segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

NO ESCRITÓRIO

Um ventilador gigante
girando mas gentilmente

transparece que possante
calor faça suavemente;

um cadastro vigilante
anotado tenazmente

ocultando qual farsante
o fraude jaça mormente

se funcionário galante
que ao descrevê-lo comente

de qual jeito interessante
à secretária somente:

- o que um fichário vacante
arquive do peito à mente

da cinza sombra abrasante
dessa redoma inclemente...

PAUSA CELEBRATÓRIA

da pequena vitória

As tripas reviradas
das ripas chulipadas

na hora da virada
(agora tudo ou nada)

torcida desbragada
na vida encruzilhada

- é natural, não achas?

Passada a enrascada
da lida encalacrada

a horda de estocadas
das normas deslocadas

(o mal numa tacada)

- as pipas despregadas
à nossa volta, o que achas?...

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

MINHA TORRE

a Michel de Montaigne

Eu construo
edifico

diuturno
sin permiso

outro fundo
outro piso

sobretudo

edifício
(orifício)
junto ao muro

para ofício
aquém-mundo

[prolíficos
versículos]

e ali fico

sobre tudo

insepulto

de tranqüilo

com aquilo...

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

ESQUECÊ-LO IDO

Sobre o que é havido
suspeito que ouvi-lo

sabe esclarecê-lo:
- cada acontecido.

Nada a merecê-lo
soma ao ocorrido:

- mesmo convertê-lo.

Cabe enfim a um zelo
vir subtraí-lo:

- o que o cerebelo
põe de mim corrido
desde o tornozelo.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

LIDA FINANCEIRA

Nos bancos
barrancos
são tantos
tamancos
de tantos
tamanhos
achados
rachando
agora
pisando
sem hora
nas danças
rangendo
gastanças
(de auroras
a outroras)
comprando
a praça
vendendo
fumaça
comendo
poupanças
chorando
pitangas
rolando
de ilharga
(gemendo
fodendo
contudo)
sorrindo
crescendo
pra tudo
partindo
créditos
préstimos
débitos
códices
óbices
óbitos
(lívidas
dívidas
líquidas)
a prazo
a vista
(perdida
no caso)
da casa
o lote
do carro
o dote
casados
barracos
tão caros
calotes...

MANTRA DOS TRÊS TEMPOS

convém não esquecer

A única vida vivida
que se faz servida - é a minha;

a única vida servida
que se fez devida - a que eu tinha;

a única vida devida
que se fará ainda - avizinha...

terça-feira, 26 de novembro de 2013

SOB O VÉU DE NOVEMBRO

Este meu olho manco
vê preto-cinza-e-branco

este céu de Vincent

repleto de ser tanto
nesta época do ano.

Esse céu de Vincent
demais fotografado

em preto-cinza-e-branco

no início do passado
nessa época do ano.

Esse meu olho manco
com desdém inocente

fotografa o presente
amém àquele plano.

SOCIAL

De um lado

de outro

desagrado

(e desagravo)

só.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

QUADRAS CORRIDAS

de paulistanas

... fim de semestre
(rogo que adestre)
- e a São Silvestre
logo ali, mestre!...

***

... o café, pão dá
boto fé (não já)
Buscapé, vão lá
- Tatuapé, tão tá!...

domingo, 24 de novembro de 2013

AOS DOMINGOS

com Vandecira

Acho ditoso o quanto é tempo
primeiro ou derradeiro nosso.

Sinto questão de entendimento
que abraçá-lo realmente posso.

A menos que encachoeiramento
de segundos em mais décadas

- tão precipitados déspotas

pode o tempo fiado convosco
correr lento um fiapo de épocas!...

terça-feira, 19 de novembro de 2013

ÔNDULAS

Cada canto do apartamento
redesenha seu sombreamento

dependendo de onde vir a luz
- se da rua, ou de um tormento;

cada canto na noite adentro
redesperta no sono o centro

da vontade de retroceder
de qualquer bondade de ceder

- arrepender do que o som seduz...

sábado, 16 de novembro de 2013

ARQUEOLÓGICA

Passando os anos
observo-os

enquanto tantos
acumulando

tão distanciados
antepassados

porquanto dado
a contemplá-los

os dispensando
de aprendizados

ultrapassando
alimentá-los

emaciando-os
fossilizados

de preservado...

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

FEIJÃO DE ALGODÃO

Céu baixo.

E abaixo

sozinho

eu baixo

(baixinho)

ameno

sonzinho

de abrigo

antigo.

Sereno

(ao menos)

os nervos;

o ninho

pequeno;

o facho

em baixa

consigo

(eu acho)

...

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

GARGALO V

ar, ar, mais ar!...

Münchhausen, Desencachar
Pantaleão ainda por achar

poder-se-ia eu barão voar?

Necessário considerar:

- pois há mais pelos a puxar
se o pântano não for drenar;

mais tiros que hesito atirar
que balas e botas de usar;

contas de contas a pagar
antes de estórias a contar...

Prospere terráqueo ou lunar

marítimo de navegar
ou ritmo a ultrapassar

preciso outro livro editar.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

AUTOR AGONIZANTE

talvez seu ajudante

Sempre acho que é o último.
O verso derradeiro

(porque o senti no íntimo)

até o próximo sê-lo.

(digo, aquele postado
antes deste, entalado)

Melhor, em todo caso
tecer seu paradeiro

(o paradouro deste
desenganado aquele)

vindouro ao fim e ao laço
de algo passado, ou vulto

de outro sujeito oculto

que enfim queira escrevê-lo...

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

PUBLICITÁRIA

A imaginação, quando se encontra

no frigir dos olhos nas gôndolas
aquém dos miolos, além da conta

aparece visão da Gioconda

na via turística rápida
(meno male se fotográfica)

dos faustosos museus da ótica
nobiliárquica socializada:

- fixando a deidade refratada
à frente um vidro à prova de bala...

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

TAUTOLÓGICA

see the lyrics

A virtude
da juventude:

- Hey Jude
(aliás, fortitude)

em virtude
de juventude...

DEPOIS DE REBANHO

bovino entretanto

Cansado de esperar
(o que não sei contar)

cansei de conservar

o peito a deserdar
o amor de andarilhar

por medo de encontrar
a dor a esquadrilhar...

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

RECADO DE ESCREVER NA TESTA

pintar na fronte do horizonte

Se eu tiver de labutar demais

por solicitar favores tais
retribuíveis em labores mais
(e deles dever fugir jamais)

melhor talvez procurar um cais

qualquer ótimo embarcadouro
(de gente, bicho, tralha, ouro)

e com pedra, corda e pescoço

(discretamente, sem desdouro)

eludir o fundo do poço...

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

PLUVIOSA

A tristeza das folhas
sob a mesa da tarde

traz-me cônscio da bolha
em que estreito destarte;

velha a botelha, e a rolha
arbitrária na arte

centenária da escolha
de contrário abrigar-me...

terça-feira, 5 de novembro de 2013

LIQUIDIFICADO

não importa o caso

Moléculas d'água
viriam do nada

sob a tua anágua
secularizada;

sobre a tua mágoa
vertiam por nada

escorrida bágoa
que dissimulavas...

O que acarretava
junto à veia cava?

Arrependimento?
(teu contentamento?)

Um desprendimento?
(teu contentamento?)

Não que isso importasse:

- moléculas d'água
(sob a tua fachada)

vinham meia-água...

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

NA ÁREA ADVERSÁRIA IV

uma dor

Que será de mim
sem meu time enfim

na Primeirona?

(como assim, a fim
da Segundona?!?!)

NA ÁREA ADVERSÁRIA III

torcedor

Um mau juiz
- o tal Ruiz

foi o algoz
- algo atroz

que te apraz
vir loquaz...

NA ÁREA ADVERSÁRIA II

foi quase

Na trave
o entrave

à glória
que se abre

vitória
do lacre...

NA ÁREA ADVERSÁRIA

minuto quarenta e sete do tempo segundo

A hora não dá trégua:

- água pra minha égua
bota de sete légua
mapa pra minha régua

bégua agora me nega!...

(daí a orientação
debaixo do travessão

vai longe do gol então

na cabeçada de mão
trocada de goleirão

pra segunda divisão)

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

DA IMPUTABILIDADE

da ação maquinal

Os homens que drones
em vão responsáveis
por irresponsáveis

com amos afáveis
de planos aráveis

no campo dos patamares elevados

(dos andares que grampearem enlevados)

são já homens cones
na linha dos clones
mecanicamente;

ciborgues insones
da rinha demente

desde antigamente
não há um recente:

- são sempre somente...

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

QUADRA CÓSMICA

razão e proporção

Esta insignificância:
- a medida da constância
de dois olhos na grandeza
do tamanho da beleza.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

TRANSFORMED

a Lou Reed

Cobalto e amarelo
- combinação e elo

entre a tarde que esvai
(suicida samurai)

a noite tardia

e o que foi de um dia...

SEMANCOL

cruzes!

Os poemas não vão bem.
Usar tremas, não convém.
Estratagemas, não contêm

que avestruzes dão penas também...

terça-feira, 29 de outubro de 2013

SUCH A PERFECT DAY

and Lou is gone

... amiga, subterrânea havia
iluminada urbana poesia
de cacos, nacos - a providência

dos apetites, música e tinta
em toda morte da inexperiência
pouco inocente perto da quinta

rua, praça, desgraça, avenida

do mundo no bardo pontiagudo
suavemente impoluto, contudo
(rolling the rocks entre sussurros)

ao longo da artéria caminhada
subcutânea - tão delicada

em substância
quão deflagrada
extravagância

aterrissada desalojada

no vasto nada

da vida ganha e redevorada

pela autoestrada

autoindulgente e contemporânea...

[honey, by the way:]

Lou's miscellanea (por meridiana)
é extemporânea à tal banana

abduzida daquela capa
e reduzida multiplicada

a uma cizânia
nau capitânia...

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

SINTÉTICA

As paredes do aqui-e-agora

dão sede de auroras

embora

nas vezes de outrora

o vão que ali sucede as obras.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

DE SEGUNDA MÃO

Segunda-feira:

- nunca a primeira

(da domingueira

sensaboria)

subsequente

sobrevivência

de derradeira

sabedoria

[inconsequente

em decorrência]

domingo, 20 de outubro de 2013

DR VIRTUAL

O bombardeio

(por bombardeiros
sem paradeiro)

não fará queijo
do e-mail, creio;

mas pisa a tela
(a minha e a dela)

da tarantela
de outras querelas

senão deveras...

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

CLIMATOLÓGICA

alegoria da eterna finitude

O céu desceu à nossa posição atual
(recém-saída da estiagem estacional)

com seu agasalho úmido e habitual.

Distância mínima entre o chão e o alto
entre aquelas nuvens e esta poça eventual.

Admistão do óleo das cores no asfalto.

[ânsia máxima de ocupar o vão de algo
de algo preenchido de vazio ocasional]

O daltonismo do solvente universal
(eufemismo para o nosso a pé descalço)

prevalece no crepúsculo cobalto
ante a noite encorpada (talvez em falso);

o olho dói no músculo, osso, vertebral
nossa herdade horizontal do cadafalso.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

SEMPRE UMA ESQUETE

repetitiva

Na interna esquina
que externa a linha

da quitinete

(nessa cozinha
dá-se a toalete)

o que me habita
(sempre uma esquete)

quase sem tinta
fita-cassete
escrivaninha

lembra o macete
(vendo a vizinha)

desce o cacete
e pinta o sete:

- porque digita
me compromete

com a desdita
enfim bendita
que se repete

(sempre uma esquete)...

LUMINÁRIAS

Fixos porta-luzes elétricos
vagas irradiações etéreas

claros pilares métricos
longas tochas aéreas

escadões tétricos
pontas venéreas

simétricos
whereas

..
.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

TELEJORNALISMO

seu paroxismo

Vez em quando é isto:
- um ventriloquismo

por teleprompter
teletransmitido

de onde o dono estiver
tanto e como aprouver.

LÍNGUA DE PRATA

cinemática

... afunilando
o que soprando

afutricando
afuleimando
afuzilando

o que sobrando
afugentando...

terça-feira, 15 de outubro de 2013

ESTORVANDO O DESFILE

aos colegas com bile

Subintelectual semiqualificado
(segundo os experts)

algo estou profissional protorremunerado
exposto a cassetetes

(de pais, responsáveis e autoridades em greve).

Professor incondicional
ainda que me queira mal;

confessor em tempo integral
(ainda que me queiram mal)

das mazelas do real:

- daquelas que não vêm ao caso
entregues ao sabor do acaso

no balacobaco do atraso
(pro balacobaco me atraso!...).

Cinderelas até o ocaso
somos gazelas decorridas de obstáculos;

trainers, entertainers, palhaços
na sociedade consequente do espetáculo

remodernizados por detrás.

(é o que nos informa o mercado
embora saturado de tais)

...

Formais, naturais, caricaturais
(versões indolores do descaso)

sou ator por pavor dos demais.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

FORÇA FUNDAMENTAL

e grau de inclinação

Declínio, declive
descido, decide

quanta gravidade
atribuir à idade

pela gravidade
do devir na idade.

sábado, 12 de outubro de 2013

O QUE PREVALECERÁ

Desenvolvida a hora
Pandora escurecida:

- o que desvela agora?
- o que zela escondida?...

Esquece das palavras
em suas palas sombrias

destinadas trágicas
lunáticas desditas...

À noite, desconfias:

- serão escuridões mais
sertões adiante portais?

Descobrirás de dia:

- em sua tez presumida
nudez sumida havida...

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

DOENTE

... ao final
deita o sol

horizontal;

com terçol
arde mal

de cachecol
tarde afinal...

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

NA FÍSICA DA MODERNIDADE

górdios sequer nós de alguns dos nossos

Karl primeiro, Friedrich segundo
estabeleceram que no mundo

tudo o que é sólido desmancha no ar.

Mas no processo, frisa Zigmunt
(cioso da trajetória ao gasoso)

é intermediário liquidificar.

Desgostoso da história, pastoso
secundária figura na estória

entre respostas, tão consciencioso
onde figuras, retida a escória?

1. animal pretensamente ativo
(porém mouco mente pouco altivo)
tolhido estado vegetativo;

2. pós-produtor ao pé mantenedor
de ego apolítico consumidor
(de amores filmes a tristes de horror)

3. recolhido ao privado epistolar
de narrativas por irrealizar
(seus públicos hão de justificar);

4. ...

***

[homem sem qualidades de Musil
bem plasmado num fluido inconsútil

poderias condensar um Brasil?]

terça-feira, 8 de outubro de 2013

DOURADA

Contra a luz, a urina
(jato de cerveja)

por certa e líquida
é carnavalesca:

- pura purpurina
máscula que seja...

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

O QUE ENTRANHA A MENTE

Espremo o que exprimo
do presente estreito:

- palavreado fino
(franzino o degredo)

geado rarefeito
(escorregadio).

Extremo o que imprimo
arduamente obreiro

daquilo que esgueiro
(feito percevejo)

com efeito ausente:

- certo desempenho
que me estranhe à gente

convencionalmente.

sábado, 5 de outubro de 2013

NUBLADO

Amanheceu entardecido
um sábado obscurecido

classificado restritivo:
- o claro do escuro indistinto.

(determinado a ser seguido
por entristecido domingo)

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

DO DELÍRIO DE VIAJAR SOZINHO

no covil de um crânio em desalinho

Nos abraços que os desejos nos dão
nos avanços que os ensejos nos hão

de proporcionar, cabem mil verões
à beira-mar das imaginações!...

Fora, há mil universos perdidos;
por dentro, dá um caminho segui-los

na preamar crédula das intenções!...

Embarque as células, assim varões
outrossim varoas! - e as emoções

de induzir canoas de pretensões

trarão aos remos águas potáveis
e aos internos, termos palatáveis:

- devaneante marinha mercante
doravante da tina escaldante!...

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

DOS PODEROSOS DE PLANTÃO

a nós o que é deles, pois não

A superfície do corpo
acusa a intenção do dolo

à flor da intuição que sofro
da razão do desconforto:

- a institucionalização
(sem régua, trégua ou recato
réplica, égua-e-cavalo)

da transparência como ação.

***

Pressuposto: a transparência
pressuposta de si mesma

na tautologia plana

(categoricamente sã
absolutamente chã)

de uma assepsia plena

contra contradições, senões
paradoxos, camaleões.

***

O que será de vós então
- vós: pobres ricos que virão
e tudo de nada verão?

Sê pois tecnológica
e antisséptica ciência;

depois seja em sua lógica
panóptica indecência!

[ao menos o inverno verão]

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

DE UM TEMPO MAIS-QUE-PERFEITO

ao presente contrafeito

A entropia, ratazana
rói e mia, gata mansa;

distopia fenescina
dói e pia, patativa;

putativa, mói o dia
que vige, pelo amor de Deus!...

- tantos Orfeus e Eurídices
repelindo-se junto aos seus...

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

POLIDEZ

Estreito
ao peito
um braço

sem traço
de abraço
desfeito.

O QUE RESTA DE EMBELEZAMENTO

O calor da tarde nos protege
quando remanescemos inertes.

Abajures escanteados na cal
de pátios enferrujados do sal

alhures, figuramos nesse rol.
Abutres nos aguardam sob o sol

a fito naquilo que movemos
com o fito do empoleiramento.

É o tempo. Nosso lento creófago
é frio - o contrário desse afago

aquecido e enganador. Mas melhor
o embuste transitório do calor

na tarde outonal que se inicia
(mesmo com predadores à vista).

sábado, 28 de setembro de 2013

A SEGUIR

não repetir

Ouço enverdecendo
outro encantamento.

Pressinto a verdura
propenso o momento

vendo a esta altura
amadurecendo.

(contra a desventura
de outra descendendo
um recolhimento)

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

É PRIMAVERA

A altura do sol nesta época
- agastada como se um déspota

a chuva acerta, mormente alegra
cores súbitas - súditas delas

heras, buganvílias e bromélias
cheias de formigas e azaleias
e cheiros jasmineiros, camélias
sobre mangas, laranjas, colmeias

rizomáticas atmosferas
apinhadas de larvas e feras

gratas de a distância ser aquela!...

Fim de tarde como meio-dia
à sombra úmida do que estia

até a próxima cortina d'água
tirar rápida da tina fátua

a sorte única de outra mágica...

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

A CURVA

num daqueles dias

Graça natural
rebenta o cipoal

temperamental;

na boa, de mal
lenta ou vertical

gravitacional:

- tema recorrente, a decadência
decadesce o poema, em conseqüência
de um trema inconsequente, a consciência
evanescente da impermanência...

... (ência, ência, ência) ... Por quais ciências

ecoa múltipla a falência
- e num esgarço de indecência

destoa cúpida a carência
entre as minúcias da existência?...

...

[venta o lodaçal:
onde ponho a cal
medicamental?]

terça-feira, 24 de setembro de 2013

LARANJAS

de mandachuvas

Hidrogênio e oxigênio
enternecidos trigêmeos

provam meu instinto errado;

regam o ferro cerrado
este mês - e nos próximos

o verão de outros óxidos...

ÁRVORE

Pouco importa sair

(da semente sumir)

se o apenas estar

(no perfeito enraizar)

ocupa o tempo de ir

(ao ditoso devir)

e o espaço de ficar

(para frutificar).

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

AMBIÇÃO ENDIVIDADA

A penhora do tamanho
deste agora meu antanho
ano a ano ajuízo a lanho
em prejuízo desse ganho

e no juízo que decorre
mais escorre do que corre
(porque do momento o norte)
qualquer tempo até a morte

[se presságio eu saberia
qual ágio preludiaria
um funeral de estilista]

{pois o normal é debalde
deterioração do molde
e incineração num balde}

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

ZELOTE

Cresce o vigor
junto ao fervor
de um limpo amor
por essa dor;

sem polegar
opositor
a postergar

sinto o calor
confortador
de concordar

reverberar

seja oposto
ou preposto
do desgosto

restaurador:

- a ser maior
nada menor
creditarás
se Barrabás!...

ANTES DE COMÊ-LA

A véspera
amarela

da nêspera
japonesa

(se chinesa
portuguesa

uma gueixa
entre ameixas)

doce deixa (a)
nespereira:

- em madeixas
me sombreia...

terça-feira, 17 de setembro de 2013

ORÁCULO

Amo o Aulete
na internete:
- pai dos burros
intramuros!

Amo o Aulete
de um a sete:
- quando o curso
sem decurso;

Ô Arlete
amo o Aulete:
- nele o mundo
vasto é fundo!...

Quitinete
és o Aulete:
- conténs tudo
eu contudo...

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

FROM BOULDER, COLORADO, USA

flooding

Tenho notícia de uma parte do mundo
que já foi toda deste meditabundo;

triste notícia de um mundo absoluto
passado particípio de onde flui tudo...

Hoje no lugar daquele tempo espacial

devastações culturalmente naturais
(tamanha a racionalidade do animal)

têm consequências tais que se entreabrem pessoais:

- estarão bem?, me perguntei, qual zé-ninguém
em sua mais alta insignificância zen;

- estarão todos bem?, reperguntei-me again
na intenção de saber sem tenção de escrever

e contato fazer - na paralisia
desavergonhadamente irreprimida

face ao que contudo foi e devastei-me...

sábado, 14 de setembro de 2013

RECONHECIMENTO II

... na velocidade
da mundanidade

jaz o meu respeito:

- já que a realidade
perceber direito

me desfaz inteiro...

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

DA EXCELÊNCIA

dos excelentíssimos

Ao soberano rebanho

dispensamos atenção;
atenção dispensada

o que orienta a manada?

A consistência de antanho

esquecemos de antemão;
ante a mão esquecida

o que responsabiliza?

Pois não nos iludamos
com os rodeios de amos

vassalos noutros antros:

- a justiça é uma arte
indulgências à parte;

- o direito, um disparate
das conveniências, destarte...

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

PERECIMENTO

ódio ao físico

Antes de correr
ou exercitar

(antes de mover
meu peso de ser)

rói antecipar

a dor do dever
de se então cuidar.

Ó babaquice
sob um sol star!

Ô maluquice
por desenterrar!

Por que não ceder
corpo à velhice?

(é capitular
o capitular)

Por que socorrer
minha estultice?...

...

(e o ar a enluarar)

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

SETE

no gênero homo, espécie de sapiens

Todos os espaços coexistem
e todos os tempos coincidem

nesta cabeça de alfinete
sem que se perca qualquer item.

Sua rotação o promete.
Sua chã superfície, idem

quanto ao gênero de uma espécie:

- nossa celeste quitinete
onde se pinta e borda o sete...

[sete pecados capitais
(e os sete sacramentos tais)
multiplicados ademais
por sete bilhões de animais]

terça-feira, 10 de setembro de 2013

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

QUERO SER DE BARRO

a Manoel de Barros

No trabalho, sou um chato.
Quando resto, um palhaço.

Nada de dialético
bem parassintético;
mal dividido ao meio
assomo o dia inteiro

um desejo de Manoel:

- de lagarto, de tropel
de Bernardo e micos léus;
pedra e cisco antes de céu
passarinhos no escarcéu...

Palhaço ao remar, me acho
chato bipolar, creio

por ser curto o recreio...

DO ATRASO

(de)correr Brasília

Se tardo a cidade
desde tenra idade

seus ares de parque
seu clima de embarque

dão fotografias
de melhores dias.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

PÁLPEBRAS

O ocaso de dormir
sem que um sonho tenha

é caso de seguir
nem que o sono venha

o acaso ao insistir
- bem que assomo seja...

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

SOLECISMO BARBÁRICO

regressivo

... adaptamo
compactando
três musaranho
(dois era humano)
num suburbano
trem nem viajando...

UBIQUIDADES

A obliquidade
da realidade

- seu drible suave
sobre a verdade

vezes me invade.

Quando acontece

um pano desce
e me entorpece

(opacidade
tal que me abate).

Na minha idade
a realidade

(da obliquidade)

não coalesce
sabedorias

nem discrimina
sensaborias:

- meu vesgo imenso
sobre o que intento

muito a reflete
de serventia...

terça-feira, 3 de setembro de 2013

PÁ(T)RIA DIGITAL

por meia hora
toda uma era

Caiu a rede.
Saí da rede!
Caí da rede
quando somente
matava a fome
(a mais insone)
por sobrenomes
contando estórias
de desmemórias
em nicknames
indiferentes
desde que gente
(mesmo que a gente)...

Cadê a rede?
O que ela teve?
Os que têm sede
presentemente
de serem gente

- os have-nots
tão recorrentes
- os Lancelots
contra a corrente
- os ins and outs
todos bonitos
- e os menininhos
e as garotinhas
pois travestidos

gritam 'ausente!'
precocemente:

- subitamente
refaz a rede
precisamente
a paz de sempre...

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

DA PROPRIEDADE INTELECTUAL

a nau particular no mar geral

Nesta vida, nada nos pertence:

- seja massa cinzenta que tente
que coisa apartada lhe sustente

seja cara a proeza que se pense
de um ego enganado para sempre...

Desta vida, nada lhes pertence:

- vossas obras, inda longamente
nossas cinzas, mesmo de repente

- mesmo as artes deles dirigentes
inda inutilmente diligentes...

sábado, 31 de agosto de 2013

NENHUMA

... nada à minha frente
enche a tela. Nada a

apalavra. Branca
do que quer que esvaia

nem à minha faina
encalacra olhá-la...

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

DO CONTEXTO TEMPORAL DA ATIVIDADE FÍSICA

fragmentos

(antes de começar)

... quando foi mesmo que o cor-
-po tornou-se uma questão
tão presente, premente
- um problema de antemão?...

{depois de terminar}

... e quanto ao desempenho
no breu deste momento
congratulações ó cor-
-po invólucro que lucro!...

[durante o padecer]

... indo pela metade
quase morto passo o cor-
-po adiante da vontade

de parar de reparar-me...

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

PROMETEU

Neste domo céu
um balão ao léu

vê-se como réu
maculando o véu

no desvão do anel...

MAGRA E DISTRAÍDA

A tevê ligada
e a tarde ali fora

dividem a caça
da atenção escassa

que aqui mal aflora
sub sob agora.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

INSOLAÇÃO

O privilégio
(do tipo egrégio)

é um sortilégio

seu de detentor
a teu desfavor.

Questão de restos.
Olhares retos

sobreviverão
a este teu verão

mais desolador...

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

DIA INÚTIL

inconsútil

A segunda
de segunda...

Minha força
moribunda...

Na segunda
há quem torça
(e retorça)

pela sorte
de uma forca
redentora;

pela morte
repentina
da rotina

na licença
de uma ausência
interina...

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

DO OCASO

pugilato

Meu cansaço
talvez fundo
sobretudo
jaz-me raso;

mau regaço
se profundo
é contudo
mal acaso;

mas o traço
iracundo
de um taludo
vem ao caso

e o que faço
furibundo
tartamudo
eu abraço.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

BESTAGEM

Uma leve depressão
(como um baixio besta)

fez de leve o coração
ter um cochilo besta;

fez do alegre coração
(como em cochicho besta)

uma breve depressão
à espreita de ladeiras

no caminho da sexta...

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

O PRIVADO A DEFENDER

nada a ver com o poder

A intimidade da privacidade
e a privacidade da intimidade

ameaçadas pela virtualidade.
O que há de novo nisso, na verdade?

Da vida privada, a fragilidade
de ser íntima singularidade

face às múltiplas coletividades
(e coletivas adversidades)

pede a sua reparação contínua
além da tua, da dele, da minha:

- de cidadela que reconstitua
toda célula participativa.

[de fortaleza que não desvirtue
decerto ideia de democracia]

terça-feira, 20 de agosto de 2013

ADESÃO OU MORTE

dilema tecnológico

Teimo não estar
neste momento.

Não neste lugar
em movimento.

Nesse denegar
consentimento

temo sobrestar
contentamento:

- porque tudo aqui
pede o meu tempo

e nada por si
vai com o vento...

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

IN-BETWEEN

deeper you dig the local
closer you get universal

Observo a tarde
indo sem alarde.

É assim noutra parte?
Sua realidade

(modo invertido de pendularidade
unidirecional e pela metade)

[noventa graus sem irregularidades]

sempre assim destarte?

Independentemente do estado da arte
de cada clima, vida, sina, cidade?...

and bury yourself after all

sábado, 17 de agosto de 2013

PENSATA ONISCIENTE

de um sabujismo onipresente

O velho bem face ao novo mal
faz que nem aí - tudo é normal...

O velho bom contra o novo mau
prevalecerá - dirá o jornal

porque desde que o mundo é mundo
sempre houve e haverá um Raimundo

retrogradado raso a fundo

impuro pra embrulhar-se imundo

com papel de jornal - tal e qual...

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

PENSATA DE JORNALISTA

Artigo 19

Queria muito discutir o fim do monopólio da palavra.
Na verdade, contemporizá-lo - o oligopólio da catraca
das escolas aos postos e bancadas dos sonhos da meninada.

[queria muito insistir na importância do sono da estudantada]

Queria muito discutir o fim do jornalismo de fachada.
Na verdade, contemporizá-lo - já que toda cebola assada
ainda é chorada cebola, ainda em camadas, aberta ou fechada.

[queria muito insistir na importância da cebola descascada]

Queria muito discutir qual fim do negócio. Sua derrocada
- na verdade, da cobra que troca de saia - será temporária
se pudermos contemporizá-lo: a pele do bicho negociada.

[queria muito presumir um interesse público na praça]

Queria muito discutir - enfim - o que de novo nos aguarda
sem contemporizá-lo da retaguarda. Na verdade, a tocaia
como forma de abordagem vantajosa sobre que diabo saia!

[queria muito me despir do medo dessa hora antecipada]

Queria muito discutir que fim teremos todos nessa estrada
- na verdade, mangue sem beirada. Contemporizá-lo, se nada
contabiliza danos, perdas, ganhos - e brevemente os separa.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

PENSATA MAIS DE QUEM ASSISTE

de um transeunte contribuinte

O novo na ordem do dia.
Modo de descrevê-lo em crise.

O ovo da desordem em dia.
Modo de revolver a crise.

Um brancura de galinha
cobre aquilo que chocaria...

Sob a luz nada enxergo ainda
de modo que o que há persiste:

- modo de desdenhar em riste...

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

PENSATA DO REAÇA

de um avestruz na forca

Bem reconheço o novo
porque novo de velho.

Mal compreendo o novo
porque de novo velho.

(nem o percebo novo
pois o ressinto, velho)

Não surpreende o novo
desmiolando o povo:

- povo não apreende
de velho, desaprende...

Fica assim, entre a gente:

- se entendível o novo
(digerível de novo)

filho de peixe velho
neto de escaravelho...

terça-feira, 13 de agosto de 2013

SOB O SOL III

... sou um lagarto
- eu sou uma flor!
- sou um de fato
- e toda frescor!...

[e embaralhados molhando os atos
rolando dados (de lado os fados)
um casal beato consagra o calor
seu esparadrapo sobre o Equador]

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

HAVER JARDIM

Hoje vi o futuro
fugidio há muito.

Hoje o vi contudo
emergir do mundo:

- no claro e escuro
fado que conjuro.

Vislumbrei-o cujo
ascetismo duro

jardineiro tomo
do seu sonho puro

refeito Epicuro:

- jardineiro sono
verdadeiro durmo.

Hoje o cri por tudo
antes de futuro:

- por seu vezo mudo
de buraco fundo

frisar resoluto
que negá-lo sujo (ou)
repensá-lo a rodo

o encolhe escolho.

Hoje o cri por todo
futuro confuso.

Hoje ouvi seu cuco.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

PRETÉRITA COMPANHIA

Meu passado
presenteia
meu presente
com mão cheia...

Meu passado
incendeia
meu compêndio
de vivências...

(meu passado
barateia
o passado
as besteiras)

Meu passado
nos passeia
na paisagem
da colheita...

(meu passado
nos apeia
em passagem
mais estreita)

[meu passado
sacaneia
meu futuro
intramuros]

Meu passado
me folheia
- sobretudo
me folheia...

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

CELESTE

Uma unha de lua
despontou no dedo de Deus

logo acima da rua.
Assinalou abaixo aos seus

o caminho que sua:
- subida que dificulta

abluções de fariseus...

QUESTÃO DE MAGNITUDE

entre -26,74 e 4,83

Quando penso que um sol
only peripheral
dispõe o bem e o mal

de modo preciso
num ponto indolente
do ar escurecido
relativamente

o que alento afinal?

Quando sei que este sol
generoso e leal
oneroso e fatal

between good and evil
diminuto afinal

um dia esquecerá
a noite de acabar
e água no samovar?...

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

DA CIDADELA

notícia

Alvissareira
mão empreiteira

deu em primeira
mão nessa terça:

- concretou teto
(piso decerto)

certo castelo
(perto o restelo)

onde viceja
(pra que então seja
novo e tão velho)

aquele eterno
sonho moderno

de poeta arcaico
em paço hodierno...

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

NUMERAL OUTONAL

Estou entardecendo
espaços em três tempos.

Estou emudecendo
quatro ressentimentos.

Estou envelhecendo
meus velhos pensamentos

talvez anoitecendo
de vez o polimento

(talvez endurecendo
amadurecimentos).

Mas um quinto aquiescendo
(se o minto enverdecendo)

sou dois comigo mesmo:

- talvez amanhecendo
bissexto entendimento...

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

FLASHBACKING

... à medida dos dias
reconheci que ouvira
outrora melodias
do passado que havia

à medida em que via
no espaço algaravias
de um tempo que fazia
luzir cacofonias

repartirem-se em vias
de bobagens bem-vindas
por passagens que eu cria

meus lugares e vidas:
- na verdade eu podia
à medida em que ia...