quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

REVISITA 166: DESILUSÃO DE BAR

Como vejo a moça em fuga
pela esquina à direita?

A que menos fuma
ou a que aligeira

algo desatenta?

Não sei ainda. Deveria?

Nem promessa tenho
que assente

um sentido numa notícia...

Mas linda
alguém dali virá

ao cenho:

- na curva lógica da mesa

razão da cadeira
paixão cervejeira

numa ilusão de estar...

1991

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

REVISITA 165: PLENO ÁCIDO


Há um vazio
mal preenchido

gente demais.

Faces profusas
dançando à frente

fátuas seduzem
pesadamente:

- cada uma

uma promessa
espuma, quimera

plúmbea.


O que de raso
ali no fundo

há no espetáculo
de figurante

não tão pardacento?

Demônios, personagens
inadministráveis;

gênios do conhecimento
contraditórios;

riqueza alheia
a qualquer certeza;

performances, vômitos
indômitos romances...


Vou navegado
disposto à mesa

dono de nada
entre as cadeiras;

entregue a desígnios
que ignoro

fado convicto:

- mal preenchido
gente demais...


26/11/1991

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

REVISITA 164: NÊMESIS

aos pedaços


Madrugada.

O sibilo do silêncio
desperta nele mesmo

uma impressão tua:

- em mim, como fica?


Ângulos do teu rosto
o rico sorriso, o todo gostoso

cruzam comigo a noite
avultando muito:

- perseguem o quê?


Detalhes menores, em suma

subvertem a minha causa
a sua pausa justa

(deixá-los em suma paz).


Impulsiva, a caneta
deita sílabas, sentenças

sobre o branco que me deu

o teu gozo repetindo
uivos roucos nos ouvidos

comandando fibrilante
dedos noutros orifícios...


Fonemas, poemas
mãos dadas, tomadas

são agora da memória:

- mas um sonho bate à porta
diligente à nossa procura

desejoso de cura
alguma.


Dolorosamente
recorto do teu corpo

a juba, a pele, a vulva
o hálito dos pelos negros;

e curvas, dobras, a fenda rubra

por onde não mais estão
aonde não se descubra...


[tudo que escorre e pinga
dessa carne viva

cadafalso me tortura
o equilíbrio neste momento

sem o teu tempo]


1991

REVISITA 163: FOGUEIRA

O que é o bar

senão o exacerbar
de incertas expectativas?

O que é o bar

senão concertação
salivar especulativa?...

Nele, predomina a vaidade

reduzida à necessidade
premente de novos arranjos.

(enganos?)

E cada mesa, cartucheira passional

porta intimidades
exteriorizáveis

passíveis de explosão
se a cota do álcool engatilhar...

Grande divã, o bar.

1991

SUBSTANCIALISTA


A vida

é mais

do que


[não ter sorte
ganhar porte
fazer a corte
tratar o corte
perder o norte
tomar um forte...]


sobreviver à morte.

sábado, 12 de janeiro de 2019

REVISITA 162: HORA FELIZ

A luz oblíqua
na branca toalha

arruma a mesa às cinco.

A tarde ubíqua
já deita poalha

num bar qualquer do mundo.

A rua, afora
trepida seus calores;

adentro, chacoalha
ideias nas cervejas.

Turvas figuras
estacionando

abrem sorrisos;

aguardam delirantes
a tal mirada errante

que solamente as veja.

Na hora à toa
o ocaso voa

da espuma à boca;

na sua festa
toda amarela

cabe, ludo
tudo, quase:

- o acaso absurdo
desde que se esqueça;

desde que derreta
temores de amores...

31/10/1991

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

REVISITA 161: ABSTÊMIO

Penso
num bar.

Atento ao ar
tento poetar.

Mau poeta.

Já sinto
há tempo

que o vácuo
no mar
por dentro

reclama
a seco:

- se me abstenho
mau declamar...

1996

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

REVISITA 160: LOLITA

poema de caderneta

A tua pouca idade
um pouco me assusta.

Seduz este rebelde
aquém daquela curva.

Será a tua idade?
Será porque és beldade?

Será porque se sabe
o que desestrutura?

Ou que por qual metade
verá tal impostura!...

...

(o que então resulte
dessa infantilidade

tampouco nos machuque
na hora da verdade)

1991

Nota relativamente importante

Ontem, encontrei uma caderneta de poesia, perdida na papelada transferida para a Torre Nova. Trata-se de alguns poemas que esbocei em 1991 e 1996, respectivamente, e que não foram concluídos. Correspondem a um período marcado por certa boemia, pela vida acadêmica doméstica e estrangeira, e por (des)ilusões amorosas.

Como no caso do material anterior ao Sol Reflexo, considero o conteúdo da caderneta bastante desigual - neste caso, imprestável na sua maior parte. Ainda assim - talvez mais por uma questão de registro -, decidi reaproveitar o que for possível nos termos do Projeto Revisitas, realizado aqui no blog entre julho de 2014 e outubro de 2016.

A numeração dos poemas seguirá a do Projeto.

Vamos ver no que dá.

M. B.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

EM JANEIRO III


O tempo acordado

um tempo sonhado


é tempo dormindo

desapercebido.


(do tempo passando)

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

DO CLIMA


A insistência


do tempo claro

no espaço limpo


pede chuva.


Uma que turve


a inconsciência

da fantasia

idílica


do que chuvisca.

SENTADO


O sol

dourado

me ignora.


Seu brilho lá fora

chorrilho

tem hora;


cá dentro me viro

se tenho paçoca

polvilho

pipoca

tevê

e você...


...


Translúcido

se lúcido vou

à disposição

(terçol se não)


prum banho de luz

moreno andaluz

que então me seduz

do filtro solar


qual o problema do tema

arisco do tempo a calhar?


O sol que existe

pelo chuvisco

segue o seu curso;


eu sigo triste

(contigo em riste)

o que consigo

do telecurso...


...


A lua minguante


na tela crescente

o bastante...


Ignoro?

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

EM JANEIRO II

O dia passa

(a manhã anda
a tarde corre
a noite voa
a madrugada)

e aqui à toa
no alto da torre

a mente nada
na linha d'água:

- entre uma banda
e alguma onda

nalguma frágua...