quarta-feira, 17 de julho de 2013

QUINTILHA JUIZ-FORANA

a mim

... é bem possível, até provável
que aquele crítico inalterável
que vos aprisiona inafiançável
correto pareça inalcançável
e reto padeça inconsolável...

14/07/13

QUADRA JUIZ-FORANA IX

Como estreita a vida fica
agasalhada do frio!
E como estreita ela esfria
o abraço que asfixia!...

14/07/13

QUADRA JUIZ-FORANA VIII

Domingo na serra urbana
da beirada juiz-forana.
Cerra a luz das nuvens frias
as paredes verdes-cinzas...

14/07/13

QUADRAS JUIZ-FORANAS IV

urbanas

A cidade vertical
(alto-relevo predial)
assombra o Paraibuna
com sua tarde escura...

***

No busto do tio Belmiro
pomba havia - nenhum pio
no alto da cabeça antiga
- o olhar fixo, a pena lisa...

13/07/13

terça-feira, 16 de julho de 2013

QUADRA JUIZ-FORANA VII

Retratos, fotografias
da família em que confias:
- gente de papel que habita
só a tua escrivaninha!...

12/07/13

QUADRA JUIZ-FORANA VI

Coitadinhas, tenho pena
de palavras coitadinhas:
- dores de bocas vizinhas
males desbocam apenas...

12/07/13

QUADRAS JUIZ-FORANAS III

santificadas

Terços e crucifixos:
- a imagem do sentido
da passagem dos vivos
subindo a preço fixo...

***

Tem missa católica
na tevê apostólica
pelo bem, não leve a mal
se tão neopentecostal...

***

Igreja de São Mateus
casa de pedra de Deus:
- teu cinza hostil aos ateus
repinta de anil os teus...

12/07/13

DUPLA QUADRA JUIZ-FORANA

A certa altura da vida
nos hospitais da rotina
o que sente o meu futuro?
Receio o medo, contudo

se antes da hora devida
resignar-se a titia
às lamentações de muro:
- as infinitas por tudo...

12/07/13

QUADRA JUIZ-FORANA V

Morto pelo tempo
nublado dos ventos
jaz o esquecimento
que vives há tempos...

12/07/13

segunda-feira, 15 de julho de 2013

QUADRA JUIZ-FORANA IV

O frio mineiro
na Zona da Mata
parece do tempo
que esquece de nada.

11/07/13

QUADRAS JUIZ-FORANAS II

familiais

Estar com mulheres
que estão desde sempre;
usar seus talheres
comê-los às vezes...

***

Onde elas moram
vivos e mortos
trocam as almas
diante dos olhos...

***

Nesta família
prezam o texto:
- rezam do terço
a mesma Bíblia.

11/07/13

QUADRA JUIZ-FORANA III

Quem seriam as tias
se não coadjuvantes
daquelas companhias
que amamos doravante?...

10/07/13

QUADRAS JUIZ-FORANAS

maternas

É a casa da minha mãe
caixa aberta dos cheiros:
- os da infância primeiro
segundo os derradeiros...

***

A desconversa da mãe
- de miúda em gastança
é mãe dessa conversa
graúda em vizinhança...

***

... pois Ave Maria
tão cheia de graça
- se pela mãezinha
és mui abençoada!...

10/07/13

terça-feira, 9 de julho de 2013

QUADRA JUIZ-FORANA II

e adendo possível

Dezesseis horas
no pau-de-arara
(luxo da estrada)
pra Juiz de Fora...

[se rodar mais três
(se rolar um mês)
vou em janeiro]

segunda-feira, 8 de julho de 2013

TEXTOS E CONTEXTOS

se os primeiros sem os segundos

Pense os neurônios em suas sinapses
- no caso tenazes e perspicazes

junto ao nervo óptico, ao auditivo
pavilhão, a pés e mãos olfativos

e ao paladar do trato linguístico
o que consubstanciarão? Se letras

talvez sílabas, fonemas apenas

tal qual palavras ou frases capazes

do vão consentimento de sentenças

de parágrafos - prosaicos mosaicos

poemas, romances, novelas, estórias

custando contos de réis da memória...

Repense os neurônios e seus sequazes
caso versículos capitulares...

QUESTÃO DE ATENÇÃO

Marreta do vizinho
marreta o desalinho

da menor concentração
que desvio e lhe envio.

Martelo por martelo
martela meu ouvido

minha desarrumação
daquilo que extravio...

QUADRA JUIZ-FORANA

Vou visitar o Belmiro
- o Braga, bisavô-tio
hoje robusto de estátua
situada musgo na praça...

domingo, 7 de julho de 2013

LOUVOR AO RIGOR

do maior poeta da língua

João Cabral de Melo Neto.
Pernambucano adepto
del palo seco flamenco

faz o percurso concreto
(diz-se que pavimentado
sobre a água do relato)

do engenho ao Capibaribe
emborcando no Recife;
do Capibaribe à ilha
ida Recife a Sevilha

e dali vaza a retina
(descolada da lírica
por súbita ventania)

de quem lê a pedra gasta
mais de pontiaguda, afiada
no descaminho do passo

de quem medra ensolarado
fundo na lama; o bagaço
atrasado do passado

que mal lhe adocica a canga
refugo da cana; a dança
entre a gitana e o caboclo

de lança - de capa o louco
e lâmina na tourada
do galo, caranguejo, cão:

- mas quem está sujeito ao fio
da faca de uma aspirina?

Severa. Concisa. Exata
Meridianamente clara

a fala dos olhos do João
tão Cabral no palo seco

(a minha leitura que não).

sábado, 6 de julho de 2013

CABE-ME ESCLARECER PORQUE

tantos poemas sobre a tarde
todos escritos à tarde

por outro esteta tardio
(antes tarde que perdido).

Mas no caso desta tarde
de seis de julho, destarte

o que dizer de verdade?

Límpida, magnífica
reluzente em transparência

(face à opaca ignorância
de quem o eterno contempla)

apagando lentamente
sentidos que lhe confiro.

Mérito dela, suspiro
na beleza da consciência

que maior é a natureza...

AFTERLIFE

a matter of recognition

Honestidade: a qualidade
desta cidade, e naquela idade
proativa - da perspectiva
genuína da construção de ruínas

sem habitantes, ventos uivantes
passos nervosos, traços de cloro
ou templos dantes vivos adiante...

Uma herdade honestamente morta
bella donna que nos abandona
(na verdade, posta porta afora)

localizada na encruzilhada
do que seria com todavia

fazer de nuvens sobre ferrugens
clouds inside - all but alive!

***

Qual necrópole de um doidivanas
tem como mote duas savanas
três tombos feios, nenhum dinheiro
e uns gazeteiros meios-desejos?...

(da melhor expiração de nosotros
a maior inspiração repara outros)

***

Que português é este, incompreensível?
Que mala língua é esta, impronunciável?
Que sentimento é este, ó responsável?...

[quanto à questão do valor literário
considero-me (mais um) salafrário]

QUADRA DA AURORA

e (in)variações

A hora do ovo estrelado
na frigideira celeste
recorda ao mundo esfomeado
antes o café do amanhã.

(a hora do ovo estrelado
na frigideira do leste
acorda o povo esfomeado
cheirando café da manhã)

[a hora do ovo estrelado
na frigideira inconteste
evoca o cheiro estressado
do povo café com leite]

...

{agora rastro estrelado
rumo à geladeira a oeste:
- esqueça o mundo enfastiado
parceiro café-com-leite!...}

sexta-feira, 5 de julho de 2013

TÁCITAS COMBINAM

Esta forma é arcaica.
Seu conteúdo, banal.
Por que necessária
se expressá-lo tão mal?

Descalça - a crítica
empática afinal;
modesta - a vítima
prosaica a poesia

a alma ludibriam
porém parcialmente:

- tácitas combinam
títulos somente...

quinta-feira, 4 de julho de 2013

RENTE AO CLIMA

Sob o algodão sujo
mal de inverno que aturo
o ângulo que recolho
é d'olho caramujo:

- um tanto lentamente
enquanto decrescendo
da porta para dentro
a concha intumescendo;

- quão alentadamente
senão pesadamente
vão perguntas que esquento
furibundas do tempo;

- e o quanto longamente
(porquanto lentamente)
eu porteiro sustento
do cinzeiro depende...

[do cinzeiro dependeu:
logo o sol partiu o céu
e ao chover aquele véu
todo desapareceu]

quarta-feira, 3 de julho de 2013

DA SOBRIEDADE

Quando refeita
a mente estreita
assim que pensa.

A estreita mente
quando presente
do jeito estanque

no peito expande
que mais pressente
o que mais sente:

- uma angustiante
vontade adiada
de ser infante

inocente ante
a derrocada
da gente adiante...

NÃO AQUI

Poderia outro estar
noutro tempo e lugar

este ser melhorar?
Independer de haver

quando e onde ter de ver
onde e quando antever?

terça-feira, 2 de julho de 2013

ANATOMIA

das duas vistas

Luz cristalina
- a vespertina

beija a retina
o cristalino

córnea, pupila
fóvea, mácula

o ponto cego
vítreo arco-íris...

Beija a rotina
à tarde feliz...

segunda-feira, 1 de julho de 2013

VIAGEM

Acho que cansei de rabiscar bobagem.
Acho que vou respirar uma aragem
aproveito e revejo a garagem
- mas acho que saco de aniagem
cede o peso com a viagem.
E o carro na passagem?
Deixo ou não mensagem?
E a minha imagem?
Sacanagem...

(e a friagem?)

domingo, 30 de junho de 2013

QUADRA-EXORTAÇÃO

má 'versação'

Sejam bem-vindos ao alto padrão
o Padrão Fifa de Malversação!
Sejam benquistos do novo patrão
o Patrão Fifa da Maior Paixão!...

#9 DREAM

No momento
em que avento
um lamento
lazarento

por nada estar acontecendo

(por não cevar vento
haver movimento
devir a contento

novo equipamento
ou algum adendo)

ouço a tempo o invento
místico do tempo

(correndo e ocorrendo)

no sonho de Lennon...

sábado, 29 de junho de 2013

AGORA QUE ELA FOI

poemeu amorozim

A minha parceira
de amores eleita
de dores doceira
(pois doces receita)

e ardores afeita
(feito pimenteira)

embora roseira
- e espinhos requeira

é mais companheira

que a lua é da poeira
do céu que lhe enfeita
na via leiteira...

sexta-feira, 28 de junho de 2013

DERROTINA

a minha Diotima

Dizer o quê desta vida
da estreiteza da rotina?...

Do prazer que é esta rotina
toda ela repetida

diária, diuturna, igualzinha
parente, amiga ou vizinha

dos relógios, calendários
de negócios e dos vários

deveres atrabiliários
cíclicos e estacionários:

- ordenadores que faço
ordenhadores do espaço...

Dizer o quê da rotina
da incerteza que cativa?

Que é prazerosa essa via
vitoriosa derrotina...

quinta-feira, 27 de junho de 2013

CARPIDURAS

e pergunta

Quando estórias são varridas da memória...
Quando a história...

Quando a estrada percorrida dá em nada...
Quando o mapa...

Quando a mente descaminha decrescente...
Quando mente...

Quando o peito sobrevoa o parapeito...
Quando feito...

Quando a página da lágrima evanesce...
Quando desce...

Quando a hora é postergada até agora...
Quando tarda...

Quanto vento, quanto vento, quanto vento
nesse tempo...

E quanto ao sótão e ao porão do casarão
na escuridão?

quarta-feira, 26 de junho de 2013

QUADRA (BI)POLAR

... como aqueço, comparado a antes:
- alívio sorrindo entre semblantes
dispensados de fardos adiante
diante do regelo contrastante...

terça-feira, 25 de junho de 2013

JUNINA III

de cabeça no problema

Formulemos
debatamos
decidamos
e implantemos

políticas
inclusivas
travestidas
de carícias
exclusivas

pra cuidarmos
com carinho
indizível
e extensível

do declínio
das primícias
e desígnios
extraíveis

do fígado
de galinha
chauvinista

mui sensível
dos fascistas...

segunda-feira, 24 de junho de 2013

CONVERSA REFLEXA

no santuário de um banheiro

Quais teus problemas de sono?

O que concluo de pronto
diante do espelho da face
(dos respeitos ao enlace)

a despeito de haver pontos:

- uns vestígios do passado
e indícios de no presente
ter de alguma forma errado
caminhos que se pressente...

Nas noites por interiores
inconscientes de limiares
atalhas trilhas tão fáceis

de palavreados tão ágeis
entre os rostos familiares
de períodos anteriores;

nas noites por interiores
pelas veredas tão claras

nas corridas e dos suores
lavando os teus arredores

não te calas, não te calas

e portanto nada ouves.

Desejos de claridade
(logo, de felicidade)
sobrevivem, na verdade:

- vestígios de particípios
indícios de precipícios

por que importam teus receios?
Tanto erras que erros acertas

dissolvidos em seguida
na indiferença do dia.

Minha mente gira esferas
e não tens nada com elas!...

domingo, 23 de junho de 2013

QUADRA DE ANTES DA FAXINA

Vezes um balde vazio
(de um plástico vagabundo)
enche elástico o sentido
de mais vazio no fundo...

sexta-feira, 21 de junho de 2013

JUNINA II

a Joseph Blatter

Na arca nova, um velho Noé
marca cordeiros e lobos
- uns ordeiros, outros bobos

das manifestações de fé
de papagaios a louros
que são bichos que dão o pé...

Da arca nova, o mesmo Noé
marcha cordeiros e lobos
- uns primeiro, depois todos

em manifestações a ré
patrocinadas por outros
- os bichos que darão no pé...

quinta-feira, 20 de junho de 2013

JUNINA

Entre a Fifa e o passe livre
há físicos de bom alvitre
e químicos já com salitre...

Entre a vida e a faceirice
dos que labutam meninices
há fé - até na gente à toa...

[surfistas de todo calibre
artífices das superfícies:
porão escafandros na proa?]

Entre a minha e a nossa lide
há deslizes - senão matizes
de uma condição que enodoa

a vida passiva que assiste
à pilantragem partícipe
entre a Fifa e o passe livre...

[enquanto isso, brasileirice:
um passarinho sem alpiste
retaguarda quem o despiste]

quarta-feira, 19 de junho de 2013

LABIRINTITE

Primeiro
a penso
um peso
terceiro

que agora
percebo
apenso
adentro;

um centro
que entorta
de dentro
pra fora

o penso
entorna
o tempo
na hora:

- vertigem
de viagem
à margem...

terça-feira, 18 de junho de 2013

REDIVIVO

Os ruídos do mundo
no qual sou defunto
me acercam, contudo

de puídos arrulhos
que juízos, barulhos
me acertam com tudo...

segunda-feira, 17 de junho de 2013

PROLEGÔMENOS

antes do início da leitura
do Livro das mil e uma noites

... este lugar e momento
em que estou leitor sedento
costura sorte com chance:

- neste vagar ao relento
a textura, num relance
da feitura do romance

pela história da memória

dela a contar as estórias...

sexta-feira, 14 de junho de 2013

QUADRA(S) DE FIM DE SEMESTRE

da faca e do queijo na mão
(com adendos)

Pros meus atados alunos
(os amados, los hermanos
e os romanos, sobretudo)
sou Átila, rei dos hunos:

- o que atila os instrumentos
(os cortantes contratempos
de alados planos lascando)
queijo-do-reino entre os dedos...

quinta-feira, 13 de junho de 2013

CARTA PARTIDA

a Carolina

Ah, minha amiga
que desentendo
tão longe ainda!...
Veio outro dia
feito cantiga
(quando eu ouvia
reto e direito)
duas notícias
a teu respeito
que a brisa alinha
de encontro ao peito.

Quanto à primeira
não desconheço
o que te anima
(por peçonhento)
tão lagartixa
na ideia fixa
de outro momento
que foste e afixa
entre paredes
qual uma rede
de expectativas...
(tente, brunette:
- faça omelete
do que derrete!)

Já na segunda
(que a contraria)
há Carolinas
do pé-na-bunda:
- as furibundas
e decididas
e preferidas
(portanto o apreço)
desta torcida
contra as patranhas
entre outras tantas
que reconheço.

Ah, minha amiga
nessa distância
ora indistinta!
Por que te penso
num contrassenso
se bem curtida
a tua desdita?
Tal contrapeso
refaz a sina
de um recomeço
assaz bonita:
- isso a despeito
de se bem feio
o parapeito
da ação infinda...

Ah, mais querida
pois requerida
mais Carolina:
- quando te beijo
do jeito ao vento
eu me desejo
a tua alegria
mesmo sovada
e embranquecida
do pó da entrada
que soprarias
(záz catavento!)
com dó da estrada...

domingo, 9 de junho de 2013

DUPLA (SEM) QUADRA

Antes de partir
depois de chegar
vou achar que vir
era pra ficar

achando de ir
ora de lidar
depois que partir
antes pra chegar...

sábado, 8 de junho de 2013

METAFÍSICA DOLORIDA DAS JUNTAS

O meu coração leva o meu corpo a passear
a andar, marchar, correr, meditar - e voar, zoar

pela noite insetívora por encontrar
zangões gastos como eu - de um vigor fabular!...

[o meu coração recusa a confabular
com tecidos em regime domiciliar]

A minha paixão ceva o meu pensamento
(enquanto faço, forço, gozo e padeço)

a considerar tal comprometimento
(enquanto aprofundo o seu entendimento)

colateral - dado o terreno sal local

daquele suadouro de razões corporais
naquela etérea via concreta ademais

a requerer-me menos - mais ocasional...

quinta-feira, 6 de junho de 2013

OUTRA ESTAÇÃO DO LOGRO

apesar de Andrew Jennings

Da mesma forma
que junho corta
o meio do ano
no mesmo lanho

a chuva agora
que molha junho
resseca julho
ao ir embora;

e aquele entulho
Copas afora
de todo mundo

aduba o plano
deste altiplano
florir embora...

quarta-feira, 5 de junho de 2013

MUNDO ANIMAL

a Mércia

Centopeia
borboleta

juventude
madureza

uma ideia
uma teia

amor tal que não se esqueça
bicho, qual seria? Tipo

pés calçando compromissos
necessários porque tidos

ou são asas de vestidos
acessórios e bem-vindos?

A beleza cultivada
da pedreira laborada

dia a dia na jornada?

Ou o mármore do mito
ardendo o sonho mais lindo

da sacada nos sorrindo?...

***

Centopeia
borboleta

é possível compreendê-las
traças de antenas apenas?

São mamutes
de levezas:

- uma abelha
mel e cera

uma velha
Cinderela...

Depois delas
antes seja

amor tal que não pereça
das virtudes da incerteza...

terça-feira, 4 de junho de 2013

DA PEQUENICE

poeminha banal

Tempo das curtas
- mas mais desculpas

por atropelos
a contrapelo

sequer avento.

Vento de chuva?
Lento na bucha?
Tento de luva?

Sequer avento
se curto o tempo...

(sequer o vento
lhe furta a tempo)

[sequer alento
a busca adentro]

segunda-feira, 3 de junho de 2013

PEDAGOGIA DA MESADA

da esmola?

A honradez
da escassez
não tem vez

toda vez
que dou dez
ao invés

de ser três
(dois talvez)
todo mês...

sexta-feira, 31 de maio de 2013

SQUARE TWO

to Chris & bandmates

So cold your play
- but I'll stay
a gateway
to such a sway...

DAS CONSTRUÇÕES

externas e internas

Com trabalho e recursos
uma casa e seus muros

com trabalho e recursos
esta casa e seus juros

com trabalho e recursos
minha casa e seus usos

com trabalho e recursos
uma vida intramuros...

Repeti-lo comigo
consigo, mantra antigo

sem baralhos ou furos
salvaguardas, decursos
sem viradas de turnos

nem orvalhos nos olhos

com trabalho e recursos...

quinta-feira, 30 de maio de 2013

DAS ACOMODAÇÕES

inanimados de abraçados

Parada em frente ao algodoado
céu de um par de olhar enodoado

- que se revê de fato opaco
qual tevê aberta no ocaso

afunda a bunda do eu sentado
uma poltrona - imaginados

seus furos, ferrugens e cacos
apuros às margens dos fardos

- do fado que acarreta os barcos
ao mar descuidado, cuidado!...

***

Ó lar de nuvens carregadas
senão translúcido de nadas!...

Ó mar destinado a trapaças
balão abandonado às traças!...

Paraste bem diante das maçãs
amarelentas desta cara

pasmada, replasmada e dada
neste cara como estragada

nesta cadeira, desde as manhãs...

quarta-feira, 29 de maio de 2013

DEPOIS DITA NOTURNA

da lua do arco de sol

A luz deitou de lado
ao fundo - a flecha no alvo

certifica uma anuência
risível - porque ausência

de sentido na via:

- desfazeres do alento
a azeitarem poesia...

VESPERTINA POESIA

a que enfim predomina

A luz vai neste lado
esquerdo - a flecha do arco

retifica sua ciência
notável - da direita

o trajeto do dia:

- de afazeres ao vento
a azedarem a dita...

MATUTINA POESIA

contraste às vespertinas

A luz vem do outro lado
direito - a corda no arco

estica sua presença
invisível - à esquerda

um projeto de dia:

- de afazeres a tempo
de azularem a dita...

terça-feira, 28 de maio de 2013

QUADRA ANTROPOMÓRFICA

A luz da tarde de maio
- naquela parte em que saio
reluz destarte o que a reduz
às belas-artes do raio...

segunda-feira, 27 de maio de 2013

DILEMÁTICA

Há uma faca
uma mala

(e uma traça)

e mais nada
que o desfaça.

TROPICAL

under the tropical sun
we can only have fun

Paradoxo sem qualquer brevidade
de um flashback prematuro à tarde
por declínio resoluto da idade:

- se Flórida de uns, outros noutra sorte
Vale da Morte retardada ao norte

do Equador mitológico florido
a apartar-nos do Vale do Silício;

se Flórida alguns, outras praças-fortes
contemplam mares reavivando cortes

ao longo de geológicos istmos
a afastar-nos no vale em que existimos...

QUADRA ANÔNIMA

Fragmento-me
obscuro se
sequer um poemeu
mirei e te perdeu...

DUPLA AÇÃO

bons saponáceos do fígado

Mil ângulos de noventa graus
de oitenta, cem - batem por degraus

granizos de chuva federal
no meio da seca capital

- seu antisséptico sideral.

[enquanto isso, na tevê, no jornal]

Mil pândegos escalam os graus
da indignação moral - os tais

quais corregedores provinciais
são solicitados mais e mais...

QUADRA ABSTINENTE

Tempo sem escrever
é desaparecer
quando reaparecer
desaparece haver.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

INTERVALO BIPOLAR

e la nave va

Da sala dos professores
prenuncio os corredores
emparedando temores
rumo às câmaras de açoites:

- um barquinho solícito
solidário e patrístico
paralelismo entre o abismo
e o naufrágio do ofício...

Na sala dos professores
apartado dos horrores
conjurando quais rumores
me esqueço pelos Açores:

- o varão mediterrâneo
um cação extemporâneo
(embora só no Atlântico)
dessa forma sucedâneo...

***

[nesta Arca de Noé
tão ao sabor da maré

não boto fé
não dá mais pé

se mal servido o café]

terça-feira, 21 de maio de 2013

PORNOAMOR

curta romântica

Duro-me
furo-te

guloso
no modo
cafofo

que acha-te
que amo-me.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

SOB O SOL II

Teus raios assim refratados
retocam o fogo que assoalho

no encontro das luzes de maio

pois pintam maiores os lábios
de bocas contrárias no inchaço

do que um átrio entreabre larvário

a formigar subcutâneo
nas variações subterrâneas

do que te dou mediterrâneo...

domingo, 19 de maio de 2013

EPIFANIA

Ensolarada esta tarde
de verdade e de mentira!
Ensolarada a verdade!
Ensolarada a mentira!

Ensolarada a certeza
daquele que se duvida!
Ensolarada a descrença
naquilo que certifica!

Ensolarada a partida!
Ensolarada a corrida!
Ensolarada a chegada
de quem anda, voa e nada!...

Ensolarada tão tarde
- na verdade, na cidade!
Ensolarada tardia
- mentira se então sabia!...

sexta-feira, 17 de maio de 2013

ETNOLÓGICA

a Eduardo Coutinho

Num cinema
documental

quem faz cena
se faz normal.

Quem faz cena
periferal

tal cinema
refaz central.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

DE QUATRO

quadras enganosas

Presumindo
ser galante
adquiro
uma amante.

***

Presumido
anelante
admiro
ser dançante.

***

Espremido
ofegante
admito
um calmante.

***

Ex-premido
navegante
advirto
que farsante.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

NAS CIRCUNSTÂNCIAS II

Por malfeitos caminhos
os escrevo curtinhos

[gravemente tísicos
logo metafísicos]

cordão de palavrinhas
esquartejado em linhas

[se canhão de palavrões
eu ansiaria (os bordões)]

as estrofes indispostas
tencionando impostoras

[a sós, acompanhadas
por vós ou nossas valas]

serem lidas como tais
- sóis infinitesimais.

terça-feira, 14 de maio de 2013

NAS CIRCUNSTÂNCIAS

fracasso honesto

Uma hora pra alguma poesia:

- menos agora, na correria
do momento que antes bastaria
noutro tempo, doutra freguesia...

***

Minutos diminutos - e o poema
é isso: um indício de problema

vestígio da inanição do tema...

***

São cinco e meia - e à meia-boca
apresso uns versos sem força, à toa...

***

Aqui já era. Seria dela...

segunda-feira, 13 de maio de 2013

A ESCOLA ESQUECIDA DO COTIDIANO

Retinas nos ajudam a perceber.
Rotinas nos ajudam a proceder

porquanto necessária a repetição
de passos, casos, ocasiões - o fogão
donde o cozimento de ponderações.

Rotinas não ajudam a proceder
quando mortos vivos apodrecemos
no escuro profundo dos desesperos.

Retinas nos ajudam a perceber
quando vivos tortos nos prometemos
reconhecê-lo - e fecundos revermos...

sábado, 11 de maio de 2013

DA INUTILIDADE DO ARREPENDIMENTO

Do passado

do vivido

do largado

do retido

do tomado

do cedido

do juntado

do partido

do acertado
e esquecido

duvidado
e omitido

desamado
por querido

e do errado
com capricho

dizer o quê?

Que bendigo
ter podido...

sexta-feira, 10 de maio de 2013

METODOLÓGICA

fragmento

... essa abertura para o inesperado
- seja um imprevisto ou o extraordinário -
não é natural. Tem de ser cultivada
- aprimorada em frágua sofisticada -
porque então permanecer a descoberto
será como pedir carinho ao martelo.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

PAR

A noite acabou de deitar.
Quando for dormir, haverá?

Por enquanto, a desconverso
embalando, verso a verso

nós dois, depois de nos rever
cansados do diário dever

de estar, de poder, de convir
reparar, resolver agir
a par de saber, antes de ir
provar do prazer de seguir...

A noite acabou de virar.
Quando dormirei, dormirá?...

IN BRAZIL

Sou um estrangeiro em meu país.
Mal situado. Mesmo amando Elis
cantando Chico e Jobim, vago
incógnito e distanciado.

Alheio às cotidianas luas
aos ruídos das variadas lutas
pergunto-me, sob o sol pátrio
o que há nesta vida de errado?

Leio-me estrangeiro em meu país
apesar de Machado e Cabral
afiançarem que o banzo é normal.
Se sonho matas e águas brasis

por que as erro ademais tropicais?
Brasileiro de quais carnavais?
Musical, literário, estival
qual pandeiro de armário, afinal...

terça-feira, 7 de maio de 2013

OUTRA DIETA

de vez a seca

Precisamente desta cepa
vem a aurora do outrora solar
ao léu do fim (enfim!) do escarcéu:

- aquela flâmula beleza
retorcidamente a desfolhar
o que a natureza incandesceu

florada carnívora ao poente
ajuntando à beirada do céu
suas moscas cozidas al dente...

sexta-feira, 3 de maio de 2013

ANVERSO

em verso

Uma poesia
ao sol a pino
submetida;

a um descabido
(sob medida)
regime a frio;

ao descalabro
do estreito espaço
premindo o tempo
(nele o alento)

de escolher a cor
a tingir a dor

da sorte do amor
na vida menor...

Uma poesia
à vizinhança
extemporânea

oxidaria
(tal a tardança)
contemporânea:

- pois alexandrinos mais não solicitam
{os magnos Baudelaires ad infinitum...}.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

FEROZ ALZHEIMER

deseducação

Vai abordar o mundo
de quem vem moribundo
o abandonando a tudo

ou roça a superfície
a tutora artífice
da ignorância em riste...

O curso todo é triste.

Pra quem vem furibundo
atirando em perdizes

incauto ou nauseabundo
à mercê de arrecifes

é chiste a todo custo

deparar que inexiste
desempoçar profundo...

sábado, 27 de abril de 2013

DA FLUÊNCIA DAS CADEIAS

A questão
mormente
da estação
corrente
de antemão
presente

à mente
sobre a ação
à frente

candente
brotação
de sempre:

- transição
de lição.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

DA NATUREZA DA FRAUDE

conjugação regular

Eu te engano.
Tu me enganas.
Ele engana.

Nós desenganados
vos desenganamos

neles acreditando...

quinta-feira, 25 de abril de 2013

AFINAL VESPERTINA

pensando em Cruz e Sousa

Uma manhã daquelas
noite de Cinderela;
de uma aurora, à janela
à toa a soprar bela;

numa tarde estendida
madruga boa a vida
entre as várias perdidas
- das tidas às partidas...

***

Uma tarde sozinha
quando tarde declina
(antes arde seguida
mui cansada dos dias)

na luz do sol de Sousa
se abre em tapeçarias
(as dores coloridas)
à noite que avizinha...

quarta-feira, 24 de abril de 2013

GARGALO IV

constatações

A perspectiva
do prospectivo

(velho dançarino
experto, adivinho
que não perde a linha)

é o liso chão movediço

(a clivagem imprevista)

que o futuro agora cria.

***

A perdição que se vê
funda e só na garrafa
é a condição de você
mesmo um nó da tarrafa...

segunda-feira, 22 de abril de 2013

GARGALO III

o beco de um conto

... esse encadeamento
de escolhas no tempo
dos fatos ao vento
de lado batendo
dobrado ao relento

do laço em que lento
as folhas preencho
na bolha em que avento
dados do momento...

Então depreendo
que um paço acalento
(mas não compreendo).

A estória - mal lembro.
Sua memória - eu vendo...

domingo, 21 de abril de 2013

PRESENTE BARROCO

futuro pastiche

Um limpo domingo
de nuvens, florido

do Olimpo ao presídio
no mundo em que vives
anexo ao que pintes:

- eu peço que imites
um Rubens de hospício...

sexta-feira, 19 de abril de 2013

QUADRA DO BOM ALUNO

Tome um gole de café
acorde e então estude
seu objeto de fé:
- um café seu no bule...

quinta-feira, 18 de abril de 2013

PENA

Quando sou ente a desaparecer
em momento de nenhum fôlego
vem de repente um prolegômeno
curto, singular - um fenômeno!...

"Enquanto mal houver o que dizer
sento-me, sinto-me; se parecer
que estou morto, melhor adormecer
o meu triste entardecer de pombo".

PEDAÇO DE BILHETE

perfumado alfinete

... ao dar um tempo de si.

Subtrair-se daqui
sem trair-me haraquiri.

Apartar-me colibri
do caminho por ali
às murchas flores daí

abandonadas por ti...

terça-feira, 16 de abril de 2013

GARGALO II

e um espelho refrator

Como é difícil atravessá-lo
e fácil compreendê-lo; mas atá-lo
dourado peixinho vermelho de aquário
num cabo rotineiro de fluxo sensato

(rabo rebolado perfeitamente encaixado)

[sendo]

mais do avesso tubarão retardado por dinheiro
antecipado imprevisto no indeciso conjunto deste experimento

antecipado indeciso no imprevisto conjunto deste envolvimento
avesso ao retardado tubarão por mais dinheiro

[tendo]

(perfeitamente reencaixável rabo enrolado)

... ... ...

... ...

...

{até parar de bater}

segunda-feira, 15 de abril de 2013

MATÉRIA ESCURA II

... pois ouço ressentidos
(ninguém por consentido)
pouco aquém dos sentidos

os ossos invisíveis
(o aço pois presumível)
do espaço previsível

[meios dos fins do início]

MATÉRIA ESCURA

Um magro silêncio estudioso
às vezes reouço neste corpo
soprando aqui, ali, acolá:

- pequeno grupo predisposto
celular, especular, olho
interior por exteriorizar.

Porque vendo, em vez deste corpo
o que muito aquém está no mar

toco a tez da terra também no ar
preso à superfície deste horto

que trago magro, poeira estelar
há muitas eras, terras de lá:

- além de ruídos, indícios já
movendo aqui, ali, acolá...

sábado, 13 de abril de 2013

GARGALO

Espremido
percevejo
do que sinto
de passagem
sobra texto
pras bobagens

que descrevo
de paisagens:
- sobrepeso
que habilito
pela imagem
exprimindo...

quinta-feira, 11 de abril de 2013

A ORDEM DOS FATORES II

poesia

Eu sinto e escrevo
poemas pensando

no que primeiro

sigo segundo

um autor terceiro:

- meu alterego
mau e benigno...

A ORDEM DOS FATORES

pedagogia

Primeiro a lição
segundo a prova.

Primeiro a prova
segundo a lição.

A lição da prova
primeiro. Segundo
a prova da lição.

Lição primeira:
- segunda prova

(segundo a lição
prova primeira).

***

Prove primeiro
segundo a lição

(a derradeira).

quarta-feira, 10 de abril de 2013

DA TEMPESTADE

O tempo imediatamente à frente
tão escuro, tão espesso - e rente

a um chão que malsão não reconheço!

Imediatamente - de repente!
Tal momento rente, qual serpente

insidiosamente mal percebo...

O desenho desse agora mesmo
desse aqui tão inseguro e estreito

faz-me ir do que a mente pressente:
- um devir nervosamente ao peito...

terça-feira, 9 de abril de 2013

SOBRE O PRESCINDÍVEL

vão

Não há o que não passe
- amor, dor - e trace

o que não se apague.
Por que então impasse

- se vou, vais - que afague
desrazão de ais demais?...

segunda-feira, 8 de abril de 2013

QUADRA INGLESA

Maggie, rest in peace.
But please, Milky, please
take your ideas with you
(and those policies too).

MIL E OUTRAS NOITES

entre duas vigílias

... e um barco apareceu do nada
- enevoado vaso fantasma -
num sonho em que uma nau naufraga
- tão tragicamente que atrasa -
ao término de uma batalha.

Assim termina a estória rasa
de um couraçado que fez água
boiar no meu sono urinada.

Se outra começa, outra jornada
- do barco que do nada veio
enevoado vaso cargueiro
- o encarcerado mensageiro
do que ao cabo acaba no meio - -

diz Sheherazade assanhada
(em verdade a capitulada
personagem reutilizada)

que outra noite fiz necessária...

domingo, 7 de abril de 2013

A LENTE IMUNDA DA GRIPE

disgusting

Entre os sentidos e o que despercebo
descoordenando o lento cerebelo

congestionando inteiro o entendimento
embaçando, entupindo, entorpecendo

vai escorrendo catarrento, escorrendo
pelo brando e sujo envidraçamento
do mundo infeccionado muco apenso

o periodismo preciso da vinda
virótica que pressurizo ainda...

(apesar do que a tecnologia
farmacêutica expectoraria)

sexta-feira, 5 de abril de 2013

QUAL FUTURO JUBILOSO

sobre o que dói junto aos olhos

O meu velho corpo novo
mais a mim é misterioso
à medida em que de novo
envelheço mais um pouco;

o meu novo corpo velho
renova em mim o Restelo:
- um pessimismo de velho
otimista que conservo;

ancorados neste corpo
os sacrifícios do dorso
farão a história do morto;

liberadas desse vezo
as esperanças de peso
me esquecerão sem apreço...

segunda-feira, 1 de abril de 2013

MUNDO BORRADO DE AMOR

a sintaxe da tarde

A luz deitando a sombra
(à luz deitando a sombra)
[a luz deitando à sombra]

salienta seu mistério.
Saliente-se: o mistério
das duas, luz e sombra

salientes anacondas
nas paredes das fronhas

vazias, compassivas
(exceto em certos climas)

das crases muy amigas
na tarde-alegoria:

- aquelas restritivas
de boa companhia...