de dívidas
(débitos afetivos)
líquidas, sucessivas

remotamente imaginadas
minuciosas se aproximadas...

(a boa distância, voa a lembrança
- nomes, pronomes, pessoas
situações constrangedoras
em geral particulares)

[diletas dietas de peso
batem cruéis a esta altura;

suspende-se o sono
evita-se o tombo

Pantagruel malabares]

terça-feira, 31 de julho de 2012

SEM TEMPO COM SENÕES

uma banana pras convenções

Questões agora, só as pessoais:

- se a pessoalidade vive de intimidades
a impessoalidade mata curiosidades.

(é bom ser íntimo
até da intriga que entrega;
e feio o curioso
mortificado que nega)

Assédios
saltando de prédios
é impessoal - sujeitos ao plural
dissolvem sua espessura subjetiva;

expedita
(a desconsolada suicida)
ao contrário, é tida
objetivamente desesperada...

Tópicos hoje, só os tropicais
(acerca de clientes especiais)

- e pacientes, os peridurais...

[se então alcanço
âmagos particulares

passos descalço
naquelas proximidades]

sábado, 28 de julho de 2012

AGAIN IN THE RAIN

Cá estou de novo à mesa
do carteado cósmico
já paleontológico
em eterna primavera;

retorno à bruta pedra
remido no consolo
de um sol que aperfeiçoa
sua próxima coroa;

assento-me primevo
(atrás um balaústre)
ensimesmado pleno:

- nas primeiras rodadas
escuso-me amiúde
de tépidas jogadas...

sexta-feira, 27 de julho de 2012

UMA QUALIDADE LITERÁRIA

sua dialética negativa

Um fôlego
preso ao instante
(a despeito
perseverante).

O fôlego
teso do infante
(a respeito
edificante).

Meu fôlego
presa do instante
resfolega
(principalmente)...

quinta-feira, 26 de julho de 2012

ESCONDERIJO

Um lugar, quanto mais comum
e ordinário, tal ancoradouro perdido

por um momento, este urdido
num ponto do fio cotidiano infinito

ao longo do qual ser mais um
eu poderia, inalcançável na multidão

tem maior seu atrativo:

- quando a solidão da razão
(ao respirar, comer, dormir)
infunde a de querer partir...

quarta-feira, 25 de julho de 2012

POÉTICA PARA O FUTURO

já que o presente é obscuro

Ininteligíveis
não quero as palavras

incompreensíveis
desservindo o nada

(ao nada-mistério
elusão opaca).

[mas/porém/contudo/todavia]

Se estéreis a nos servir
esteroides no porvir (para ainda piorar):

- veja a acadêmica poesia...

(ou seja, versos pra academia
da ginástica verborragia

- mônada fragmentária

objeto da intelligentsia
desavergonhadamente alheia

aos que passam à deriva)

Esqueça! Pois dela nada
(ao largo do nada)

toca o fundo de cada
um.

[que líricas extraordinárias
desinvernadas

de lidas desentranhadas diárias
prometam comuns]

terça-feira, 24 de julho de 2012

À SOMBRA

de uma cerveja à tarde

O formato da mesa
predispõe, num quadrado
franco, brancas cadeiras
- eu brando numa delas;

e nela bem-disposto
penso, subterrâneo
o rio que pressinto
- dela contemporâneo;

seus barcos, atracados
às margens do refeito
curso de cada evento;

seus cascos, rarefeitos
abajures que acendo
- lanternas amarelas...

segunda-feira, 23 de julho de 2012

ECONOMICS FOR LIFE

"és possuído por aquilo que possuis"
(sabedoria antiga)

Equivalências
correspondências

dadas de circunstâncias extremas:

- cálculo preciso do caráter
conjuntural da adversidade
(estrutural da necessidade).

(ação-reação
thereisnofreelunch
bumerangues
etc. etc.)

Outro modo de dizer seria
- a abundância nos é lucrativa?

(amores, amizades, confiança
água salgada, lixo, prolixos
shopping centers e desesperança)

[aquisição sem subtração
subtração com aquisição
aquisição com aquisição
subtração sem subtração]

Interessa o abundante
porque nada gratuito:

- como todo fortuito
o escasso no infinito...

domingo, 22 de julho de 2012

DO SOBRINHO

ao redor (aos dois anos)

Heitor:

- o amor

da mãe
da avó

das tias
e primas

de sangue
ou tidas;

distantes
vizinhas

falantes
curtidas

noviças, vividas
são todas queridas...

(mulheres meninas
que mal se percebem sozinhas)

sábado, 21 de julho de 2012

DESDOBRAMENTOS DO TÉDIO

mau impacto poético

Que te aborrece, amigo
que estás tão impulsivo?...

Irritado
arredio
combalido?

Pela conjuntura combatido?...

Pelas circunstâncias circunscrito

fragilizado
desprotegido

embora ainda não derrotado

(como os 'ados' nesta composição ridícula...).

[nada que na tarde amornada
desfaça uma Smirnoff Ice
redundantemente gelada]

JEKYLL AND HYDE

... sim, já estive aqui antes
(já os ouvi uivantes);

a despreocupação do espaço
a má disposição das coisas

quase igual de fato...

***

Nunca a vi pessoalmente
(desconheço-a realmente);

mas a disposição dos quadros
a doce ocupação das unhas

apetece ao tato...

***

[o chão rápido levanta o sol
na pontualidade da manhã;
e tão lépida quanto, a lua
a noite despencará terçã...]

DO BEIRUTE

outra perspectiva

As coisas da minha cidade
- prédios, avenidas, passagens
parques de craques, malandragens
(relíquias da modernidade)

vendo-as se mudam paulatinas
na medida da minha idade
tenho-as porém inconclusivas
- as graças da nossa cidade...

Pois hoje o desenho no asfalto
(das sombras de acontecimentos)
parece o de ontem - traço de algo

da curva dos seus monumentos;
mas se há muito não os contemplo
dá vazão meu rés chão ao tempo...

sexta-feira, 20 de julho de 2012

NA SOPA PRIMITIVA

Ensanduichado

entre a amplidão da imensidão da vastidão por cima
e a ação da transpiração da competição por baixo

simpatizo, até solidarizo-me com o clima
refogado entre as criaturas, acho...

quinta-feira, 19 de julho de 2012

COLORES DOLORES

Nas buganvílias, o vermelho
brota em meio ao verde espinhento.

Mas pela mão branca do vento

apercebe-se do azul seco
que a noite reveste de preto.

(de sorte que perspectiva
a ferida que mais combina)

quarta-feira, 18 de julho de 2012

INTACTO

o consolo de um aflito

Pelo risco
(de estar vivo)

vou-me, e arisco

arrisco

um dedo
(mindinho).

Concedo
a espinhos

furarem-me
o juízo

prometerem
prejuízos

ferirem-me
só um pouquinho:

- nada que comprometa
o sal que à incerteza

tempera de beleza...

VIDA PRECÁRIA

Quando menos se espera
a palavra, por uma fresta
(por um fio que preste)
telefona e acontece

puxar a gaveta das facas
benzer as mais afiadas
(re)partir peitos e asas

entre soluços e soluções
(concluídas as dissecações)

dos entes que tornamos abertos ouvindo-nos...

[pós-modernos, vivos (espertos?), vindos e idos]

segunda-feira, 16 de julho de 2012

OUTRORA NA AURORA

Outro sonho em pedaço que a memória descola
acordou-me alquebrado na antessala da aurora...

(fel me trouxe à boca
bem cedo cediça - comigo e com outra)

Magro nele sorrias
uns lábios distendidos;
triste neles caía
teu cabelo tão liso

que pouco do rosto expunha
de mais miúdo e sombrio:
- parecias recurva
mas o oposto dizias...

De lado estendida
reversa ao que eu via
(o corpo ao contrário)
tua fala insistia

qual conto do vigário
corresponder-te-ia...

[na antessala da aurora
se me passando outrora
esquecida de ida
(nesta vida esquecida)]

domingo, 15 de julho de 2012

ON THE MOVE

... e rápido andando
corrido, levado

(no entanto)
paulatinamente

por vento de antanho
(a ver simultâneo
de vir diferente)

carregado
transportando
o tal fardo
(o seu osso)

novamente
(a contragosto mormente)

o encaixotado cigano...

quarta-feira, 11 de julho de 2012

AOS QUE GOSTAM DE VEGETAR

desculpa pra não animar

Tenho tanta vontade de andar por aí
quanto de ficar assentado por aqui...

Partido, então fico
pensando, perdido

pelas viagens que outros lugares fariam
(pois endereços deslocam-se entre trechos).

Tenho vontade de errar por aí
tanto quanto de acertar por aqui...

Mas sendo apenas
(e longe Atenas)

indivisível criatura do aquém

escuso permanecendo ninguém
além de mim - assentamento assim...

POST-SCRIPTUM

O contraste
súbito

entre a brancura da tua superfície
e a negrura dos teus pelos em planície

cega-me
bruto

(como um flash inconveniente)

para a realidade.

P.S.: deixarei a questão acerca
do real - sua natureza de cerca
(assim como a das conveniências)
em aberto - tanta a certeza!...

terça-feira, 10 de julho de 2012

PANTANOSA

Entre várias coisas por fazer
nada faço - tal como o paliteiro
cheio, de onde um único, primeiro
mísero palito recusa-se a descer...

As muitas ideias, com prazer
todas postergo - refeito o cinzeiro
disfuncionalmente prisioneiro
dessa condição antisséptica de ser...

Num ventre mental (este perverso)
toco o mau momento em que demoro

congestionado, e verso expectoro
desempoçado ato, embora havendo

nenhum querendo prestar-se
ao papel de bem livrar-me...

GEORGE JÁ DESCREVEU POR NÓS

a Leoa,
uma tradução/adaptação livre de "Something"

ALGUMA COISA

Algo no seu movimento
atrai como nenhum amor.

Algo do seu jeito, como é feito.

Por isso, não quero sair
(não creio que tenha de ir).

Algo no seu riso sabe
que pouco preciso de mais.

Algo do seu jeito de ser que ri.

Por isso, não quero sair
(não creio que tenha de ir).

Se este amor irá florescer
mesmo não há como saber;
fique perto, poderia
mas não sei se deveria...

Algo do conhecimento
se revela, nisso penso.

Algo seu nas coisas que desvela.

Por isso, não quero sair
(não creio que tenha de ir).

***

SOMETHING

music and lyrics by George Harrison

Something in the way she moves
Attracts me like no other lover,
Something in the way she woos me.
I don't want to leave her now,
You know I believe and how.

Somewhere in her smile she knows
That I don't need no other lover,
Something in her style that shows me.
I don't want to leave her now,
You know I believe and how.

You're asking me will my love grow,
I don't know, I don't know.
You stick around now it may show,
I don't know, I don't know.

Something in the way she knows
And all I have to do is think of her,
Something in the things she shows me.
I don't want to leave her now,
You know I believe and how.

domingo, 8 de julho de 2012

MEUS BOTÕES, ONDE ESTAMOS?

a propósito de ouvir os Beatles a esta altura da vida

A curva vira

quando o que houve (parece)
determina o seguinte.

Determina. Condiciona. Dirige
o que quer que adiante não se evite.

Se a manhã de ontem
não amanhece

e tarde somente
tardia anoitece

sabe-se que vira (parece)
a curva esquina da velhice...

***

[Dear Prudence
 won't you come out to play?]

sábado, 7 de julho de 2012

MANHÃ DE LAGARTO

Silêncio musical no pedaço
sem vento das sacadas da aurora.

(do festival mundano de outrora
por que pano de fundo só agora?)

Nem tanto - cães, o sol, dois pássaros
encarregam-me de três cuidados:

1. de calado, um bom entendimento
2. no que faço, algum desprendimento
3. e mais diálogo entre sinto e penso...

Por isso, calango, silencio
mas nem tanto - já luz há nos bichos...

quarta-feira, 4 de julho de 2012

DE FÉRIAS

Refestela-te nesse torpor
entre a próxima e o anterior!...

Descansas? Providencia-se?
Fazes necessário no espaço

o hiato?

Questões, deixemo-las
como ao vento brando:

- para quando forte
soprá-las a sorte...

terça-feira, 3 de julho de 2012

NOITE ESTRELADA

São velhas as palavras
tão novas as estórias!...

(os mesmíssimos vocábulos
gastos, ressignificados)

Da noite que estrelamos
imprimo sua memória

no barro fresco dos efeitos:

- nos sentidos mundanos
do tempo desdobrando;

- nos sentimentos contínuos
dos nervos em desalinho
do músculo cardíaco...

Dos teus suspiros
a doce arritmia;

dos teus gemidos
aquela melodia...

(entre carícias
sob o carinho
do som dos Beatles)

***

[do som dos Beatles no fresco barro

reouço como o compasso
de tuas pernas com as minhas

separa tuas coxas macias
do meu peito quando aspira
a curva cheia dos teus ombros
- os sonhos da fantasia]

domingo, 1 de julho de 2012

CARVOARIA

Lava aflitiva!...

Então deslizas
por entre as tripas
assim cozidas

nas investidas
controvertidas
mais intestinas...

Anestesias
idas e vindas
que descaminhas

se tanto animas
de pantomimas
mal digeridas...

(entre vísceras
somos vítimas
desassistidas)

Mas não cansarás
(ou descascarás)
[como os carcarás]

até fruíres
me consumires
e concluíres

tua  perfídia.

Em se tratando do estreito percurso interno do amor

uma delícia!...

sábado, 30 de junho de 2012

PASMO

Hoje quis o mundo inexprimir-se.

Quer-se incognoscível
mesmo na superfície
da mais lisa possível

articulada fatalidade
(quão pode a lógica realidade).

Módico, revolveu em distrato.

Seu mau significado, claro
encachoeirou-se, tão encantador
(ao ponto de não mui lamentá-lo)

que fui inundado de amor
por contemplar navegá-lo:

- e tal profundo horror
(em meio à luz da cor)

por me dispensá-lo explicar-se.

[contudo, este minuto
ao fundo irá defunto...]

sexta-feira, 29 de junho de 2012

ESTAÇÃO DAS FLORES

Com o cenho todo brincando
(a querença de outros trincando)

que Vulcano girando o braseiro
do planalto central brasileiro

mais divide conosco
seu azul sem limite...

Quando o verde chuvoso, a visão de Dom Bosco

(do leite e do mel escorrendo
deleites de um céu lazarento)

se vão, aos pagãos dão, então

a festa dos deuses de beiços
rachados da seca lambendo

as dores dos espinheiros:

- para que de tarde da noite em vigília
possa o dia buganvílias coloridas...

domingo, 24 de junho de 2012

BROCA II

Perfuro meus olhos secos
(nesse relento de olhar-se)

do teu mirar escorreito

em queimação devida
à centração da vida

entre os pares.

Que qualidade o ar teria
- sua tessitura entre as partes?

Seus átomos, moléculas
libélulas a faiscarem?...

[perfura o olhar
também o meu par]

{e  por que, Afrodite
de Hefaísto, enfiaste

(como Vênus em Marte)
[entre Vênus e Marte]

um sol em mim?...}

sábado, 23 de junho de 2012

BROCA

Perfura-me este dia
com a ponta do compasso

do ritmo que determina
qual arrisco quantificá-lo:

- tanto naquele, por dele o espaço
quanto da minha monta estipulável.

Há pedras no curso da estiva
e atrasos no que se encaminha
da (má) companhia de atalhos:

- muito agregável esparso
que o acaso objetiva

em algarismos
que me angustiam

quando anotados...

quarta-feira, 20 de junho de 2012

EM RUÍNAS

... enfim, é tranquilo
viver num período

em que o antigo modo de ser
(de longo e prático declínio)

escancara-se decrépito

e fétido
seu método.

Quando é hora do velho
deixar mestre o recinto?

(antes de alguém mandá-lo)
Pedir prévio o aviso?...

(ao fim, tão egrégio
pacato o processo...)

(o fim é tranquilo)

***

[e quanto aos bárbaros, não
exatamente invadirão

pois sempre aqui entre nós
perfumaram-nos os lençóis]

quarta-feira, 13 de junho de 2012

O TEMPO II

Posso de fato
- como a pedra, a árvore, o abajur
viver parado
(mesmo estirado).

O mesmo acima - e embaixo. Nos quatro ventos
(a despeito de estações e empreendimentos)

estático. Poleiro
do sonho vário alheio
(às vezes tenho feito).

Estático. Extático também
(em respeito ao significado)

porém de movimento:

do tectônico ao sereno
o único que me interessa
amar de ter, sentir à beça

- o da obra aberta do tempo

(o que desdobra o tempo
do momento primeiro).

domingo, 10 de junho de 2012

RATIO ESSENDI

deste blog

Tanto o firmamento
quanto o pavimento

têm aqui seu centro.

Antropocêntrico
Belmirocêntrico

do buraco negro
do ego ergo, ergo

um contentamento
feito de si mesmo

perto de perfeito...

(embora cético
cênico, decerto)

sexta-feira, 8 de junho de 2012

VESPERTINA

Oblíqua tarde
incendiada;

melíflua arte
luzidia

da gratuidade
fugidia
da gravidade:

- de raios que caem
mortos à vontade...

(a solar voragem
fuzilando a vista
paralela à pista)

quinta-feira, 7 de junho de 2012

PRECE MUNDANA

fragmento

... e que a claridade

da tarde
despida

de parte
do dia

permita à cidade

povoar-se
de amores

pra tarde
da noite...

NOTA INTERNA

porque não rio do que sofro

Escrevo do que penso
que sinto que padeço.

Se fosse derradeiro
podia compreendê-lo
(sem a volvê-lo o tempo).

Mas não o é - e o sei.

(e que nunca saberei
a tempo de entretê-lo)

CONSTATAÇÃO II

A divina majestade
da paisagem que contemplo

do topo deste templo
(o mundo em que vivemos)

nesta hora descabida
que me estreita em verdades

é a absoluta medida
da maldita realidade:

- do absurdo que é a vida
em si quando desprovida...

quarta-feira, 6 de junho de 2012

SEMPRE NUNCA

... se esqueceria o longo brilho
daquele olhar esmaecido?...

[talvez nunca exagero:
- paixões tão assertivas
de modo a colidi-las
com a provecta eternidade do mistério]

Mas retornaria
(sempre que esquecida)

àquela luz profunda toda vez

que estivesse escuro
repensando o mundo...

terça-feira, 5 de junho de 2012

ESTUPIDAMENTE

lúcido rima com estúpido

O que de mim vence
quando beijo o frio

maciço, o altíssimo
muro da realidade
dos fatos empíricos?

A sensatez, o equilíbrio
do que viria com a idade
- o que chamamos juízo?

A mesquinhez da covardia
retravestida de bom senso

(mais uma vez)

a confiar na ação do tempo?

(a sorte - por que a temo?)

[desculpo a tudo
porque pequeno]

OURO E PRATA

Hoje cedo ergueu-se o sol
delicado e sonolento
de um lençol do firmamento

cismado parecendo de servir
o desjejum - um café celestial
como o divino néctar por vir

(um dia especial)

à sua dama alteada
do outro lado do horizonte
que pálida o entreolhava...

Testemunhou o casal toda a criação.

domingo, 3 de junho de 2012

AUTOPIRATARIA

Meus nervos de corsário

(tão frios, modificados
por ânsias e circunstâncias
num então justificado)

são do aço necessário

ao saque - ao assassínio
de todo bom juízo

que me acometa, contrito
no baque deste navio

com a realidade do aviso...

sábado, 2 de junho de 2012

CAMPO DE BATALHA

O chão da mais árdua disputa
se terrão que divide - e racha

razão tanta de estar cabeçuda
quanto ser de paixão desregrada

na luta que acaba nunca
do sacrifício por nada

é o que é difícil de encaminhá-la
- pelo que representa a campanha

por dentro da própria casa:

- o peito da pessoa acertada.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

TRUÍSMOS

A vida é curta.
O tempo, escuro

à distância, apuro.

Mal posso evitar

que se curvem, e me curvem
encurtados - e mais turvem

até que o fim suturem.

***

A vida é bela.
O espaço, claro.

Os segundos, escuto
que bem posso contá-los

minutos - e que minutos
não corram, até que morram

abraçados.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

INSTANTÂNEO

A moldura que teus lábios
coadunam de perfeitos

à tua língua desferida
em palavreados termos

caramela pouco acima
da tua linha fugidia

as lanternas amarelas
que adiante me confias

(as tranquilas assassinas
que sequelas cicatrizam)

sorrindo (de si por dentro)
a inapelável rendição

de antemão que te concedo...

SISTÊMICA, ORGÂNICA, NERVOSA, CRÍTICA (E CÍCLICA...)

sistema nervoso vegetativo (fisl) parte do sistema nervoso, constituído de neurônios sensitivos e motores, que regula funções como a respiração, a digestão, a excreção e a circulação, dividindo-se em sistema nervoso simpático e parassimpático, cujas funções se complementam de modo a coordenar o funcionamento de todos os órgãos... (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa)

O parassimpático que há em mim
está nada, nada simpático
às minhas considerações, enfim...

De todos, o mais temido
reinstala-se - o conflito

que veste, confortavelmente
contradições do tronco à mente

entre o que repenso
e o que ressinto

o que me lembro
e o que pressinto

para ao novo dar um novo lugar:

- abrir a tapa a nova supervia
explodir na cara a supernova

(do vasto porão que rebrilha)

enfim...

quarta-feira, 30 de maio de 2012

PREMISSAS FRESCAS E FATAIS

O que sinto
(de destino)
só o sinto
como se nunca tivesse sentido.

O sentido
(do que sinto)
desconheço
como se nunca o quisesse sabido.

Seu mistério
(infinito?)
reconheço
como se sempre o vertesse destino...

terça-feira, 29 de maio de 2012

TRÊS FATORES CRUCIAIS

O primeiro, esqueço
resolvê-lo
(faço revolvê-lo).

O segundo (o primeiro
de fato), não lembro
direito.

O terceiro - no momento
complicado engenho -
passo...

domingo, 27 de maio de 2012

DUAS ARTES ENFIM IGUAIS

a todo sacrifício odioso

A arte da espera (que renuncia):

- decerto, a habilidade
de convencer o tempo

a tempo de exilar-me
de certo movimento.

A arte da renúncia (que desespera):

- aquela que me intima
(à via agonística)

a postergar a vida
pra certamente um dia...

DE ONDE O IMPULSO

O que arranha nervoso

o trajeto trevoso
oco do pensamento

antes de preenchê-lo:

- um arroubo do vácuo
do inconformado vazio - de plenitudes
de um destituído destino - de tais virtudes...

O hiato - o hiato intolera
(vacatio não se assume);

se o vazio deserta

o vácuo aderna...

(queixumes)

TUDO NUM SEGUNDO

Num canto do jardim interno
ao fim do meu verão eterno

há uma mesa de pedra antiga

contemporânea de sóis primevos
extemporânea do tempo mesmo.

Quedei-me junto dela - não lembro
contemplei-a ainda primavera;

e desde então, ressentindo invernos
nela as mãos alongando os músculos

à sombra do outonal crepúsculo
que se desdobra infinitesimal

te espero, contudo.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

O TEMPO

a Cruz e Sousa

... à frente, e também (o passado)
além, desdobrá-lo - e estendido

cumpre examiná-lo:

- das virtudes do tecido
aos buracos do acaso

de recosturas sem pano
a robustos desenganos

do seu plano americano
até pormenorizado

o fio, ao fim e ao cabo;

se igualmente, com o modesto fito
de não completamente ignorá-lo

- repetidas lições (quais sejam)
menos os senões (obstáculos)

no presente, ao poente

(do sol, o tapete)

recordá-lo...

segunda-feira, 21 de maio de 2012

O RISCO

Tuas lanternas, mel vítreo
balouçando entre destinos

escurecem, cristalinas
dos teus sábios desatinos;

dois escafandros dourados
dois caramelos marinhos

(amarelo-encouraçado
esmaecendo profundo

opaco o brilho
cortando a fundo...).

Se toda vez que me pego
fitando-as, embevecido

(e acompanhando as retinas
se tanto, um meio-sorriso)

escurecer-me é possível:

- se pretérito, que negue
o olhar que por ti arrisco

a perder-se quando abismo...

domingo, 13 de maio de 2012

NOTA CONTEMPORÂNEA

fragmento de significado

De fato alguém lá fora
meu coração aflora:

- a personagem-nome
de uma fatalidade
(sua virtualidade).

Embora além do espaço
(tempo que espaça largo
ao largo dos pronomes)

a de mais realidade.

{enquanto isso, me desespero
em pulsões de nervos concretos
invólucro refém dos mitos
dos sentidos empobrecidos...

[nada marca mais esta ausência
presente que vaga espectral
na nova necrópole virtual]}

sábado, 12 de maio de 2012

JOÃO VITOR

nascido a 7 de maio

Um neto
(meu neto
primeiro)

rosado
ereto
inteiro

e neto
direto
certeiro:

- contudo
que a vida
(e tudo)
lhe diga

querido

lhe trate
(destarte)
o amado

seu filho...

[do mundo
da vida
vivida
a fundo]

quarta-feira, 9 de maio de 2012

DOMINGO 16H

quando preconceito é paixão

Rola a bola
rente à grama
silenciosas
muambas, ambas

maltratadas
maratonas:

- a redonda
(com certeza)
faz de conta
(portuguesa)

que o relvado
não é mato;

a rés plana
(de pisada)
finge planos
(esburaca)

de justiça
nas conquistas...

[fora as pernas
(brasileiras)
as canelas
(brasileiras)

joelhos, braços
(coelhos, galos)

tornozelos
(entortados)
cotovelos
(os violentos)

dos perebas
(estrangeiros!)
que as destratam]

domingo, 6 de maio de 2012

A HARMONIA DA ILUSÃO

àquela anônima sensibilidade

Com vistas ao bem de nossas vidas
proponho a composição que vejo

às esferas/metades/polos que sejam
realidades, suas partes, um ensejo:

as paixões que desarrumam
- que à gravidade anulam (nos dois sentidos)

e as razões que as justificam
- que à gravidade explicam (sem corretivos)

dão-se duas mãos (as outras, repartidas)

em dupla imaginação restituída
originária, que perambularia...

sábado, 5 de maio de 2012

QUESTÃO INOPORTUNA

As datas - estacas várias
fincadas no calendário.

As efemérides, tidas
como comemorativas:

- por que tenho de lembrá-las
se dias de dromedário?

{se improdutiva a rotina
domesticado o trabalho
(apequenado o que faço)

[assim como]

determinados atalhos
(das incertezas de cima)
às inclemências do clima?...}

quinta-feira, 3 de maio de 2012

QUESTÃO MINHA

À tarde, venho cochilando
(surpreso, recapitulando)

sonhos desdobrados para trás

até verdes anos - quando anis
os planos, roxos os encontros

eram negros os pelos todos
rosadas as experiências

repintadas as indecências
na calada das madrugadas;

e compaixões, amareladas
por vermelhas verificações

repaginavam-se, centelhas
de cada novata esperança...

Por que tarde agora, cochilos
coloridos tão desbotados

sobre antigos fados - cochichos
por trás do tempo cortinado

ganham a hora, ecos do giz
da desmemória mais remota?...

(por que nesta hora de agora
quando aqui finco mastro e raiz?)