sábado, 31 de dezembro de 2011

DA ROTAÇÃO

Arrastam-se, idosas
essas últimas horas

do período translacional supracitado.

Tranqüilas, tais senhoras
encerram-lhe as portas

cumprindo ademais o prístino combinado.

Mas do lado de fora, há certa agonia
(porquanto buliçosa)

entre a necessidade mais imperativa
da retrospectiva

e a festiva vontade (tamanha a preguiça)
de agora ir embora...

[quem sabe a gelada champanha lubrifique
contabilidade qualquer que se inicie?]

VICI?

Aos trinta e um de dezembro
de dois mil e onze, vejo

que o futuro que ensejo

não fundará no desejo
(aquele do qual me lembro)

maiores realizações.

[menos mal, argumento-me
ao vencê-lo - por um ponto

(convencido como Pirro
o tal - não fui mau general)]

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

À SAÚDE

Se pudesse, tocaria um alaúde
até média idade - ou antes da meia
entrada de cinema - quando amiúde
cantarolaria pela estrada inteira;

se soubesse, postergaria virtudes
desde que melhor tocasse o alaúde
- penso na economia das gertrudes
a sofrer mães por meninos com saúde;

mas quem, todavia, extravagaria
o percurso - se nem seu curso elegante
cogita esta era maldita ao romance?

[uma dica:]

No Google há Cervantes - cervejarias
amiúde inchando panças - todo dia
noites brindando à saúde - do ataúde...

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

QUEM DIRIGE NO DECLIVE?

O espelho, do seu jeito
me revela um receio

(se rumor passageiro
após o amor veremos):

- que a passagem do tempo
se dê por ele mesmo

apenas nos seus termos
a mim heliocêntricos.

(se senhor dos reflexos
porque cegos queremos)

***

[meu inflexo peter pan
ao fim tão quebradiço
que não esqueça disso:
quão postiço é amanhã!...]

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

CAPITÃO CISCO

Sisko, in English

Assanhado
mal-passado
- ajambrado;

intrépido - sem estrépito
porque algodoado;

vivaz
quieto e loquaz
(mordaz?)

ligeiro, certeiro
capaz
- um pouco demais;

afetuoso
tenebroso
das-louças-macaco;

errante/errado
e nada ferrado;

serelepe
mequetrefe
maquete de elástico;

vítreo
opaco

meio seqüelado;

sumido
achado

amigo - do anonimato

(futuro rei do telhado)

trançado
cesto de vidas
sortidas;

um raio
gaiato
novo no pedaço...

- e gato!

domingo, 25 de dezembro de 2011

BÁSICA

Presa
à atenção mais atentiva

(esta
cuja impressão se dá em argila)

fica tua presença, invertida
numa ausência que corporifica:

- a perfeição divina
do desenho preciso, de poucas linhas
que te imagina - e sintetizam

exatamente como me sinto
belo, incrível - inverossímil

reflexo do brilho que causas...

(à vítima incauta
de um nocaute florido)

sábado, 24 de dezembro de 2011

DIA BOM

Um bom dia, daqueles
de doces despedidas:

- boa noite, me destes
enquanto enternecias...

(quando claros castanhos
fixaram teus encantos
nos cantos da retina;

e palavras cortantes
pousavam nos semblantes
o beijo da esgrima;

e o pistache gelado
do teu imaginário
no meu se derretia)

[tão bom dia, que deles
jamais prometerias]

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

DAS DESAMARRAÇÕES

Face às mesmas ações
cujas repetições
configuram padrões

que fazes nos serões
de mais reproduções
desses mundos anões?...

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

SEGUNDO ISTVÁN

A velha senhora, de cócoras
- a vista próxima do gólgota

rui (sem barbosa que a sustente)
agora menos lentamente;

ruidosamente, cracks
estralam rachaduras
tornadas estruturas;

promoções de varreduras
nas vendas de guarda-chuvas

Jacks não resolverão:

- o economista clássico inglês
(neojurássico), não desta vez...

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

VENDO A BEIRA DO BURACO NEGRO

Distraído, o tempo prometido
do período - mesmo que corrido

parece ter ido antes disso:

- gravidade íntima, ínfima
num dado momento da partida

ata a nutrida expectativa
de tudo celebrar em seguida

à estaca funda do nada ainda...

(como se ungido fosse o destino
por um desconhecido distinto)

domingo, 18 de dezembro de 2011

PACHEQUISMO BIPOLAR

ao ufanismo futebolístico

O anverso: vamos todos recordar
a história a demonstrar:

- temos sido, além-mar
Campeões! Campeões! Lá

e ali - como aqui, no lar
de Muricy e Neymar!...

- e bla-bla-blá - e além-bar
(a imprensa a oba-obar)
bla-bla-blá, bla-bla-bla-blá

tra-la-lá, laririrá
tico-tico no fubá!...

***

[um, dois, três, quatro (ah não
meu deus, de quatro é oitão!...)]

***

O reverso: da ave mercenária
e seus comparsas, nada

queiramos, nada, nada
esperemos, pois nada

que fizerem, de nada
a nação humilhada

[de pelés e (zé) manés]
hoje nos redimirá.

(de lógicas binárias
ciclotimias, nada
nada nosso escapará)

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

CINZA

Langorosa
a chuva ali fora.

Pesada, e sólida
(porosa, embora)

engrossa e afina, rítmica
(a arritmia da alma)
numa batucada melancólica.

Lágrima. Urina divina.
Líquida - meteorologia.

(em resposta
aqui dentro incha
toda atividade nervosa)

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

ELUDIDOS

Quando me dizes mais
sabeis que empoeirais

a lisa superfície metálica
d'uma rara, perfeita linha d'água

de certos mananciais mentais:
- descuras conotações demais.

Quando menos, ao menos ignorais
que não sei o quanto - dado que mundos

entrelaçam-se inteiros no escuro
vácuo absoluto deste momento

minúsculo - obscuro porquanto
desconhecido de fato, de tudo...

Dois caminhos para a exatidão

Calvino bifurcado

"... minha escrita sempre se defrontou com duas estradas divergentes que correspondem a dois tipos diversos de conhecimento: uma que se move no espaço mental de uma racionalidade desincorporada, em que se podem traçar linhas que conjugam pontos, projeções, formas abstratas, vetores de forças; outra que se move num espaço repleto de objetos e busca criar um equivalente verbal daquele espaço enchendo a página com palavras, num esforço de adequação minuciosa do escrito com o não-escrito, da totalidade do dizível com o não-dizível. São duas pulsões distintas no sentido da exatidão que jamais alcançam a satisfação absoluta: em primeiro lugar, porque as línguas naturais dizem sempre algo mais em relação às linguagens formalizadas, comportam sempre uma quantidade de rumor que perturba a essencialidade da informação; em segundo, porque ao se dar conta da densidade e da continuidade do mundo que nos rodeia, a linguagem se revela lacunosa, fragmentária, diz sempre algo menos com respeito à totalidade do experimentável."

Italo Calvino, Seis propostas para o próximo milênio. Tradução de Ivo Barroso. São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p. 88.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

DEFINÍVEL

Entre o inconcebivelmente maior
e o incomensuravelmente menor



um número-balancete
de cabeças de alfinete.

Se tal desconhecemos
(ou mal o espetamos)



o saberemos contando desde o princípio
- como somando saímos do precipício.

Infinito indefinido

Calvino, cercando uma solução de Leopardi

"Para um hedonista infeliz, como era Leopardi, o desconhecido é sempre mais atraente que o conhecido; só a esperança e a imaginação podem servir de consolo às dores e desilusões da experiência. O homem então projeta seu desejo no infinito, e encontra prazer apenas quando pode imaginá-lo sem fim. Mas como o espírito humano é incapaz de conceber o infinito, e até mesmo se retrai espantado diante da simples idéia, não lhe resta senão contentar-se com o indefinido, com as sensações que, mesclando-se umas às outras, criam a impressão de ilimitado, ilusória mas sem dúvida agradável."

Italo Calvino, Seis propostas para o próximo milênio. Tradução de Ivo Barroso. São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p. 78.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

PRECISO

Quanto terá
rabiscado?

Quanto será
garimpado?

Quanto labor este rio
vocabular ressentido

de vários desvios em vão
- a mercúrio proibido

há de querer permiti-lo

(no exato vulcão que cogita
recurso da lavra à pepita)

à palavra - sua escrita?...

Um conceito e sua ilustração

Calvino, acerca do que procuramos, e dos tempos respectivos de Vulcano e Mercúrio numa estória chinesa

"O êxito do escritor, tanto em prosa quanto em verso, está na felicidade da expressão verbal, que em alguns casos pode realizar-se por meio de uma fulguração repentina, mas que em regra geral implica uma paciente procura do mot juste, da frase em que todos os elementos são insubstituíveis, do encontro de sons e conceitos que sejam os mais eficazes e densos de significado. Estou convencido de que escrever prosa em nada difere do escrever poesia; em ambos os casos, trata-se da busca de uma expressão necessária, única, densa, concisa, memorável."

"Entre as múltiplas virtudes de Chuang-Tsê estava a habilidade para desenhar. O rei pediu-lhe que desenhasse um caranguejo. Chuang-Tsê disse que para fazê-lo precisaria de cinco anos e uma casa com doze empregados. Passados cinco anos, não havia sequer começado o desenho. 'Preciso de outros cinco anos', disse Chuang-Tsê. O rei concordou. Ao completar-se o décimo ano, Chuang-Tsê pegou o pincel e num instante, com um único gesto, desenhou um caranguejo, o mais perfeito caranguejo que jamais se viu."

Italo Calvino, Seis propostas para o próximo milênio. Tradução de Ivo Barroso. São Paulo: Companhia das Letras, 1990, pp. 61 e 67, respectivamente.

domingo, 11 de dezembro de 2011

LADAINHA EM BOA LÍNGUA

a Paulo quando Samuel

Inculta e bela
porta ou janela

àquela mesma
- dona Tereza

não desimporta
qualquer querela;

que a portuguesa
que enrolamos
(senhora nossa
de planos tantos)

digamos tenha
mais seus encantos:

- delicadeza,
se maiúscula;

se minúscula,
musculatura;

pontos, vírgulas
entre fístulas;

diretamente
mesmo a desordem
(porque escrita,
incomunica);

e seus artigos
todos amigos
(pra definirmos
o definível
e bem tratarmos
os correlatos);

quanto a estilos
(desde os antigos)
que sejam claros
se objetivos;

e inteligíveis
os de sujeitos
algo sensíveis...

[como você, meu querido
nessas questões, meio ardido]

Rapidez

sobre o seu papel futuro no pensamento e na literatura, por Calvino

"... numa época em que outros media triunfam, dotados de uma velocidade espantosa e de um raio de ação extremamente extenso, arriscando reduzir toda comunicação a uma crosta uniforme e homogênea, a função da literatura é a comunicação entre o que é diverso pelo fato de ser diverso, não embotando mas antes exaltando a diferença, segundo a vocação própria da linguagem escrita.
O século da motorização impôs a velocidade como um valor mensurável, cujos recordes balizam a história do progresso da máquina e do homem. Mas a velocidade mental não pode ser medida e não permite comparações ou disputas, nem pode dispor os resultados obtidos numa perspectiva histórica. A velocidade mental vale por si mesma, pelo prazer que proporciona àqueles que são sensíveis a esse prazer, e não pela utilidade prática que se possa extrair dela. Um raciocínio rápido não é necessariamente superior a um raciocínio ponderado, ao contrário; mas comunica algo de especial que está precisamente nessa ligeireza."

Italo Calvino, Seis propostas para o próximo milênio. Tradução de Ivo Barroso. São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p. 58.

ADERINDO SEM CULPA

Se penso
em tê-lo

como não
querê-lo?

Como não
dizê-lo?

Como negá-lo
(no parto)

a parte
que me cabe?

(apesar do peso
do cavalar desprezo;

da consciência
da violência)

Trazê-lo - a peito:

- o senso comum
como bom senso.

sábado, 10 de dezembro de 2011

OCULTA

Me pergunto
se oculto
no discurso
tua sombra;

pois me contas
pelas tantas
várias outras
artimanhas

de ti acolá...

E aqui fico (vá lá!)
pensativo (acerca)
do (cercar o) emotivo

o motivo (escondido
do assim estar)

- como se não fosse comigo
(não fosse tão substantivo)...

[ao fim sujeito a ismos
de todo nenhum lugar

significativos
istmos a afundar]

AURORA

O primeiro
facho estreito
que mergulha
na penumbra

escorreito
de perfeito

faz direito
na segunda:

- quando a lua
a respeito

(a despeito
de ser tua)

põe-se em fuga
pela rua

(parapeitos
lhe perfura).

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

REMENDANDO

Quando cerzido
conto sombrio
sóbrio num canto.

Quando acontece
ébrio esclareço
- só o começo.

Raro, contudo
acontecê-lo
(quase um degredo):

- quando se tece
malha que preste

o que se falha
(e passa a sê-lo)

borda um segredo
(boa urdidura)

entre a costura
e o novelo...

AGORA III

Quinze minutos
para acontecer;

cinco mais cinco
mais cinco, se der;

dar, poderia
- dependeria?...

Senão, o resto
deste paredão

(toda a construção)
em vão seria:

- o que fará
emparedaria.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

EPICURISTA

No vácuo rítmico
do vazio

entre adensamentos
(do vento do tempo)
cíclicos

descanso um descaso
solícito.

Da relação entre sujeito, ciência e poesia quanto a que realidade

Calvino, sobre Lucrécio

"Será lícito extrapolar do discurso científico uma imagem do mundo que corresponda aos meus desejos? Se a operação que estou tentando me atrai, é porque sinto que ela poderia reatar-se a um fio muito antigo na história da poesia.
De rerum natura, de Lucrécio, é a primeira grande obra poética em que o conhecimento do mundo se transforma em dissolução da compacidade do mundo, na percepção do que é infinitamente minúsculo, móvel e leve. Lucrécio quer escrever o poema da matéria, mas nos adverte, desde logo, que a verdadeira realidade dessa matéria se compõe de corpúsculos invisíveis. É o poeta da concreção física, entendida em sua substância permanente e imutável, mas a primeira coisa que nos diz é que o vácuo é tão concreto quanto os corpos sólidos. A principal preocupação de Lucrécio, pode-se dizer, é evitar que o peso da matéria nos esmague. No momento de estabelecer as rigorosas leis mecânicas que determinam todos os acontecimentos, ele sente a necessidade de permitir que os átomos se desviem imprevisivelmente da linha reta, de modo a garantir tanto a liberdade da matéria quanto a dos seres humanos. A poesia do invisível, a poesia das infinitas potencialidades imprevisíveis, assim como a poesia do nada, nascem de um poeta que não nutre qualquer dúvida quanto ao caráter físico do mundo."

Italo Calvino, Seis propostas para o próximo milênio. Tradução de Ivo Barroso. São Paulo: Companhia das Letras, 1990, pp. 20-21.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

BRACHIARIA

Agudas

agulhas

escuras
(a depender de qual luz as cura)

espalham-se, bandoleiras

por todo espaço que as proteja.

São alísias

dançarinas

elusivas
(na desfeita coreografia);

plantam-se, radiais

radiantes que tais

oriundi perhaps - de ancestrais carnavais!...

***

[a despeito deste olhar estreito
(de reizinho de pedacinho elísio)
que orgulhosamente amanheço
me estofo sim - disso mesmo]

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

FUTURO A PASSAR

aos interessados de sempre

A rapidez da mudança sucessiva da andança
disto que se diz rotina

- de viradas repentinas
mal-lembradas como antigas

(das discretas às secretas
das soberbas, rídículas)

desequilibra, todavia: uma vez demais rolados
tais dados, capacitados

a possibilitarem como fatos alternativas

desgastam-se, aparados
das outras perspectivas:

- amparados toda vida
por noções preconcebidas
de transformações queridas
por aqueles que não se vão...

[fauna cuja imobilista
amoralidade desdiz;
que qual rica flora habita
tal saída; e esvaída
à vez retorna, lívida
(límpida máscara, a tez)
da sordidez intestina]

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

DEZEMBRO II

Enfim, férias que prolongar-se-ão:

- nelas, a preguiça cresce pernas
estica sombras, alonga as feras

mas minha vontade, na verdade

- caniça de reeducações alimentares
prostituída por cafeínas regulares

reporá logo o troço todo no modo padrão...

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

CEB, SOM E FÚRIA

esqueçam McLuhan

Martelam-nos as melhores crônicas
que a civilização eletrônica

(mesmo o que nela funciona)

ademais demanda eletricidade:

- força eletromotriz
adiante do nariz
(a bem da segurança).

***

Pois bem. Quando dançamos
na escuridão romântica imprevista
típica da quebradiça rotina

escassamente cogitamos

máquinas de toda metragem
postes fincados nas paisagens

estações, usinas, barragens
transmissores - comutadores
e torres - torres, muitas torres!...

(e rios a fio perdidos
em cascatas insustentáveis)

***

E menos pressupomos
(rabos de cães circulares)
tensão/potência/corrente
watts em volta, ampères:

- capacidade de torra
d'além de mais grãos - dos lares
de coisas das gentes (ora
inadvertidamente)

***

Porém trópicos, cerrados
são carregados cenários

de nuvens, agruras e raios
naturalmente desviados:

- onde se abre compassos
entre inações e fracassos
na amplidão do mormaço

e onde depois de refeitas
todas cagadas perfeitas
copia-se à exaustão...

[mau cidadão, aqui passo

***

mas não sem lamentá-lo:]

tétrica, aquela companhia
- desluzida, deletéria, fugidia

dependura minha vida
em linha sem energia;

e pendurada, a dita
engordurada, frita...

domingo, 27 de novembro de 2011

SHOWMISSA

Ontem ouvi
preclara voz do passado.

Embrulhada
em papel acetinado

proclamava
futuro retrogradado.

Quão custoso, todavia
tal espelho:

- se só via acompanhando
o prelado

- que ambula, parafrástico
conservando

- e reunirá, prometéico
anulando...

(entrementes
somente sacrificando)

sábado, 26 de novembro de 2011

SÁBADO

Amanheci lasso, baço
nos braços da transição repentina
da madrugada pro dia.

Hoje por isso passo. Tê-lo anoitecido
na rua sem lua, a idade madura, dá nisso
- cansaço alvorecido.

Até se quer, participativo
da cidade prevista ser visto;

o custo, todavia
não pode transferi-la
a futuro longínquo

(como antes acontecia
 quando jovem o fígado).

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

VIÚVO É O MORTO

a Verônica

Morto não fala. Morto não anda.
Morto não janta.

Não move montanhas
não chove castanhas

não torra a poupança
(decerto em gastança)

não mostra as entranhas
(embora a estranhos... em circunstâncias).

Viúvo é o morto! Nada lhe vem atrás!
Portanto pedimos - deixemo-lo em paz! Se não religião
por uma só razão:

- se morto, tens o pudor
de respeitares a dor

que tão triste mais fica
emparedada no amor

partido que petrifica.

(por isso, mais silencias...)

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

SOLIPSISTA

Minha poesia - é pequena.

Nela, não há maior tema
- nem poema.

Não inova
não renova
não provoca;

como forma - não vale a pena.

Mas talvez seja
(de vez apenas)

estratagema

contra esta surdez tão pessoal:

deseducada
animalesca

- um cipoal
que atormenta.

(então poesia
de impedi-la que cresça
que prevaleça)

RACHADURA

Tu te lembras
das travessas

bentas eras
que atravessas

- as avessas
a tragédias

quando tragas
essas pedras

das medusas
criação?

Quando enlutas
tua mão

e não relutas?

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

VIVA LITERATURA

a Ana Flávia

Escrever
mais importa que viver?

O que melhor seria? A literária vida
ou literatura vivida?

Ela, tratar-se-ia
de uma dúvida vívida
ou musa que se não duvida?

De dívida - de usura
hipotética?

Hipotenusa
a toda reta?

E mais pergunta
- física? - tísica?
- abstraída?...

Lívido com tanto assombro
(ante o abismo pro tombo)
aliterando escapulo:

- se se não vive
não não se escreve
nada que preste!...

terça-feira, 22 de novembro de 2011

À TARDE

Após a siesta
(pesada à beça)

abro picada
pela floresta

desta jornada
amalucada:

- fiesta diária
da lida vária...

ÀS SEIS

Acordo cedo
pois tenho medo

do que me perco
depois do cerco

- da noite funda
que me desnuda
todo o desejo
quando não vejo...

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

INSEPULTA

Alguém pediu que voltasse
um trem da história.

Solicitou que contasse

uma estória
sobre outrem
de outrora.

(dita cuja
cabeluda
malcheirosa)

- Mas qual, repliquei
se mal as registrei
nos confins da memória?

Enfim resposta
tartamudeei
(discursiva tartaruga de lei)
ao fim e ao cabo pedregosa;

porque tardia embora
menoscaiba querença maldita,

melhor agora - ainda de dia...

domingo, 20 de novembro de 2011

CONTRA O MÉTODO

ao confessor em mim

Ante esta excrescente
complacência indecente
- pegajosa, recorrente

(incidência inconsciente?)

de fim-de-ano-na-escola

que a tudo engolfa
'tupindo aortas
por trás das portas,

irrito as veias
pra que ligeiras

movam obreiras placas obesas:

- toda rasteira... e preguiçosa...

viçosa certeza.

(catraca estreita
que nos espreita)

sábado, 19 de novembro de 2011

PARA ALÉM DE SEXISTA (duas questões)

a Rafaela

Perspectivamente, minha atenção
lamenta sua procura ansiosa;

perscruta a linha enxuta, sinuosa
que se insinua apetitosa; senão

por que seria a vista dadivosa
a mais sentida paixão masculina

pela forma? Prospectivamente
então, que passo reordenaria

essas desencontradas correrias
por marias, letícias, margaridas

à luz de mais razões - mas sem despi-las
das coloridas vias nas quais se dão?...

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

TEMPOS DEPOIS

Com sua graça costumeira

- da palavra certeira lavrada perfeita -

minha bela parceira passou por aqui...

Bem-vinda! Que assim seja!...

Tempos depois

Tempos depois, retorno à tela escura com a mesma vontade de esparramar minhas letras. A vida continuou no sábio ritmo de sempre, o tempo passou na mais previsível cadência. Ainda assim, com tudo na exata e esperada harmonia, vejo toda diferença. Porque tudo está diferente. O momento, as expectativas, os sonhos.

Rodei um pouco procurando as letras e, ao juntá-las, não enxerguei sentido. Refiz todas as frases, reli parágrafos, apaguei textos. Quebrei regras, inventei prosas, trapaceei línguas e apaguei tudo de novo. Simplesmente porque foi difícil me encontrar para me trazer de volta. Que encantos me levaram? Que estradas foram essas que me arrastaram para tão longe? Por que meus vôos não me ofereceram retorno?

Enquanto busco entender os recentes capítulos da minha vida, deixo cair os dedos num teclado estridente para polvilhar letras neste quadro negro, que me convida a me expor. E, mais uma vez, como tantas outras lá no passado, cá estou eu a contar o que se passa comigo, a dividir pensamentos, a escancarar de novo meu coração. Se ainda houver aqui dentro um coração a ser decifrado em prosa...

Ju

MICROBIANA

ao querido Pierre

As pequenas coisas
irresolvidas

(pregos sem estopa
mesquinharias)

rolam da mesa, saem da vista
todos os dias;

mas se caem esquecidas
entre as sobras da vigília
(hibernais de eras priscas)

pelas sombras, ganham vida;

e retornam, descabidas
entre horas distraídas
(canibais deveras iscas)

devorando caramanchões:

- aqueles construídos nas tendas da rotina
nada gratuita; serões
que animavam salões
minimizando senões - até tal revisita

sísmica, fortuita?
Dos bichinhos-papões!...

terça-feira, 15 de novembro de 2011

NUMA (RESOLUTA) TARDE AQUI DENTRO

Já que o vento externa sua discordância
quanto à minha singela, cotidiana

interna andança pelo jardim,

avento que sim - o frio cinzela
o dia de hoje como caverna:

- quando cabe agasalhar-se - e a ela
primeira idéia a abandonar-se

- a inércia.

AMANHÃ DE NOVEMBRO II

Melancólico, o tempo
quando empoça-se chovendo;

empoça-o, esse banho
poeirento de antanho:

- pois memória, rediviva
entre paredes do crânio

(esse vácuo, que aninha
só relíquias, por enquanto...).

domingo, 13 de novembro de 2011

ANONIMATO-ME

Quem me lê?

Quem me vê?

Quem me antevê
e prevê?

Que me quer ver
na tevê?

E me bem ter
para ser...

(co-erguer
deste obscuro buraco

eu e você)

VITAE

Que currículo?

Vivaz
ou vivo?

Atrás
ou isto?

Capaz
ou misto?

Detrás
ou visto?

Antraz
ou minto?...

Qual registro?

THROUGH THE NIGHT

A medida da madrugada
(creio, confiante
de sua firme espessura opaca)

é seu avanço pela alma desarmada - esperança

de que pouco será mais que nada - o bastante
para atravessá-la

- a palavra.

sábado, 12 de novembro de 2011

AMANHÃ DE NOVEMBRO

Que suave luz é esta
tão claramente bela

que se traduz em brisa
(ôndula partícula)

e tudo textualiza
(obreira indistinta)

de funda alegria?...

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

B-52

Chegou a hora de deixar
as bombas todas no hangar.

Voar leve
(sem brevê que o carregue)

segundo carta doutro plano
anteposto - deste ano anticorpo

(vez que o mapa de antanho
esqueceu-se, descuidado
coisas tolas em contrário).

Chegou a hora de largar
a tralha toda num lugar.

Voar breve
(sem querer-se muito alegre)

porque amanhã, quando, quem sabe?

(se ascendente branco ultraleve)

domingo, 6 de novembro de 2011

ASSIM

Cansei de esperar por estas pernas
desejarem caminhar enfim despertas

ao encontro do mar sóbrio de horizontes.

São todos interiores - os muros, as escarpas, os aclives
que somados a deslizes

fincaram-me aqui arborescente

e lentamente - numa indolência virtuosa que desmente
uma antiga urgência dos porões incandescentes

desta casa outrora incendiada - mas agora

parecendo sólida e segura - a porta

amadurecendo a fechadura...

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

DISCREPANDO

Finados, como esperado
taciturno e bacento - pro gasto

colide comigo avesso
doutro pródigo feriado.

O café eufórico - que faço
sorvido é de pronto - amargo

a ponto de servir aos biombos
com que divido os humores

- as decorações interiores.

sábado, 29 de outubro de 2011

DOMÉSTICA QUESTÃO

A primeira tempestade no novo mundo:
- raios, trovões - tudo!

E clarões por sobre os portões.

E cavalos trotando do lado do muro
molhando esporões.

Mas por que razão
a água, no chão
(corrida do céu iracundo)
empoça minha atenção?

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

BONITA

Teus olhos, lindos
se verdes ou azuis - são lindos

ornamentam misteriosos
(de tão límpidos)

os claros complementos expressivos

dos teus vários sorrisos.

E, ao urdirem sucessivos

- ao combinarem - os ciclos
de tais cores e brilhos -

trazem o mar longínquo
(se verde ou azul - não firmo)

a este árido interior que sinto:

- a tua perspectiva, umedecida
da mais humana simpatia

irriga de imaginações
- de emoções antevistas -

a minha secura, retrospectiva
à mercê de monções - da vida

que tal clima
oscila...

01/10/2011

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O CASAL

último poema na antepenúltima morada

No topo de uma torre - dessas de celular
que a tecnologia espeta - uns horrores - na paisagem
de toda urbana vizinhança

entardece um par de gaviões carcarás - de passagem
vestidos - magníficos - daquela luz oblíqua
que a todos esperança.

Parecem pacientes - ou serei eu, pormenorizante
observando-os horizontes de um sonho? As asas abrigam altivas
um silêncio alpino - sem o vítreo ruído do frio

porque trópico o sinto. Pressinto-os casal distinto
em sua lógica curva de reta elegância - a despeito da rotina
de pombos e ratos que nossa desordem multiplica

[diga-se, rapina distinta
da sanha imobiliária que nos vitima:
a cidade, a sociedade - diga-se, vizinhas
de suspeita fidalguia].

Ao fim neles, vislumbro - comovido - a economia
dos vôos medidos - sem o desperdício
típico de toda mesquinharia

porque fundo o ressinto. Mal poder isto ou aquilo
por esclerose progressiva - dos projetos de vida
os olhares dissocia - de vontades
em função das atrofias que o tempo assina

(a contragosto, contando as gotas - de tinta)

e ensina.

30/07/2011

quinta-feira, 30 de junho de 2011

À ESPERA

Há momentos
em que devemos
contabilizar - o ritmo lento
dos batimentos.

Aguardar. Fiscalizar o tempo.

Encher balões
de especulações - entendendo
a contingência do ar
nessas condições

e o imperativo - relativo
de se despreocupar
os botões.

Sob o céu limpo, ao estar fino
reflito - sob a rendição de esperar.

[pausa]

Neste chão da estrada
de beiras descansadas de poeira perfumada
ao alcance das narinas renovadas

faço-me confortável
(neste posto de gasolina
que a imaginação propicia)

sem espreguiçar:
- importa atentar à premissa
que o virar a esquina
possibilita em seguida.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

O CASTELO

Lá estão - as paredes amigas
frias de solidão. E telhas, por cima
de tudo que o espaço abriga.
Encaixadas, parelhas - as andorinhas

verão a hora ansiosa da chegada:
- esta, não se perderá por nada
tão aguardada, uma vida adiada
da jornada que em vão adiava.

Aproxima-se a hora prestimosa
da couraça repousada. Dos arreios
nos correios - para quem merecê-los

e mais a carga. Assim, vez em casa
cuidarei do jardim, talvez da mansão
do silêncio, então - a maior construção.

domingo, 26 de junho de 2011

QUESPERANÇA

Num instante que me abarca
claro e discrepante - um instante
sem trapaça - sem sair do mapa,

um interesse andante
- um quixote balouçante

desloca-se jusante
para além daquela larga
atenção constante.

E outros de mesma marca
que lhe seguem controversos
mas a bem de conhecerem
de quais pontos e diversos

puxam-se, empurram-se, embora
medianos e perfilados - meridianos alinhavados
pela agulha indiana da história:

- trêmula bandeira, lanterna por estórias
indispostas em buracos da memória;

facho sobre sanchos - ambos
êmulas fileiras - de certezas
escorreitas escapando-lhe agora

pelas beiras desta hora
verdadeira...

(da consciência rarefeita dos interesses em questão
- de sua escuridão perfeita)

quinta-feira, 16 de junho de 2011

AGORA II

Um presente absoluto
concentra meu cansaço do futuro.

As pernas, fortes
pesam - são músculos
recém-adquiridos de estudos

de reter-se a tentativa
por juventude e vida
(o que em vão seria).

A fronte, embora refrescada
do ar-condicionado da madrugada
às mãos firma - e me apóia, esgotada

mas não a ponto
de querer mais nada
(a partida, a jornada).

E os pensamentos
especialmente aqueles mesmos
tesos - os referentes a intentos

parecem adensamentos
paralíticos de momentos
ansiolíticos

[o fio do tempo
rompeu-se, creio
num cio - tão cedo
que não vi-o vindo
- o medo...].

domingo, 12 de junho de 2011

Carpe diem

adaptação do clássico de Horácio (de 23 a.C.)
a partir de traduções disponíveis

Não procures saber, Leucona
- por ser inútil -
qual fim os deuses nos destinaram.

Não consultes sequer
os números babilônicos:
- Melhor aceitar! E venha o que vier!

Que Júpiter te dê ainda muitos invernos
ou seja este o último que agora desfaz
em rochedos hostis, as ondas do mar Tirreno.

Viva com sensatez, cuide do teu vinho
encurte a longa esperança
- pois a vida é breve!

Enquanto falamos, foge ávido o tempo:
- Aproveite bem o dia de hoje
que o amanhã não nos merece...

domingo, 17 de abril de 2011

ANTE A LUA CHEIA

Este sábado noturno e claro
(réstia de um dia obtuso, ensolarado)
põe-me em soturno estado
algo alegre - que madruga entregue

a seu febril contrário - e revirado
remete-me àquele diáfano
momento abril em que escapo
(incrustado num ente qualquer)

pra mal perto de Alenquer:
- a um passado que não comando
por não ser do tempo sequer

mas tão necessário quanto
comer e beber, se der - e se tanto
por bem esquecer como é...

segunda-feira, 14 de março de 2011

PRIMEIRO DE JANEIRO

O céu baixo
escuro, algodoado
pisca branco o seu espanto
como um gato

miando, amuado
o distante rugido de ontem:
- doutro ano de cão, tigre, rato
de gato escaldado

que de morto
só o casco
há molhado

tuberculoso
de um descaso
do calendário

mas neste dia
que triste mia
às sete vidas

(mal despedidas)

prefere a minha - agasalhar de melancolia.

Gaiato...

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

ALGO ATRASADO

WALL STREET

Nas bolhas
as bolsas

perfuram

os bolsos
nos olhos.

Bilhões, a rodo
(a fuligem)
sobrevoam o negrume do jogo.

Senões, de modo
(imaginem!)
que se perfumam por sobre o esgoto.

No chão coberto do branco
do pó de papéis em desalinho
caídos
das telas de dígitos sumindo

um cano, num claro burburinho
de tubular proporção rompe-se antigo
no imperfeito coração da vizinhança:

- uma ambição em desarranjo
que regurgita explicitando
sua cíclica, imorredoura vocação
por oportuna governança

[a cobiça renascida pela vida da savana
de outra perspectiva - da hiena rediviva;
pelo mar inexistente da savana, a poeira do ar
inexistente de montanha; por terras, oh céus! e animais
de savanas e savanas sideralmente literais]

(como os juros de certas dívidas
de acordos, promessas e garantias
e mais vítimas leoninas)

[numa pródiga pretensão
de toda fístula que se doura derivativa
pílula

e quando à deriva
tosse, espirra - e deletéria
a assassina bactéria democratiza].

22/01/2009
(04/01/2011)