quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

2015

Novamente o calendário
é uma peça de vestuário

de efêmera qualidade
diante da publicidade;

adiante, outro itinerário
da mesma modalidade

promete-se necessário
(não obstante arbitrário)

como se anuário ao contrário!...

QUADRA VETÊ

Do mar se vê
que na tevê
o mar belê
reencontra-se.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

OLINDA

Desde os quinhentos

pelos seiscentos
e setecentos

eram trocentos

de aventureiros
a açucareiros;

de portugueses

a brasileiros
desde os flamengos

foram trocentos

do seu mosteiro
ao seu convento;

dos oitocentos
aos novecentos

de bonecos mamulengos
aos bonecos gigantescos

sobre as casas centenárias
pelas ruas madrugadas

já são trocentos

mais de batuques coroados
e metais ensolarados...

Sempre aos trocentos:

- pois a história deste lugar
é proletária e popular.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

domingo, 28 de dezembro de 2014

QUADRA TSÉ-TSÉ

Sono à tarde, cedo ou tarde
vento contra, toma tempo
desde cedo, todo ou parte
deste sonho, desatento...

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

CORRENDO EM BOA VIAGEM

Dia sim dia não
venho de Jaboatão;

dia sim dia não
estou no calçadão

quase em movimento
(impressão do vento?)

sob um certo peso
deste firmamento

(de Nordeste ao centro)

até que o momento
(de antemão presente)

imponha que eu pense
no que ressinto então:

- podia ser sempre...

QUADRA DA PRAIA II

No Nordeste
brasileiro
contra o Agreste
caranguejo.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

TESE QUE DEFENDERIA

face a tanta maresia

A praia fatigaria
meu desejo de poesia.

O mar comprometeria
(embora estimule a liça)

mil ensejos de poesias.

A esmagadora maioria
das presenças naturais

- de homens a vela a peixes do cais

contra conspiraria:

- quando finco os pés na areia
a realidade impermeia

da natureza que brilha.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

QUADRA ANÊMICA DA AREIA

... de praia que subtraia
dos sentidos a palavra
ou de melhor descrevê-la

(seria convalescença?)

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

QUADRA DA PRAIA

... a praia serpenteia
pela vontade alheia
que me invade - areia
aranha de sua teia...

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

SEXTILHA ESTIVAL

Há uma brisa recifense

que parece que se sente

que aparece a toda gente

de um lugar independente

a vagar impunemente

do que se ache recifense.

QUADRA ESTIVAL

Da quentura ensolarada
que acomete a madrugada
cedo sobra a passarada
a cagar toda a sacada!...

MEIA QUADRA ESTIVAL

já no Recife

Este verão primaveril
me encontrará em que Brasil?...

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

BACK TO MY AMERICAN WEST

while listening to Chris Rea's

A memória da grande pradaria
terminando nas Rochosas, seria

(porque de poética melancolia)

mais um sintoma de que poderia
ter sido outra a via - uma outra vista

então surpreendente quão indistinta
da vastidão transcendente e finita

do que ofereceria qualquer vida -

que todavia, paralela à minha
(como realidade imaginativa)

coexiste pacífica alternativa.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

EM BRASÍLIA

última notícia

Do Gênesis, Noé
(sendo o nêmesis que é)

já desembarcou com seu dilúvio
autorizado de cima (o clima)

sobre a profecia que duvido.

Mas, em se tratando de Dom Bosco
é capaz de vir jantar conosco

sem que acabe o mundo num eflúvio

Noé, do Gênesis
(entre parênteses).

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

REVISITA 37: PRAÇA BATISTA CAMPOS

Belém do Pará

Sobram folhas caídas no banco da praça.

No cair das folhas
jaz o tempo inamovível

que passa-possante rápido-e-lépido

- o bólido do espaço indefinível
de velocidade inamovível.

Datas evocam imagens inalcançáveis
incansavelmente;

o passado é uma corda já roída
imprestável;

se quisermos sobrevergar o arco do destino
quais setas atingirão o alvo?

A saudade tapa a boca
de repente;

sons guardados na lembrança
animam o gramofone:

- a praça vazia testemunha
o que é de vida nenhuma.

O vento sibilante/balouçante/refrescante

ecoa inaudível

quando a paisagem foge à mente

(se morre o som
fantasmice)

A Batista Campos é o zoológico dos meus bichos interiores.

09/07/1984

Um desassossego de Pessoa

"Tenho mais pena dos que sonham o provavel, o legitimo e o proximo, do que dos que devaneiam sobre o longinquo e o estranho. Os que sonham grandemente, ou são doidos e acreditam no que sonham e são felizes, ou são devaneadores simples, para quem o devaneio é uma música da alma, que os embala sem lhes dizer nada. Mas o que sonha o possivel tem a possibilidade real da verdadeira desillusão. Não me pode pesar muito o ter deixado de ser imperador romano, mas pode doer-me o nunca ter sequer fallado á costureira que, cerca das nove horas, volta sempre a esquina da direita. O sonho que nos promette o impossivel já nisso nos priva d'elle, mas o sonho que nos promette o possivel intromette-se com a propria vida e delega nella a sua solução. Um vive exclusivo e independente; o outro submisso das contingencias do que acontece."

Fernando Pessoa, "O livro do desassossego". In Obras de Fernando Pessoa, vol. X (prosa). Lisboa: Promoclube, p. 38.

MODESTA

Quero agora sair da gaiola
aprisionada desta poesia

toda oxidando em maresia
cerrada - sem vista para orlas

de tal modo/maneira que empola
enquadrada de forma irrestrita;

quero romper o canto das rimas
(de um gabola que se acha da hora)

ora a corromper sua assimetria;

quero partir agora do poeta
e travestir-me a vera do esteta

pateta que sou e soou poeta!...

....

(mas que autocrítica mais severa!)

[a quem convenci-me de véspera?...]

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

QUADRA DA CORRIDA ENCAMINHADA

Aos cinquenta e cinco anos de idade
correr cinquenta e cinco minutos

é como andar de uma a outra cidade
sobre um par de joelhos resolutos.

sábado, 13 de dezembro de 2014

DE FÉRIAS SEM FÉRIAS III

pré-litorânea

Elusiva ou ilusiva
sensação animaria

outro ser subjetivo:

- mas bloqueia adjetiva
o que então alegraria

íntimo e substantivo
de certo ponto de vista.

Ilusivo ou elusivo
retro ou retrospectivo

(decerto pontos de vista)

este estar que objetivo
mudar introspectivo

abunda por tal motivo
aparências todavia.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

DE FÉRIAS SEM FÉRIAS II

É tanto tempo livre
que livre o tempo oprime;

é tanto tempo livre
que livre o tempo exige

justo o que nunca tive

- tanto que quando o tenho
é como inexistisse

(como se me punisse)

REVISITA 36: INTERROGAÇÃO

Os calos da imaginação
doem se calçados
com ideias pequenas.

Você lembra de um tempo
em que qualquer pensamento
era palavra

e esta a ação?
Não?

Deve ter sido antes de Cristo
antes da Criação
(inexistente, portanto
mas até quando?)

Deus nos deu o homem com preguiça
inacabado a quem coube a iniciativa
de completar-se

a ser feliz?

O que nos diz
a história da civilização
- dos percalços intransponíveis
aos quais pouco a adaptamos -

faz com que persista a questão:

- contemplar o completar-se, a ser feliz...

Os calos da imaginação
doem se calçados
com ideias pequenas.

03/05/1984

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

REVISITA 35: CLARIDADE

Pela claraboia passa a nova luz solar
luz solar nova porque manhã;
A manhã fresca, recente, luminosa
passa clara pela claraboia

Meus olhos namoram os flocos da luz solar
rastro de poeira da mobília sacudida;
Meu corpo transpassa o caminho para cima
solto fantasma na casa branquipálida

Passa a vida pela claraboia
vira o sótão um belo altar;
Oro sem querer, a vista para cima
à procura de um anjo no caminho luminoso

Na manhã clara boia branca a luz
de uma nova, fresca e transpassada solar idade;
Traz recente à mente a pálida fantasia
de um anjo nascente da poeira sacudida...

14/10/1983

BUTTON REVERSED

the trivial case of this Benjamin

(a Scott Fitzgerald)

A morrinha
se tem lugar

que aporrinha
de impacientar

seria no ar
que se aspira

e se expira
mais devagar

ao se espremer
(até me doer)

esta espinha
a adolescer

à tardinha
de envelhecer...

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

REVISITA 34: ALEGORIA DE UM SENTIMENTO

Meu amor
que as pedras te abandonem!...

As pedras que te tocaram
(tão frias e duras suas ásperas curvas)

terminaram te partindo em expansivos
fragmentos no tempo reincidindo

a dilatar o espaço
sideralizados.

E eu de tão triste
de precoce velhice

ansioso te acompanho acompanhável
interessado na trajetória dos teus pedaços no infinito.

Meu amor
por que cristal multifacetado

quebraste em milhares
de caquinhos irreconciliáveis?

Por acaso não teria eu forjado
para ti indivisível um aço inoxidável?

(bem sei do meu fracasso)

A chuva de estrelas cadentes
tangente ao firmamento
gera o sentimento inexplicável:

- por ti esfarelada
de mim angustiado...

Meu amor
(meu em vão sublime horror)

não escorra entre meus dedos
no vazio dos meneios;

cubra-me do teu pó divino;
deixe-me assim teu íntimo
(embora eu não possa mais ser teu amigo)

sol radiante entre belas negras nuvens!...

Depois cinza não ficaremos
faremos festa quando chover

- entrelaçados de longe
incontrastáveis atrás do horizonte...

25/07/1983

DE FÉRIAS SEM FÉRIAS

O muro sem trégua maciço das férias

- onde o corpo em repouso segrega a mente
até que esta o desregre impiedosamente -

elevou-se montanhoso à minha frente
sem régua a mil léguas de fato das férias...

... ... ...

... e por mais que eu alpinista decadente
despreocupe de escalá-lo noutra frente

(por saber que já não posso quem o enfrente)

do corpo e da mente preciso de férias...

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

REVISITA 33: DEDICATÓRIA

Quando em ti minhas mãos passeiam
alegres, soltas, agradáveis, febris

E tua pele arrepia; e a carne lateja
tesa e macia

Sorvemos cravados olhares do outro, dardos cadentes
dados do jogo incandescente

E nos tornamos cúmplices, verídicos
legitimamente cativos
da mesma emoção.

Paixão! A loucura senil dos velhos está na tua ausência!...

10/05/1983

domingo, 7 de dezembro de 2014

(RE)VIRANDO A (TREVA) CURVA

pistas

... da criatura apolítica
insatisfeita e acrítica

quando então conjectura

sua loucura política
travestida travessura:

- ver se estão ali na esquina

(se pregando uma doutrina)

[se golpistas na surdina]

{se um futuro que combina}

sábado, 6 de dezembro de 2014

NUBLADA IV

[agora chove
nos contrafortes
de alguma sorte

com epicentro
bem mais ao norte

(verão dezembro
então tropical
se parecendo
com outro Natal)]

NUBLADA III

Este sábado
exatamente

ensolarado
está somente?

(ou só a mente?...)

NUBLADA II

... este sfumato
chiaro cinzeiro

já ensolarando
tão brasileiro:

- por que Leonardo
não interveio

junto a São Pedro
(de Roma mesmo)

chover do afresco?...

NUBLADA

A cobertura
de baixa altura

tem curvatura
de ferradura

meio enterrada
de cavalgada

interrompida
da madrugada

amanhecida.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

(DES)SAZONAL

É todo interno
(nem sempre inverso)

o movimento
(decerto inverno)

que mal intento
agora mesmo.

Este dezembro
de veraneios

ainda não disse
ao que interveio

- por pouco triste
por pouco velho

tampouco quero
que seja menos.

Ainda que visse
no que me adentro

ainda que viesse
de outro novembro

talvez coubesse
dizer que acedo

se movimento
de outros momentos

[se primavera
de outonais eras

reconsidero]

MANÍACO-DEPRESSIVA

Seu olhar e seu sorrir
e o que mais de você vir

(da superfície opulenta
de entranhas aos quarenta)

[eu, se olhar você sorrir
o que mais seu existir
para outro antes de vir...]

quando meus em harmonia
(da vontade que só minha)
[pois tão meus e minha, ó linda!]

são inteiros de utopia
(aos pedaços todo dia)

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

REVISITA 32: VERBO II

Se tiveres em essência

Aquiescência

Tolerarás o absurdo

o obtuso

Dignamente farto...

11/03/1983

REVISITA 31: VERBO

o primeiro

O vento não afaga sua pele como penso
nem perpassa seus cabelos como meus dedos.

Não há chance para nós.
Não há duas palavras para a mesma impressão.

Mas se insisto
em abraçar limitado o infinito

sou um ponto no deserto
que você vê.

19/01/1983

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

REVISITA 30: E. T.

Para além do úmido olhar
no alto negro azul, pó de estrelas
manto dos magos
gráfico do infinito

vive o amigo
perto e viajante

o menino
terno visitante

pomba da paz intergaláctica...

O êxtase extraterrestre.

03/01/1983

DUPLA QUADRA UNIPOLAR

de que me adianta tentar?

Amanheço da alegria
que alvorece dolorida

neste ensolarado dia
de estação interrompida

já que plúmbea deveria
pela quadra duplicida

mal escrita, bem chovida:

- pluviosa sensaboria...

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

BENEFIT

Jethro Tull

... a paisagem de fora
e a de dentro, por ora

coincidem - o que acalma
minh'alma em sua vertigem

em sua sonora origem:

- a de imagem agora
daquela outrora virgem...

MEU RECIFE

do alterego inclusive

Arrecifes
em que estive

- desististe
ô Euclides?

O Recife
em que estive

(indo a pique)

insististe

- porque nosso amor inclusive!...

ESQUECÍVEL

Em dezembro
eu me lembro

de dezembros
contratempos

de outro tempo:

- quando o vento
(que soprava
contraventos)

alentava
turbulento

desalentos
que eu levava

desatento
todo o tempo...

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

DA CONSCIÊNCIA SEM

Jogar melhor o jogo das aparências
a fim de melhor refletir uma essência;

jogar melhor o jogo das aparências
a fim de melhor cultivar parecenças;

circular melhor pelas adjacências
na perspectiva afim de compreendê-las

(talvez melhor proteger as diferenças
e enfim administrá-las com prudência)

[ou] [ou] [ou]

... ou renunciar ao jogo das aparências
a fim de reconhecer sua impertinência

face à termodinâmica decadência;

ou mesmo argumentar pela inexistência
do jogo, das aparências, de uma essência

(talvez aquietar-se pela inexistência
de consequência alguma nessa existência)