sábado, 31 de outubro de 2015

SÉTIMO

quadra quádrupla do descanso

Sábado
cágado

sábado
láparo;

sábado
cânhamo

sábado
pássaro!...

Sábado
tálamo

sábado
bálsamo;

sábado
cântaro

sábado
bárbaro!...

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

A INVENÇÃO DA VIDA

A vida é uma invenção
(vez brotado o seu grão)

por ação e omissão.

O seria?
Poderia?
Deveria?

[a teria?]

- tais as questões da poesia
(aquela especulativa)

de sua filosofia.

A sua precariedade
(ontológica)

a sua impessoalidade
(estatística)

a sua amoralidade
(antisséptica)

não dizem que sim, nem que não

(não falam por si, nem que o são).

...

[vez brotada a invenção
da omissão como ação

toda vida é viva?]

...

{se eu inventei a minha

e por aí caminha

que distração a minha!...}

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

terça-feira, 27 de outubro de 2015

VOSSO CRIME (ENFIM) COMPENSA

apesar das aparências

Avança a bestialidade
por sobre a civilidade

- sobre as oportunidades
(reais) da virtualidade

por mais sociabilidade.

Inimputabilidade?

[responderão os herdeiros
de segundos, de terceiros

(e por último, os primeiros)]

VIDA COM SAÚDE

questão aos meus queridos alternativos

... o meu plexo solar
irá me ensolarar

caso eu 'manipurar'

quando vier operar
(de complexo a polar)

o convexo ventral

mais latitudinal
(porque crepuscular)

que herdarei afinal?...

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

QUADRA (DE ANTES) DA TEMPESTADE

Calmaria
com Maria

acalmaria

(o que armaria)

SOBRE A EDUCAÇÃO

state of the art

Tudo derrete
(senão liquefaz)

ou aborrece
(senão contumaz).

Se se arremete
com paixão audaz

(ou razão assaz)

nada acontece.

[se com confete
então suspicaz]

domingo, 25 de outubro de 2015

REVISITA 103: DATA DOS NAMORADOS

32º poema de À procura de Nefertari

Começaste com Madre Tereza
e o melhor Francisco;
passaste por Nogueira e alguns urbanos
além de Marisa;
ao fim, Gardel e Piazzolla
covardia!...

- na minha alma, eles todos
(passos teleguiados
por teus dedos meticulosos)
entraram de sola!

Assim caída fruta a tarde saborosa
deste dia consagrado ao doce interstício
dos amores não testados, findei rendido
uva esmagada: teu presente enamorado

vinho e passa; tão perfeitamente colado
ao nervo exposto dos meus gostos
(a músculos estendidos e ossos quebrados)
qual vidros claros - limpos, cristalinos
das janelas abertas dos sentidos:

- de onde te assisto espetáculo
imprevisível...

12/06/2005

sábado, 24 de outubro de 2015

REVISITA 102: VÍCIO

30º poema de À procura de Nefertari

Já caminhei a eternidade. Sozinho
unindo as pedras e o infinito azul.
Da mente às idéias, delas aos passos
os sonhos gastos de sapatos. E andei

às vezes de soslaio, olhando para o lado
à tua procura: nas ásperas ruas, um desvio
contorno discreto; num fio de beco, o destino
de fazer juntos mil rumos ao paraíso.

A jornada fez-me em pedaços. Encontrei-te
enfim pedaço afiado, ferina defesa de nervos
pretensos de aço. Das fundas cicatrizes

que mal a tua alma oculta, retorna crua
a minha ferida nua - talhe ancestral
dor grossa em salmoura exposta.

19/05/2005

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

AMNÉSICA

Onde foi que fui
ontem, onde fui

que pôs talheres
comes e bebes

(corpos, mulheres)

e foi dito algo
(ad hominem?)

não mui fidalgo

[pois acordaram
desacordarem]

que esqueci hoje
de lembrar onde

fui - e foi ontem...

{será anteontem?}

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

QUADRA DA SENSATA INSIGNIFICÂNCIA

Penso o tempo numa escala geológica.

Penso o espaço numa escala astronômica.

No entanto, nesta lida microscópica

são apensos de uma vida econômica.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

REVISITA 101 - POEMA BOBO DE AMOR

28º poema de À procura de Nefertari

Quando és doce
em tua voz aveludada

abre-se, no ouvido

o Paraíso
das Mil e Uma Possibilidades
de Felicidade.

Por tão pouco
- duas palavrinhas carameladas

ressuscita-se, no peito

os Tambores
das Mil e Uma Batalhas Travadas
no Passado.

Porque teu poder
de mulher sobretudo amada

semeia, invencível

o Destino
das Mil e Uma Venturas Sonhadas
por Nós Dois.

16/05/2005

terça-feira, 20 de outubro de 2015

O QUE FICA DE CECÍLIA

a Cecília Meireles

O que ficou de Cecília?...

Da  pessoa lírica
a quem eu amaria

(a que eu procuraria
saber se existiria)

se nos emparelhasse
a época devida?

O que ficou de Cecília

que desemparedasse
a pessoa física

(a que eu procuraria
saber se me amaria)

que atravessou a vida
ao lado da poetisa?

...

O que fica de Cecília

cerzida na poesia
que sonho à revelia

de sonos e vigílias?...

domingo, 18 de outubro de 2015

DOMINGO OPOSTO

e justaposto

Ah, o meu domingo

quando moroso
quando corrido

enquanto ocioso
enquanto ativo

(e remoroso
até que findo)

é delicioso
é deleitoso

apolínico

dionisíaco

cafeínico:

- como um amigo
que espirituoso

materializo!...

sábado, 17 de outubro de 2015

REVISITA 100: PELA GRAÇA DE SER INTEIRO

27º poema de À procura de Nefertari

Neste espaço em que o tempo não anda
árvore enraízo; e fixo, fico toda a vida
por teu pouso cansado de pássaro a ermo
esperando errar de galho, de outro caminho

errado, do rumo equivocado, tocar distraído
o plano físico; que, num planar alquebrado
de tantos infortúnios derivado, esse vôo ferido
enfim chegue, no exíguo segundo, ao meu ninho...

Por enquanto, tudo o que sou sob o céu limpo
é um meio copo vazio: a metade do teu amor
querido, mil vezes perdido entre mundos

esquecidos do seu contrário - deste, suspenso
no tempo que não anda, no mesmo espaço
em que eu - ninho e pássaro - seria ao teu lado.

15/05/2005

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

RETIRO

Exausto

de viver

o excesso

de assim ser

meu Fausto

descansa

egresso

da ânsia

de morrer.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

QUANDO QUATRO SÃO CINCO

ritual significante

Para que algo faça sentido

além de pensá-lo preciso

contemplá-lo perspectivo

noutros quadros sem ressenti-lo:

1. o interior e constitutivo;

2. o anterior e substituível;

3. o posterior (re)constituído;

4. o exterior (in)cognoscível.

...

[mas se quatro são cinco, o digo?...]

TOMARA QUE GAIA

Um vento de praia
avoando jandaias

a tempo se espraia
maturando uvaias...

Como se cabaia
tomara-que-caia

desarma atalaias
perfumando as aias

rearmando tocaias
antes que o sol saia

se da mesma laia...

[por baixo de saias
sua viva azagaia

convida à gandaia]

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

terça-feira, 13 de outubro de 2015

CONSTRUCIONISTA

As coisas não são o que acontece.
As coisas mais são o que parece

que em vão editamos mentalmente

- pois mal publicamos entre a gente.

[é coisa que objetivamente
subjetiva o que então percebe]

...

As coisas são mais o que aparece
pelas fendas (convenientemente)

dessa precariedade consciente

que fragmentariamente tece.

domingo, 11 de outubro de 2015

QUADRA DA VIA RENOVADA

finally

To run again
(although in pain)

- what a joy, hein?

[enjoy the rain]

CIÇA

um mês

Mama, peida, caga
dorme, acorda, baba

- e o avô, a cada
coisa feita, nada

nada, nada, nada

muda sua fortuna
bem-aventurada

[rediviva a graça
pequenina o abraça]

sábado, 10 de outubro de 2015

SOLIDARIEDADE

1. Faço minhas tuas palavras
teu esforço de enunciá-las:

- o verbo, desde o princípio
(se junto dele um princípio)

distingue, quando explícito
as valas dos precipícios...

2. Faço minhas tuas palavras
difíceis por necessárias:

- mesmo instrumentalizadas
contrastando as palatáveis

nos discursos aceitáveis
(sobretudo os detestáveis).

3. Faço minhas tuas palavras
mormente as encalacradas:

- aquelas assujeitadas
a nada significar

além do que é protocolar
segundo os mestres do lugar.

4. Faço minhas tuas palavras
se forem esculachadas:

- se quando o que se apalavra
de manhã, à tarde lavra

enfático o duplipensar
como prática regular.

5. Faço minhas tuas palavras
as poucas que te são caras:

- as boas articuladas
em favor de poder dispor

seu contrapoder ao favor
malevolente de um senhor...

6. Faço minhas tuas palavras
no esforço de não calá-las:

- o verbo, desde que o sinto
o penso, neste finito

invólucro em que existimos
com capricho, como bichos...

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

REVISITA 99: SONETO DA (E)TERNA LUTA

26º poema de À procura de Nefertari

Desta veia que arde e esvazia
parada, azul, inquieta, luzidia
e agora fria - cirúrgica e fina
lâmina, cruelmente fria

todo o percebido, infinito em parte
sinto mares, florestas, rios
e vales, montanhas, abismos;
amplas as gastas planícies desertas

de sentido do que verde aspiro
do árduo sol diário, e à noite
enluarada de sonhos constitutivos

do meu par contigo... E o percebo
maior ainda, na perspectiva
dessa veia nunca abandonada.

14/05/2005

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

SONÂMBULA

trágica a farsa

Aquela marcha
que muitos marcham

por ser marcada
(os passos acham)

poderá levar
tempo pra acabar

ao acordarmos

[se recordarmos
quando passará]

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

SÍNDROME DE ABSTINÊNCIA

quando Messi se machuca, não há chuva, nem Pachuca...

Espero que um dia Lionel

se torne o Senhor dos Anéis
da arte da bola nos pés:

- eterno na imaginação

(com a ajuda das invenções
tecnomágicas de então).

O espero porque o que Lionel
mais tem oferecido, e a nós

(amantes de um ludopédio
a anos-luz do que é médio)

um dia nos deixará sós:

- se hoje órfãos de uma contusão
amanhã permanecerão...

[tal como de Diego e Pelé
(nossos ancestrais lembrarão)

somos penitentes até]

terça-feira, 6 de outubro de 2015

SEXTILHA DO FIM DA SECA

antropomórfica

O céu pesou
de não aguar

e começou
a desaguar

no que secou
do seu pesar.

NECRÓPOLE CANDANGA

O Campo da Esperança

na ponta da outra Asa
(ali, outra morada)

daqui, é o fim da dança.

...

O Campo da Esperança
vejo com desconfiança:

- desde que, na Esplanada
pouco havendo, aventava

se o que via era nada.

...

O Campo da Esperança
me espera desde criança

desistir da Asa Norte:

- abandoná-la à sorte
da vida precipitar

(num vacuum crepuscular)

pela hora da morte!...

...

Do Campo da Esperança
no Setor Hospitalar

guardo alguma lembrança
de fundo domiciliar:

- antes, coube esperança
(sobretudo especular)

por nascer planejada

esta velha jornada...

domingo, 4 de outubro de 2015

REVISITA 98: HIATOS

24º poema de À procura de Nefertari

Entre ontem, hoje, há pouco e agora

minha memória de ti próxima
(cheiro, textura, a luta morosa)

[da recorrente noite interrompida
sonhando feliz pela manhã fria]

irrompe a tarde monótona, e desloca
tácita a palavra; afortunada, a roda

gira pensamentos, revira sentimentos
incertos do conforto em torno do teu corpo

pleno de um sentido indo e vindo:

- por aqui, ali, adentro e afora
lembrados alongados pelas horas

teus olhos negros - negros sóis tornados
faróis - guiam-me calados de amor...

07/05/2005

sábado, 3 de outubro de 2015

AGORA CORRENTE

e rapidamente

A chegada de outros
- dos outros nosotros

ao finalmente só
originário pó

tão próxima de nós

vem desatar os nós
- agora, correntes

do tempo-semente:

- aquele amarrado
quando adolescente

que uma vez atado
(e reatado, mente)

não passa, na mente...

[de ilusão somente]

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

REVISITA 97: O LADO ESCURO DA LUA CURVA

23º poema de À procura de Nefertari

Filha das noites brancas, a minha amiga
bruma esquina vira no meu encalço;
velha reconhecida, essa criatura
nem sei se é amiga; mas companheira
de eras priscas, é com certeza

filha das noites, dos dias, da próxima
ira; a companheira do meu tempo
neste planeta, deste lado preto
da láctea vida; a visita, quando
lembrando esqueço, da via precária

percorrida - na forma do sono
no meio do dia no corpo de chumbo;
na estreita busca do relógio
nunca à vista; na tarde-marquise
que desaba sem energia

no meu chão firme ainda...

Qual linda Cinderela, paradoxal
pedaço vestido, algemas à vista

ela dança, afinal, a perspectiva

de libertação (afinal)
da Pandora minha dos presídios

neste beco-espaço sideral...

30/04/2005

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

DA (IN)DETERMINÂNCIA

diante do paredão climático

As ondulações da brisa artificial do ventilador
nas persianas vitais desta sala enfadada de calor

concentram decerto atenção
ou bem a dispersam também

(espécies de meditação).

Oscilações de cortinas ao vento parecem supor
que a acidentalidade da imagem acima possa impor

(em decorrência suficiente do consequente torpor)

o tipo certo de atenção

da série de mais opções
que aquela miragem sustém

[solitárias na multidão
solidárias com a questão].

...

{cabe-me então recuperar
um corpo são do aquecedor - a ventilar outro lugar}

terça-feira, 29 de setembro de 2015

REVISITA 96: A CHAVE

22º poema de À procura de Nefertari

Nunca eu soube de que lado era
a secreta entrada das câmaras
de mim, íntimas desconhecidas:

- por onde vieste, qual brisa agreste
assombrar de cima abaixo, frescor
verde-róseo varrendo sepulturas...

Dos corredores nunca percorridos
defuntos interiores nos abismos
embora pressentisse, eu não soube:

- até que dispondo o teu corpo
de tua alma depois em escritura
peregrino, me alçasse todo
num matutino longo vôo...

O que cofre involuntário frio
tinha aquele sólido sido
à superfície, vívido vidro

pulsante rachou vertical do exterior:

- no espiral vento, a utópica face
em rubor encantador, íngreme
do amor, fez-se ápice - a chave
inadvertida da felicidade...

30/04/2005

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

SOLICITAÇÃO

por monções até o fim (das estações)

Até que venha
o que me aquiete

cortando a veia

que não se aquiete
a natureza

do que acontece

na terça-feira
na quarta-feira

no quinto teste
da sexta prece

(ver se acontece)

enquanto esteja
na correnteza

um eu que preste...

VESPERTINAS

quatro quadras


1.

A tarde, branca e singela

(à tarde, quando amarela)

é pálida, das janelas

e cálida, nas donzelas...


2.

A tarde, quando encapela

por dentro de uma olhadela

se tarde, faz com que velas

ao centro enfunem estrelas...


3.

A tarde, quando dá trela

destarte, a tempo acautela:

- caso amiúde procelas

de alaúde, ela as parcela...


4.

A tarde, quando encastela

à parte, enquanto flagela

(se sólida a cidadela)

é mórbida, desta cela...

domingo, 27 de setembro de 2015

(SE NÃO JÁ MORTO, QUASE)

Um domingo enfunado
pelo verbo estancado

[por um tempo cansado
de ventos enfurnados]

é o que avento no espaço
deste texto que ameaço

e não desembaraço

{desde cedo esse teor
independente do autor}

sábado, 26 de setembro de 2015

DA FAXINA

hoje cedo

É sábado
dos bárbaros:

- da limpeza
sem nobreza

da aspereza
dos ácaros!...

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

REVISITA 95: ENTREDIZERES

20º poema de À procura de Nefertari
 
A tua voz, já um pouco triste
de sua atroz melancolia
 
repisa áspera dez gastas
pedras lisas. Púrpura, a via
 
locomovendo linhas várias
ancestrais vinhas de palavras.
 
Fiel depositário, um ouvido
se lançou rede em captura
 
das secas frutas que derrubas
junto a outras, belas de menos
 
mas nelas todas solitário.
 
(delas todas solidário
 
prometerei, sintáticos 
mil favores semânticos
 
por ora pragmático)
 
[esclareço que replicarei, sem demérito
(seja a verdade, quimeras, ou mero confeito)
 
negócios de objetos com futuros perfeitos
num júbilo antecipado de amor a crédito]
 
26/04/2005

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

EPICURISTA VII

Curvo-me ao tempo

(do contratempo)

com pensamento

num sentimento:

- estar atento.

POR PARTES

é da idade

Esta tarde
a cidade

caminhei pela metade.

A metade
desta tarde

caminhei pela cidade.

A cidade
na metade

caminhei por estar tarde.

...

[nesta tarde
na cidade

caminhei pela metade]

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

DO FIM DA COMPOSTURA

na cena jurídica (duas observações)

1. Ao menos à distância
(à margem, na verdade)

percebo a exuberância
(exótica, destarte)

daquela ignorância
togada da vaidade

cevada na constância
de sua impunidade:

- viceja na abundância
da vitaliciedade;

- atua em consonância
qual a moralidade;

- placebo em substância
tal a necessidade...

2. Par à repugnância
que mais exorbitâncias

ensejem à vontade
(entre um e outro mascate)

percebo uma alternância
(senão uma novidade)

naquela ignorância
tão dada a disparates

cuja deselegância

olente de fragrâncias
paleovernaculares

chegou aos populares:

- na ausência das flagrâncias
urgência de avatares!...

terça-feira, 22 de setembro de 2015

REVISITA 94: O CENTRO

19º poema de À procura de Nefertari

Do centro
egocêntrico
nada percebo

(só branco
o claro pião
girando imóvel).

O ar, a fala
tangíveis
entalam. Asfixiam.

O pensamento
paralítico
arrasta o silêncio.

O olho
vidra estático
como se não fosse

a tua foto
virtual
retrato perfeito

(do momento
crucial
sem movimento).

24/04/2005 

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

EPICURISTA VI

não há realidade a temer

... se me quedo sem escrever
por outra razão que prever

a inutilidade de haver

[esta, aliás - que paixão por trás!]

a mediocridade do ser
que sou impõe-se depender

da disposição do poder
que posso de contradizer

tal imprevisão - e escrever!...

domingo, 20 de setembro de 2015

ZORRO, SOCORRO!... II

hoje cedo

Vou caminhar
daqui a pouco

pra não pensar
(pra compensar)

que não corro

não percorro

nem recorro:

- ao divagar
só decorro

[ao me entregar
tão devagar]

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

REVISITA 93: NO CAMINHO DE NEFERTARI

18º poema de À procura de Nefertari

Sempre a um passo, rastro, toque de algo
vivo extático o sonho, a rósea iminência
do desabrochar perfeito; do instante dourado
das portas abertas do palácio; do cristalino
estado das coisas plenamente reconhecidas:

- triunfo iluminista nas profundezas do abismo.

Sempre estou metro atrás de medir o calado
a devida compreensão da quilha embaixo;
dos grilhões no fundo, guardo a vaga impressão
de hóspede eludindo a mente, uma rasa noção
do que vaza por dentro:

- talvez torturado da verticalidade
dos impulsos vulcânicos de felicidade.

No momento contínuo das sedas em movimento
desdobradas indefinidamente desde sempre
percorro cuidadoso o teu sacro espaço:

- mas não macular processo, tempo, colheita
(a comunhão na bacia imperfeita das almas deste mundo)
desaponta possível o nosso único futuro...

[pulsa contrito o cardíaco sentimento
de amor zeloso aos corvos afastando]

23/04/2005

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

DA SUBVERSÃO DA SONECA

por que abismo nela?

No meio do dia brilhante
tal escuridão ofuscante

rebrilha no dia potente
opaca escureza presente

em sonhos - certeza o bastante

enquanto sesteio inocente

do quanto o meu sono apreenda
do tanto que não compreendo

- cada qual pesadelo adiante...

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

PEREBA

recorte

O passe

que passe

dá sorte

(má sorte).

O drible

que tente

(nos livre
 que finte!)

- é a morte.

Já o chute

(consorte
do corte)

pro norte:

- seu forte

no esporte!...

terça-feira, 15 de setembro de 2015

PERSPECTIVA DE CLASSE

do golpe abaixo da cinta

A eloquência dos de cima

- qual verdade cristalina
de uma ciência repentina
que repetem paulatina

cai violenta nos de baixo

como facada ou balaço

(preocupada todavia
face a tal desembaraço)

[educada no regaço
de que não há mais saída]

{ocupada morro acima
com o que esconde debaixo}

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

EPICURISTA V

Se disponho de café
como dispõe um mané

passo bem sob o boné
como bem fosse um josé...

Se disponho de puré
ou do que come a ralé

(acompanhando o café)

já evito a ação das polés
ou o vaivém das marés

habilitando sopés

sem depressão ou revés
numa montanha ao invés

- porém flanando através
desta galé sem convés...

EPICURISTA IV

Ampara a vida calma
(pretérita a medida)

um sono vindo d'alma
embora ao meio-dia:

- num sonho que enuncia
que no futuro havia

o que o presente empalma...

domingo, 13 de setembro de 2015

REVISITA 92: ANTES DE CAIR

17º poema de À procura de Nefertari

Sobressaltos não combinam com saltos altos
com coqueiros, eucaliptos, postes, edifícios
torres e montanhas; pontes e precipícios
inferiores abismos interiores:

- com alturas não medidas por desejos desmedidos.

Mesmo assim poço arrogante, invólucro de carne e osso
microscópico desafiante, sou da arte-imensidão do todo;
crente do amor, passo atrás do finalmente encontro
adiante crônico de felicidade infinita:

- corda e caçamba, parede, tombo e água fria.

Sobressaltos descarrilam trens de expectativas
implodem fantasias, denunciam guerrilhas
em luta nos campos minados das almas feridas...

A desamar a contradição que te habita
expansiva, cósmica valquíria
supernova explosiva

prefiro eterno desarmar o espírito
a desatar nós; fugir do teu fogo amigo
num amor de amigo convertido:

[por isso]

- antes de cair, devo ir.

22/04/2005

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

FÁTICA

Uma fina dor de cabeça
(da ausência de café na mesa)

afina a minha benquerença
por esta amena sobremesa

que me lembra a tua presença
depois de saída à francesa

(antes de chegada a despesa):

- nossa conversa ao pé da orelha
sobre assunto que deu na telha...

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

EPICURISTA III

fragmento

... sobre a dor e a morte
crê dispor de sorte!

- uma aporta o norte
do prazer que corte;

- outra é outro aporte
sem prover que importe...

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

REVISITA 91: MANHÃ SONHADA

16º poema de À procura de Nefertari

A linha sinuosa do teu corpo ao lado
(cobra insinuante a quebrar o compasso
lenta descontinuando o instante lasso)
varre a minha mente de pretéritos cacos
e ocas previsões; envelopa-me parvo
ao preciso e ao sagrado, a sedas abraçado
num sossego conquistado duramente fátuo...

Respiras o silêncio, subindo em staccato
a leve pluma morna e agridoce do teu hálito;
sonhadora interrompida, dorminhoca entre atos
(quase toda espreguiçada, quase nada acordada)
reviras, quase tanto distraída, à procura do acaso
da minha boca - do beijo bojudo que findo roubas
num grande e gracioso e perfeito movimento...

E num segundo gordo, toda a hora se ilumina
quando índio nu acendo, apache a fogueira
teus sentidos nos tecidos finamente consentidos
de lícitos cuidados, e ilícitos - a ordem contrafeita;
e depois esfumaço púrpuro e rubro, amarelo e branco
quando ao mundo anuncio, descansada da refrega
a paz derretida das hordas satisfeitas...

[logo finda a alegria, pois desperta a rotina
da vida incontornável dividida ao meio-dia]

21/04/2005

terça-feira, 8 de setembro de 2015

EPICURISTA II

Que prazer, que cansaço

contemplo

no que disponho diante

do espaço

mas indisponho adiante

no tempo?

Que dizer que embaraça?

Que fazer que estiraça?

Que porvir os abraça

do seu negror radiante?...

...

[com tempo

o espaço

contemplo

confiante]

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

SETE DO NOVE

No dia da pátria
das minervas suas

há septimátrias
na areia das raias

por mais tropicália
à beira das ruas...

No dia da pátria
há minervas nuas

na ombreira das alas
dobradas nas puas

douradas nas praias
sombreadas às duas...

Na data da pátria
eu lembro que a pátria

é a ideia de pátria:

- bandeira dos xátrias
grilheta dos párias

é uma visão casta
que maya, não basta

(aos brâmanes, nada)

domingo, 6 de setembro de 2015

NO ZÊNITE DA SECA

sinais

O tempo do limite
expor sua dinamite.

É pálido o grafite.

Lento qualquer trâmite.

Há falta de apetite.

Nossa a neurodermite
vossa a pneumonite

(parecem proctites
aquelas vaginites).

Rareiam teus palpites.

Da ausência de convites
padecem socialites.

Entre a plebe e as elites
vivos dão mortos quites...

sábado, 5 de setembro de 2015

REVISITA 90: FRAGMENTO VULNERÁVEL

15º poema de À procura de Nefertari

De ouvir-te leve, alegre voz distante
independente de qualquer instância (parece!)
e de um favor disposto a qualquer instante

correu-me grega as veias tal tristeza espessa
a saber impotente o exigente sentimento.

Lava grossa debulhou-me em lágrimas
fútil magma, cristalino afogamento:

- o que tem o amor a ofertar mais generoso
se a sofrer tão doloroso, qual cão purulento
à míngua pelas ruas e vielas deste mundo?...

[pressinto vão saber, o nervo exposto
em riste, mudo acusando a intempérie]

18/04/2005

OTÁVIO

Meu amigo querido

partiste teu destino

num número infinito

de possibilidades

que as probabilidades

igualam no sentido

da gratidão que sinto

por teres existido.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

REVISITA 89: DAS CELAS DE JANELAS

14º poema de À procura de Nefertari

Ali, outro domingo luminoso desidratando
a hora, e quase convidativo: um deserto silencioso
de sentidos. Aqui, um zoológico de pensamentos híbridos
errando deveras a jaula em que erras agora.

[toda vez que abro o dia azul na clara tela
das idéias, o teu par oblíquo, fitando-me janela
(moldura melancólica de um ébano poético)
quietamente ao búfalo arrasta, magnético
da minha mais funda, encerrada cela]

Servi café amargo a todos os bichos
aos pássaros endoidecidos; penados
seguirão pressurosos, solidariamente
a tua alma errante pelo ciberespaço

(embora acreditem, presunçosos e pios
que erras acerca da liberdade em questão
cyber-cerca, na verdade - a tua alada prisão)

17/04/2005

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

A ESTA ALTURA DA EPOPEIA

Ressecada a ressacada
das ideias contra a tela

(recomputadorizada
por mais letras sobre as teclas)

em mais outra temporada
de estações estacionadas

talvez caiba na cadeia
das palavras descoradas

das finadas de poética
melopeias afinadas:

- analfa ou alfabéticas
orais ou hipotéticas

a esta altura da epopeia
cantilenas encurtadas!...

REVISITA 88: SONETO MORTO DE AMOR

13º poema de À procura de Nefertari

Densa, e escura, e pesada - absinto
drogada pasmaceira à tarde, a sexta
saudade devora fígados, a paciência
lenta comigo nesse momento-abismo

(e um desejo de amor imenso
paraíso se tudo fosse farto
deita a correr meu tempo
agoniza sem morrer de fato)

A gravidade pesa o meu cansaço
em toneladas; a esperança de banhar
o espírito em confiança, esvai-se regular

pois tudo esbarra monstruosa ausência:

- além dos sentidos, a tua fina lembrança
fria lâmina, despedaça-me a garganta...

15/04/2005

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

ELETROCARDIOGRAMA

Minha vida caminha
apesar de sozinha.

Minha vida encaminha
sopesar que avizinha

em ondas esquisitas

[medidas de batidas
de choques, de subidas
descidas de vencidas
(berloques de feridas)]

aquela reta linha
que a máquina vindica

enfim das cavas lidas
das sondas exauridas

rente à tela - à tardinha...

terça-feira, 1 de setembro de 2015

CENSO DOMÉSTICO

senso animal

Amiga
formiga

me diga
se a lida

- na cozinha da Vandecira

é a vida
querida...

NATUREZA DO POENTE

antes que avermelhe

A beleza
pipoca
amarela

na panela
da hora
da reza.

PROJETO DE VIDA

Sob o teto
céu a pino

amarelo
sobre um piso

arquiteto
interciso

o que é belo
dividido

(paralelo
e adstrito)

entre um teto
antevisto

e o novelo
onde piso.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

FACE A MEDIOCRIDADE

nenhuma honestidade

Toda vez que me sento
diante da tela, tento

(é assim que me apresento)

protegê-la do invento
centrípeto de um vento

(é assim que o represento)

que-interno-ocupa-o-hiato/vácuo-do-pensamento.

Desrespeito o momento
[o vazio do texto]

pretextando um evento?

Ou respeito o cinzento
intentado, a despeito?...

[qual mesmo o sentimento
de fraude em movimento?]

...

{diante da tela, avento}

domingo, 30 de agosto de 2015

DOMINGA III

À noite posso
dizer que nosso

amor de conto
labor perdura

no contraponto
da hora escura.

DOMINGA II

Tarde que cura
tarde, que dura

temperatura
de cozedura

até que murcha

(de sol, a lua)

DOMINGA

Manhã manhosa
(manha brilhosa)

esta que acorda
em mim agora

a fim de nada
que mais parada.

sábado, 29 de agosto de 2015

REVISITA 87: DIÁRIO (PUBLICADO) DE UMA PAIXÃO

12º poema de À procura de Nefertari

Em textos convertidos, vivemos
registros mal lembrados de tempos
quase esquecidos; dos papéis sumidos
às páginas soterradas milhares pelos anos;

porém, ao escrevermos e guardarmos
na memória dos recônditos armários
impressões das chaves que usamos
(cônscios vez ou outra de abri-los)

recordamos tanto a matéria-prima dos sonhos
quanto o barro modelado em feitos; o que somos
da construção de espaços há muito transitados.

[o grande livro da capa verde
sobre o longo rio em sofrimento
está pronto; ele não mais te pertence;
que então ganhe as ruas, e quantas mentes
libertem outras tantas, de todas as correntes
recentes do passado - oxalá triste pretérito
não mais presente, não mais devido]

{... e quão nobre missão a tua!
Reabrir justa, pelo mundo
teu recôndito coração puro!...}

10/04/2005

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

REVISITA 86: SUMA ASTROLÓGICA

11º poema de À procura de Nefertari

Acordei da névoa lusco-fusca
entre os olhos e a consciência;
e o véu anestésico dobrou escuro
o segundo gasto a ter certeza
afinal de tua existência.

O café, a música, a tela brilhosa
inseparáveis da manhã crepuscular
derramaram-se pelos cantos múltiplos
recontando, extáticos, as tuas estórias;
nestas antevi, sonolento embora, a tua vitória:

- a vitória óbvia do desejo sobre o medo
pelo teu horizonte inimigo dos cubículos;

- o predomínio das cores vivas sobre a cinza
dor recidiva; o triunfo dos afetos em flor
apenas por brotarem, testemunhas viças
do quão fértil és, em realidade e fantasias;

- a prevalência definitiva, sem mais idas
da inocência incontida dos propósitos
no espírito da tua herança adolescente;

- e na tua hora hoje adulta, algo retida
a escolha real dos impulsos, ora temperados
logo virá no molhar da camisa, a jogar a vida.

Por fim, a minha nobre, oportuna astrologia
dourando vespertina essa questão matutina
(no avançar inexorável deste lindo dia)
concedeu-me derradeiro o conhecimento
limpo - sem nuvens - do teu destino:

- nele um amor rendido, franco
plenamente correspondido
será coroado soberano.

09/04/2005

terça-feira, 25 de agosto de 2015

CECIL

ao espécime que o matou

O que se esconde
por trás dos montes

de um horizonte
sem brutamontes

ou caçadores insatisfeitos
a despeito de quase perfeitos?

Imaginemos:

- rinocerontes
brancos e negros?

- sigmodontes
por aqui mesmo?

- bichos com fronte
chifres/presas/pelos/penas/pontes

para as mil fontes do viver pleno?...

...

[imaginemos

retrocedendo: os eucariontes
antes do superior Pleistoceno]

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

NA MINHA CIDADE

todo fim de tarde

como toda arte
que outrossim nos arde

(como se avant-garde)

repete-se à parte

singularidade.

DOMINGO À NOITE

possibilidades

Todo fim de domingo

(do bom tempo, o respingo
que insistimos distinto)

desatina sentidos:

- é a pior hora de muitos
por calarem seus uivos;

- é a pletora de poucos
por ouvirem-se moucos;

- talvez a espora de outros
considerados loucos

[então nascidos potros
talvez crescendo lobos]

{senão nascidos outros
desenvolvendo os lobos}

sábado, 22 de agosto de 2015

SENSÍVEL II

O que o brilho do sol anima
(aponta, aquece, aporta, alia)

em sua diária travessia

se logo é tarde fugidia
em minha solitária ilha?

Por que, da solidária trilha
(de estrela que a tudo rebrilha)

presumem-no ser que ilumina
a toda e qualquer superfície

se pródigo, à noite desiste?...

[ainda que vença a madrugada
pontualmente, a cada jornada

o que ao brilho do sol resiste

em mim, se padece com nada]

REVISITA 85: LÓTUS

nono poema de À procura de Nefertari

Lótus. planta aquática (Nymphaea lotus), de folhas orbiculares, denteadas e belas, e grandes flores brancas, com pétalas externamente róseas e estames amarelos, nativa da África, especialmente do Egito, muito cultivada como ornamental, e pelos rizomas e sementes comestíveis; loto-sagrado-do-egito, lótus-sagrado-do-egito, nenúfar, ninféia.

Quero-me jardineiro
dos vasos aguadeiro
sob o sol do deserto
perto de ti, e amado.

Procuro-te, às margens do rio
sagrado; se do teu agrado
voltarei, caso não te encontre
no caminho da barca de Caronte.

Quero-te cultivar as flores
generosas; pois das piores dores
sofrem vidas sem a beleza
dos caprichos, vítimas da natureza.

Procuro-me, de corpo e alma
ao procurar-te, às margens do rio
sagrado; se bom jardineiro e aguadeiro
retornarás morena ninfa, alva Rainha!...

[quero jardins de vasos abaulados
vertendo calmos as águas distantes
que conosco vicejem, em instantes
róseas ninféias, nenúfares alados]

08/04/2005

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

QUADRA DE FORA

fora de casa

Aqui e agora
sofro que a hora

que o sono adora
sonho por ora...

REVISITA 84: DAS HORAS

oitavo poema de À procura de Nefertari

Esta manhã cedo amiga, ensolarada
antiga luz de arcos, flores de sacadas
clara coloriu crepúsculo pensamento:

- pintou de azul-puro o meu desejo
de andar contigo, as mãos dadas
bobas sorrindo pelas calçadas.

Quando o calor enfadou o dia, a tarde
encontrou-me contigo no interstício
do mais saudável, o quarto cochilo:

- quase acordados sonhando vagares
de largas asas levando-nos pelos ares
à insustentável jornada de que falaste.

Dali a noite invisível, opaca cegueira
introverteu-me cinestésico o espírito
para coisas mínimas que são tuas:

- finíssimas fraturas diminutas
dedilhando certeiras sílabas ligeiras
a varar agudas madrugada escura.

[quero-me seta e alvo, a escala do relógio
no espaço inteiro desse tempo a teu respeito]

08/04/2005

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

PEQUENEZES

aos cãezinhos de Luis Fernando Verissimo

Nossas certezas
intempestivas

nossas destrezas
inexpressivas

- na ventania
respectiva -

quando coincidem
impositivas

cheiram fuligem:

- pulverulentas
ferem as ventas

ao colidirem

poeira apenas.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

VICE-VERSARIA?

vela e parede, parede ou vela

Teu muro macio
dispensa o que eu digo.

Pura alvenaria
dispensa que eu diga.

Se há cura auditiva
dispensa que o diga...

[dispenso que o digas
(se então recíprocas);

dispenso o que alisas
(duras cantarias);

repenso armistícios
(se os urde 'bem-vindos')]

***

Teu muro maciço

me amura preciso
em duplo sentido.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

ANTES DO GELO

à cupidez tropical

Acima, o mundo é solar
mesmo na noite polar...

Abaixo, muito está no ar

arrebentando o colar
bestializando o falar

contaminando o pomar
envenenando o lagar

(submetendo o lugar
vitaminando o dólar)

degenerando polar...

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

REVISITA 83: POEMA TORTO DO AMOR SENSATO

sétimo poema de À procura de Nefertari

Tenho de falar do amor que me aluga
perplexo, andares inacessíveis de mim;
do meu amor-invólucro sobre as pernas

esguias dela - bípede passante, sem nexo
movendo incessante o cardíaco plexo
(que sonho, louco, daqui a pouco habitar)
de caminhante solitária das vias obstruídas.

Tenho de tratar do amor que me ocupa
carente das largas e verdes perspectivas;
faz-me doente dela a tristeza dos poemas

que escrevinha; ponteiros mal partidos
guias perdidas, lembranças desmemoriadas
de um tempo não vivido (como então lhe digo
que sou a vida, a verdade - o caminho?...).

Tenho de cuidar do amor que me inunda
de lágrimas virtualmente investidas, vertidas
pelas janelas semiabertas quando fecham

instantâneas, implacáveis no cerrado soslaio
das intenções, desconfiadas de atenções
(porque a cyber-dor que se realmente sente
deveras desmente-se na terra do nunca).

Tenho de amar o amor que me cura
definitivamente; há tanta sanidade oculta
debaixo das palavras, por cima das estrelas

das toalhas plásticas de mesa; e beleza
nas minúcias que o olho não capta da poeira
dourada de coisas corriqueiras, ordinárias

e mágicas - o limiar onde afinal te encontro...

07/04/2005

domingo, 16 de agosto de 2015

ZORRO, SOCORRO!...

retomar Sísifo, suponho

Quando não corro
domingo, eu morro

descendo o morro
caindo o forro

enquanto borro

minguando o jorro
sumindo o esporro...

[velho cachorro
bicho chinchorro!...]

sábado, 15 de agosto de 2015

REVISITA 82: OS FLUXOS DAS COISAS QUE ME CERCAM E CONSTITUEM...

sexto poema de À procura de Nefertari

... não apontam caminhos, saídas, redenções, outro ser derivado
das coisas que me cercam e constituem; o tempo, num momento
tudo paralisa, friamente convertido na expectativa
do ato à frente: mas qual tentar, se meus pés-troncos
lançaram grossos suas raízes?

Os fluxos das coisas que me cercam e constituem
não contemplam quedas definitivas nos abismos
do branco desespero; circulares, circulam-me
entre as coisas que me cercam e constituem
sem trégua, sem a régua-e-apontador
de uma infância guia.

Os fluxos das coisas que me cercam e constituem
não se abalam febris em reta direção à praia das imagens
abertas, mornas, areadas, arejadas que emancipam; eu queria
uma vez só as coisas que me cercam e constituem prisioneiras
de vontade incontrolável, avassaladora, torrente veloz e massiva
da sanguínea pressão alta de um homem livre.

Os fluxos das coisas que me cercam e constituem
não te incluem entre as coisas que me cercam e constituem
exceto como fantasia; sonho em sonos sem tratativas
com lugares e estares teus, espaços além de quaisquer visitas
do corpo; neles, projeto desdobrado meu largo interior desabitado
numa tapeçaria infinita: o chão aéreo dos teus etéreos passos

aquém do que é preciso.

05/04/2005

NO MUNDO DO TRABALHO

ilusões de aço

Eu caço

(mormaço)

eu laço

(cansaço)

eu faço

[bagaço]

eu passo...

{baraço}

...

eu _ (traço!)

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

REVISITA 81: DA SUPREMA SANIDADE

quinto poema de À procura de Nefertari

Toma a minha mão, venha comigo
calma a chegar algum lugar;
rir e chorar dos caos do mundo
achada e perdida de tudo
também posso - mas junto.

Durma aqui mesmo, de um jeito
que sinta no peito o teu rosto
profundo e sossegado de sonhos
anis; longe da fumaça branca
a não mais cobrir a estrada.

E acordada, faça da luta
dos corpos estranhos no cio
o prazer úmido, misterioso
insensatamente sadio
das secas almas desconhecido:

- a paz doce dos músculos vadios.

04/04/2005

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

REVISITA 80: LA SORCIÈRE

quarto poema de À procura de Nefertari

Fora, a noite cobre tudo que amanso
com seu manto estrelado de cabalas;
por dentro, a noite debate-se; e se tanto
em frente, a tela é frente - de batalhas!...

Luta amorosa, e doce, e tormentosa
por teus vários fragmentos; pelo entendimento

inteiro de ti vaporosa; da musa eletrônica
chave de todas as portas:

- dos portais daquele espaço há tempos
que noite embora (lida de ventos e cansaços)

[de escuros interiores e exteriores vastos]

{dos obscuros significados}

a manhã renova - e com ela, outros obstáculos;

... mas que um dia, numa hora
(marcada muito atrás por nossos ancestrais)
reunirá contemporâneos os pedaços

da menina-princesa de outrora

aos meus sonhos tão planos - de pisados;

e torto então, incompleto (completamente humano)
o cair imperfeito das peças no cotidiano
celebraremos - nas nuvens, como hiatos contando

o quebra-cabeças redentor do amor - a eterna cola.

02/04/2005

domingo, 9 de agosto de 2015

VAN HALEN 1978 II

punturas

Eddie - tua faca
aprimorada

[por meu tempo de escuta da estrada]

Alex, crava

Mike, agrava

Dave, abraça...

REVISITA 79: A MOÇA

terceiro poema de À procura de Nefertari

- em que rósea sacada
de almas tristes morada
vive a sofrer minha amada?

pergunto, vagando becos
até o fim dos tempos
só, sem termo.

- sob que lua ardente
tragando fogo recente
tomaste rota descrente?

questiono, distraindo dedos
com outras, enquanto meço
teu pressentir imenso:

- da feiticeira vítima
de bruxaria íntima
achada morta - e viva, a perfídia...

31/03/2005

VAN HALEN 1978

Neste sábado aprisionado

- cedo rosário de demandas
seculares e cotidianas

apequenando-me - são tantas!

Eddie, David e os rapazes
(será que fizeram as pazes?)

tocam ouvidos impudentes
(e nervos que adentro os espelhem)

de algum movimento que esquente
algum nó cego da corrente

deste passo domesticado.

***

Como de ontem foram capazes
(rookies, rockers especulares)

de vir tão espetaculares?...

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

PROBLEMA LÓGICO-POLÍTICO

para as vestais de plantão e os puros de ocasião
(além de nós e de vós)

A hipocrisia

(sua recidiva
reiterativa)

nos admira:

- por que seria?
- por que haveria?

[admitamos:]

1. A hipocrisia
é seletiva

- mas extensiva.

2. A hipocrisia
generaliza

- mas discrimina.

3. A hipocrisia
pormenoriza

sem empiria.

[e perguntemos:]

4. A hipocrisia

ética alia
se jurídica?

5. A primazia
da hipocrisia

reconcilia?...

terça-feira, 4 de agosto de 2015

PARA ALÉM DESTA CIVILIZAÇÃO

fora do lugar, 'bora pra Uranos!

O mundo - tal como o conheçamos
(talvez nem mais o reconheçamos)

desmorona - e vem acelerando
com solidez que o desconheçamos.

A despeito de estranho, entretanto
a carnavais e tais (por enquanto)

quiçá me reste e arraste, salvando
(desta cor que nos finge de brancos)

a minha pele o Cacique de Ramos:

- já que tem cinquenta e quatro anos

de inclusividade desfilando
de solidariedade sambando
de amor pela cidade sobrando

quem sabe abrigue um contemporâneo?...

REVISITA 78: VERSEJAR INGÊNUO

segundo poema de À procura de Nefertari

De um longo e fundo silêncio
hesitante entre ser outro (aí falante)
ou anônimo (irrelevante)
venho querendo assim, à espreita
embora escorreito
antes enfraquecido - agora decidido
mas sempre em movimento

te falar.

Declarar só o possível
o vivível rés ao chão:

- domínio da fruta depois do inseto
ao alcance das mãos;

- do halo seco de antes da relva
precipitar-se acima, verde-molhada
perfumada.

Contrastar os prazeres do alto
dos afazeres de baixo
em favor destes:

- porque daqueles não depende
o deleite dos sons, imagens
das texturas, paladares
os cheiros bons do mundo.

Sussurrar, e te convencer
a abraçar o risco do labor-viver
entre flores e abelhas:

- polinizando o tempo
de cores, e até desejando
de vez em quando
o aço dos ferrões;

- para que meu carinho curativo
enfim faça, de todo o fazer
o derradeiro sentido.

29/03/2005

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O MACHADO DE ITAGUAÍ

no pescoço de alguém daqui

Neste momento da vida nacional

(além desta ficção individual
em que ínfimos nos situamos - na qual

cremos pios como a tal - vida real!)

um midiático Simão Bacamarte
opera de Curitiba, com arte

outra demão de Joseph McCarthy.

Para além do horizonte da experiência

no altiplano dos heróis da inconsciência
(pousada de clamores por decência!)

terceirizamos o que nos compete:

- consertar o que partido apetece.

domingo, 2 de agosto de 2015

REVISITA 77: MEDICINA PARA NÁUFRAGOS

primeiro poema de À procura de Nefertari, obra inédita

As vertigens do escolher são a paga
dos espíritos livres.

Embora acrófobo, sigo os teus passos
à procura das tuas mãos etéreas
(nervosas, ligeiras, elusivas: creio ainda firmes)
no fundo azul das telas;
fugaz, o teu ar rarefeito
sustenta nas alturas o granito pesado do meu medo.

As quelóides na alma são da saga
dos seres libertos.

Se virtual te rastreio o espaço
(hipertextualizando trilhas)
tropeço nos vestígios das batalhas
que travaste contra as fissuras
que te partem em duas, três, várias
doces criaturas.

A vida em pedaços vem da calha
do tempo repassando novidades.

Circunstancialmente atrasado
(ainda a relógios acorrentado)
contemplo o teu caminhar alto
fechando circular
(os dedos pelos pés, dos sonhos prenhe)
hic et nunc:

- o que cura neste lugar
e aos egos junta, agora
trago no descompasso
desta quase-hora.

27/03/2005

sábado, 1 de agosto de 2015