domingo, 25 de novembro de 2007

DA SABEDORIA

Como se soubesse
O que aconteceria
Ao dia - como se teceria
A superfície contida

Movediça, do poderia
Do talvez, do deveria
Das nuanças do quereria:

- Andanças da vontade
que mal sacia, verdade
que mentira, houvesse
uma tarde a escolher

como se poder
saber o que seria
evitasse - o pôr-da-vida...

TORPEDO XIV

... talvez a melancolia /
venha do que se quereria /
se poderia /
deveria /
alternativa à alternativa /
de brilhar o dia...

23/11/07, às 08:18:36

DO DICIONÁRIO XXVII

Sexo: desconexo
Nexo submerso
Do teu inverso.

sábado, 24 de novembro de 2007

TORPEDO XIII

... meu amor, hoje /
explodiu cores /
meio assim: /
do azul-cedo /
ao tardo-vermelho /
tudo que vi /
foi contínuo carmim...

22/11/07, às 20:29:22

TORPEDOS XIV

... da casa dos teus sonhos /
alegres ou medonhos /
sou vizinho, colorido /
pintor das paredes /
do teu músculo cardíaco...

22/11/07, às 10:46:27

***

... um fragmento /
poeira cósmica /
de que sou feito /
só por ti próxima /
pulsa perfeito...

22/11/07, às 11:07:10

***

São quatro sílabas /
sete letras /
nesta língua alvissareira /
que aproxima e serpenteia: /
e o mistério /
que nos medeia...

22/11/07, às 11:28:25

***

Baby, beijos /
molhados, certeiros /
zelosos carteiros /
do maior dos desejos: /
a perfeita indecência /
talvez de joelhos...

22/11/07, às 20:01:33

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

SEMPRE A VERDADE

Apesar da volta
Duma umidade remota
Não embaço

A verdade, embora
Saiba torta a possibilidade
De verdades - por trás de portas.

A secura de antes
Desacomodava a vontade
De saber que nada, nada

Entre o pó e a jornada
Seriamente atrapalhava
O bom andamento do que andava.

Apesar desta umidade
De remota idade
Não embaço.

TORPEDOS XIII

De esquetes, maquetes /
deste sonho concreto /
dum reto Prometeu /
(transtornado Romeu) /
brotam poemeus /
pros olhos teus...

21/11/07, às 10:51:18

***

... sopra um vento /
doce, adentro /
num momento /
presente do tempo: /
teus sussurros /
intramuros /
de cuidados noturnos...

21/11/07, às 21:17:27

***

Das folhas secas /
da memória obesa /
de história /
e certezas /
uma em falta /
não faz falta: /
a vida sem ti /
natimorta...

21/11/07, às 21:58:11

terça-feira, 20 de novembro de 2007

TORPEDO XII

... fim de aula /
e agora /
toda a calma /
intercede /
(quase ascese) /
em teu favor /
meu tão amor...

19/11/07, às 11:13:52

sábado, 17 de novembro de 2007

TORPEDOS XII

... estou doente de saudade /
não é gripe, é amizade /
um amor compartilhado /
para sempre ter-se ao lado...

13/11/07, às 10:07:02

***

... caindo /
a tarde /
sinto /
(não é tarde) /
que a vontade /
de falar-te /
(minto: /
de beijar-te /
o sorriso) /
me invade...

14/11/07, às 18:00:47

***

... um sono macio /
(de sonho infindo) /
abraça a memória /
da aurora contigo...

16/11/07, às 09:54:12

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

TORPEDO XI

Do poente à aurora /
veio, imenso, agora /
cor de triste flor de outrora /
sem o amor da rosa /
sem tua essência cheirosa!...

11/11/07, às 12:50:14

terça-feira, 13 de novembro de 2007

TORPEDOS XI

... e aí, o que fazer /
quando por dentro bater /
o que se quer esquecer /
só por um dia - a ver?...

29/10/07, às 18:21:07

***

... da tarde, a luz clara /
a ti não se compara /
que a tua, perfumada /
rosada inunda a sala!...

31/10/07, às 17:08:03

***

... o céu escurece /
no que resplandece /
(musgo contrastante) /
saudoso, errante...

07/11/07, às 17:01:18

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

TORPEDO X

... assim, de saudade /
o tempo, alimento /
até o momento /
de tarde, comê-lo...

26/10/07, às 14:39:03

domingo, 11 de novembro de 2007

TORPEDOS X

... por que poemeus /
curtos, longos - todos teus /
se felizes os horóscopos /
penam, pedregosos /
em tão fecundo solo?...

25/10/07, às 10:35:22

***

... cultive doce o teu desejo /
desde cedo, pra mais tarde /
que prometo, sem alarde /
vorazmente atendê-lo...

25/10/07, às 10:52:12

***

... vou te beijar muito, muito /
da luz, ardejar oculto /
logo após o crepúsculo...

25/10/07, às 16:01:58

TORPEDO IX

... na refrega /
que a vida entrega /
de bandeja à vela /
sem serventia /
(imóvel calmaria) /
tua alquimia /
soprar-me-ia...

19/10/07, às 20:21:58

Novembro

... tempo de correria, de falta de tempo; tempo de torpedos - curtos, condensados de amor imenso e espesso, (tomara que) docemente contundentes. A seguir, uma revoada deles.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Outra palavra de Riobaldo

"Senhor, sei? O senhor vá pondo seu perceber. A gente vive repetido, o repetido, e, escorregável, num mim minuto, já está empurrado noutro galho. Acertasse eu com o que depois sabendo fiquei, para de lá de tantos assombros... Um está sempre no escuro, só no último derradeiro é que clareiam a sala. Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia."

João Guimarães Rosa, Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, p. 64.

sábado, 20 de outubro de 2007

Palavra de Riobaldo Tatarana

"Confiança - o senhor sabe - não se tira das coisas feitas ou perfeitas; ela rodeia é o quente da pessoa."

João Guimarães Rosa, Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, p. 56.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

TORPEDOS IX

... se o tempo, cinza /
arma tempestade /
noutro clima, basta /
amorosidade...

18/10/07, às 16:49:25

***

... torpedos, inda que tardios /
tardos vingarão, enquanto /
de encanto vário travestidos /
livrarem do estio o coração...

18/10/07, às 19:53:20

***

... minutos ganham asas /
e segundos, em brasa /
juntos desaparecem /
(de paixões que adolescem) /
nas cadeiras desta sala...

18/10/07, às 21:34:26

TORPEDO VIII

... estranha - a distância /
tão breve - inda leve /
mas que arranha - se se mexe /
as entranhas da saudade que não cede...

15/10/07, às 14:52:14

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

TORPEDOS VIII

... entre papéis e processos /
te imagino, do avesso /
teu desalinho atento /
(centrado, ordeiro) /
sem tempo de um beijo...

09/10/07, às 11:03:04

***

... logo a noite virá /
abraçada contigo /
se este azul-mar /
desmaiar - apesar /
de lindo...

11/10/07, às 17:32:08

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

TORPEDOS VII

Já que mágico /
o encontro extático /
de torpedo e alvo /
diga-me algo /
do sorriso que não vejo /
por trás desse desejo...

05/10/07, às 08:33:44

***

... como você não responde /
(ocupada sei lá onde) /
destempero aqui insone /
destratando o telefone...

05/10/07, às 09:20:14

***

... mas logo me arrependo /
do mau jeito anterior /
sonhando noutro momento /
merecer o teu favor...

05/10/07, às 09:27:37

sábado, 6 de outubro de 2007

PURGATÓRIO

Há sons
Bem bons

No vasto sertão inaudito
(das aves das serras-do-paraíso)
Entre os ouvidos.

Outros, silencio:

- Porque penados, perdidos
no vão quebrado dos ruídos

(sobre o pescoço rouco
de moucos olhos doídos)

TODO SENTIDO

o sono, é uma almofada
de alfinetes sem dentes
por onde, desafundada
levanto saias de gentes

TORPEDOS VI

Quando paro /
e dou conta de mim /
o teu abraço /
é o que vem, assim /
o que enlaço /
da memória, enfim...

03/10/07, às 20:11:50

***

Não saem assim /
teus sinais de mim: /
- táteis, olfativas /
palatáveis, auditivas /
as cores deste sonho /
embalam o meu sono...

04/10/07, às 10:41:38

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

BRAKE

Parou tudo aqui
Por um remanso
(primeiro plano)
Num canto criado mudo:

- Modo de dizer que descanso

hipotético
deslocado

(já precário, cariado
incompleto)

de vez em quando
(anteprojeto)
ali, no mundo...

terça-feira, 2 de outubro de 2007

DA PRIMEIRA CHUVA

O cheiro desprendido
Que rompeu o estio
Quase tardiamente

Foi de sempre - emergido

Mágico, entranha

Básico, estranha
Experiência do incompreendido
Anteprimeiro sentido.

domingo, 30 de setembro de 2007

TORPEDO VII

... amorzinho /
(assim, inho /
porque doce, quando amargo /
e suave, apaixonado)/
sigo um beijo, beijinho /
todo carinho...

às 11:08:23

sábado, 29 de setembro de 2007

TORPEDO VI

Acordei feliz: /
- impregnado /
absorvido /
saturado /
constituído /
(da mente aos sentidos) /
por tudo que te diz respeito.

às 10:36:10

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

TORPEDO V

Este, embora torpedo /
publicá-lo, devo: /
- já que tão contido desejo /
ao ponto de desdizê-lo /
no que revela segredo...

às 13:25:40

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

TORPEDO III

... o dia passa /
e tal dança - de palavras /
mal descansa /
(vez precária) /
desta saudade - fatigada...

às 11:13:44

FÊNIX

Eu estou mudando.
Você está mudando.

E essas mudanças, assim
Informadas uma da outra

Fecundam-se, cuidadosas
Idiossincrasias - uma e outra.

Eu estou (me) aproximando.
Você está (se) aproximando.

E essas aproximações, assim
Mais próximas uma e outra

Contemplam-se, amorosas
Epifanias - uma da outra.

(afinando a sintonia
a seguir tentativa)

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

AFTER (JUST) LOVE

... súbita, numa alegre radiância
derramada dos teus olhos, nos teus lábios instantânea

disparavas
metralhada
uma risada

de si cheia, sereia, quase gargalhada
do fundo da garganta duma satisfação plena...

e sereno, esse riso
- gozo duplicado, replicado, repetido -

todo me abria, num átimo, em abismo
por onde subiam os grotões do paraíso.

 ***

(e agora, como vivo
com teu eco infinito?

essa música, toda tua
que sentidos capitula
recativando o ouvido?...)

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Porque sou tão teu mistério

"Julieta: Romeu! Romeu! Por que você é Romeu? Negue seu pai e renuncie ao nome; se não quiser, basta jurar-me amor, e eu deixarei de ser a Capuleto.
Romeu (à parte): Devo ouvir mais ou devo responder?
Julieta: O que é um Montéquio? Não é mão, nem pé, ou braço, ou rosto, ou qualquer outra parte de um homem: seja outro nome! Nome? O que há num nome? O que chamamos rosa não cheiraria tão doce em outro nome? Assim, Romeu, se fosse um não-Romeu, não perderia a querida perfeição sem o seu nome. Jogue fora o seu Montéquio, fique comigo, inteirinha!
Romeu: Peguei você na palavra! Eu não fui batizado, meu nome é Amor, não sei quem é Romeu.
Julieta: Que homem é você, na noite oculto, que assim penetra em meu segredo?"

William Shakespeare, "Romeu e Julieta". Em Retrato do amor quando jovem: Dante, Shakespeare, Sheridan, Goethe. Projeto e tradução de Décio Pignatari. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, pp. 142-143.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

TAQUICARDIA

Se andarmos apartados
Tropeçando encrespados
Paralelos pelas vias

Incluídas nos tratados
Que firmamos nos cansaços
Da estrada que trilhamos

Andemos! Soframos! E se pararmos
(num intervalo solar desses
desse tamanho descaso com as estrelas)

E pensarmos (ao menos) em mudar
Duas feridas (a menos) de lugar

Que possamos
Manter atados
Teus reclamos
A meus atalhos

(na saúde da doença
da alegria na tristeza)

Até que aprendamos
A amar nos desencontros
O mistério que nós somos
Quando entre(nos)cruzamos...

domingo, 16 de setembro de 2007

Sobre precisar e (não) bestializar

"O sonho é muito importante, sem ele a gente não sai do canto. Todo ser humano precisa de um pouco de loucura, ou cai na rotina. Fernando Pessoa já dizia: 'sem a loucura, o que é o homem? Uma besta sadia.'"

Ariano Suassuna, XIII Bienal do Livro do Rio de Janeiro, sexta-feira última.

SONHO DE DOMINGO

Hoje, se acordado
Doce e vago, ao teu lado
Vigília ou preguiça - tanto faria

Se claro dia, ou nublado
Se cedo ou tarde, da noitinha
Cansado, bem mal-dormida

(entre amores cultivados)

Se - do tempo e do espaço
Recentes de deuses de passado
Decente, num hiato celestial

Eu pudesse ter contado
Afinal com a luz, a paz matinal
Do teu sorriso - meu branco mundo estival...

sábado, 15 de setembro de 2007

DO DICIONÁRIO XXVI

Egoísmo: deliberado
Autismo ao chamado
Daquilo que preciso.

PARA (MELHOR) ATRAVESSARES A MADRUGADA

poema ruim, mas necessário

Quando medo e presunção
Travestidos de razão

Ameaçarem tua paixão
(pela vida
que jurei, faria
valer a pena ser vivida)

Ao encontrarem-se no portão

Da noite que só atraiçoa os enganos
Confortáveis - aos quais nos apegamos
Tristes e covardes

[noite contrária
à luta fútil - e diária
sob luz opaca, que brilha

(inútil turmalina)

sobre a fina simplística de uma lógica
ofuscada porque temerosa (por nada...)],

Lembre-se de um abraço
Morno e lasso, estreito e largo - sempre ao alcance
Dos teus braços - num relance
Permanente, por tudo confiante

Noutras horas iguais
De pouco tempo atrás...

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

VIDA ANIMAL

Neste tormento seco, poeirento
Sem risco real, que se apresente
A contento, migração anual

Não há (vê-se), ascendente
Aparentemente um movimento
Que do centro se sustente.

Por onde venham, retraídas
E floresçam, compreendidas
Palavras sem gravidade.

Onde ensejos, ou vontades
Que destravem felicidades
Não passem necessidade.

Por uma pista, uma saída
(trilha, passarela, escadaria)
Um louva-deus que sobreviva

A este clima...

(porque discreto, teu mal-estar
devora-me, exatamente
ao descasalar...)

terça-feira, 11 de setembro de 2007

BREU REFLEXO

Há muita luz em todo lugar.
Luz a mais, demais
Pra quem quer enxergar.

[como na noite sem lua
(sem hora pra terminar)
escura, escura, escura
(que perfura todo lugar)]

domingo, 9 de setembro de 2007

SOB O SOL QUE ME ABRIGA

Os demônios que me fitam
(dos ipês que amarelam)

Fritam sob o sol
(meu cáustico amigo)

Do Planalto Central.

O céu que me abriga
Acolhe a caminhada

Noite e dia; e de madrugada
(a lua dourada)
Amarela as flores das sacadas...

(o que me lembra, quando perdido
da seca certeza que me amolda
carcaça, cachola e espírito:

- eu não desisto do que sinto)

sábado, 8 de setembro de 2007

VISITA

A luz do sol que entra
Beija-me suave o rosto à direita
Numa carícia morna e doce, a trazer-me
Um sopro de ti até aqui

[ao que sigo pensando
e penso sentindo (muito)
à flor de mim...]

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

DA RECUSA A VIVER MORTO (DE RAZÃO)

Às vezes - muito menos que devia
Que poderia - raramente tendo em vista
Os reveses pela vida
Estou quieto - descansando
Numa fímbria - uma brisa
À sombra do cotidiano
Por um momento - num trecho
Quase plano
Da lida comigo mesmo.

Nesse descanso de momento
Quase plano, eu repenso - dispenso
Pensar inteiro o intenso - viciado
Em réguas e compassos deformados;

Fico esquecido das quadrilhas
Das arruaças demoníacas
Em piso cartesiano;

De assembléias e intrigas
Nas praças e esquinas
Do covil do crânio;

E das ações, maquinações
Que a razão urde e resfria
E amiúde ardente, justifica...

***

(neste trecho-argila em pó
com sorte - demasiado humano
por um momento forte - arcano

eu só te amo:
- tão pleno
e perfeito
o quanto...)

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

SOMA ZERO

Nada significa nada.

Não importa o que se faça
Estoura - e afoga-se - manada.

(numa linguagem que você entende:

- qual a demanda
se o que se oferta
é inversamente?)

domingo, 2 de setembro de 2007

A NATUREZA DA DOR

Entre o presente emparedado
E o espaço além de alargado

Entre acima o azul curvado
E o fino cinzeiro abaixo

Entre o claro dia, absolutamente claro
(e belo, e bom, e justo - à frente e ao lado)

E a noite sem lua interior

Ressinto.

(e quase lamento
estar tão vivo)

DO DICIONÁRIO XXIV

Armadilha: o que seria
A ilha perdida, encontrada
Solta, à beira da estrada.

sábado, 1 de setembro de 2007

MONITORAMENTO

De mim, eu mesmo
Hei de ser experimento
(tubo, ácido, sujeito
a um astuto objeto)

No tocante ao descenso
Ao dantesco inferno, à meia-luz
(sem tácito despertar / o interno desespero)
Deste quase consolo poético:

- Dos contornos etéreos
de um horizonte fatigado
que malgrado se reduz
à parede de um quarto

de sonhos aéreos, pintado
azul e claro, o fundo amarelo
descascado severo, e repintado
quando verde assim o quero...

(porque de mim mesmo
fênix renasço, do ocaso
sempre experimento)

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

TORPEDOS V

... poemas, disseste /
escrevo de estrelas, a oeste /
de ti, quando leito /
deito-te a leste...

27/08/07, às 19:10:23

***

Meus dedos ardem, secos /
avessos sentimentos /
se anseiam, exilados /
teus cabelos perfumados /
do desejo de meus pêlos...

28/08/07, às 11:07:03

***

... não demoro, juro /
neste vôo noturno /
quieto e fecundo...

28/08/07, às 20:05:06

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

TORPEDOS IV

A lembrança do brilho /
de teus olhos lindos /
acompanha o estio /
tecido de tua ausência: /
- ciência da seca /
que desfio...

23/08/07, às 20:59:41

***

... o ocaso da distância /
é o ocaso da ânsia /
de te viver /
(sem tardança /
de muito querer...)

23/08/07, às 21:31:51

***

... já vai, neste dia /
boa parte da travessia /
à outra margem, a metade /
mais minha desta vida...

às 14:29:03

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

TORPEDO II

... as horas correm ligeiras /
quando encantado, desperto /
das tuas graças perfeitas /
meu sonho de amor eterno...

às 11:08:02

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

TORPEDOS III

... mais beijos /
que desejo alheios /
à tortura alegre que percebo /
brotar ausente do tempo /
ágil dos teus dedos...

às 14:20:52

***

... o desespero /
do desejo /
com que te amo /
é o sôfrego /
doido manso /
deste asilo /
céu florido /
que te recanto...

às 14:42:01

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

O AVESSO

Instaurou-se, anunciado

(indevidamente previsto
desmedido e calculado)

O pesadelo.

Contudo, dele me afasto

(pelo que me aguardo
do que segue ao fardo)

O necessário.

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

TORPEDOS II

... meu momento /
de silêncio /
é teu tempo /
(adensamento) /
por dentro...

07/08/07, às 09:33:51

***

Como assim pedaços /
sensíveis ao olfato /
(por ti perfumado) /
soltas ao acaso /
quando aqui sofro /
agruras do trabalho?...

07/08/07, às 17:53:18

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

TORPEDO

... às vezes, a saudade que bem sinto /
o bom senso atropela, o equilíbrio /
e me deixa o coração em desatino /
a errar mil vezes o caminho...

às 20:59:52

UM AMIGO

O que mais fundo sinto
Que vem do fundo do abismo
Que habito - mas sempre desabituo
De conviver comigo

É como se fosse parente
Ausente de presentes tecidos
Cotidianamente - repetidos
E rotineiramente revistos;

Mas que me abraça, terno
Com todos seus finos espinhos
Rubros cosendo perfurações

Dos botões de que me visto:
- Um velho camareiro, discreto
com segredos de toucador...

sábado, 4 de agosto de 2007

DESCUIDO

Um segundo, é o bastante
Um instante surdo, lancinante

Para que desmorone
(num minuto insone)
O importante;

Para que o castelo de cartas
(desamassadas, relidas)
Das escadarias douradas
Até a divina morada (tardia)

Desabe - numa jogada.

[Deliberada ou distraída, não esqueçamos:
o mal opera nos interstícios da atenção.]

TORPEDOS

Ouço o tempo algoz /
De ausência da tua voz /
Esvair-se dia /
Pela noite que aproxima...

20/06/07, às 16:41:24

***

... entre as coxas /
quentes /
que repousas /
rente /
àquele que (te) deseja /
tenazmente...

20/06/07, às 16:58:33

***

A manhã em flor /
Não rompeu ainda /
Mas a rubra iminência /
De tua doce presença /
Já perfuma o dia...

15/07/07, às 05:25:26

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

REFLUXO

Certos afetos

(por sentimentos obsoletos)

Têm momentos (tetos)
De reta obediência absoluta

(sem luta)

À gravidade de fatos
Escassos de esperança
(rasos sem tardança):

- Dessa mecânica celestial

[ao fim da qual, em geral
não é tão má, nem (a mim) igual
a consciência da normalidade
como orgânica finalidade]

o que me cola ao chão
é menos daí
que daqui então...

quinta-feira, 26 de julho de 2007

"E a noite iluminava a noite"

o sol reflexo em Roland Barthes

"NOITE. Todo estado que suscita no sujeito a metáfora da obscuridade (afetiva, intelectiva, existencial) na qual ele se debate ou se apazigua.

1. Vivencio sucessivamente duas noites, uma boa, outra ruim. Sirvo-me, para dizê-lo, de uma distinção mística: estar a oscuras (estar às escuras) pode acontecer, sem que haja carência, porque estou privado da luz das causas e dos fins; estar en tinieblas (estar nas trevas) acontece-me quando sou cegado pelo apego às coisas e pela desordem que daí provém.

Na maior parte das vezes, estou na obscuridade mesma do meu desejo; não sei o que ele quer, o próprio bem é para mim um mal, tudo ecoa, vivo numa roda-viva: estoy en tinieblas. Mas, às vezes, também, é uma outra Noite: sozinho, em posição de meditação (é talvez um papel que me atribuo?), penso no outro calmamente, tal como é; suspendo toda interpretação; entro na noite do sem sentido; o desejo continua a vibrar (a obscuridade é transluminosa), mas não quero apoderar-me de nada; é a Noite do não-lucro, do dispêndio sutil, invisível: estoy a oscuras: estou ali, sentado simplesmente e pacificamente no interior negro do amor.

2. A segunda noite envolve a primeira, o Obscuro ilumina a Treva: 'E a noite estava obscura e iluminava a noite.' [S. João da Cruz] Não procuro sair do impasse amoroso pela Decisão, pelo Domínio, pela Separação, pela Oblação, etc., em suma, pelo gesto. Apenas substituo uma noite pela outra. 'Obscurecer esta obscuridade, eis a porta de toda maravilha.' [Tao Te King]"

Roland Barthes, Fragmentos de um discurso amoroso. Tradução de Márcia Valéria Martinez de Aguiar. São Paulo: Martins Fontes, 2003, pp. 259-260.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

NA PORTA DA GELADEIRA

Não, não posso
Me esquecer
Do cotidiano
Te escrever

Seqüências de sílabas
Apropriadas - palavrinhas
Bem-medidas, sentenças
(máximas entre mínimas)

Que aliviem as rotinas
Ditas ácidas, corrosivas
Íntimas dos cotovelos;

Rosários de continhas
Bombons, balinhas - enlevos
Que adociquem dias inteiros

(se nublados os cinzeiros
de mal-viver passageiro...)

segunda-feira, 16 de julho de 2007

QUATRO CONSTATAÇÕES E UM PEDIDO

Será sempre assim:
- Você principiando nãos
eu finalizando sins.

***

Será sempre um cabo-de-guerra:
- Você me puxando pra vida
eu te descansando dela.

***

Baby, tenho uma cartola
De prosa em poesia:
- Dela, tudo jorra
(mas é você quem tira).

***

Será sempre assim:
- Do crepúsculo à aurora
eu te matando um leão
(por hora).

***

Baby não, não vá embora:
- Se for, não me carregue
o coração na sacola.

sábado, 14 de julho de 2007

AMANHÃ CEDO

Anoiteceu - finalmente
Aconteceu - do dia derradeiro
Desmaiar - do meu cansaço
De Romeu - a esperar

A hora - o momento
De renovar - a tempo
(de respirar)

O desejo

(íntegro, primeiro)

(na aurora
deste desdobramento)

De ver você chegar.

À TUA ESPERA

Blocos de granito
Como leves guizos: o presente
Comprimido em segundos
Parecem minutos

(horas a fio
no fundo do rio)

Em câmara lenta; a vida
(modorrenta alegria)
Ainda vale a pena
Mesmo agonia:

- Antes antever-te
verde na doceria
que tardiamente
feita noutro dia...

sexta-feira, 13 de julho de 2007

quinta-feira, 12 de julho de 2007

JUSTO ANTES DA AURORA

Acordei (às cinco)
Dum sono sem sonho:
- Pesado e confuso, contudo
desperto ágil o segundo;

Opaco, súbito o sinto
Intransponível aquela ponte
Para além da velha fonte
Desta escuridão invencível;

Não importa saber que avança
A madrugada na lenta dança
Granítica de minha ânsia:

- O tempo não anda, contradiz
a esperança de quanto mais dia
aponta (e alivia), menos significa...

domingo, 8 de julho de 2007

DO DICIONÁRIO XXIII

Sono: interregno
Aberto a sugestões
Sonhadas prestações.

ANGRA

A capela, branca
(hermeticamente fechada)
Aninhada à sombra d'água
(vista da estrada)

Vela, delicada

A sagrada fissão das partículas
Em partículas menores, pequeninas
Melhores se menores ainda

Miudinhas

Mínimas

Ínfimas

Não fossem íntimas
Da criação divina - a maior energia

(menores que piores
a depender da perspectiva)

sábado, 7 de julho de 2007

RECADO DISTRAÍDO

Amorzinho ido
(se mais distante
impossível suportar):

- Cê tá demorando
e eu esperando
de tanto suspirar

e de tanto suspirar
enfim descanso
de costas para o mar

e de costas para o mar
sonho Paris, com a França
com Cascais, Lisboa e Viana
e a Cintra de Eça

[com Brasília, que é minha
(que era), sonho mais ainda]

conosco em vigília
dupla ilha a estibordo
doutro ido lugar...

PARATY IV

O fim-de-semana
Sacana, te entope as veias
Cavando fundo as areias
De tuas ruas perfeitas;

Nada bucólica, portanto
A Paraty outrora agora
Tão cheia de gentes
Vazando afluentes

[seu rio apodrecido
naturalmente conta
(com certa pompa)
este presente ido]

TRINDADE

Pinças verdes
De mata, cinzas
De pedra, fechadas
Num braço de mar
Decepado da água;

Pseudopraia abraçada
Sem aconchego, fria
Enseada; mórbido
Desejo de baixo nevoeiro
Por entre as pinças

Deste enorme caranguejo...

sexta-feira, 6 de julho de 2007

PARATY III

Nada demais:
- Tua ausência repetida, conhecida
já destas pedras, certamente
que amarias;

Ademais, nada que escrever
Terá muito a ver com olhos
Bem-postos aqui:
- Sem ti
pouco há Paraty.

DO DICIONÁRIO XXII

Literatura: instância
Da vida que não atura
Diletância mal-urdida.

PARATY II

Paraty morreu
De morte antiga:
- Pacata, perdeu-se
reveses atrás;

Ressuscitou, um dia
Museum
Empalhada vila

(diferente de Goyaz
que respira ainda)

quinta-feira, 5 de julho de 2007

TRÊS DE JULHO

Hoje, a saudade
Virou-se, tempestade
Seca, arenosa, traiçoeira
Vendetta - da tua ausência.

DO DICIONÁRIO XXI

História: falsa memória
Do presente, (re)atualizada
À frente de continuamente.

PARATY

Retas, simétricas
Perpendiculares
(particulares)
As pedras de Paraty;

Ruas sem curvas
Salgadas, a areia turva
Lavada do mar-mangue
Que cristaliza, exangue
A vila dos parasitas;

Estranha, pequena e larga Paraty
Exata: nada das tortuosas vias
Que fiz de Goyaz, lá em cima...

terça-feira, 3 de julho de 2007

FÉ CIRÚRGICA NA RODA DA FORTUNA

Confio no amor
No seu operar interior
(retórica das vísceras)

Acredito poder o amor
Operar o tempo a seu favor
(glória das orquídeas)

Sinto de fato o amor
Operar o pensamento sem dor
(estória das primícias)

E quando acontece do amor
Operar no espaço exterior
(vitória das valquírias)

Saiba que não é doce
Nem amargo
Nem estreito
Nem largo

O percorrido a percorrer:

- Apenas filme já visto
por outro viver.

MÃE

Tuas coisas
Quase barrocas, e solenes
Católicas, apostólicas
Humanas

São remotas, primogênitas
Do amor mais antigo

Da alma deste filho
(teu só menino)
Tão próximo, e longínquo
Dúbio sentimento:

- Quente, frio
alheio, marinheiro
pinheiro andarilho
sempre contigo...

segunda-feira, 2 de julho de 2007

CHEIA

A lua
Aguda me provoca
Tua lembrança
Nova

RODOVIÁRIA

As gentes desta encruzilhada
Queimada, engordurada
De esperas angustiadas
(de chegadas indiferentes)

Não aguardam como antes
(pacientes, deselegantes)
Pelo momento em seguida
Suspenso dessa lida:

- Antes passam, navegantes
por sobre rodas-gigantes
até a próxima parada

(paraíso distante
uma polegada
de mapa)

sábado, 30 de junho de 2007

sexta-feira, 29 de junho de 2007

DEZESSEIS DIAS MAIS

Deste lado do mar
Predomina, obsequioso
Um silêncio - amoroso
Que saberia esperar.

Um silêncio, educado
Compulsivo a respeito:
- De asas ao relento
esquecido do vento.

Mal cabe meu, cioso
Tal anjo formoso
Brioso de tudo:

- Mudo, sentado
(por caber esperar)
deste lado do mar.

quinta-feira, 28 de junho de 2007

"Dias eleitos"

uma saudade ainda alegre, com a ajuda de Roland Barthes

"FESTA. O sujeito amoroso vive todos os encontros com o ser amado como uma festa.

1. Festa é aquilo que esperamos. O que espero da presença prometida é uma soma inaudita de prazeres, um festim; jubilo como a criança que ri ao ver aquela cuja simples presença anuncia e significa uma plenitude de satisfações: vou ter diante de mim, para mim, a 'fonte de todos os bens'.

'Vivo dias tão bem aventurados como aqueles que Deus reserva a seus eleitos; e venha o que vier, não poderei dizer que as alegrias, as mais puras alegrias da vida, não as terei eu experimentado.' [Werther]

2. 'Naquela noite - tremo ao dizê-lo! - apertava-a em meus braços, estreitamente cerrada contra meu peito, cobria de beijos sem fim seus lábios que murmuravam palavras de amor, e meus olhos se afogavam na embriaguez dos dela! Deus! seria eu digno de punição por ainda agora experimentar uma celeste felicidade ao me lembrar daquelas ardentes alegrias, revivê-las no mais profundo de meu ser!' [Werther]

A Festa, para o Amante, o Lunar, é uma jubilação, não uma explosão: gozo o jantar, a conversa, o carinho, a promessa clara do prazer: 'uma arte de viver por sobre o abismo'.

(E acaso nada significa, para você, ser a festa de alguém?)"

Roland Barthes, Fragmentos de um discurso amoroso. Tradução de Márcia Valéria Martinez de Aguiar. São Paulo: Martins Fontes, 2003, pp. 197-198.

quarta-feira, 27 de junho de 2007

INEXPRIMÍVEL GOYAZ V

Isto é, de fato
O que fazes comigo:

- As pazes no paraíso
deste quarto ninho

(a despeito de cucas
pererês e mulas
passados sem cabeça)

terça-feira, 26 de junho de 2007

INEXPRIMÍVEL GOYAZ IV

Meu amor, qualquer besteira
Bananeira em flor

Com que perfumo teus ouvidos
De carinhos

Bumerangue vem

E me abre - verbo inverso
Em caminhos...

segunda-feira, 25 de junho de 2007

EXCÊNTRICA LIRA

Teus verdes campos elíseos
Mentais, são quase apolíneos
Por soprarem ventos alísios
Beijando benignos cílios;


Meus abismos, são precipícios
Interrompidos beirando doídos
O ridículo caído de paixão
Dionisíaco boqueirão; todavia

Toda vez que em ti habita
A tempestuosa ira de entornar
Meu rio ao mar, já à deriva

Um barco interior de calmaria
(vontade alísia do beijar elíseo)

Nos avisa de atracar, de amar...

sábado, 23 de junho de 2007

DO DICIONÁRIO XIX

Aniversário: efeméride
Estranhamente familiar
Sem tempo nem lugar.

ANIVERSÁRIO

Meu amor, teus anos
Não parecem assim tanto
Tempo que passou quanto
Momentos que se pensou

E desses pensamentos
(quando dão a contento)
Vem sempre a impressão
(pelo sim e pelo não)

Que teu coração talvez
(talvez mais de uma vez)
Por eles correu incógnito:

- Pois óbvio o que se tece
se o contrário apetece

(o desapercebido
entretanto vivido)

sexta-feira, 22 de junho de 2007

quarta-feira, 20 de junho de 2007

INEXPRIMÍVEL GOYAZ III

Somos duas
Crianças adultas
Repassando estórias:

- Trocas de pedrinhas
em vidraças coloridas

(farpas, entrelinhas
que se quebram sozinhas)

terça-feira, 19 de junho de 2007

INEXPRIMÍVEL GOYAZ II

Por que tudo que dizes
Assim, de chofre

Açoite

Ao vento, à sorte

Perfura, assim
Meu norte

(itinerário de um destino só)?...

segunda-feira, 18 de junho de 2007

INEXPRIMÍVEL GOYAZ I

Não sei
(mesmo, não sei)

O que da sombra fresca
A tua doce presença

(alfazema)

Esquenta
Em mim.

domingo, 17 de junho de 2007

FREQÜENTE

Por que sinto
E ressinto

[aqui, contigo, ali
dormindo, acordado
pensativo (por acaso)
vivo]

A mesma coisa boa
Repetida à toa

Quando tua coxa
Roça meu sonho eterno de menino?...

sábado, 16 de junho de 2007

A FADA DAS LOUÇAS

apareceu por aqui. Ali
enquanto eu sonhava
(com flocos de goiabada)

as panelas do meu amor inteiro
dançaram da pia ao escorredor
num ato perfeito

(de caseiro esplendor)

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Inexprimível amor

sobre outra impossibilidade, novamente Roland Barthes

"ESCREVER. Engodos, debates e impasses provocados pelo desejo de 'exprimir' o sentimento amoroso numa 'criação' (particularmente de escrita).

1. Dois mitos poderosos nos fizeram acreditar que o amor podia, devia se sublimar em criação estética: o mito socrático (amar serve para 'engendrar uma multiplicidade de belos e magníficos discursos') e o mito romântico (produzirei uma obra imortal escrevendo minha paixão).
Entretanto, Werther, que antes desenhava abundantemente e bem, não pode fazer o retrato de Carlota (mal pode esboçar-lhe a silhueta que é precisamente o que, dela, o capturou). 'Perdi... a força sagrada, vivificante, com a qual criava mundos ao meu redor.'

2. 'La pleine lune d'automne,
Tout le long de la nuit
J'ai fait les cent pas autour de l'étang.'

[À lua cheia de outono, / Ao longo de toda a noite / Perambulei ao redor da represa.]

Nenhuma indireta mais eficaz, para dizer a tristeza, do que este 'ao longo de toda a noite'. E se eu, também, tentasse?

'Ce matin d'été, beau temps sur le golfe,
Je suis sorti
Cueillir une glycine.'

[Nesta manhã de verão, bom tempo no golfo, / Saí / Para colher uma glicínia.]

ou:

'Ce matin d'été, beau temps sur le golfe,
Je suis resté longtemps à ma table,
Sans rien faire.'

[Nesta manhã de verão, bom tempo no golfo, / Fiquei durante muito tempo à mesa, / Sem fazer nada.]

ou ainda:

'Ce matin, beau temps sur le golfe,
Je suis resté immobile
A penser à l'absent.'

[Nesta manhã, bom tempo no golfo, / Fiquei imóvel / Pensando no ausente.]

De um lado, é não dizer nada, de outro, é dizer demais: impossível ajustar. Minhas ânsias de expressão oscilam entre o denso haikai, resumindo uma enorme situação, e um grande carregamento de banalidades. Sou ao mesmo tempo grande demais e fraco demais para a escrita: estou ao lado dela, que é sempre rigorosa, violenta, indiferente ao eu infantil que a solicita. O amor tem decerto um pacto com minha linguagem (que o mantém), mas não pode alojar-se em minha escrita.

3. Não posso me escrever. Quem seria este eu que se escreveria? À medida que entrasse na escrita, a escrita o esvaziaria, o tornaria vão; produzir-se-ia uma degradação progressiva, na qual a imagem do outro seria, também ela, pouco a pouco envolvida (escrever sobre alguma coisa é corromper esta coisa), abominação cuja conclusão não poderia deixar de ser: para quê? O que bloqueia a escrita amorosa, é a ilusão de expressividade: escritor, ou considerando-me tal, continuo a me enganar sobre os efeitos da linguagem: ignoro que a palavra 'sofrimento' não exprime nenhum sofrimento e que, por conseguinte, empregá-la, não apenas significa nada comunicar, mas ainda, e bem depressa, irritar (sem falar no ridículo). Alguém deveria me ensinar que não se pode escrever sem fazer o luto da própria 'sinceridade' (sempre o mito de Orfeu: não se virar). O que a escrita exige, e que nenhum amante lhe pode conceder sem dilaceramento, é que ele sacrifique um pouco de seu Imaginário, e que assegure assim, através de sua língua, a assunção de um pouco de real. Tudo o que eu poderia produzir, no melhor dos casos, seria uma escrita do Imaginário; e, para isso, eu teria que renunciar ao Imaginário da escrita - me deixar laborar por minha língua, sofrer as injustiças (as injúrias) que ela não deixará de infligir à dupla Imagem do amante e de seu outro.

A linguagem do Imaginário não seria nada mais do que a utopia da linguagem; linguagem perfeitamente original, paradisíaca, linguagem de Adão, linguagem 'natural, isenta de deformação ou de ilusão, espelho tímido de nossos sentidos, linguagem sensual (die sensualische Sprache)': 'Na linguagem sensual, todos os espíritos conversam entre si, não têm necessidade de nenhuma outra linguagem, pois é a linguagem da natureza.'

4. Querer escrever o amor é afrontar o atoleiro da linguagem: esta região desesperada em que a linguagem é ao mesmo tempo muito e muito pouco, excessiva (pela expansão ilimitada do eu, pela submersão emotiva) e pobre (pelos códigos mediante os quais o amor a rebaixa e reduz). Diante da morte de seu filho-criança, para escrever (nem que fossem farrapos de escrita), Mallarmé se submete à divisão parental:

Mère, pleure
Moi, je pense

[Mãe, chora / Eu, eu penso]

Mas a relação amorosa fez de mim um sujeito atópico, indiviso: sou meu próprio filho: sou ao mesmo tempo pai e mãe (de mim mesmo, do outro): como poderia dividir o trabalho?

5. Saber que não escrevemos para o outro, saber que essas coisas que vou escrever jamais me farão amado de quem amo, saber que a escrita não compensa nada, não sublima nada, que ela está precisamente ali onde você não está - é o começo da escrita."

Roland Barthes, Fragmentos de um discurso amoroso. Tradução de Márcia Valéria Martinez de Aguiar. São Paulo: Martins Fontes, 2003, pp. 157-161.

Sobre o mal

O mal opera nos interstícios da atenção.

quarta-feira, 6 de junho de 2007

NÃO ESCREVO

Porque vivo
(indefeso)
O avesso
Do avesso do avesso

Toda vez que arremedo
A vida literária que desejo
(e desconheço)

sexta-feira, 1 de junho de 2007

O CHÃO SAGRADO

acerca de um sonho caro, e ameaçado

São oitocentos metros quadrados
riscados em cerrado de sonhos coalhado
dos outros; o retângulo aeroporto
do já alto vôo que encetamos abraçados.

Qual castelo? Imaginamos, enlevados
o canto íntimo de um ao outro, renovado
aço místico finíssimo redobrado ao infinito:
- espada samurai de cortes sem coágulos.

Que espaço? Da tertúlia generosa dos portões
abertos ao eterno encontro; dos cuidados
mutuamente cultivados, extensíveis

flores aos convidados; e do silêncio
enfim mais caro - amorosamente tecido
rítmico na alcova dos carinhos...

22/05/05