segunda-feira, 30 de abril de 2007

GÁSTRICA

O agora absoluto abarca tudo
Desta barca ora sem fundo;
Estrutura, circunstância, o mundo
Todo junto

Num impulso redondo, bojudo
De engolir-te viva, comigo
Comido no mesmo bolo
Encorpado de saliva

Duma carícia infinda, extraída
Suada maresia, à deriva
Na noite desatada; e de dia

Nessa barca que abarcaria
A vida digerida, antiácida drogaria
Eu em ti acordaria...

domingo, 29 de abril de 2007

PLANALTO ABISSAL

Plana a verticalidade
Da possibilidade
De felicidade.

A verticalidade vertiginosa
Do que verdadeiramente importa
Do mundo lá fora

Interiorizo cerrado
Horizontalizada. Chapada
De eterna florada. Assim:

- O hálito vertical
dum abismo que se deita
talvez precocemente

numa espiral entorpecente

(algo impaciente
do cansaço economizado
de tão pouca visitação).

E então

- Qual dobrado precipício
vez colado a chão íntimo
precipite talvez cordas
que rotas lhe atravessem?

(e breves me levem
ao teu coração?...)

sábado, 28 de abril de 2007

DO DICIONÁRIO XVI

Abismo: vazio
Entupido de silêncios
Todos gritos.

FANTASIA

Os dedos
Digitando tuas costas

São os mesmos
Delicados anjos pequenos

Por quem oras
A vir ligeiros

Quando gozas

(em pensamento
emulando-os terceiros)

sábado, 14 de abril de 2007

ÀS AVESSAS

Ela, secretamente
Mente, aberta à mente
Quando nega, prontamente

(como aleivosia do presente)

A curva ascendente
Da luz tênue, travessa

Que nos atravessa
Reta, obliquamente
A longa via deserta

Àquela estrela à vista:

- Carícia das dobras das fímbrias
do seu leito de sombras compridas...

PASTORAL

Entre as sombras
Das poucas verdes
Folhas descendentes

Desta árvore antiga
Que se desdobra, amiga
E tortuosa, te abriga

Tuas sombras
(todas contundentes)
Confundem(-se)
(N)o presente.

sexta-feira, 13 de abril de 2007

Paraninfando II

(na formatura dos Cursos de Comunicação Social e de Ciências Contábeis do Centro Universitário de Brasília, ontem)

Cronometrei dois minutos e trinta segundos para esta fala; menos que o tempo de um político candidato a cargo eletivo, sem interrupção, num debate televisivo. Portanto, atenção!...

"Boa noite! Em primeiro lugar, gostaria de agradecer aos formandos desta noite pela oportunidade de estar aqui, na condição de seu paraninfo. Talvez seja esta a maior das honras para um professor que aprendeu a amar a sala de aula - representar seus colegas junto aos estudantes neste momento de júbilo e reconhecimento. Definitivamente, sou privilegiado por estar aqui representando os professores e professoras dos Cursos de Comunicação Social e de Ciências Contábeis do Centro Universitário de Brasília, professores e professoras tão competentes no desejo de ensinar quanto no que lhes cabe ensinar. Considero-me privilegiado porque sei das dificuldades enfrentadas pelo trabalho docente num mundo que parece negar, reiteradamente, a importância da verdadeira educação na formação de seres humanos integrais - seres críticos, capazes de pensar e agir com independência, e autônomos na medida em que reconhecem o caráter interdependente da vida social, ou seja, a responsabilidade de cada um para com todos nesta vida.

Nesse sentido, gostaria de aproveitar esta hora de celebração retribuindo um pouco do convite que me foi feito. Convido os formandos desta noite para uma pequena reflexão sobre um pequeno aspecto do papel da escola neste mundo em que vivemos. Dizem por aí que a escola mal prepara para a vida; que a escola, ingênua e idealista, na melhor das hipóteses teoricamente impraticável, ignora ou subestima as asperezas e as contradições do mundo real. Que ela, ao defender a possibilidade de um mundo melhor, termina despreparando seus estudantes para o mundo que está aí - o único lugar, afinal, no qual todos temos de sobreviver.

Como professor - melhor dizendo, como professor sobrevivente neste mundo real -, gostaria de sugerir a vocês a inversão desse argumento, inversão que resumo na seguinte tese: nunca, nunca como agora, este mundo em que vivemos tem precisado tanto da escola! Se quisermos um dia superar os males que nos afligem, que nos fazem desacreditar na possibilidade de uma vida bem vivida - isto é, uma vida próspera tanto material quanto eticamente -, teremos não de simplesmente levar este mundo que está aí para dentro da escola, como muitos defendem, mas sim de proceder metódica e persistentemente o contrário: trazer os valores da escola para este mundo; contaminá-lo daquele idealismo algo ingênuo, mas que hoje parece tão necessário.

Enfim, é o que venho aqui desejar, de coração, aos formandos desta noite. Até agora, vocês estiveram na escola; daqui em diante, carreguem a escola consigo, dentro de vocês, para dentro do mundo! Porque, cedo ou tarde, todos nós terminamos descobrindo, invariavelmente, que meramente sobreviver não é suficiente. Portanto, desejo que todos possam desejar uma vida plena, plenamente humana - a única vida que, verdadeiramente, vale a pena!...

Muito obrigado!"

quarta-feira, 11 de abril de 2007

CASERNA

O fim da tarde que arde
Subitamente fria
É a hora e a vez (sombrias)
Da tua cavalaria;

Soberba, consciente
Condecorada ricamente
De certeza variada, repassada
Continuamente;

Uma linha compacta defensiva
A desfilar garbosamente
Contida - frente

A um desejo inocente, assim
Como se espelho perfilasse
No gargarejo - enfim

Assistindo ao cortejo (de mim)...

terça-feira, 3 de abril de 2007

Mulher

Habita em mim uma dialética alma feminina, cheia de perguntas que nunca se encerram. Tenho dúvidas e certezas, choros contidos e sorrisos distribuídos. Não sei quantos sonhos invento ou quantos medos carrego. Sou vírgula, ponto final, reticências. Tenho entranhas que geraram vidas, fantasias que não aconteceram, cicatrizes abertas, desejos.

Meus olhos alcançam além do que permite a retina, os fatos chegam depois do que revela o meu sexto sentido, meu coração adoece a cada vez que me desencanto, e me despedaça, e me machuca. Sou a mão que bate, a voz rígida que ensina, mas sou o beijo que consola, que ameniza. E essa complexidade desgasta, corrói, violenta.

Mas há em mim força, coragem, mistério. Sirvo-me das máscaras que guardo para me transformar em tantas... Grito, choro, me arrependo, e depois consigo sorrir do meu próprio descontrole. Vivo ao extremo angústias e momentos bons. Carrego na face todos os sentimentos de uma só vez. E sei que sou feita de sensibilidade e contradições porque nasci mulher.

Ju

quarta-feira, 28 de março de 2007

RATO

Às vezes, gostaria de deixar um canto
Me observando.

O silêncio costurado num pano
Amordaçando, invisível

O ruído certeiro do tiro
(esburacando meu queijo suíço)

Fogo amigo.

sábado, 24 de março de 2007

SHEHERAZADE

Meus ouvidos roucos
De tanta escuta; de tanta
Palavra que desacostuma
O que de mim procura

A lua, pela rua larga
Da tua madrugada escura

Devoram, aos poucos

- Do cesto bem-disposto
que tua ousadia, contida
revira, conosco

As laranjas perfumadas
Que caem, silábicas
Dádivas, uma a uma
(úmida, pétala, regada)

Da tua boca
Abençoada...

sexta-feira, 23 de março de 2007

Novas tecnologias e possibilidades expressivas

artigo para o Esquina, jornal-laboratório

Somente há dois anos, na última edição do Fórum Social Mundial realizada em Porto Alegre, pude finalmente começar a perceber o alcance e profundidade dos múltiplos usos humanos das novas tecnologias. Após quase duas décadas envolvido com estudos sobre legislação e políticas de comunicação - regulamentação de mídias tradicionais e novas -, até então eu subestimava as perspectivas potencialmente revolucionárias da transição em curso: embora já reconhecesse o caráter estrutural de tais mudanças, em épocas de alegada desmobilização política a economia política por mim advogada tendia a absolutizar o que, das históricas desigualdades características de nossa sociedade, subsistiria na nova sociedade da informação. Não que a abordagem dos mecanismos de reprodução do poder dominante em novas condições não seja de importância fundamental; afinal, é da competência histórica do poder sua capacidade de bem reproduzir-se. Mas tal abordagem, se de fato histórica, tem de dar conta também dos aspectos insubordináveis das transformações sociais - aqueles elementos a princípio intratáveis que, uma vez fatores atuantes nas fissuras do real, abrem caminho para o (im)possível. Enfim, como indagou certo filósofo barbudo no século XIX, de que valeria compreender o mundo senão para transformá-lo?...

Assim, no turbilhão caleidoscópico de um evento extraordinário como aquele em Porto Alegre - o qual, diga-se de passagem, só se tornou possível com a mobilização dos novos movimentos sociais operando em rede -, meus olhos sofreram sua transição correspondente: ao invés de apenas procurarem o velho no novo, passaram a atentar cada vez mais para as particularidades do presente em rápida transformação.

Dali para cá, tenho procurado identificar nas novas tecnologias de comunicação - especialmente na Internet de incalculáveis implicações, conseqüências e possibilidades - as condições ditas materiais, objetivas, que permitiriam a um número crescente de seres humanos (segundo informações recentes, hoje ultrapassando um bilhão de indivíduos) reorganizarem, em graus variados e de diferentes maneiras, parte significativa de suas relações com o mundo; e ao longo desse processo, reciprocamente alterarem tais condições no sentido de uma superação acelerada, quantitativa e qualitativa, da velha ordem. Para além das discussões tornadas corriqueiras sobre a crise do jornalismo e seu impacto na formação dos novos profissionais - eixo temático do meu trabalho docente no UniCEUB -, gostaria de chamar atenção para um aspecto da transição menos discutido nas disciplinas que ministro: as novas tecnologias como veículos de possibilidades expressivas exponencialmente ampliadas, experimentadas integralmente como possibilidades comunicativas.

Aqui, refiro-me especificamente à expressão estética, cônscio de que, pelo menos desde Pierre Lévy, uma vasta literatura acadêmica e não-acadêmica tem se constituído sob a rubrica-tema da "cibercultura". À parte questões relacionadas à produção coletiva, arquitetura aberta, fim da autoria etc., neste rápido artigo desejo mencionar um tópico algo prosaico, que creio comum à maioria das pessoas, embora pouquíssimo valorizado: o novo alcance da dimensão íntima, afetiva, daquela expressão.

Por exemplo, no que respeita à expressão escrita, muitos de nós tentaram, em algum momento da vida, registrar impressões acerca tanto do que nos cerca quanto do que nos vai por dentro. Diários, poemas, comentários avulsos, diálogos íntimos freqüentemente tomados como infantis, pueris, costumavam ter antes o mesmo destino: o fundo da gaveta. Se dotados de qualidade literária - isto é, capazes de mobilizar afetivamente um número indeterminado de pessoas, entre outras implicações -, deles pouco se poderia saber, vez que, numa cultura onde o senso comum entendia o talento artístico como sobrenatural, os constrangimentos à divulgação eram consideráveis. Dessa forma, as aspirações de muitos a uma vida plenamente criativa encerravam-se prematuramente, assim como a perspectiva de interlocução em círculos afins e mais amplos.

E agora? Weblogs, sites, páginas pessoais decretam, segundo apocalípticos e integrados respectivamente, do fim da distinção entre o público e o privado ao florescimento de um cultivo ampliado da sensibilidade. O que antes não circulava encontra a oportunidade de se fazer conhecer muito além da experiência sensível, independentemente de instâncias (críticos, editoras etc.) sobre as quais a imensa maioria não tem controle. Se uma vez Jürgen Habermas definiu o século XVIII como "o século das cartas" - quando a explosão das correspondências pessoais deu partida à formação da esfera pública burguesa que posteriormente revolucionou o planeta -, o que amanhã dirão do século XXI, que se inicia com a promessa da expressão pessoal que enfim comunica - estética e afetivamente - de maneira irrestrita?

domingo, 18 de março de 2007

DOMINGUEIRA MENTAL

Um passeio ao passado acidentado dos temores
Adequado ao ocaso dos atores, de amores
Estirados de cansados desencontros
De sonhos oleosos de refregas

Dá-se por atalho forrado de cores
Que etéreas mitigaram dores
Colhidas flores - embora sabidas podres
Frutas fora de estação.

Um senão. Que nem corte tão íngreme
Nem por demais pedregoso
Comprometa um juízo
Este obtido penoso:

- Porque o bom retorno do retorno
faz-se adocicado dum acordo
estivado pelo tempo

(se da paixão, mau senhor
de mim não, por favor!...).

quarta-feira, 14 de março de 2007

sexta-feira, 9 de março de 2007

Estranha forma

Estranha essa minha forma de viver, que me faz pensar que estou condensando o tempo para resolver tudo depois. Na verdade, apenas deixo que ele passe matreiro e arraste consigo todas as chances, todas as oportunidades, todas as coerências e, quem sabe, para sempre.

Mais estranha é minha desambição de galgar caminhos que me não apontem apenas limites. Desejo estradas sortidas, condutoras, sedutoras. À frente, quero enxergar saídas e não bloqueios, flores e não apenas perfumes, sentir e não somente querer sentir.

Distante, vivo o inverso de tudo. Preparo-me para receber da vida o que ainda não lhe pedi. Espero o amanhã diferente, mesmo sabendo que nada virá. Sofro, antecipadamente, pela falta de tudo o que quero fazer porque sei que não o farei. E tenho saudade do tempo em que eu não era nada disso.

Ju

quarta-feira, 7 de março de 2007

TROIANA

Azuis e quentes
São os dias sem poentes
Que, pessoalmente
Assim, interiormente

Escondo em mim;
Contemporâneos doutras vezes
Alargados de repente
Tais buracos ascendentes

Consistem, gêiseres
Num presente à minha mente:

- Sem a noite que alterna
a caverna necessária
à malária descoberta
enfim; ainda que vera, ao fim

para além da vaporosa hera
desta bela, cálida quimera

a queda do trampolim...

domingo, 4 de março de 2007

CORPORAL

Freqüente, penso
Tomar-se todo movimento
A esmo no presente

(independente, mesmo
de intenção que o movimente)

Por outro, alheio
Ao que se passa no momento;

Desloca-se, penso
Continuamente entendimento

(no vácuo entre o rabo fugidio
e a certeza do cabelo em desalinho)

Pelo tempo dividido de maneira
A esquecer de si o ocorrido;

Daí, o que em mim contraditório
Divórcio num hiato remanesce

(o fracasso permanente, a ser
um transitório sempre dever
que se esquece)

Incendeia, geleira carcomida
(do calo ralado à cabeceira)

A mente cuspida inteira
(desmedida dos pés à cabeça)...

sábado, 3 de março de 2007

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

SAÍDA DE QUINTA

Os sinais
Percebo iguais - acesos
Atalhos para o entendimento.

E se tais vejo
Tua sombra discretamente
Remover um dedo - serena

Meia-presença
De minha mente

Acalmo os nervos
Pretensos - e sento
Algo confortado

Na ampla poltrona do tempo parado.

E cotejo - silenciado
Aquela possibilidade
Longe de medonha

(pois conforme a vontade
rarefeita da imobilidade)

De ser verdade apenas isto:
- Se só peso
pensamentos
e despeço
sentimentos

(e de pensar mais sinto
muito! querida)

inexisto
o que existia...

domingo, 25 de fevereiro de 2007

EXPOSTO

Acima da média
Esta agonia - sem trégua
Sem aproximada medida

Ou régua - sem escala
Que reflita a rua larga atravessada
Avenida, quase infinita

Que tua ausência infinitiva
Enseja, desmedida

(sem qualquer perspectiva
da enregelada madrugada
amanhecer apenas fria)

Excita

A fina arritmia
Que lâmina, me fatia

Transparente
(sem qualquer anestesia)

Imprudente
Rente à vida...