terça-feira, 24 de março de 2015

REVISITA 47: PROMESSA

Se um veio líquido
Distraído
Solto ao menos num respingo
Suspenso no ar

Vindo da tua natureza, fronte longe de esgotar-se

Alcançar meu quase jardim
Intramuros, urbano e sem cuidados

Explodindo alamedas e azaleias coloridas
Constrangidas pelo chão até então cinza

Certamente os sons e os odores
E os paladares dessa fina química

Viajarão verticais

Aeroespaciais

À procura da beira d'água
Por ti posta inadvertida ao meu alcance.

04/05/1988

domingo, 22 de março de 2015

RÁDIO DOMINICAL

Barça e Real
em catalão
ou espanhol:

- que difusão
dirá global
meu portunhol?...

sábado, 21 de março de 2015

REVISITA 46: ADULTÉRIO

Jaz nos caracóis densos
Negra floresta
A mão de tantos cabelos.
Do frêmito da raiz ao pensamento
De um roçar milimetrado
Salta o rasgo insano.
Que faz a mente de um cálculo
Ao frio oportunista que aquece?
Sabem os dois, a rua sonolenta
Diária e suiçamente
Desfaz o plano perfeito:
Cortina cotidiana esticada até a esquina.
Que faz plástico o pente insurreto
Dos dedos da formosa dama?
Sob óculos vidrados
Varrida de toda impressão tola
Deita a angústia tesa de insatisfação.
Divide-se em duas, três mil fragmentos
De coerência comportamental sócio-exibida:
Querer um corpo para comer saciada
Uma alma para ter enganada
Um vetor do prazer consoante
Tutor do futuro
Escravocrata de plantão...
Que fazer do amor da eternidade em minutos
Gozo fátuo poderoso?
A infidelidade a ser
Consome muito mais.

10/01/1986

quinta-feira, 19 de março de 2015

QUADRA CHUVOSA REDUNDANTE

Uma regularidade
de chuva sobre a cidade

obra por sobra a cidade
de sua regularidade.

QUADRA NUM BLOQUEIO CRIATIVO

de um bloqueio
creio ativo

Este vácuo
de sentido

não consigo
evacuá-lo.

SOB O FIM DA ESTAÇÃO CHUVOSA

Sob o sol à tarde chuvosa
sobre a sombra da mão nervosa

talvez eu possa, uma vez possa
(antes do sol tarde, que empoça)

ver na contradição trevosa
da queda d'água luminosa

a tal escuridão brilhosa
alvinegra, negra formosa

daquela nuvem que me molha...

segunda-feira, 16 de março de 2015

INCONDICIONAIS

1. O ar que respiro, aspiro primeiro
e ar-condiciona o que vai ao peito.

2. O ar que respiro, aqueço de um jeito
que ar-condiciona o que sai perfeito.

3. O ar que respiro, embaça, a despeito
de vidro, vinil, polietileno

e ar-condiciona o que mais sujeito.

4. O ar que respiro, expira um veneno
que hidro, perfluorcarboneto

ar-condiciona o que esvai no leito.

QUADRA QUE NÃO REFORMATO

Há um formato no que escrevo

de onde vem eu desconheço

quando tento prescrevê-lo

eu medíocre prevaleço

....... ...... ..... .... ...

domingo, 15 de março de 2015

ÁGUA DAS ALTURAS

Às vezes as chuvas
parecem com uvas:

- parreira madura

um céu que perdura

sua plúmbea gordura

mais bagas segura

até que a soltura
fermente já branco
o nimbo que fura
seu sumo lá franco

por toda quebrada
de gente abeirada
do copo, da mesa
de bar, de represa...

segunda-feira, 9 de março de 2015

DÚVIDA LITERÁRIA

crítica literária
física literária            dívida literária
tísica literária

Um poeminha de amor

que não fale da flor

que não pintem de cor

que não trate da dor

nem se diga de cor

- será um poemão do amor?...

TEMPO NENHUM

Quinze anos no século vinte e um
quinze por cento do tempo de um

- em qual acrescentamos algum?

Quinze anos no novo milênio
quinze lapsos do milênio

- e não cultivamos silêncios?

Notamos avanços recentes
colhemos desfrutes crescentes

- e o que melhoramos na gente?

Quinze anos do século vinte e um
quinze por cento correndo e bum!

já pois aceleradamente
depois de já celeremente

- qual ética notadamente
em época de tempo nenhum?...

sábado, 7 de março de 2015

ESCOLA NO SÁBADO

prazer reincidente

Sábado na escola:

- por causa da hora
(da calma da hora)

do dia de agora
(um dia sem obras)

a calma de auroras
(por causa de agora)

sexta-feira, 6 de março de 2015

REVISITA 45: PORNOLAPSO

Daquela boca sacana
Quente bafeja a nuca
Uma brisa nua.

Entredentes a língua afiada
Esfaqueia as vestes entranhas
Insanas da anágua que encurta.

E a fechadura em espadas
rija sua chave escarlate...

22/07/1985

quarta-feira, 4 de março de 2015

REVISITA 44: PROSA DO ACASO

no que era senão o Setor Comercial Sul

Renova a impressão somente: o olhar perseguiu uns passos
Graciosamente perversos.
Balançando ao vento, um corpo pareceu atentar ao pudor
Do breve comprometimento
(do vício do papel à corrente do escrevente).

No pátio dos tratados, entre os muitos desse pátio
O suor da fixação bancou a jogatina:
- seria ela (a) a musa da intempérie
ou a coxa à mostra (b) um acaso provável?
Há muitos vestidos colorindo as ruas, e algumas intenções ocultas.

Entre atônita e obcecada
A massa anônima contornou as leves linhas de mulher
Distraída?
Na prova dos nove, mãos fictícias
Especularam carícias inconsequentes.

Mas a reação não brotou da pele fêmea indiferente.
Uivaram os lobos do meio-dia a uníssona dor que mia
O canto dos esquecidos.
Assoviado o vento oscilando aquele corpo ao largo
Decidiu-se estranho e íntimo da vontade coletiva.

E as formas macias dobraram a esquina
Como em todo dia útil: elusivamente perversas.
E a massa suada de carnes dissolveu-se em individualidades
Condoídas
Como em toda jogatina:

- à espera da próxima, que reverteria...

09/07/1985

terça-feira, 3 de março de 2015

A NOITE PERPETUA

A tua meia-lua
sorri sem peia a tua
presença seminua

que a mente em vão recua
àquela antiga rua

que o tempo me acentua
quando a lembrança sua

(tão longe aquela lua
que a noite perpetua)

BIO

Dio

mio

vi-o

fio

vi-o

rio

vi-o

pio

o vi

cio

(ouvi

chio)

ou vi

Dio

tio

mio...

domingo, 1 de março de 2015

POR QUEM PIA A COTOVIA

A poesia

poderia

(deveria)

ser a via

que duvida

se haveria

porque vida

sido havia.

...

[porque via

cotovias

quereria

porque pias]

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

REVISITA 43: BRISAS

Um vento lava a cara surrada dos dias
Limpa a mente das faltas do próximo
Percebe no ego o erro.
Para amar-se um cego basta ver, ao lado
O meio-fio doente.

Uma rajada varre a Brasília fiscal do tempo
Levanta a poeira dos atos legislativos
Cata a rara virtude.
Para querer-se um bem basta ser, acima
O santo da última chuva.

A brisa que sela a boca incauta dos homens
Trai a intenção oculta da palavra
Mostra o velho no novo.
Para livrar-se do mal basta saber, abaixo
A causa do barro nos pés.

08/07/1985

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

CAUDAS DO AULETE

a quem refere

Quantos verbetes
em ramalhete

são estiletes

sem definição
das incompreensões

que tais locuções
contêm de antemão?

Auriculares
em Buenos Aires?

Vernaculares
quando firmares?

Caudas no Aulete
soltas do calão

pintam o sete

no gabinete
das abstrações:

- rabos que virão
decomposições.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

QUASE DESAPERCEBIDOS

pelo desaparecido

Alguns amigos queridos
presentes de tempos idos

eu soube que têm partido.

Ausente, tenho sabido
por entes, dos ocorridos

por redes que informatizo.

Porém, quando o sei, longínquo
tão tarde do acontecido

(são diversos os caminhos)

à parte, os negligencio
amigos inesquecidos

por razões que desmotivo.

(distante, os tenho vivido
vezes em mim, qual Belmiro)

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

REVISITA 42: SEGUNDA SEGUNDO O DIÁRIO DA MANHÃ

Dia triste a segunda: recomeça preguiçosa a presteza
Tentáculos ciliares abundam nos olhos a realidade.
Os fatos correntes, vindos de sexta, estão à morte.
Os sábados, de ensandecidos, e os domingos esmaecidos
Coexistem inexistentes: a natureza da semana é só útil.

No para-choque do carro de trás, paralela ao chão
Paira a minha atenção.
O sono persistente examina o veículo
O motorista e seu lento ventrículo.
O executivo, a passeio, não passa dos quarenta
Pára sólido, quase velho, no limbo.

De máquina no papel, a letra pára (pausa).
No almoço distante, repouso a esperança
De um dia acordar.
No almoço presente, reclamante farto do horário
O discurso funcional cessa diante do prato.
De estômagos, estamos cheios.

Dia triste a segunda: recomeça o hábito
Da tristeza travestida de seriedade.
Deveres tentaculares amarram os braços na realidade.
Os fatos são as correntes, desde cedo nos pés.
Os dias ensandecidos, de apetites esmaecidos
Coexistem experientes:

- a natureza, se humana, é só fútil.

Dia triste a segunda: recomeça o falatório
Dos males alheios. Triste segunda
Segundo nossa condição de bestas dos outros.

08/07/1985

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

QUADRA JUIZ-FORANA XVI

No momento de partir
a vontade de sumir

some porque partirei

(mais conveniente, não sei)

12/02/15

NUNCA É CONTIGO

O inferno dos outros
pros outros é outro

o inferno do inverno

o inferno do interno

o inferno do incerto

o inferno do inverso

o inverso que é (o) Outro

[pros outros o eterno
inferno dos outros]

12/02/15

domingo, 15 de fevereiro de 2015

DA CONFUSÃO COM VOCAÇÃO

a confusão da vocação

a vocação da confusão

(a vocação pra confusão)

[pra confusão já vocação

a vocação dá confusão]

11/02/15

sábado, 14 de fevereiro de 2015

DO CURSO NATURAL

Visita ao hospital

(àquela que está mal)
[supostamente mal]

(idade e coisa e tal)
[provavelmente sal]

[mas longe de fatal]

{mais longo o seu final}

11/02/15

QUADRA JUIZ-FORANA XV

A cidade, sempre a mesma

à parte da realidade.

(sempre a realidade mesma
parte de qualquer cidade)

10/02/15

QUADRA JUIZ-FORANA XIV

A família compacta
a homilia que intacta
impacta e pactua
e jacta porque tua!...

09/02/15

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

REVISITA 41: VERIFICANDO O AZUL

Calmos vácuos atmosféricos descansam-te o corpo
Torpe de agressões; sem peso, invisível avolumas
Quietamente: o negror da noite oculta indivisivelmente
Tuas ambições; assim inchas, portanto
Livre de castigo aparente.

O bom lobo expande incógnito.

Mas o cerco azul da manhã não tarda
Com seu oxigênio; teus pecados, então passíveis de julgamento
Te esvaziarão à luz do dia; talvez a menor pena te livrará
Como ao romântico Nosferatu; talvez teu maior ganho de tudo isso
Será a sentença: a angústia da vida eterna.

Certo é que, precisamente
O cerco azul do amanhã não falha.

15/05/1985

DESCONSERTO

Um prego torto
que desacerta.

Um parafuso
da porca solto.

A faca cega
de tanto abuso.

O dedo roxo
do que martela.

Outro muxoxo.
Outro desuso.

Um dia chocho
que desconcerta.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

REPOUSADA

Daqui a pouco a madrugada
(que vem sempre e sempre passa)

terá feito cova rasa
(vala sempre e nunca cava)

do que se converte em sonho
(dos risonhos aos tristonhos)

daqui a pouco apenas sono

contrafeito coisa opaca

significando nada...

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

CÉU DO PEITO

Nuvens de asas
nuvens passas

(foste várias)

pelas tardes
enquanto ardes

sob aquele
que como este

debateste

(várias vezes)

ARGENTINA

no clima

Este azul que amarelo
e brota aonde vejo

que implode agora cedo
num dia paralelo

aqui em Brasília mesmo

parece o Boca Juniors
cores de Boca Juniors

mas inexatamente:

- se pouco amareladas
talvez luzes douradas

janelem nas sacadas
brancas avermelhadas

(mas que improvavelmente
saibam do River Plate)

domingo, 1 de fevereiro de 2015

MEU DOMINGO

No domingo

silencio.

Imbuído

eu consigo:

- seu ruído

diluído

elimino

do que sinto.

Sob a lua

sobre a rua

em que suo

não recuo:

- meu domingo

inextinto

é comigo

(eu consigo)

sábado, 31 de janeiro de 2015

REVISITA 40: À ESPERA DE TANCREDO

quando as coisas pareciam diferentes

Na antessala, à espera de notícia
Risoleta medita.
O amor seduz o temor
Mantém as raízes em Cláudio.

Na sala, à espera da sorte
Tancredo negocia.
Pelas massas de suor anônimo
Resiste ao aflitivo infortúnio.

Perplexa, a nação hesita a chama
Reduzida ao boletim otimista.
Estremece o chão das praças, dos sonhos
Sobre escombros do recente pesadelo.

Mas o coração da pátria pulsa forte
Sob o peito do homem convalescente.
Nos lembra que o mal é transitório
Confirma a esperança permanente.

21/03/1985

DOMÉSTICA

A luz das coisas
à luz das louças

sujas na pia

- cuja entropia
predisporia

é a das Moiras
de parcas roupas

(pois fiam outras)

no fim do dia

[não desconfias?...]

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

DA VIRTUOSA VIA

a Sêneca

por suas reflexões atemporais sobre a ira
e sobre a tranquilidade da alma

Do início, na ignorância
das causas e dos efeitos

ao fim, na sabedoria
contemplativa dos erros

em favor de mais acertos

no meio, onde desnorteio

- ânsia de filosofia!...

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

IMATURANDO

Entre o verde do mar
e o verde cerrado

verdejando o que olhar

verde tenho achado
verde considerar

que estou esverdeando
de tanto vegetar...

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

REVISITA 39: JOGO DA VELHA

O sol brilha sobre a miséria humana

Indiferente.

São muitas as formigas

Aparentemente atordoadas.

Horizontalmente, não há asas

Mas cabeças bordoadas.

Pelo espaço vertical

Bem mal explorados

Passam raios, grassam vários

Abençoando a agonia dos insetos.

Pela diagonal, correm os demais

Indiferentes.

20/12/1984

PACIÊNCIA

Emergindo da submersão
prolongada demais do verão

vem o corpo de sua lentidão

à superfície dos efeitos
no ponto em que estão rarefeitos

- pois um corpo recém refeito
de seus feitos contra a consciência

(ao contar com condescendências)

pede ciência de abstinências...

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

REVISITA 38: AS DE HELENA

I.

Na sala de espera
Reflito
Um fiapo de tempo, um instante
Livre dos temores habituais

Na sala de espera
Pára o relógio
A cuca descansa
Relax de fim de semana

Os sons do trabalho alheio
Passam ao largo da minha espera
Na sala alheia

Espero, e isso ali é tudo
A cadeira, as canetas, o quase silêncio
Imobilizam o olhar

Sala de espera da vida.

...


III.

O mal súbito
Que me aflige
É não saber quando
Teu olhar raso
Subitamente
Me atinge.

12/09/1984

domingo, 25 de janeiro de 2015

sábado, 24 de janeiro de 2015

ALEGÓRICA

foi-se o Recife do seu Instagram

Vandecirando
- isto é, amando

a manhã nova
a bossa nova
a supernova
a vida agora -

Mércia inicia
sua caminhada
por esta via
ensolarada:

- duas mãos dadas
duas aladas
(tô eu na raia)

juntas na praia
da Boa Viagem
por mil imagens
junto a mensagens!

[em João Pessoa
Pontas de Pedra

isso ressoa
facilidades

isso requebra
felicidades

de atividades
assim à toa...]

Mas à medida
que o tempo passa

- que o passo amplia
que a lua abrasa
e a rua brilha
sob a fornalha

Mércia amercia:

- e então o dia
como que acinza

sem que paisagem
qualquer postagem

sequer a viagem
disso difira...

Sobrecansada
(d'eu inclusive)

já convencida
do imenso aclive

Mércia querida
(a Vandecira)

depois de fada
maratonista
fotografada
consigo à vista

volta pra casa
(evita Olinda)...

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

VERÃO O FILME

Logo o Recife

quem nele vive

o que revive

(e quem os cite)

serão meu filme
[Verão, o filme]

- o que eu recite
de outra voz firme
e reconfirme.

{será que estive?...}

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

PARADISÍACA

11/01/15
Pontas de Pedra, PE

Um dia, devolveremos
este planeta a si mesmo.

Um dia, o devolveremos
àqueles que lhe pertencem

por natureza ou desvelo.

Um dia, o dispensaremos
dessas vontades sem termo

- desses desejos que tecem
nossa mortalha no tempo.

Um dia, sim, partiremos
deste planeta pequeno

e o deixaremos àqueles
por natureza excelentes

que lhe pertencem sem termo.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

NA FRALDA

10/01/15
Pontas de Pedra, PE

O mar se cansa
da minha andança.

O mar se cansa
da nossa dança.

Quando balança
o mar descansa

dessa bonança
que à rede lanço...

SUSPEITA

09/01/15
Pontas de Pedra, PE

... me parece que o luar

ao minguar
sua arma branca

ao se curvar
afia a lâmina

pra esfaquear
o negro mar.

QUESTÃO ETÍLICA

09/01/15
Pontas de Pedra, PE

O que minha embriaguez
mostra de lucidez

além de sensatez
com sua próxima vez?...

[uma segunda consciência
que se afaste da primeira

(à medida que se beba
na medida que a critique)

tal evidência consente
na bebedeira seguinte]

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

QUADRA ESPECULATIVA

08/01/15
praia do Coqueirinho, PB

... na Paraíba
mais caraíba
eu curtiria
bem pindaíba...

CURRAIS DE PEIXE

05/01/15
Pontas de Pedra, PE

... lá se vão criaturas de linha reta
de conduta ilibada (o olhar revela)

no caminho das gaivotas (que não presta)
pelos labirintos dos Minos da pesca

qual gado calado de fato submerso
(calado de barco de fado submerso)

na rota escorreita do matadouro depressa

a fim de perfeito com pimenta...

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

QUADRA DE PEDRA III

05/01/15
Pontas de Pedra, PE

A linha d'água na beira:

- a minha tornozeleira
desenvolvendo ligeira
decerto interdependência...

CRUSTÁCEA

04/01/15
Pontas de Pedra, PE

Cada conchinha da praia
é uma casinha habitada
por inquilino de guarda
- tal a iguaria salgada!

Cada casinha na praia
é uma conchinha sonhada
por inquilino a morada
- tal fantasia a salgada!...

Cada coisinha da praia
cada criatura da areia
no paraíso se espraia
na vida dura é alheia!

Mas o que aproximaria
concha e casa não seria
qualquer noção proprietária

- somos todinhos tilápias!...

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

MACROSCOPIA

03/01/15
Pontas de Pedra, PE

O luar polvilha
mar que rebrilha

lácteas vias.

QUADRA DE PEDRA II

03/01/15
Pontas de Pedra, PE

O céu do mar
é mar no céu

a verdejar
seu azular.

QUADRA DE PEDRA

03/01/15
Pontas de Pedra, PE

Em praia tão rasa

a água não passa

de poça espelhada

da coisa ajoelhada.

DUPLA QUADRA DE PEDRA

02/01/15
Pontas de Pedra, PE

areia grossa
areia fina
areia grossa
areia fina

areia grossa
areia fina
areia possa
mudar de sina

MICROSCOPIA

02/01/15
Pontas de Pedra, PE

Esta lâmina
marinha anima

melancolias.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

2015

Novamente o calendário
é uma peça de vestuário

de efêmera qualidade
diante da publicidade;

adiante, outro itinerário
da mesma modalidade

promete-se necessário
(não obstante arbitrário)

como se anuário ao contrário!...

QUADRA VETÊ

Do mar se vê
que na tevê
o mar belê
reencontra-se.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

OLINDA

Desde os quinhentos

pelos seiscentos
e setecentos

eram trocentos

de aventureiros
a açucareiros;

de portugueses

a brasileiros
desde os flamengos

foram trocentos

do seu mosteiro
ao seu convento;

dos oitocentos
aos novecentos

de bonecos mamulengos
aos bonecos gigantescos

sobre as casas centenárias
pelas ruas madrugadas

já são trocentos

mais de batuques coroados
e metais ensolarados...

Sempre aos trocentos:

- pois a história deste lugar
é proletária e popular.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

domingo, 28 de dezembro de 2014

QUADRA TSÉ-TSÉ

Sono à tarde, cedo ou tarde
vento contra, toma tempo
desde cedo, todo ou parte
deste sonho, desatento...

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

CORRENDO EM BOA VIAGEM

Dia sim dia não
venho de Jaboatão;

dia sim dia não
estou no calçadão

quase em movimento
(impressão do vento?)

sob um certo peso
deste firmamento

(de Nordeste ao centro)

até que o momento
(de antemão presente)

imponha que eu pense
no que ressinto então:

- podia ser sempre...

QUADRA DA PRAIA II

No Nordeste
brasileiro
contra o Agreste
caranguejo.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

TESE QUE DEFENDERIA

face a tanta maresia

A praia fatigaria
meu desejo de poesia.

O mar comprometeria
(embora estimule a liça)

mil ensejos de poesias.

A esmagadora maioria
das presenças naturais

- de homens a vela a peixes do cais

contra conspiraria:

- quando finco os pés na areia
a realidade impermeia

da natureza que brilha.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

QUADRA ANÊMICA DA AREIA

... de praia que subtraia
dos sentidos a palavra
ou de melhor descrevê-la

(seria convalescença?)

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

QUADRA DA PRAIA

... a praia serpenteia
pela vontade alheia
que me invade - areia
aranha de sua teia...

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

SEXTILHA ESTIVAL

Há uma brisa recifense

que parece que se sente

que aparece a toda gente

de um lugar independente

a vagar impunemente

do que se ache recifense.

QUADRA ESTIVAL

Da quentura ensolarada
que acomete a madrugada
cedo sobra a passarada
a cagar toda a sacada!...

MEIA QUADRA ESTIVAL

já no Recife

Este verão primaveril
me encontrará em que Brasil?...

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

BACK TO MY AMERICAN WEST

while listening to Chris Rea's

A memória da grande pradaria
terminando nas Rochosas, seria

(porque de poética melancolia)

mais um sintoma de que poderia
ter sido outra a via - uma outra vista

então surpreendente quão indistinta
da vastidão transcendente e finita

do que ofereceria qualquer vida -

que todavia, paralela à minha
(como realidade imaginativa)

coexiste pacífica alternativa.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

EM BRASÍLIA

última notícia

Do Gênesis, Noé
(sendo o nêmesis que é)

já desembarcou com seu dilúvio
autorizado de cima (o clima)

sobre a profecia que duvido.

Mas, em se tratando de Dom Bosco
é capaz de vir jantar conosco

sem que acabe o mundo num eflúvio

Noé, do Gênesis
(entre parênteses).

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

REVISITA 37: PRAÇA BATISTA CAMPOS

Belém do Pará

Sobram folhas caídas no banco da praça.

No cair das folhas
jaz o tempo inamovível

que passa-possante rápido-e-lépido

- o bólido do espaço indefinível
de velocidade inamovível.

Datas evocam imagens inalcançáveis
incansavelmente;

o passado é uma corda já roída
imprestável;

se quisermos sobrevergar o arco do destino
quais setas atingirão o alvo?

A saudade tapa a boca
de repente;

sons guardados na lembrança
animam o gramofone:

- a praça vazia testemunha
o que é de vida nenhuma.

O vento sibilante/balouçante/refrescante

ecoa inaudível

quando a paisagem foge à mente

(se morre o som
fantasmice)

A Batista Campos é o zoológico dos meus bichos interiores.

09/07/1984

Um desassossego de Pessoa

"Tenho mais pena dos que sonham o provavel, o legitimo e o proximo, do que dos que devaneiam sobre o longinquo e o estranho. Os que sonham grandemente, ou são doidos e acreditam no que sonham e são felizes, ou são devaneadores simples, para quem o devaneio é uma música da alma, que os embala sem lhes dizer nada. Mas o que sonha o possivel tem a possibilidade real da verdadeira desillusão. Não me pode pesar muito o ter deixado de ser imperador romano, mas pode doer-me o nunca ter sequer fallado á costureira que, cerca das nove horas, volta sempre a esquina da direita. O sonho que nos promette o impossivel já nisso nos priva d'elle, mas o sonho que nos promette o possivel intromette-se com a propria vida e delega nella a sua solução. Um vive exclusivo e independente; o outro submisso das contingencias do que acontece."

Fernando Pessoa, "O livro do desassossego". In Obras de Fernando Pessoa, vol. X (prosa). Lisboa: Promoclube, p. 38.

MODESTA

Quero agora sair da gaiola
aprisionada desta poesia

toda oxidando em maresia
cerrada - sem vista para orlas

de tal modo/maneira que empola
enquadrada de forma irrestrita;

quero romper o canto das rimas
(de um gabola que se acha da hora)

ora a corromper sua assimetria;

quero partir agora do poeta
e travestir-me a vera do esteta

pateta que sou e soou poeta!...

....

(mas que autocrítica mais severa!)

[a quem convenci-me de véspera?...]

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

QUADRA DA CORRIDA ENCAMINHADA

Aos cinquenta e cinco anos de idade
correr cinquenta e cinco minutos

é como andar de uma a outra cidade
sobre um par de joelhos resolutos.

sábado, 13 de dezembro de 2014

DE FÉRIAS SEM FÉRIAS III

pré-litorânea

Elusiva ou ilusiva
sensação animaria

outro ser subjetivo:

- mas bloqueia adjetiva
o que então alegraria

íntimo e substantivo
de certo ponto de vista.

Ilusivo ou elusivo
retro ou retrospectivo

(decerto pontos de vista)

este estar que objetivo
mudar introspectivo

abunda por tal motivo
aparências todavia.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

DE FÉRIAS SEM FÉRIAS II

É tanto tempo livre
que livre o tempo oprime;

é tanto tempo livre
que livre o tempo exige

justo o que nunca tive

- tanto que quando o tenho
é como inexistisse

(como se me punisse)

REVISITA 36: INTERROGAÇÃO

Os calos da imaginação
doem se calçados
com ideias pequenas.

Você lembra de um tempo
em que qualquer pensamento
era palavra

e esta a ação?
Não?

Deve ter sido antes de Cristo
antes da Criação
(inexistente, portanto
mas até quando?)

Deus nos deu o homem com preguiça
inacabado a quem coube a iniciativa
de completar-se

a ser feliz?

O que nos diz
a história da civilização
- dos percalços intransponíveis
aos quais pouco a adaptamos -

faz com que persista a questão:

- contemplar o completar-se, a ser feliz...

Os calos da imaginação
doem se calçados
com ideias pequenas.

03/05/1984

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

REVISITA 35: CLARIDADE

Pela claraboia passa a nova luz solar
luz solar nova porque manhã;
A manhã fresca, recente, luminosa
passa clara pela claraboia

Meus olhos namoram os flocos da luz solar
rastro de poeira da mobília sacudida;
Meu corpo transpassa o caminho para cima
solto fantasma na casa branquipálida

Passa a vida pela claraboia
vira o sótão um belo altar;
Oro sem querer, a vista para cima
à procura de um anjo no caminho luminoso

Na manhã clara boia branca a luz
de uma nova fresca a transpassar a idade;
Traz recente à mente a pálida fantasia
de um anjo nascente da poeira sacudida...

14/10/1983

BUTTON REVERSED

the trivial case of this Benjamin

(a Scott Fitzgerald)

A morrinha
se tem lugar

que aporrinha
de impacientar

seria no ar
que se aspira

e se expira
mais devagar

ao se espremer
(até me doer)

esta espinha
a adolescer

à tardinha
de envelhecer...

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

REVISITA 34: ALEGORIA DE UM SENTIMENTO

Meu amor
que as pedras te abandonem!...

As pedras que te tocaram
(tão frias e duras suas ásperas curvas)

terminaram te partindo em expansivos
fragmentos no tempo reincidindo

a dilatar o espaço
sideralizados.

E eu de tão triste
de precoce velhice

ansioso te acompanho acompanhável
interessado na trajetória dos teus pedaços no infinito.

Meu amor
por que cristal multifacetado

quebraste em milhares
de caquinhos irreconciliáveis?

Por acaso não teria eu forjado
para ti indivisível um aço inoxidável?

(bem sei do meu fracasso)

A chuva de estrelas cadentes
tangente ao firmamento
gera o sentimento inexplicável:

- por ti esfarelada
de mim angustiado...

Meu amor
(meu em vão sublime horror)

não escorra entre meus dedos
no vazio dos meneios;

cubra-me do teu pó divino;
deixe-me assim teu íntimo
(embora eu não possa mais ser teu amigo)

sol radiante entre belas negras nuvens!...

Depois cinza não ficaremos
faremos festa quando chover

- entrelaçados de longe
incontrastáveis atrás do horizonte...

25/07/1983

DE FÉRIAS SEM FÉRIAS

O muro sem trégua maciço das férias

- onde o corpo em repouso segrega a mente
até que esta o desregre impiedosamente -

elevou-se montanhoso à minha frente
sem régua a mil léguas de fato das férias...

... ... ...

... e por mais que eu alpinista decadente
despreocupe de escalá-lo noutra frente

(por saber que já não posso quem o enfrente)

do corpo e da mente preciso de férias...

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

REVISITA 33: DEDICATÓRIA

Quando em ti minhas mãos passeiam
alegres, soltas, agradáveis, febris

E tua pele arrepia; e a carne lateja
tesa e macia

Sorvemos cravados olhares do outro, dardos cadentes
dados do jogo incandescente

E nos tornamos cúmplices, verídicos
legitimamente cativos
da mesma emoção.

Paixão! A loucura senil dos velhos está na tua ausência!...

10/05/1983

domingo, 7 de dezembro de 2014

(RE)VIRANDO A (TREVA) CURVA

pistas

... da criatura apolítica
insatisfeita e acrítica

quando então conjectura

sua loucura política
travestida travessura:

- ver se estão ali na esquina

(se pregando uma doutrina)

[se golpistas na surdina]

{se um futuro que combina}

sábado, 6 de dezembro de 2014

NUBLADA IV

[agora chove
nos contrafortes
de alguma sorte

com epicentro
bem mais ao norte

(verão dezembro
então tropical
se parecendo
com outro Natal)]

NUBLADA III

Este sábado
exatamente

ensolarado
está somente?

(ou só a mente?...)

NUBLADA II

... este sfumato
chiaro cinzeiro

já ensolarando
tão brasileiro:

- por que Leonardo
não interveio

junto a São Pedro
(de Roma mesmo)

chover do afresco?...

NUBLADA

A cobertura
de baixa altura

tem curvatura
de ferradura

meio enterrada
de cavalgada

interrompida
da madrugada

amanhecida.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

(DES)SAZONAL

É todo interno
(nem sempre inverso)

o movimento
(decerto inverno)

que mal intento
agora mesmo.

Este dezembro
de veraneios

ainda não disse
ao que interveio

- por pouco triste
por pouco velho

tampouco quero
que seja menos.

Ainda que visse
no que me adentro

ainda que viesse
de outro novembro

talvez coubesse
dizer que acedo

se movimento
de outros momentos

[se primavera
de outonais eras

reconsidero]

MANÍACO-DEPRESSIVA

Seu olhar e seu sorrir
e o que mais de você vir

(da superfície opulenta
de entranhas aos quarenta)

[eu, se olhar você sorrir
o que mais seu existir
para outro antes de vir...]

quando meus em harmonia
(da vontade que só minha)
[pois tão meus e minha, ó linda!]

são inteiros de utopia
(aos pedaços todo dia)

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

REVISITA 32: VERBO II

Se tiveres em essência

Aquiescência

Tolerarás o absurdo

o obtuso

Dignamente farto...

11/03/1983

REVISITA 31: VERBO

o primeiro

O vento não afaga sua pele como penso
nem perpassa seus cabelos como meus dedos.

Não há chance para nós.
Não há duas palavras para a mesma impressão.

Mas se insisto
em abraçar limitado o infinito

sou um ponto no deserto
que você vê.

19/01/1983

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

REVISITA 30: E. T.

Para além do úmido olhar
no alto negro azul, pó de estrelas
manto dos magos
gráfico do infinito

vive o amigo
perto e viajante

o menino
terno visitante

pomba da paz intergaláctica...

O êxtase extraterrestre.

03/01/1983

DUPLA QUADRA UNIPOLAR

de que me adianta tentar?

Amanheço da alegria
que alvorece dolorida

neste ensolarado dia
de estação interrompida

já que plúmbea deveria
pela quadra duplicida

mal escrita, bem chovida:

- pluviosa sensaboria...

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

BENEFIT

Jethro Tull

... a paisagem de fora
e a de dentro, por ora

coincidem - o que acalma
minh'alma em sua vertigem

em sua sonora origem:

- a de imagem agora
daquela outrora virgem...

MEU RECIFE

do alterego inclusive

Arrecifes
em que estive

- desististe
ô Euclides?

O Recife
em que estive

(indo a pique)

insististe

- porque nosso amor inclusive!...

ESQUECÍVEL

Em dezembro
eu me lembro

de dezembros
contratempos

de outro tempo:

- quando o vento
(que soprava
contraventos)

alentava
turbulento

desalentos
que eu levava

desatento
todo o tempo...

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

DA CONSCIÊNCIA SEM

Jogar melhor o jogo das aparências
a fim de melhor refletir uma essência;

jogar melhor o jogo das aparências
a fim de melhor cultivar parecenças;

circular melhor pelas adjacências
na perspectiva afim de compreendê-las

(talvez melhor proteger as diferenças
e enfim administrá-las com prudência)

[ou] [ou] [ou]

... ou renunciar ao jogo das aparências
a fim de reconhecer sua impertinência

face à termodinâmica decadência;

ou mesmo argumentar pela inexistência
do jogo, das aparências, de uma essência

(talvez aquietar-se pela inexistência
de consequência alguma nessa existência)