terça-feira, 31 de dezembro de 2013

NOVO ANO EM BRANCO

... mais uma virada da ampulheta
da folhinha, da ceifeira - contra
as quais, rediviva, a vida esgueira
desde o nascimento (e faz de conta)
por entre perfeitamente a mesma;

daqui a pouco, novamente apronta
essa parada que nos reencontra

longa em agonia convertida
num tormento agora de alegria

ao dobrarmos a última esquina
do calendário que se retira

(branco, da porta da geladeira)

domingo, 29 de dezembro de 2013

RETROSPECTIVA

2013, 12, 11, 10...

Meu mergulho
introescuro
ponderoso

cauteloso
nunca orgulha
meu orgulho

do percurso

dos recursos

das recusas

das escusas

como escunas
aclaradas

enfunando
atracadas

postergando
esperanças
sem tardança

[porém note:]

sem pinotes

sem chicotes

sem lambança

(segurança
de um Quixote
Sancho Pança)

...

Meu orgulho
não fagulha
meu mergulho

face ao fato
reluzente
e abraçado

do abrasado
timorato
inconsciente

(entrementes
contundente)

limitá-lo.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

DEIXA

de quem ficará pra trás

Enquanto cofio meus pelos
entredentes brancos e pretos

desconfio dos teus cabelos
(entrementes castanhos belos)

por aí provocando efeitos
entre amigos de veraneio;

esse queixume junto ao peito
vindo ao crânio menos perfeito

(porque ciúme estranho ao íntimo
que entranho aprazível, ínfimo)

distraído atribuo ao tempo
entretido, tamanho o zelo

pernambucano pelo verão:

- lá verão teus os meus cabelos
sejam brancos, castanhos, negros

com razão despertando anseios
entre tantos dourados pelos...

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

ALTERCAÇÃO

Emudecida a noite
escurecida a rua

esqueceria a lua
esclarecer a coisa

- enternecê-la outra
ensandecida a tua?

(de rua a tua lua?...)

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

DEZEMBRINA II

Lua natalina
amanhã minguante
nua e cristalina
faz-se doravante

(jaz agora adiante
da manhã sombria)

DEZEMBRINA

Coberto o exterior
é tudo interior:

- e penso anterior
ao todo ulterior.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

DEZEMBRO VIII

amnésia sazonal

Em dezembro
eu deslembro

(não me lembro
de setembro)

o trabalho
do argumento

que desmembro
e retalho

e picado
embaralho

pelo adentro
orvalhado

do carvalho
do meu centro;

e chegado
o consenso

(empilhado
em novembro)

de agulhá-lo
recosendo

concentrado
pra caralho

o refaço
sentimento

(e o disfarço
no momento)

deslembrado

- de dezembros?...

domingo, 22 de dezembro de 2013

DEZEMBRO VII

Nada novo sob o cinza

descoberto a cada esquina
encobrindo as avenidas;

algodão cujo avizinha
água sua porém limpa;

esporão sujo que adia
a lavadura de cima

(pois verter escadarias
chover desentenderia)

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

DEZEMBRO VI

Neste tempo esquisito
- véspera do solstício

além de astro afastado
em cinza envelopado

da rua já apartado
- de chuva protegido

a ter comigo estado
na chuva agradecido

seria sol de fato...

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

PARAGENS HAVERÃO

Caminho para onde ninguém está
para onde ninguém mais caminhará.

Lugar por onde ninguém passará.
Lugar que mais ninguém alugará.

Lugar. Caminho. Espaço. Passagem.
Algo desobrigado, alguém dirá.

Para o andarilho pessoal, paisagem
impessoal, com suas trilhas à margem;

para o resto dos outros, miragem
imagens fugidias de viagens...

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

CREAMING MY FAITH

while listening classical music

Eric

epic

... ...
... ... ...
... ... ... ...
... ... ... ... ...
... ... ... ... ... ...
... ... ... ... ... ... ...
... ... ... ... ... ...
... ... ... ... ...
... ... ... ...

clap clap clap

Clapton!...

[I feel free
in the presence of the Lord
(in the sunshine of your love)
after midnight:
- let it rain!
- let it grow!...]

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

VISCOSA

A lesma que gira a terra
gosmenta debaixo dela

cuja espessa pressa escorre
presa ao que lenta percorre

como de árvore carece!
em verde poste, parede:

- pois de ágape amor padece
o passo na cor que excreta

de cada dor que decorre
cada frescor que amarela...

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

DEZEMBRO V

Que tempo esquisito.
Que vento mosquito

pisando fininho
repica um caminho

sobre a pele esquiva

do que ele cindido

sob a pele arquiva...

sábado, 14 de dezembro de 2013

DA ÁRVORE

à cidade

Descendo

descendendo

descendescendo

descendencedendo

desce.

Cresce

(desde sempre
que se lembre)

subespécie.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

MADIBA

Alguém que dignifique o cálculo das consequências

impregnando-se de um intento eleito da consciência

e se responsabilize pelo hiato entre as grandezas
(princípios, diretrizes, objetivos, incertezas)

revelado pelas ações e através delas apenas

no inumano sacrifício pela humanidade alheia

(como fizeram uns poucos em nossa longa existência)

merece toda a vossa admiração e reverência.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

RENEGOCIANDO TRÊS DESÁGIOS

de presságios

Do labor a mais trabalho por lazer

(de no clássico sentido recriar
o porque reflexivo deve ser)

desencontrei-me pela idade do cão
coleirado por dívidas a salgar.

Tal a situação. Qual a questão senão

quantas vidas terei mesmo de saltar
até uma livre de maior apreensão?

Para o melhor juro algum cálculo haver
dou-lhe o passado de um pródigo a quitar

a fim de caso o presente perceber
que o futuro o bem desfrute de antemão!...

FOOTBALLS

... esta bola que se vê
(redonda, oval, coloré)

rola a bosta da tevê
(meu canal sophistiqué)

no coração das férias:

- qual paixão pretérita
delonga et cetera...

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

140 SONS DE SÍLABAS

para as celebrações natalinas

Um sujeito cuja felicidade de gerar seus próprios problemas
com jeito cevando sua capacidade de irresolvê-los dezenas

e assim cultivado estabelecendo como seu aposto mecenas
o aprazer somar/subtrair/multiplicar e dividir fonemas

em insignificados poemas

exprimiria exatamente o quê

(postularia pontualmente o quê)
[esconderia estritamente o quê]
{possivelmente ponderaria}

neste natalício mês apenas?...

AGORA HÁ TEMPO

neste momento

Que gravitação?
Qual gravidade?

O que saldarão
de tal saudade?

[aquela à margem
da personagem]

Se folhas ao chão
testemunhassem

sobre planações
e aterrissagens

diriam botões
despetalassem?

Seriam chorões
por mais aragens?

Teriam senões
à realidade?

[aquela do grão
com validade]

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

COMO CREIO ESTA POESIA

e à crítica eludiria

As condições de produção
(antes da gente, de uma ação)

definem o que vem à mão
à língua, boca, teclado
(antes da mente, coração)

tudo junto e misturado
porém desconectado

[as Adorno's constellation]

e mal (re)conectado
por tal esforço arbitrário
a ver significado

[Freud's rationalization]

de modo que reprodução
das condições ao contrário...

DEZEMBRO IV

... aspirar o espesso

nem quente nem fresco

bom ar de dezembro

derruba pra dentro

seu adensamento

(meu entupimento)

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

CINESTÉSICA

As costas doem
me desconstroem;

moem de fato
(até o palato)

férias do tato
com que olfato

sentidos latos...

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

ZERO CEB

A luz caiu.
Dizer o quê

se o que se vê
reduz a estar

de peignoir

o que existiu?

DEZEMBRO III

Mãos enormes do deus do tempo
no dia cedo escurecendo

já vão disformes vento adentro
de um quadro a outro embrutecendo

até que dão adeus aos dedos

de água pia descendo veios...

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

A NOITE PASSADA

sozinho contigo

No silêncio da escuridão
escuto a razão dizer não

aos amores que nem estão.

Mas em vão. Mais um pouco, e irei
a nenhum outro lugar, sei

embora sonambulando
(o sonho me deslocando).

Mas antes de mais um pouco
pulsa apenas isso que ouço

agora perambulando
(o sono me descolando)

até o teu ótimo colchão.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

INTRATÁVEL

Colapso
do lapso

de crer no aço

do que faço

e desfaço

- como um traço
apagável

que então ranço
impagável...

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

NO ESCRITÓRIO

Um ventilador gigante
girando mas gentilmente

transparece que possante
calor faça suavemente;

um cadastro vigilante
anotado tenazmente

ocultando qual farsante
o fraude jaça mormente

se funcionário galante
que ao descrevê-lo comente

de qual jeito interessante
à secretária somente:

- o que um fichário vacante
arquive do peito à mente

da cinza sombra abrasante
dessa redoma inclemente...

PAUSA CELEBRATÓRIA

da pequena vitória

As tripas reviradas
das ripas chulipadas

na hora da virada
(agora tudo ou nada)

torcida desbragada
na vida encruzilhada

- é natural, não achas?

Passada a enrascada
da lida encalacrada

a horda de estocadas
das normas deslocadas

(o mal numa tacada)

- as pipas despregadas
à nossa volta, o que achas?...

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

MINHA TORRE

a Michel de Montaigne

Eu construo
edifico

diuturno
sin permiso

outro fundo
outro piso

sobretudo

edifício
(orifício)
junto ao muro

para ofício
aquém-mundo

[prolíficos
versículos]

e ali fico

sobre tudo

insepulto

de tranqüilo

com aquilo...

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

ESQUECÊ-LO IDO

Sobre o que é havido
suspeito que ouvi-lo

sabe esclarecê-lo:
- cada acontecido.

Nada a merecê-lo
soma ao ocorrido:

- mesmo convertê-lo.

Cabe enfim a um zelo
vir subtraí-lo:

- o que o cerebelo
põe de mim corrido
desde o tornozelo.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

LIDA FINANCEIRA

Nos bancos
barrancos
são tantos
tamancos
de tantos
tamanhos
achados
rachando
agora
pisando
sem hora
nas danças
rangendo
gastanças
(de auroras
a outroras)
comprando
a praça
vendendo
fumaça
comendo
poupanças
chorando
pitangas
rolando
de ilharga
(gemendo
fodendo
contudo)
sorrindo
crescendo
pra tudo
partindo
créditos
préstimos
débitos
códices
óbices
óbitos
(lívidas
dívidas
líquidas)
a prazo
a vista
(perdida
no caso)
da casa
o lote
do carro
o dote
casados
barracos
tão caros
calotes...

MANTRA DOS TRÊS TEMPOS

convém não esquecer

A única vida vivida
que se faz servida - é a minha;

a única vida servida
que se fez devida - a que eu tinha;

a única vida devida
que se fará ainda - avizinha...

terça-feira, 26 de novembro de 2013

SOB O VÉU DE NOVEMBRO

Este meu olho manco
vê preto-cinza-e-branco

este céu de Vincent

repleto de ser tanto
nesta época do ano.

Esse céu de Vincent
demais fotografado

em preto-cinza-e-branco

no início do passado
nessa época do ano.

Esse meu olho manco
com desdém inocente

fotografa o presente
amém àquele plano.

SOCIAL

De um lado

de outro

desagrado

(e desagravo)

só.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

QUADRAS CORRIDAS

de paulistanas

... fim de semestre
(rogo que adestre)
- e a São Silvestre
logo ali, mestre!...

***

... o café, pão dá
boto fé (não já)
Buscapé, vão lá
- Tatuapé, tão tá!...

domingo, 24 de novembro de 2013

AOS DOMINGOS

com Vandecira

Acho ditoso o quanto é tempo
primeiro ou derradeiro nosso.

Sinto questão de entendimento
que abraçá-lo realmente posso.

A menos que encachoeiramento
de segundos em mais décadas

- tão precipitados déspotas

pode o tempo fiado convosco
correr lento um fiapo de épocas!...

terça-feira, 19 de novembro de 2013

ÔNDULAS

Cada canto do apartamento
redesenha seu sombreamento

dependendo de onde vir a luz
- se da rua, ou de um tormento;

cada canto na noite adentro
redesperta no sono o centro

da vontade de retroceder
de qualquer bondade de ceder

- arrepender do que o som seduz...

sábado, 16 de novembro de 2013

ARQUEOLÓGICA

Passando os anos
observo-os

enquanto tantos
acumulando

tão distanciados
antepassados

porquanto dado
a contemplá-los

os dispensando
de aprendizados

ultrapassando
alimentá-los

emaciando-os
fossilizados

de preservado...

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

FEIJÃO DE ALGODÃO

Céu baixo.

E abaixo

sozinho

eu baixo

(baixinho)

ameno

sonzinho

de abrigo

antigo.

Sereno

(ao menos)

os nervos;

o ninho

pequeno;

o facho

em baixa

consigo

(eu acho)

...

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

GARGALO V

ar, ar, mais ar!...

Münchhausen, Desencachar
Pantaleão ainda por achar

poder-se-ia eu barão voar?

Necessário considerar:

- pois há mais pelos a puxar
se o pântano não for drenar;

mais tiros que hesito atirar
que balas e botas de usar;

contas de contas a pagar
antes de estórias a contar...

Prospere terráqueo ou lunar

marítimo de navegar
ou ritmo a ultrapassar

preciso outro livro editar.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

AUTOR AGONIZANTE

talvez seu ajudante

Sempre acho que é o último.
O verso derradeiro

(porque o senti no íntimo)

até o próximo sê-lo.

(digo, aquele postado
antes deste, entalado)

Melhor, em todo caso
tecer seu paradeiro

(o paradouro deste
desenganado aquele)

vindouro ao fim e ao laço
de algo passado, ou vulto

de outro sujeito oculto

que enfim queira escrevê-lo...

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

PUBLICITÁRIA

A imaginação, quando se encontra

no frigir dos olhos nas gôndolas
aquém dos miolos, além da conta

aparece visão da Gioconda

na via turística rápida
(meno male se fotográfica)

dos faustosos museus da ótica
nobiliárquica socializada:

- fixando a deidade refratada
à frente um vidro à prova de bala...

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

TAUTOLÓGICA

see the lyrics

A virtude
da juventude:

- Hey Jude
(aliás, fortitude)

em virtude
de juventude...

DEPOIS DE REBANHO

bovino entretanto

Cansado de esperar
(o que não sei contar)

cansei de conservar

o peito a deserdar
o amor de andarilhar

por medo de encontrar
a dor a esquadrilhar...

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

RECADO DE ESCREVER NA TESTA

pintar na fronte do horizonte

Se eu tiver de labutar demais

por solicitar favores tais
retribuíveis em labores mais
(e deles dever fugir jamais)

melhor talvez procurar um cais

qualquer ótimo embarcadouro
(de gente, bicho, tralha, ouro)

e com pedra, corda e pescoço

(discretamente, sem desdouro)

eludir o fundo do poço...

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

PLUVIOSA

A tristeza das folhas
sob a mesa da tarde

traz-me cônscio da bolha
em que estreito destarte;

velha a botelha, e a rolha
arbitrária na arte

centenária da escolha
de contrário abrigar-me...

terça-feira, 5 de novembro de 2013

LIQUIDIFICADO

não importa o caso

Moléculas d'água
viriam do nada

sob a tua anágua
secularizada;

sobre a tua mágoa
vertiam por nada

escorrida bágoa
que dissimulavas...

O que acarretava
junto à veia cava?

Arrependimento?
(teu contentamento?)

Um desprendimento?
(teu contentamento?)

Não que isso importasse:

- moléculas d'água
(sob a tua fachada)

vinham meia-água...

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

NA ÁREA ADVERSÁRIA IV

uma dor

Que será de mim
sem meu time enfim

na Primeirona?

(como assim, a fim
da Segundona?!?!)

NA ÁREA ADVERSÁRIA III

torcedor

Um mau juiz
- o tal Ruiz

foi o algoz
- algo atroz

que te apraz
vir loquaz...

NA ÁREA ADVERSÁRIA II

foi quase

Na trave
o entrave

à glória
que se abre

vitória
do lacre...

NA ÁREA ADVERSÁRIA

minuto quarenta e sete do tempo segundo

A hora não dá trégua:

- água pra minha égua
bota de sete légua
mapa pra minha régua

bégua agora me nega!...

(daí a orientação
debaixo do travessão

vai longe do gol então

na cabeçada de mão
trocada de goleirão

pra segunda divisão)

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

DA IMPUTABILIDADE

da ação maquinal

Os homens que drones
em vão responsáveis
por irresponsáveis

com amos afáveis
de planos aráveis

no campo dos patamares elevados

(dos andares que grampearem enlevados)

são já homens cones
na linha dos clones
mecanicamente;

ciborgues insones
da rinha demente

desde antigamente
não há um recente:

- são sempre somente...

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

QUADRA CÓSMICA

razão e proporção

Esta insignificância:
- a medida da constância
de dois olhos na grandeza
do tamanho da beleza.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

TRANSFORMED

a Lou Reed

Cobalto e amarelo
- combinação e elo

entre a tarde que esvai
(suicida samurai)

a noite tardia

e o que foi de um dia...

SEMANCOL

cruzes!

Os poemas não vão bem.
Usar tremas, não convém.
Estratagemas, não contêm

que avestruzes dão penas também...

terça-feira, 29 de outubro de 2013

SUCH A PERFECT DAY

and Lou is gone

... amiga, subterrânea havia
iluminada urbana poesia
de cacos, nacos - a providência

dos apetites, música e tinta
em toda morte da inexperiência
pouco inocente perto da quinta

rua, praça, desgraça, avenida

do mundo no bardo pontiagudo
suavemente impoluto, contudo
(rolling the rocks entre sussurros)

ao longo da artéria caminhada
subcutânea - tão delicada

em substância
quão deflagrada
extravagância

aterrissada desalojada

no vasto nada

da vida ganha e redevorada

pela autoestrada

autoindulgente e contemporânea...

[honey, by the way:]

Lou's miscellanea (por meridiana)
é extemporânea à tal banana

abduzida daquela capa
e reduzida multiplicada

a uma cizânia
nau capitânia...

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

SINTÉTICA

As paredes do aqui-e-agora

dão sede de auroras

embora

nas vezes de outrora

o vão que ali sucede as obras.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

DE SEGUNDA MÃO

Segunda-feira:

- nunca a primeira

(da domingueira

sensaboria)

subsequente

sobrevivência

de derradeira

sabedoria

[inconsequente

em decorrência]

domingo, 20 de outubro de 2013

DR VIRTUAL

O bombardeio

(por bombardeiros
sem paradeiro)

não fará queijo
do e-mail, creio;

mas pisa a tela
(a minha e a dela)

da tarantela
de outras querelas

senão deveras...

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

CLIMATOLÓGICA

alegoria da eterna finitude

O céu desceu à nossa posição atual
(recém-saída da estiagem estacional)

com seu agasalho úmido e habitual.

Distância mínima entre o chão e o alto
entre aquelas nuvens e esta poça eventual.

Admistão do óleo das cores no asfalto.

[ânsia máxima de ocupar o vão de algo
de algo preenchido de vazio ocasional]

O daltonismo do solvente universal
(eufemismo para o nosso a pé descalço)

prevalece no crepúsculo cobalto
ante a noite encorpada (talvez em falso);

o olho dói no músculo, osso, vertebral
nossa herdade horizontal do cadafalso.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

SEMPRE UMA ESQUETE

repetitiva

Na interna esquina
que externa a linha

da quitinete

(nessa cozinha
dá-se a toalete)

o que me habita
(sempre uma esquete)

quase sem tinta
fita-cassete
escrivaninha

lembra o macete
(vendo a vizinha)

desce o cacete
e pinta o sete:

- porque digita
me compromete

com a desdita
enfim bendita
que se repete

(sempre uma esquete)...

LUMINÁRIAS

Fixos porta-luzes elétricos
vagas irradiações etéreas

claros pilares métricos
longas tochas aéreas

escadões tétricos
pontas venéreas

simétricos
whereas

..
.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

TELEJORNALISMO

seu paroxismo

Vez em quando é isto:
- um ventriloquismo

por teleprompter
teletransmitido

de onde o dono estiver
tanto e como aprouver.

LÍNGUA DE PRATA

cinemática

... afunilando
o que soprando

afutricando
afuleimando
afuzilando

o que sobrando
afugentando...

terça-feira, 15 de outubro de 2013

ESTORVANDO O DESFILE

aos colegas com bile

Subintelectual semiqualificado
(segundo os experts)

algo estou profissional protorremunerado
exposto a cassetetes

(de pais, responsáveis e autoridades em greve).

Professor incondicional
ainda que me queira mal;

confessor em tempo integral
(ainda que me queiram mal)

das mazelas do real:

- daquelas que não vêm ao caso
entregues ao sabor do acaso

no balacobaco do atraso
(pro balacobaco me atraso!...).

Cinderelas até o ocaso
somos gazelas decorridas de obstáculos;

trainers, entertainers, palhaços
na sociedade consequente do espetáculo

remodernizados por detrás.

(é o que nos informa o mercado
embora saturado de tais)

...

Formais, naturais, caricaturais
(versões indolores do descaso)

sou ator por pavor dos demais.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

FORÇA FUNDAMENTAL

e grau de inclinação

Declínio, declive
descido, decide

quanta gravidade
atribuir à idade

pela gravidade
do devir na idade.

sábado, 12 de outubro de 2013

O QUE PREVALECERÁ

Desenvolvida a hora
Pandora escurecida:

- o que desvela agora?
- o que zela escondida?...

Esquece das palavras
em suas palas sombrias

destinadas trágicas
lunáticas desditas...

À noite, desconfias:

- serão escuridões mais
sertões adiante portais?

Descobrirás de dia:

- em sua tez presumida
nudez sumida havida...

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

DOENTE

... ao final
deita o sol

horizontal;

com terçol
arde mal

de cachecol
tarde afinal...

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

NA FÍSICA DA MODERNIDADE

górdios sequer nós de alguns dos nossos

Karl primeiro, Friedrich segundo
estabeleceram que no mundo

tudo o que é sólido desmancha no ar.

Mas no processo, frisa Zigmunt
(cioso da trajetória ao gasoso)

é intermediário liquidificar.

Desgostoso da história, pastoso
secundária figura na estória

entre respostas, tão consciencioso
onde figuras, retida a escória?

1. animal pretensamente ativo
(porém mouco mente pouco altivo)
tolhido estado vegetativo;

2. pós-produtor ao pé mantenedor
de ego apolítico consumidor
(de amores filmes a tristes de horror)

3. recolhido ao privado epistolar
de narrativas por irrealizar
(seus públicos hão de justificar);

4. ...

***

[homem sem qualidades de Musil
bem plasmado num fluido inconsútil

poderias condensar um Brasil?]

terça-feira, 8 de outubro de 2013

DOURADA

Contra a luz, a urina
(jato de cerveja)

por certa e líquida
é carnavalesca:

- pura purpurina
máscula que seja...

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

O QUE ENTRANHA A MENTE

Espremo o que exprimo
do presente estreito:

- palavreado fino
(franzino o degredo)

geado rarefeito
(escorregadio).

Extremo o que imprimo
arduamente obreiro

daquilo que esgueiro
(feito percevejo)

com efeito ausente:

- certo desempenho
que me estranhe à gente

convencionalmente.

sábado, 5 de outubro de 2013

NUBLADO

Amanheceu entardecido
um sábado obscurecido

classificado restritivo:
- o claro do escuro indistinto.

(determinado a ser seguido
por entristecido domingo)

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

DO DELÍRIO DE VIAJAR SOZINHO

no covil de um crânio em desalinho

Nos abraços que os desejos nos dão
nos avanços que os ensejos nos hão

de proporcionar, cabem mil verões
à beira-mar das imaginações!...

Fora, há mil universos perdidos;
por dentro, dá um caminho segui-los

na preamar crédula das intenções!...

Embarque as células, assim varões
outrossim varoas! - e as emoções

de induzir canoas de pretensões

trarão aos remos águas potáveis
e aos internos, termos palatáveis:

- devaneante marinha mercante
doravante da tina escaldante!...

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

DOS PODEROSOS DE PLANTÃO

a nós o que é deles, pois não

A superfície do corpo
acusa a intenção do dolo

à flor da intuição que sofro
da razão do desconforto:

- a institucionalização
(sem régua, trégua ou recato
réplica, égua-e-cavalo)

da transparência como ação.

***

Pressuposto: a transparência
pressuposta de si mesma

na tautologia plana

(categoricamente sã
absolutamente chã)

de uma assepsia plena

contra contradições, senões
paradoxos, camaleões.

***

O que será de vós então
- vós: pobres ricos que virão
e tudo de nada verão?

Sê pois tecnológica
e antisséptica ciência;

depois seja em sua lógica
panóptica indecência!

[ao menos o inverno verão]

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

DE UM TEMPO MAIS-QUE-PERFEITO

ao presente contrafeito

A entropia, ratazana
rói e mia, gata mansa;

distopia fenescina
dói e pia, patativa;

putativa, mói o dia
que vige, pelo amor de Deus!...

- tantos Orfeus e Eurídices
repelindo-se junto aos seus...

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

POLIDEZ

Estreito
ao peito
um braço

sem traço
de abraço
desfeito.

O QUE RESTA DE EMBELEZAMENTO

O calor da tarde nos protege
quando remanescemos inertes.

Abajures escanteados na cal
de pátios enferrujados do sal

alhures, figuramos nesse rol.
Abutres nos aguardam sob o sol

a fito naquilo que movemos
com o fito do empoleiramento.

É o tempo. Nosso lento creófago
é frio - o contrário desse afago

aquecido e enganador. Mas melhor
o embuste transitório do calor

na tarde outonal que se inicia
(mesmo com predadores à vista).

sábado, 28 de setembro de 2013

A SEGUIR

não repetir

Ouço enverdecendo
outro encantamento.

Pressinto a verdura
propenso o momento

vendo a esta altura
amadurecendo.

(contra a desventura
de outra descendendo
um recolhimento)

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

É PRIMAVERA

A altura do sol nesta época
- agastada como se um déspota

a chuva acerta, mormente alegra
cores súbitas - súditas delas

heras, buganvílias e bromélias
cheias de formigas e azaleias
e cheiros jasmineiros, camélias
sobre mangas, laranjas, colmeias

rizomáticas atmosferas
apinhadas de larvas e feras

gratas de a distância ser aquela!...

Fim de tarde como meio-dia
à sombra úmida do que estia

até a próxima cortina d'água
tirar rápida da tina fátua

a sorte única de outra mágica...

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

A CURVA

num daqueles dias

Graça natural
rebenta o cipoal

temperamental;

na boa, de mal
lenta ou vertical

gravitacional:

- tema recorrente, a decadência
decadesce o poema, em conseqüência
de um trema inconsequente, a consciência
evanescente da impermanência...

... (ência, ência, ência) ... Por quais ciências

ecoa múltipla a falência
- e num esgarço de indecência

destoa cúpida a carência
entre as minúcias da existência?...

...

[venta o lodaçal:
onde ponho a cal
medicamental?]

terça-feira, 24 de setembro de 2013

LARANJAS

de mandachuvas

Hidrogênio e oxigênio
enternecidos trigêmeos

provam meu instinto errado;

regam o ferro cerrado
este mês - e nos próximos

o verão de outros óxidos...

ÁRVORE

Pouco importa sair

(da semente sumir)

se o apenas estar

(no perfeito enraizar)

ocupa o tempo de ir

(ao ditoso devir)

e o espaço de ficar

(para frutificar).

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

AMBIÇÃO ENDIVIDADA

A penhora do tamanho
deste agora meu antanho
ano a ano ajuízo a lanho
em prejuízo desse ganho

e no juízo que decorre
mais escorre do que corre
(porque do momento o norte)
qualquer tempo até a morte

[se presságio eu saberia
qual ágio preludiaria
um funeral de estilista]

{pois o normal é debalde
deterioração do molde
e incineração num balde}

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

ZELOTE

Cresce o vigor
junto ao fervor
de um limpo amor
por essa dor;

sem polegar
opositor
a postergar

sinto o calor
confortador
de concordar

reverberar

seja oposto
ou preposto
do desgosto

restaurador:

- a ser maior
nada menor
creditarás
se Barrabás!...

ANTES DE COMÊ-LA

A véspera
amarela

da nêspera
japonesa

(se chinesa
portuguesa

uma gueixa
entre ameixas)

doce deixa (a)
nespereira:

- em madeixas
me sombreia...

terça-feira, 17 de setembro de 2013

ORÁCULO

Amo o Aulete
na internete:
- pai dos burros
intramuros!

Amo o Aulete
de um a sete:
- quando o curso
sem decurso;

Ô Arlete
amo o Aulete:
- nele o mundo
vasto é fundo!...

Quitinete
és o Aulete:
- conténs tudo
eu contudo...

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

FROM BOULDER, COLORADO, USA

flooding

Tenho notícia de uma parte do mundo
que já foi toda deste meditabundo;

triste notícia de um mundo absoluto
passado particípio de onde flui tudo...

Hoje no lugar daquele tempo espacial

devastações culturalmente naturais
(tamanha a racionalidade do animal)

têm consequências tais que se entreabrem pessoais:

- estarão bem?, me perguntei, qual zé-ninguém
em sua mais alta insignificância zen;

- estarão todos bem?, reperguntei-me again
na intenção de saber sem tenção de escrever

e contato fazer - na paralisia
desavergonhadamente irreprimida

face ao que contudo foi e devastei-me...

sábado, 14 de setembro de 2013

RECONHECIMENTO II

... na velocidade
da mundanidade

jaz o meu respeito:

- já que a realidade
perceber direito

me desfaz inteiro...

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

DA EXCELÊNCIA

dos excelentíssimos

Ao soberano rebanho

dispensamos atenção;
atenção dispensada

o que orienta a manada?

A consistência de antanho

esquecemos de antemão;
ante a mão esquecida

o que responsabiliza?

Pois não nos iludamos
com os rodeios de amos

vassalos noutros antros:

- a justiça é uma arte
indulgências à parte;

- o direito, um disparate
das conveniências, destarte...

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

PERECIMENTO

ódio ao físico

Antes de correr
ou exercitar

(antes de mover
meu peso de ser)

rói antecipar

a dor do dever
de se então cuidar.

Ó babaquice
sob um sol star!

Ô maluquice
por desenterrar!

Por que não ceder
corpo à velhice?

(é capitular
o capitular)

Por que socorrer
minha estultice?...

...

(e o ar a enluarar)

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

SETE

no gênero homo, espécie de sapiens

Todos os espaços coexistem
e todos os tempos coincidem

nesta cabeça de alfinete
sem que se perca qualquer item.

Sua rotação o promete.
Sua chã superfície, idem

quanto ao gênero de uma espécie:

- nossa celeste quitinete
onde se pinta e borda o sete...

[sete pecados capitais
(e os sete sacramentos tais)
multiplicados ademais
por sete bilhões de animais]

terça-feira, 10 de setembro de 2013

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

QUERO SER DE BARRO

a Manoel de Barros

No trabalho, sou um chato.
Quando resto, um palhaço.

Nada de dialético
bem parassintético;
mal dividido ao meio
assomo o dia inteiro

um desejo de Manoel:

- de lagarto, de tropel
de Bernardo e micos léus;
pedra e cisco antes de céu
passarinhos no escarcéu...

Palhaço ao remar, me acho
chato bipolar, creio

por ser curto o recreio...

DO ATRASO

(de)correr Brasília

Se tardo a cidade
desde tenra idade

seus ares de parque
seu clima de embarque

dão fotografias
de melhores dias.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

PÁLPEBRAS

O ocaso de dormir
sem que um sonho tenha

é caso de seguir
nem que o sono venha

o acaso ao insistir
- bem que assomo seja...

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

SOLECISMO BARBÁRICO

regressivo

... adaptamo
compactando
três musaranho
(dois era humano)
num suburbano
trem nem viajando...

UBIQUIDADES

A obliquidade
da realidade

- seu drible suave
sobre a verdade

vezes me invade.

Quando acontece

um pano desce
e me entorpece

(opacidade
tal que me abate).

Na minha idade
a realidade

(da obliquidade)

não coalesce
sabedorias

nem discrimina
sensaborias:

- meu vesgo imenso
sobre o que intento

muito a reflete
de serventia...

terça-feira, 3 de setembro de 2013

PÁ(T)RIA DIGITAL

por meia hora
toda uma era

Caiu a rede.
Saí da rede!
Caí da rede
quando somente
matava a fome
(a mais insone)
por sobrenomes
contando estórias
de desmemórias
em nicknames
indiferentes
desde que gente
(mesmo que a gente)...

Cadê a rede?
O que ela teve?
Os que têm sede
presentemente
de serem gente

- os have-nots
tão recorrentes
- os Lancelots
contra a corrente
- os ins and outs
todos bonitos
- e os menininhos
e as garotinhas
pois travestidos

gritam 'ausente!'
precocemente:

- subitamente
refaz a rede
precisamente
a paz de sempre...

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

DA PROPRIEDADE INTELECTUAL

a nau particular no mar geral

Nesta vida, nada nos pertence:

- seja massa cinzenta que tente
que coisa apartada lhe sustente

seja cara a proeza que se pense
de um ego enganado para sempre...

Desta vida, nada lhes pertence:

- vossas obras, inda longamente
nossas cinzas, mesmo de repente

- mesmo as artes deles dirigentes
inda inutilmente diligentes...

sábado, 31 de agosto de 2013

NENHUMA

... nada à minha frente
enche a tela. Nada a

apalavra. Branca
do que quer que esvaia

nem à minha faina
encalacra olhá-la...

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

DO CONTEXTO TEMPORAL DA ATIVIDADE FÍSICA

fragmentos

(antes de começar)

... quando foi mesmo que o cor-
-po tornou-se uma questão
tão presente, premente
- um problema de antemão?...

{depois de terminar}

... e quanto ao desempenho
no breu deste momento
congratulações ó cor-
-po invólucro que lucro!...

[durante o padecer]

... indo pela metade
quase morto passo o cor-
-po adiante da vontade

de parar de reparar-me...

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

PROMETEU

Neste domo céu
um balão ao léu

vê-se como réu
maculando o véu

no desvão do anel...

MAGRA E DISTRAÍDA

A tevê ligada
e a tarde ali fora

dividem a caça
da atenção escassa

que aqui mal aflora
sub sob agora.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

INSOLAÇÃO

O privilégio
(do tipo egrégio)

é um sortilégio

seu de detentor
a teu desfavor.

Questão de restos.
Olhares retos

sobreviverão
a este teu verão

mais desolador...

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

DIA INÚTIL

inconsútil

A segunda
de segunda...

Minha força
moribunda...

Na segunda
há quem torça
(e retorça)

pela sorte
de uma forca
redentora;

pela morte
repentina
da rotina

na licença
de uma ausência
interina...

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

DO OCASO

pugilato

Meu cansaço
talvez fundo
sobretudo
jaz-me raso;

mau regaço
se profundo
é contudo
mal acaso;

mas o traço
iracundo
de um taludo
vem ao caso

e o que faço
furibundo
tartamudo
eu abraço.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

BESTAGEM

Uma leve depressão
(como um baixio besta)

fez de leve o coração
ter um cochilo besta;

fez do alegre coração
(como em cochicho besta)

uma breve depressão
à espreita de ladeiras

no caminho da sexta...

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

O PRIVADO A DEFENDER

nada a ver com o poder

A intimidade da privacidade
e a privacidade da intimidade

ameaçadas pela virtualidade.
O que há de novo nisso, na verdade?

Da vida privada, a fragilidade
de ser íntima singularidade

face às múltiplas coletividades
(e coletivas adversidades)

pede a sua reparação contínua
além da tua, da dele, da minha:

- de cidadela que reconstitua
toda célula participativa.

[de fortaleza que não desvirtue
decerto ideia de democracia]

terça-feira, 20 de agosto de 2013

ADESÃO OU MORTE

dilema tecnológico

Teimo não estar
neste momento.

Não neste lugar
em movimento.

Nesse denegar
consentimento

temo sobrestar
contentamento:

- porque tudo aqui
pede o meu tempo

e nada por si
vai com o vento...

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

IN-BETWEEN

deeper you dig the local
closer you get universal

Observo a tarde
indo sem alarde.

É assim noutra parte?
Sua realidade

(modo invertido de pendularidade
unidirecional e pela metade)

[noventa graus sem irregularidades]

sempre assim destarte?

Independentemente do estado da arte
de cada clima, vida, sina, cidade?...

and bury yourself after all

sábado, 17 de agosto de 2013

PENSATA ONISCIENTE

de um sabujismo onipresente

O velho bem face ao novo mal
faz que nem aí - tudo é normal...

O velho bom contra o novo mau
prevalecerá - dirá o jornal

porque desde que o mundo é mundo
sempre houve e haverá um Raimundo

retrogradado raso a fundo

impuro pra embrulhar-se imundo

com papel de jornal - tal e qual...

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

PENSATA DE JORNALISTA

Artigo 19

Queria muito discutir o fim do monopólio da palavra.
Na verdade, contemporizá-lo - o oligopólio da catraca
das escolas aos postos e bancadas dos sonhos da meninada.

[queria muito insistir na importância do sono da estudantada]

Queria muito discutir o fim do jornalismo de fachada.
Na verdade, contemporizá-lo - já que toda cebola assada
ainda é chorada cebola, ainda em camadas, aberta ou fechada.

[queria muito insistir na importância da cebola descascada]

Queria muito discutir qual fim do negócio. Sua derrocada
- na verdade, da cobra que troca de saia - será temporária
se pudermos contemporizá-lo: a pele do bicho negociada.

[queria muito presumir um interesse público na praça]

Queria muito discutir - enfim - o que de novo nos aguarda
sem contemporizá-lo da retaguarda. Na verdade, a tocaia
como forma de abordagem vantajosa sobre que diabo saia!

[queria muito me despir do medo dessa hora antecipada]

Queria muito discutir que fim teremos todos nessa estrada
- na verdade, mangue sem beirada. Contemporizá-lo, se nada
contabiliza danos, perdas, ganhos - e brevemente os separa.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

PENSATA MAIS DE QUEM ASSISTE

de um transeunte contribuinte

O novo na ordem do dia.
Modo de descrevê-lo em crise.

O ovo da desordem em dia.
Modo de revolver a crise.

Um brancura de galinha
cobre aquilo que chocaria...

Sob a luz nada enxergo ainda
de modo que o que há persiste:

- modo de desdenhar em riste...

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

PENSATA DO REAÇA

de um avestruz na forca

Bem reconheço o novo
porque novo de velho.

Mal compreendo o novo
porque de novo velho.

(nem o percebo novo
pois o ressinto, velho)

Não surpreende o novo
desmiolando o povo:

- povo não apreende
de velho, desaprende...

Fica assim, entre a gente:

- se entendível o novo
(digerível de novo)

filho de peixe velho
neto de escaravelho...

terça-feira, 13 de agosto de 2013

SOB O SOL III

... sou um lagarto
- eu sou uma flor!
- sou um de fato
- e toda frescor!...

[e embaralhados molhando os atos
rolando dados (de lado os fados)
um casal beato consagra o calor
seu esparadrapo sobre o Equador]

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

HAVER JARDIM

Hoje vi o futuro
fugidio há muito.

Hoje o vi contudo
emergir do mundo:

- no claro e escuro
fado que conjuro.

Vislumbrei-o cujo
ascetismo duro

jardineiro tomo
do seu sonho puro

refeito Epicuro:

- jardineiro sono
verdadeiro durmo.

Hoje o cri por tudo
antes de futuro:

- por seu vezo mudo
de buraco fundo

frisar resoluto
que negá-lo sujo (ou)
repensá-lo a rodo

o encolhe escolho.

Hoje o cri por todo
futuro confuso.

Hoje ouvi seu cuco.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

PRETÉRITA COMPANHIA

Meu passado
presenteia
meu presente
com mão cheia...

Meu passado
incendeia
meu compêndio
de vivências...

(meu passado
barateia
o passado
as besteiras)

Meu passado
nos passeia
na paisagem
da colheita...

(meu passado
nos apeia
em passagem
mais estreita)

[meu passado
sacaneia
meu futuro
intramuros]

Meu passado
me folheia
- sobretudo
me folheia...

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

CELESTE

Uma unha de lua
despontou no dedo de Deus

logo acima da rua.
Assinalou abaixo aos seus

o caminho que sua:
- subida que dificulta

abluções de fariseus...

QUESTÃO DE MAGNITUDE

entre -26,74 e 4,83

Quando penso que um sol
only peripheral
dispõe o bem e o mal

de modo preciso
num ponto indolente
do ar escurecido
relativamente

o que alento afinal?

Quando sei que este sol
generoso e leal
oneroso e fatal

between good and evil
diminuto afinal

um dia esquecerá
a noite de acabar
e água no samovar?...

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

DA CIDADELA

notícia

Alvissareira
mão empreiteira

deu em primeira
mão nessa terça:

- concretou teto
(piso decerto)

certo castelo
(perto o restelo)

onde viceja
(pra que então seja
novo e tão velho)

aquele eterno
sonho moderno

de poeta arcaico
em paço hodierno...

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

NUMERAL OUTONAL

Estou entardecendo
espaços em três tempos.

Estou emudecendo
quatro ressentimentos.

Estou envelhecendo
meus velhos pensamentos

talvez anoitecendo
de vez o polimento

(talvez endurecendo
amadurecimentos).

Mas um quinto aquiescendo
(se o minto enverdecendo)

sou dois comigo mesmo:

- talvez amanhecendo
bissexto entendimento...

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

FLASHBACKING

... à medida dos dias
reconheci que ouvira
outrora melodias
do passado que havia

à medida em que via
no espaço algaravias
de um tempo que fazia
luzir cacofonias

repartirem-se em vias
de bobagens bem-vindas
por passagens que eu cria

meus lugares e vidas:
- na verdade eu podia
à medida em que ia...

quarta-feira, 31 de julho de 2013

OCEANIA NOW

a Edward Snowden

... sistemas de inteligência
monitorando a indigência

da consciência relativa

desta pobre biologia
face a tecnologia...

Note o gerúndio truísta
no incontrolável sentido

de um controlado destino:

- o alongamento contínuo
das omissões distraídas...

***

Quando noviça a notícia
dissemos que sabíamos
da existência de outras vidas
(além das poucas vizinhas);

quando agora noticia
(o exercício de príapos)
dizemos que é política
a ocorrência de vítimas;

e enquanto houver repetida
(a notícia da notícia
da incúria reproduzida)
diremos que confiaremos

na consciência coletiva:

- antropológica diva
face a tecnologia...

segunda-feira, 29 de julho de 2013

PENSAR PRIMEIRO

sinto dizê-lo

Pensar, dizer
sentir, fazer...

Pensar, sentir
falar, agir...

Seria o cardápio de hoje?
Qual a ordem dos fatores?

Especulo:

- pensar o sentir
sentir pensá-lo;

(sentir pensá-lo...)

- sentir o pensar
pensá-lo sentir;

(pensá-lo sentir?...)

- pensar e dizer
senti-lo fazer;

(pensar o falar
se nada a dizer)

- pensar e sentir
fazê-los agir;

(sentir que pensar
estima o devir)

...

- se nada a fazer
sentir o pesar

de apenas falar
de agir por dizer...

domingo, 28 de julho de 2013

ASA NORTE

setecentas

Na tarde caída
seca pelo clima

o céu enferruja
pio de coruja.

Quadro de oficina
esquecida suja

numa quadra cuja
natureza dita

ora oportuna
a hora noturna:

- da ave soturna
pio que enferruja...

EXISTENCIALISTA

Eu quero
tu podes
ele deve.

Nós aspiramos
vós atrapalhais
eles arbitram.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

SUNNY MOON

Saiu na Current Biology:*

- dormimos mal sob a lua cheia!

Nos reviramos a noite inteira
à procura da melatonina
que Morfeu sempre nos solicita...

Explicações? Razões - e tais razões

mais de natureza geofísica
(às voltas com teus ciclos lunares)

e de incertezas fisiológicas
(revoltas dos humores biliares)

plus a nossa história evolutiva
(das minhas escusas familiares).

Relendo a Current Biology:

- sonhamos menos na lua cheia
porque acordados de sua inteireza...

(prata suspensa que nos sustenta)

*available online 25 July 2013

quinta-feira, 25 de julho de 2013

NA SALA DE ESPERA

Nada mais alheio
que outro desespero.

Igualmente alheia
a paixão o espreita

de dentro pra dentro:

- siamesa do espelho
da mesa de centro...

INDA BEM QUE LONGA

e pouco se conta

Depois dos cinquenta
podia aprender a fazer mais com menos.

Dói a alma no corpo a menos
- a cabeça nos mesmos membros.

Não há outro jeito
precisa subir a descida direito

(se houvesse outro meio
seria o juízo afinal de um início)

depois de cinquenta novembros...

terça-feira, 23 de julho de 2013

TÉDIO ANIMAL

A dura fartura
desta sinecura

(da vida que dura
viva sob a lua)

entedia, mula
a tortuosa rua

que a minha entrecruza

pedregosa, nua
tartaruga burra...

segunda-feira, 22 de julho de 2013

NOSSOS SÓCIOS

pra 2014

... recapam o asfalto da rua em frente.
O cheiro moído de asfalto mói quente
meu bem-estar entre tal ar pungente;
remói também sentimentos correntes
(betume ou petróleo, o alcatrão sentes)
que os pensamentos só fazem crescentes:

- há uma empreiteira aí fora, sua gente
explorada cobrindo porcamente
a pista já malfeita anteriormente;
uma empreiteira de dentro, sua gente
(donos, vizires, aspones, gerentes)
superfaturando o devir presente

com os préstimos de agentes da gente...

BOLO DE IOGURTE

De Vandecira
o aniversário:
- pois verso o dia
extraordinário!

Por garantia
desse cenário

o que diria
o seu vigário
que eu deveria
cantar do hinário?

O que eu faria
se Vandecira
no seu horário
pedisse o vário?

E Vandecira
que quereria

de fato no ato
considerado
do meu acato
apaixonado

como o corsário
imobiliário

da morena vastidão
do seu terno coração?...

20/07/13

POUSADA DO IPÊ

Goyaz

Dois copos.
Uma cerveja.

Dois corpos
sob encomenda

dispostos
a renascenças.

No calor
das oferendas

um amor
que compreenda

(sob a frondosa árvore da vida)

o que estar aqui significa.

18/07/13

quarta-feira, 17 de julho de 2013

QUADRA JUIZ-FORANA XI

Fui visitar o Belmiro
- o Braga, bisavô-tio
hoje vetusto na graça
vincada busto de praça...

15/07/13

QUADRA JUIZ-FORANA X

Dezesseis horas
no pau-de-arara
baú de rodas
de volta à casa...

15/07/13

QUINTILHA JUIZ-FORANA

a mim

... é bem possível, até provável
que aquele crítico inalterável
que vos aprisiona inafiançável
correto pareça inalcançável
e reto padeça inconsolável...

14/07/13

QUADRA JUIZ-FORANA IX

Como estreita a vida fica
agasalhada do frio!
E como estreita ela esfria
o abraço que asfixia!...

14/07/13

QUADRA JUIZ-FORANA VIII

Domingo na serra urbana
da beirada juiz-forana.
Cerra a luz das nuvens frias
as paredes verdes-cinzas...

14/07/13

QUADRAS JUIZ-FORANAS IV

urbanas

A cidade vertical
(alto-relevo predial)
assombra o Paraibuna
com sua tarde escura...

***

No busto do tio Belmiro
pomba havia - nenhum pio
no alto da cabeça antiga
- o olhar fixo, a pena lisa...

13/07/13

terça-feira, 16 de julho de 2013

QUADRA JUIZ-FORANA VII

Retratos, fotografias
da família em que confias:
- gente de papel que habita
só a tua escrivaninha!...

12/07/13

QUADRA JUIZ-FORANA VI

Coitadinhas, tenho pena
de palavras coitadinhas:
- dores de bocas vizinhas
males desbocam apenas...

12/07/13

QUADRAS JUIZ-FORANAS III

santificadas

Terços e crucifixos:
- a imagem do sentido
da passagem dos vivos
subindo a preço fixo...

***

Tem missa católica
na tevê apostólica
pelo bem, não leve a mal
se tão neopentecostal...

***

Igreja de São Mateus
casa de pedra de Deus:
- teu cinza hostil aos ateus
repinta de anil os teus...

12/07/13

DUPLA QUADRA JUIZ-FORANA

A certa altura da vida
nos hospitais da rotina
o que sente o meu futuro?
Receio o medo, contudo

se antes da hora devida
resignar-se a titia
às lamentações de muro:
- as infinitas por tudo...

12/07/13

QUADRA JUIZ-FORANA V

Morto pelo tempo
nublado dos ventos
jaz o esquecimento
que vives há tempos...

12/07/13

segunda-feira, 15 de julho de 2013

QUADRA JUIZ-FORANA IV

O frio mineiro
na Zona da Mata
parece do tempo
que esquece de nada.

11/07/13

QUADRAS JUIZ-FORANAS II

familiais

Estar com mulheres
que estão desde sempre;
usar seus talheres
comê-los às vezes...

***

Onde elas moram
vivos e mortos
trocam as almas
diante dos olhos...

***

Nesta família
prezam o texto:
- rezam do terço
a mesma Bíblia.

11/07/13

QUADRA JUIZ-FORANA III

Quem seriam as tias
se não coadjuvantes
daquelas companhias
que amamos doravante?...

10/07/13

QUADRAS JUIZ-FORANAS

maternas

É a casa da minha mãe
caixa aberta dos cheiros:
- os da infância primeiro
segundo os derradeiros...

***

A desconversa da mãe
- de miúda em gastança
é mãe dessa conversa
graúda em vizinhança...

***

... pois Ave Maria
tão cheia de graça
- se pela mãezinha
és mui abençoada!...

10/07/13

terça-feira, 9 de julho de 2013

QUADRA JUIZ-FORANA II

e adendo possível

Dezesseis horas
no pau-de-arara
(luxo da estrada)
pra Juiz de Fora...

[se rodar mais três
(se rolar um mês)
vou em janeiro]

segunda-feira, 8 de julho de 2013

TEXTOS E CONTEXTOS

se os primeiros sem os segundos

Pense os neurônios em suas sinapses
- no caso tenazes e perspicazes

junto ao nervo óptico, ao auditivo
pavilhão, a pés e mãos olfativos

e ao paladar do trato linguístico
o que consubstanciarão? Se letras

talvez sílabas, fonemas apenas

tal qual palavras ou frases capazes

do vão consentimento de sentenças

de parágrafos - prosaicos mosaicos

poemas, romances, novelas, estórias

custando contos de réis da memória...

Repense os neurônios e seus sequazes
caso versículos capitulares...

QUESTÃO DE ATENÇÃO

Marreta do vizinho
marreta o desalinho

da menor concentração
que desvio e lhe envio.

Martelo por martelo
martela meu ouvido

minha desarrumação
daquilo que extravio...

QUADRA JUIZ-FORANA

Vou visitar o Belmiro
- o Braga, bisavô-tio
hoje robusto de estátua
situada musgo na praça...

domingo, 7 de julho de 2013

LOUVOR AO RIGOR

do maior poeta da língua

João Cabral de Melo Neto.
Pernambucano adepto
del palo seco flamenco

faz o percurso concreto
(diz-se que pavimentado
sobre a água do relato)

do engenho ao Capibaribe
emborcando no Recife;
do Capibaribe à ilha
ida Recife a Sevilha

e dali vaza a retina
(descolada da lírica
por súbita ventania)

de quem lê a pedra gasta
mais de pontiaguda, afiada
no descaminho do passo

de quem medra ensolarado
fundo na lama; o bagaço
atrasado do passado

que mal lhe adocica a canga
refugo da cana; a dança
entre a gitana e o caboclo

de lança - de capa o louco
e lâmina na tourada
do galo, caranguejo, cão:

- mas quem está sujeito ao fio
da faca de uma aspirina?

Severa. Concisa. Exata
Meridianamente clara

a fala dos olhos do João
tão Cabral no palo seco

(a minha leitura que não).

sábado, 6 de julho de 2013

CABE-ME ESCLARECER PORQUE

tantos poemas sobre a tarde
todos escritos à tarde

por outro esteta tardio
(antes tarde que perdido).

Mas no caso desta tarde
de seis de julho, destarte

o que dizer de verdade?

Límpida, magnífica
reluzente em transparência

(face à opaca ignorância
de quem o eterno contempla)

apagando lentamente
sentidos que lhe confiro.

Mérito dela, suspiro
na beleza da consciência

que maior é a natureza...

AFTERLIFE

a matter of recognition

Honestidade: a qualidade
desta cidade, e naquela idade
proativa - da perspectiva
genuína da construção de ruínas

sem habitantes, ventos uivantes
passos nervosos, traços de cloro
ou templos dantes vivos adiante...

Uma herdade honestamente morta
bella donna que nos abandona
(na verdade, posta porta afora)

localizada na encruzilhada
do que seria com todavia

fazer de nuvens sobre ferrugens
clouds inside - all but alive!

***

Qual necrópole de um doidivanas
tem como mote duas savanas
três tombos feios, nenhum dinheiro
e uns gazeteiros meios-desejos?...

(da melhor expiração de nosotros
a maior inspiração repara outros)

***

Que português é este, incompreensível?
Que mala língua é esta, impronunciável?
Que sentimento é este, ó responsável?...

[quanto à questão do valor literário
considero-me (mais um) salafrário]

QUADRA DA AURORA

e (in)variações

A hora do ovo estrelado
na frigideira celeste
recorda ao mundo esfomeado
antes o café do amanhã.

(a hora do ovo estrelado
na frigideira do leste
acorda o povo esfomeado
cheirando café da manhã)

[a hora do ovo estrelado
na frigideira inconteste
evoca o cheiro estressado
do povo café com leite]

...

{agora rastro estrelado
rumo à geladeira a oeste:
- esqueça o mundo enfastiado
parceiro café-com-leite!...}

sexta-feira, 5 de julho de 2013

TÁCITAS COMBINAM

Esta forma é arcaica.
Seu conteúdo, banal.
Por que necessária
se expressá-lo tão mal?

Descalça - a crítica
empática afinal;
modesta - a vítima
prosaica a poesia

a alma ludibriam
porém parcialmente:

- tácitas combinam
títulos somente...

quinta-feira, 4 de julho de 2013

RENTE AO CLIMA

Sob o algodão sujo
mal de inverno que aturo
o ângulo que recolho
é d'olho caramujo:

- um tanto lentamente
enquanto decrescendo
da porta para dentro
a concha intumescendo;

- quão alentadamente
senão pesadamente
vão perguntas que esquento
furibundas do tempo;

- e o quanto longamente
(porquanto lentamente)
eu porteiro sustento
do cinzeiro depende...

[do cinzeiro dependeu:
logo o sol partiu o céu
e ao chover aquele véu
todo desapareceu]

quarta-feira, 3 de julho de 2013

DA SOBRIEDADE

Quando refeita
a mente estreita
assim que pensa.

A estreita mente
quando presente
do jeito estanque

no peito expande
que mais pressente
o que mais sente:

- uma angustiante
vontade adiada
de ser infante

inocente ante
a derrocada
da gente adiante...

NÃO AQUI

Poderia outro estar
noutro tempo e lugar

este ser melhorar?
Independer de haver

quando e onde ter de ver
onde e quando antever?

terça-feira, 2 de julho de 2013

ANATOMIA

das duas vistas

Luz cristalina
- a vespertina

beija a retina
o cristalino

córnea, pupila
fóvea, mácula

o ponto cego
vítreo arco-íris...

Beija a rotina
à tarde feliz...

segunda-feira, 1 de julho de 2013

VIAGEM

Acho que cansei de rabiscar bobagem.
Acho que vou respirar uma aragem
aproveito e revejo a garagem
- mas acho que saco de aniagem
cede o peso com a viagem.
E o carro na passagem?
Deixo ou não mensagem?
E a minha imagem?
Sacanagem...

(e a friagem?)

domingo, 30 de junho de 2013

QUADRA-EXORTAÇÃO

má 'versação'

Sejam bem-vindos ao alto padrão
o Padrão Fifa de Malversação!
Sejam benquistos do novo patrão
o Patrão Fifa da Maior Paixão!...

#9 DREAM

No momento
em que avento
um lamento
lazarento

por nada estar acontecendo

(por não cevar vento
haver movimento
devir a contento

novo equipamento
ou algum adendo)

ouço a tempo o invento
místico do tempo

(correndo e ocorrendo)

no sonho de Lennon...

sábado, 29 de junho de 2013

AGORA QUE ELA FOI

poemeu amorozim

A minha parceira
de amores eleita
de dores doceira
(pois doces receita)

e ardores afeita
(feito pimenteira)

embora roseira
- e espinhos requeira

é mais companheira

que a lua é da poeira
do céu que lhe enfeita
na via leiteira...

sexta-feira, 28 de junho de 2013

DERROTINA

a minha Diotima

Dizer o quê desta vida
da estreiteza da rotina?...

Do prazer que é esta rotina
toda ela repetida

diária, diuturna, igualzinha
parente, amiga ou vizinha

dos relógios, calendários
de negócios e dos vários

deveres atrabiliários
cíclicos e estacionários:

- ordenadores que faço
ordenhadores do espaço...

Dizer o quê da rotina
da incerteza que cativa?

Que é prazerosa essa via
vitoriosa derrotina...

quinta-feira, 27 de junho de 2013

CARPIDURAS

e pergunta

Quando estórias são varridas da memória...
Quando a história...

Quando a estrada percorrida dá em nada...
Quando o mapa...

Quando a mente descaminha decrescente...
Quando mente...

Quando o peito sobrevoa o parapeito...
Quando feito...

Quando a página da lágrima evanesce...
Quando desce...

Quando a hora é postergada até agora...
Quando tarda...

Quanto vento, quanto vento, quanto vento
nesse tempo...

E quanto ao sótão e ao porão do casarão
na escuridão?

quarta-feira, 26 de junho de 2013

QUADRA (BI)POLAR

... como aqueço, comparado a antes:
- alívio sorrindo entre semblantes
dispensados de fardos adiante
diante do regelo contrastante...

terça-feira, 25 de junho de 2013

JUNINA III

de cabeça no problema

Formulemos
debatamos
decidamos
e implantemos

políticas
inclusivas
travestidas
de carícias
exclusivas

pra cuidarmos
com carinho
indizível
e extensível

do declínio
das primícias
e desígnios
extraíveis

do fígado
de galinha
chauvinista

mui sensível
dos fascistas...

segunda-feira, 24 de junho de 2013

CONVERSA REFLEXA

no santuário de um banheiro

Quais teus problemas de sono?

O que concluo de pronto
diante do espelho da face
(dos respeitos ao enlace)

a despeito de haver pontos:

- uns vestígios do passado
e indícios de no presente
ter de alguma forma errado
caminhos que se pressente...

Nas noites por interiores
inconscientes de limiares
atalhas trilhas tão fáceis

de palavreados tão ágeis
entre os rostos familiares
de períodos anteriores;

nas noites por interiores
pelas veredas tão claras

nas corridas e dos suores
lavando os teus arredores

não te calas, não te calas

e portanto nada ouves.

Desejos de claridade
(logo, de felicidade)
sobrevivem, na verdade:

- vestígios de particípios
indícios de precipícios

por que importam teus receios?
Tanto erras que erros acertas

dissolvidos em seguida
na indiferença do dia.

Minha mente gira esferas
e não tens nada com elas!...

domingo, 23 de junho de 2013

QUADRA DE ANTES DA FAXINA

Vezes um balde vazio
(de um plástico vagabundo)
enche elástico o sentido
de mais vazio no fundo...

sexta-feira, 21 de junho de 2013

JUNINA II

a Joseph Blatter

Na arca nova, um velho Noé
marca cordeiros e lobos
- uns ordeiros, outros bobos

das manifestações de fé
de papagaios a louros
que são bichos que dão o pé...

Da arca nova, o mesmo Noé
marcha cordeiros e lobos
- uns primeiro, depois todos

em manifestações a ré
patrocinadas por outros
- os bichos que darão no pé...

quinta-feira, 20 de junho de 2013

JUNINA

Entre a Fifa e o passe livre
há físicos de bom alvitre
e químicos já com salitre...

Entre a vida e a faceirice
dos que labutam meninices
há fé - até na gente à toa...

[surfistas de todo calibre
artífices das superfícies:
porão escafandros na proa?]

Entre a minha e a nossa lide
há deslizes - senão matizes
de uma condição que enodoa

a vida passiva que assiste
à pilantragem partícipe
entre a Fifa e o passe livre...

[enquanto isso, brasileirice:
um passarinho sem alpiste
retaguarda quem o despiste]

quarta-feira, 19 de junho de 2013

LABIRINTITE

Primeiro
a penso
um peso
terceiro

que agora
percebo
apenso
adentro;

um centro
que entorta
de dentro
pra fora

o penso
entorna
o tempo
na hora:

- vertigem
de viagem
à margem...

terça-feira, 18 de junho de 2013

REDIVIVO

Os ruídos do mundo
no qual sou defunto
me acercam, contudo

de puídos arrulhos
que juízos, barulhos
me acertam com tudo...

segunda-feira, 17 de junho de 2013

PROLEGÔMENOS

antes do início da leitura
do Livro das mil e uma noites

... este lugar e momento
em que estou leitor sedento
costura sorte com chance:

- neste vagar ao relento
a textura, num relance
da feitura do romance

pela história da memória

dela a contar as estórias...

sexta-feira, 14 de junho de 2013

QUADRA(S) DE FIM DE SEMESTRE

da faca e do queijo na mão
(com adendos)

Pros meus atados alunos
(os amados, los hermanos
e os romanos, sobretudo)
sou Átila, rei dos hunos:

- o que atila os instrumentos
(os cortantes contratempos
de alados planos lascando)
queijo-do-reino entre os dedos...

quinta-feira, 13 de junho de 2013

CARTA PARTIDA

a Carolina

Ah, minha amiga
que desentendo
tão longe ainda!...
Veio outro dia
feito cantiga
(quando eu ouvia
reto e direito)
duas notícias
a teu respeito
que a brisa alinha
de encontro ao peito.

Quanto à primeira
não desconheço
o que te anima
(por peçonhento)
tão lagartixa
na ideia fixa
de outro momento
que foste e afixa
entre paredes
qual uma rede
de expectativas...
(tente, brunette:
- faça omelete
do que derrete!)

Já na segunda
(que a contraria)
há Carolinas
do pé-na-bunda:
- as furibundas
e decididas
e preferidas
(portanto o apreço)
desta torcida
contra as patranhas
entre outras tantas
que reconheço.

Ah, minha amiga
nessa distância
ora indistinta!
Por que te penso
num contrassenso
se bem curtida
a tua desdita?
Tal contrapeso
refaz a sina
de um recomeço
assaz bonita:
- isso a despeito
de se bem feio
o parapeito
da ação infinda...

Ah, mais querida
pois requerida
mais Carolina:
- quando te beijo
do jeito ao vento
eu me desejo
a tua alegria
mesmo sovada
e embranquecida
do pó da entrada
que soprarias
(záz catavento!)
com dó da estrada...

domingo, 9 de junho de 2013

DUPLA (SEM) QUADRA

Antes de partir
depois de chegar
vou achar que vir
era pra ficar

achando de ir
ora de lidar
depois que partir
antes pra chegar...

sábado, 8 de junho de 2013

METAFÍSICA DOLORIDA DAS JUNTAS

O meu coração leva o meu corpo a passear
a andar, marchar, correr, meditar - e voar, zoar

pela noite insetívora por encontrar
zangões gastos como eu - de um vigor fabular!...

[o meu coração recusa a confabular
com tecidos em regime domiciliar]

A minha paixão ceva o meu pensamento
(enquanto faço, forço, gozo e padeço)

a considerar tal comprometimento
(enquanto aprofundo o seu entendimento)

colateral - dado o terreno sal local

daquele suadouro de razões corporais
naquela etérea via concreta ademais

a requerer-me menos - mais ocasional...

quinta-feira, 6 de junho de 2013

OUTRA ESTAÇÃO DO LOGRO

apesar de Andrew Jennings

Da mesma forma
que junho corta
o meio do ano
no mesmo lanho

a chuva agora
que molha junho
resseca julho
ao ir embora;

e aquele entulho
Copas afora
de todo mundo

aduba o plano
deste altiplano
florir embora...

quarta-feira, 5 de junho de 2013

MUNDO ANIMAL

a Mércia

Centopeia
borboleta

juventude
madureza

uma ideia
uma teia

amor tal que não se esqueça
bicho, qual seria? Tipo

pés calçando compromissos
necessários porque tidos

ou são asas de vestidos
acessórios e bem-vindos?

A beleza cultivada
da pedreira laborada

dia a dia na jornada?

Ou o mármore do mito
ardendo o sonho mais lindo

da sacada nos sorrindo?...

***

Centopeia
borboleta

é possível compreendê-las
traças de antenas apenas?

São mamutes
de levezas:

- uma abelha
mel e cera

uma velha
Cinderela...

Depois delas
antes seja

amor tal que não pereça
das virtudes da incerteza...

terça-feira, 4 de junho de 2013

DA PEQUENICE

poeminha banal

Tempo das curtas
- mas mais desculpas

por atropelos
a contrapelo

sequer avento.

Vento de chuva?
Lento na bucha?
Tento de luva?

Sequer avento
se curto o tempo...

(sequer o vento
lhe furta a tempo)

[sequer alento
a busca adentro]

segunda-feira, 3 de junho de 2013

PEDAGOGIA DA MESADA

da esmola?

A honradez
da escassez
não tem vez

toda vez
que dou dez
ao invés

de ser três
(dois talvez)
todo mês...

sexta-feira, 31 de maio de 2013

SQUARE TWO

to Chris & bandmates

So cold your play
- but I'll stay
a gateway
to such a sway...

DAS CONSTRUÇÕES

externas e internas

Com trabalho e recursos
uma casa e seus muros

com trabalho e recursos
esta casa e seus juros

com trabalho e recursos
minha casa e seus usos

com trabalho e recursos
uma vida intramuros...

Repeti-lo comigo
consigo, mantra antigo

sem baralhos ou furos
salvaguardas, decursos
sem viradas de turnos

nem orvalhos nos olhos

com trabalho e recursos...

quinta-feira, 30 de maio de 2013

DAS ACOMODAÇÕES

inanimados de abraçados

Parada em frente ao algodoado
céu de um par de olhar enodoado

- que se revê de fato opaco
qual tevê aberta no ocaso

afunda a bunda do eu sentado
uma poltrona - imaginados

seus furos, ferrugens e cacos
apuros às margens dos fardos

- do fado que acarreta os barcos
ao mar descuidado, cuidado!...

***

Ó lar de nuvens carregadas
senão translúcido de nadas!...

Ó mar destinado a trapaças
balão abandonado às traças!...

Paraste bem diante das maçãs
amarelentas desta cara

pasmada, replasmada e dada
neste cara como estragada

nesta cadeira, desde as manhãs...

quarta-feira, 29 de maio de 2013

DEPOIS DITA NOTURNA

da lua do arco de sol

A luz deitou de lado
ao fundo - a flecha no alvo

certifica uma anuência
risível - porque ausência

de sentido na via:

- desfazeres do alento
a azeitarem poesia...

VESPERTINA POESIA

a que enfim predomina

A luz vai neste lado
esquerdo - a flecha do arco

retifica sua ciência
notável - da direita

o trajeto do dia:

- de afazeres ao vento
a azedarem a dita...

MATUTINA POESIA

contraste às vespertinas

A luz vem do outro lado
direito - a corda no arco

estica sua presença
invisível - à esquerda

um projeto de dia:

- de afazeres a tempo
de azularem a dita...

terça-feira, 28 de maio de 2013

QUADRA ANTROPOMÓRFICA

A luz da tarde de maio
- naquela parte em que saio
reluz destarte o que a reduz
às belas-artes do raio...

segunda-feira, 27 de maio de 2013

DILEMÁTICA

Há uma faca
uma mala

(e uma traça)

e mais nada
que o desfaça.

TROPICAL

under the tropical sun
we can only have fun

Paradoxo sem qualquer brevidade
de um flashback prematuro à tarde
por declínio resoluto da idade:

- se Flórida de uns, outros noutra sorte
Vale da Morte retardada ao norte

do Equador mitológico florido
a apartar-nos do Vale do Silício;

se Flórida alguns, outras praças-fortes
contemplam mares reavivando cortes

ao longo de geológicos istmos
a afastar-nos no vale em que existimos...

QUADRA ANÔNIMA

Fragmento-me
obscuro se
sequer um poemeu
mirei e te perdeu...

DUPLA AÇÃO

bons saponáceos do fígado

Mil ângulos de noventa graus
de oitenta, cem - batem por degraus

granizos de chuva federal
no meio da seca capital

- seu antisséptico sideral.

[enquanto isso, na tevê, no jornal]

Mil pândegos escalam os graus
da indignação moral - os tais

quais corregedores provinciais
são solicitados mais e mais...

QUADRA ABSTINENTE

Tempo sem escrever
é desaparecer
quando reaparecer
desaparece haver.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

INTERVALO BIPOLAR

e la nave va

Da sala dos professores
prenuncio os corredores
emparedando temores
rumo às câmaras de açoites:

- um barquinho solícito
solidário e patrístico
paralelismo entre o abismo
e o naufrágio do ofício...

Na sala dos professores
apartado dos horrores
conjurando quais rumores
me esqueço pelos Açores:

- o varão mediterrâneo
um cação extemporâneo
(embora só no Atlântico)
dessa forma sucedâneo...

***

[nesta Arca de Noé
tão ao sabor da maré

não boto fé
não dá mais pé

se mal servido o café]

terça-feira, 21 de maio de 2013

PORNOAMOR

curta romântica

Duro-me
furo-te

guloso
no modo
cafofo

que acha-te
que amo-me.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

SOB O SOL II

Teus raios assim refratados
retocam o fogo que assoalho

no encontro das luzes de maio

pois pintam maiores os lábios
de bocas contrárias no inchaço

do que um átrio entreabre larvário

a formigar subcutâneo
nas variações subterrâneas

do que te dou mediterrâneo...

domingo, 19 de maio de 2013

EPIFANIA

Ensolarada esta tarde
de verdade e de mentira!
Ensolarada a verdade!
Ensolarada a mentira!

Ensolarada a certeza
daquele que se duvida!
Ensolarada a descrença
naquilo que certifica!

Ensolarada a partida!
Ensolarada a corrida!
Ensolarada a chegada
de quem anda, voa e nada!...

Ensolarada tão tarde
- na verdade, na cidade!
Ensolarada tardia
- mentira se então sabia!...

sexta-feira, 17 de maio de 2013

ETNOLÓGICA

a Eduardo Coutinho

Num cinema
documental

quem faz cena
se faz normal.

Quem faz cena
periferal

tal cinema
refaz central.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

DE QUATRO

quadras enganosas

Presumindo
ser galante
adquiro
uma amante.

***

Presumido
anelante
admiro
ser dançante.

***

Espremido
ofegante
admito
um calmante.

***

Ex-premido
navegante
advirto
que farsante.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

NAS CIRCUNSTÂNCIAS II

Por malfeitos caminhos
os escrevo curtinhos

[gravemente tísicos
logo metafísicos]

cordão de palavrinhas
esquartejado em linhas

[se canhão de palavrões
eu ansiaria (os bordões)]

as estrofes indispostas
tencionando impostoras

[a sós, acompanhadas
por vós ou nossas valas]

serem lidas como tais
- sóis infinitesimais.

terça-feira, 14 de maio de 2013

NAS CIRCUNSTÂNCIAS

fracasso honesto

Uma hora pra alguma poesia:

- menos agora, na correria
do momento que antes bastaria
noutro tempo, doutra freguesia...

***

Minutos diminutos - e o poema
é isso: um indício de problema

vestígio da inanição do tema...

***

São cinco e meia - e à meia-boca
apresso uns versos sem força, à toa...

***

Aqui já era. Seria dela...

segunda-feira, 13 de maio de 2013

A ESCOLA ESQUECIDA DO COTIDIANO

Retinas nos ajudam a perceber.
Rotinas nos ajudam a proceder

porquanto necessária a repetição
de passos, casos, ocasiões - o fogão
donde o cozimento de ponderações.

Rotinas não ajudam a proceder
quando mortos vivos apodrecemos
no escuro profundo dos desesperos.

Retinas nos ajudam a perceber
quando vivos tortos nos prometemos
reconhecê-lo - e fecundos revermos...

sábado, 11 de maio de 2013

DA INUTILIDADE DO ARREPENDIMENTO

Do passado

do vivido

do largado

do retido

do tomado

do cedido

do juntado

do partido

do acertado
e esquecido

duvidado
e omitido

desamado
por querido

e do errado
com capricho

dizer o quê?

Que bendigo
ter podido...

sexta-feira, 10 de maio de 2013

METODOLÓGICA

fragmento

... essa abertura para o inesperado
- seja um imprevisto ou o extraordinário -
não é natural. Tem de ser cultivada
- aprimorada em frágua sofisticada -
porque então permanecer a descoberto
será como pedir carinho ao martelo.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

PAR

A noite acabou de deitar.
Quando for dormir, haverá?

Por enquanto, a desconverso
embalando, verso a verso

nós dois, depois de nos rever
cansados do diário dever

de estar, de poder, de convir
reparar, resolver agir
a par de saber, antes de ir
provar do prazer de seguir...

A noite acabou de virar.
Quando dormirei, dormirá?...

IN BRAZIL

Sou um estrangeiro em meu país.
Mal situado. Mesmo amando Elis
cantando Chico e Jobim, vago
incógnito e distanciado.

Alheio às cotidianas luas
aos ruídos das variadas lutas
pergunto-me, sob o sol pátrio
o que há nesta vida de errado?

Leio-me estrangeiro em meu país
apesar de Machado e Cabral
afiançarem que o banzo é normal.
Se sonho matas e águas brasis

por que as erro ademais tropicais?
Brasileiro de quais carnavais?
Musical, literário, estival
qual pandeiro de armário, afinal...

terça-feira, 7 de maio de 2013

OUTRA DIETA

de vez a seca

Precisamente desta cepa
vem a aurora do outrora solar
ao léu do fim (enfim!) do escarcéu:

- aquela flâmula beleza
retorcidamente a desfolhar
o que a natureza incandesceu

florada carnívora ao poente
ajuntando à beirada do céu
suas moscas cozidas al dente...

sexta-feira, 3 de maio de 2013

ANVERSO

em verso

Uma poesia
ao sol a pino
submetida;

a um descabido
(sob medida)
regime a frio;

ao descalabro
do estreito espaço
premindo o tempo
(nele o alento)

de escolher a cor
a tingir a dor

da sorte do amor
na vida menor...

Uma poesia
à vizinhança
extemporânea

oxidaria
(tal a tardança)
contemporânea:

- pois alexandrinos mais não solicitam
{os magnos Baudelaires ad infinitum...}.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

FEROZ ALZHEIMER

deseducação

Vai abordar o mundo
de quem vem moribundo
o abandonando a tudo

ou roça a superfície
a tutora artífice
da ignorância em riste...

O curso todo é triste.

Pra quem vem furibundo
atirando em perdizes

incauto ou nauseabundo
à mercê de arrecifes

é chiste a todo custo

deparar que inexiste
desempoçar profundo...

sábado, 27 de abril de 2013

DA FLUÊNCIA DAS CADEIAS

A questão
mormente
da estação
corrente
de antemão
presente

à mente
sobre a ação
à frente

candente
brotação
de sempre:

- transição
de lição.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

DA NATUREZA DA FRAUDE

conjugação regular

Eu te engano.
Tu me enganas.
Ele engana.

Nós desenganados
vos desenganamos

neles acreditando...

quinta-feira, 25 de abril de 2013

AFINAL VESPERTINA

pensando em Cruz e Sousa

Uma manhã daquelas
noite de Cinderela;
de uma aurora, à janela
à toa a soprar bela;

numa tarde estendida
madruga boa a vida
entre as várias perdidas
- das tidas às partidas...

***

Uma tarde sozinha
quando tarde declina
(antes arde seguida
mui cansada dos dias)

na luz do sol de Sousa
se abre em tapeçarias
(as dores coloridas)
à noite que avizinha...

quarta-feira, 24 de abril de 2013

GARGALO IV

constatações

A perspectiva
do prospectivo

(velho dançarino
experto, adivinho
que não perde a linha)

é o liso chão movediço

(a clivagem imprevista)

que o futuro agora cria.

***

A perdição que se vê
funda e só na garrafa
é a condição de você
mesmo um nó da tarrafa...

segunda-feira, 22 de abril de 2013

GARGALO III

o beco de um conto

... esse encadeamento
de escolhas no tempo
dos fatos ao vento
de lado batendo
dobrado ao relento

do laço em que lento
as folhas preencho
na bolha em que avento
dados do momento...

Então depreendo
que um paço acalento
(mas não compreendo).

A estória - mal lembro.
Sua memória - eu vendo...

domingo, 21 de abril de 2013

PRESENTE BARROCO

futuro pastiche

Um limpo domingo
de nuvens, florido

do Olimpo ao presídio
no mundo em que vives
anexo ao que pintes:

- eu peço que imites
um Rubens de hospício...

sexta-feira, 19 de abril de 2013

QUADRA DO BOM ALUNO

Tome um gole de café
acorde e então estude
seu objeto de fé:
- um café seu no bule...

quinta-feira, 18 de abril de 2013

PENA

Quando sou ente a desaparecer
em momento de nenhum fôlego
vem de repente um prolegômeno
curto, singular - um fenômeno!...

"Enquanto mal houver o que dizer
sento-me, sinto-me; se parecer
que estou morto, melhor adormecer
o meu triste entardecer de pombo".

PEDAÇO DE BILHETE

perfumado alfinete

... ao dar um tempo de si.

Subtrair-se daqui
sem trair-me haraquiri.

Apartar-me colibri
do caminho por ali
às murchas flores daí

abandonadas por ti...

terça-feira, 16 de abril de 2013

GARGALO II

e um espelho refrator

Como é difícil atravessá-lo
e fácil compreendê-lo; mas atá-lo
dourado peixinho vermelho de aquário
num cabo rotineiro de fluxo sensato

(rabo rebolado perfeitamente encaixado)

[sendo]

mais do avesso tubarão retardado por dinheiro
antecipado imprevisto no indeciso conjunto deste experimento

antecipado indeciso no imprevisto conjunto deste envolvimento
avesso ao retardado tubarão por mais dinheiro

[tendo]

(perfeitamente reencaixável rabo enrolado)

... ... ...

... ...

...

{até parar de bater}

segunda-feira, 15 de abril de 2013

MATÉRIA ESCURA II

... pois ouço ressentidos
(ninguém por consentido)
pouco aquém dos sentidos

os ossos invisíveis
(o aço pois presumível)
do espaço previsível

[meios dos fins do início]

MATÉRIA ESCURA

Um magro silêncio estudioso
às vezes reouço neste corpo
soprando aqui, ali, acolá:

- pequeno grupo predisposto
celular, especular, olho
interior por exteriorizar.

Porque vejo, em vez deste corpo
o que muito aquém está no mar

toco a tez da terra também no ar
preso à superfície deste horto

que trago magro, poeira estelar
há muitas eras, terras de lá:

- além de ruídos, indícios já
movendo aqui, ali, acolá...

sábado, 13 de abril de 2013

GARGALO

Espremido
percevejo
do que sinto
de passagem
sobra texto
pras bobagens

que descrevo
de paisagens:
- sobrepeso
que habilito
pela imagem
exprimindo...

quinta-feira, 11 de abril de 2013

A ORDEM DOS FATORES II

poesia

Eu sinto e escrevo
poemas pensando

no que primeiro

sigo segundo

um autor terceiro:

- meu alterego
mau e benigno...

A ORDEM DOS FATORES

pedagogia

Primeiro a lição
segundo a prova.

Primeiro a prova
segundo a lição.

A lição da prova
primeiro. Segundo
a prova da lição.

Lição primeira:
- segunda prova

(segundo a lição
prova primeira).

***

Prove primeiro
segundo a lição

(a derradeira).

quarta-feira, 10 de abril de 2013

DA TEMPESTADE

O tempo imediatamente à frente
tão escuro, tão espesso - e rente

a um chão que malsão não reconheço!

Imediatamente - de repente!
Tal momento rente, qual serpente

insidiosamente mal percebo...

O desenho desse agora mesmo
desse aqui tão inseguro e estreito

faz-me ir do que a mente pressente:
- um devir nervosamente ao peito...

terça-feira, 9 de abril de 2013

SOBRE O PRESCINDÍVEL

vão

Não há o que não passe
- amor, dor - e trace

o que não se apague.
Por que então impasse

- se vou, vais - que afague
desrazão de ais demais?...

segunda-feira, 8 de abril de 2013

QUADRA INGLESA

Maggie, rest in peace.
But please, Milky, please
take your ideas with you
(and those policies too).

MIL E OUTRAS NOITES

entre duas vigílias

... e um barco apareceu do nada
- enevoado vaso fantasma -
num sonho em que uma nau naufraga
- tão tragicamente que atrasa -
ao término de uma batalha.

Assim termina a estória rasa
de um couraçado que fez água
boiar no meu sono urinada.

Se outra começa, outra jornada
- do barco que do nada veio
enevoado vaso cargueiro
- o encarcerado mensageiro
do que ao cabo acaba no meio - -

diz Sheherazade assanhada
(em verdade a capitulada
personagem reutilizada)

que outra noite fiz necessária...

domingo, 7 de abril de 2013

A LENTE IMUNDA DA GRIPE

disgusting

Entre os sentidos e o que despercebo
descoordenando o lento cerebelo

congestionando inteiro o entendimento
embaçando, entupindo, entorpecendo

vai escorrendo catarrento, escorrendo
pelo brando e sujo envidraçamento
do mundo infeccionado muco apenso

o periodismo preciso da vinda
virótica que pressurizo ainda...

(apesar do que a tecnologia
farmacêutica expectoraria)

sexta-feira, 5 de abril de 2013

QUAL FUTURO JUBILOSO

sobre o que dói junto aos olhos

O meu velho corpo novo
mais a mim é misterioso
à medida em que de novo
envelheço mais um pouco;

o meu novo corpo velho
renova em mim o Restelo:
- um pessimismo de velho
otimista que conservo;

ancorados neste corpo
os sacrifícios do dorso
farão a história do morto;

liberadas desse vezo
as esperanças de peso
me esquecerão sem apreço...

segunda-feira, 1 de abril de 2013

MUNDO BORRADO DE AMOR

a sintaxe da tarde

A luz deitando a sombra
(à luz deitando a sombra)
[a luz deitando à sombra]

salienta seu mistério.
Saliente-se: o mistério
das duas, luz e sombra

salientes anacondas
nas paredes das fronhas

vazias, compassivas
(exceto em certos climas)

das crases muy amigas
na tarde-alegoria:

- aquelas restritivas
de boa companhia...

domingo, 31 de março de 2013

DUPLA QUADRA DE PÁSCOA

Um domingo sem poesia
alguma. Em que a corrida
da paisagem, ressabia
em função de morta, a via

nenhuma, quieta, vazia
parcamente percorrida:
- sem que do retorno, a ida
torne em diferença, vida...

sexta-feira, 29 de março de 2013

quinta-feira, 28 de março de 2013

MUITO ALÉM DOS JORNAIS

de leituras que confortem convicções

O que acontece quando não mais vencem eleições?
O que acontece quando não mais se tem os grotões?

O que acontece quando golpes de toda sorte
- dos quartéis às cortes - não mais apontam o norte?

Quando a confraria reunida em convescotes
mal ventilam medidas que desmintam seus cofres?

O que será dos excelsos poderes de sempre
- da banca, da indústria, do Papa - nem mídia à frente

que os encubra, que nos engane, que mude a lente?...

***

O atavismo das mandíbulas
magarefes dos vossos sonhos

bissexto reabre-se em fístulas
ancestrais do gênero homo;

seu verniz civilizatório
relevado à luz das savanas

(no interesse antropológico
de sua longa pertença à história)

às favas reconta uma estória
de antiga confiança em chicanas:

- a despeito de mais estreitas
no tempo que agora as espreita...

terça-feira, 26 de março de 2013

DUAS QUESTÕES RAREFEITAS

e a resposta controversa

Onde vou que foi amanhã
este hiato de vida terçã?

Onde fui que vai de manhã
a química de Amsterdã?...

(quando meninos perguntam

respondo Apeninos que não

ao longo do sonho em que vão

ao largo da imaginação)

INSTÁVEL

Entre nublada
e ensolarada

entre cinzenta
e barulhenta

a tarde oscila
descolorida

meio indisposta
à minha porta

que dá pra rua
- mundo que sua...

segunda-feira, 25 de março de 2013

IMAGINAÇÃO CREPUSCULAR

ruim

Há pouco, a morta tela se impôs
sobre a pouca ideia - e esta se pôs
a caminho, no carro do sol.

Mera, era ideia com tersol:
- mas mais inflamada e embaçada
que absoluta catarata.

Curta pois, ela se decompôs
carona hoje de caracol:
- quem sabe amanhã, camarada?...

domingo, 24 de março de 2013