domingo, 31 de dezembro de 2006

POR BRASÍLIA

Todos meus sonhos
De andarilho;
As muitas coisas
Que mal consigo
(diretrizes, objetivos
planos no infinito)

Gestei a caminho
(espremido entre a branca lua
explodindo sobre a branca rua)
Do reflexo labirinto:

- A cidade quebra-cabeça
numa tarde de domingo.

sábado, 30 de dezembro de 2006

Encruzilhada

A desordem dos acontecimentos entortou meus caminhos. Hoje estou numa encruzilhada. Dela vejo tantas estradas que já não posso escolher a minha. O medo de abrir mão da melhor faz com que meus passos sigam mais lentos, mais atentos, menos vorazes.

Já não me conduzo com a pressa que me trouxe até aqui porque é ela a razão do desassossego dos meus dias. Na ânsia de não me perder, percorri trilhas sem olhar para os lados e sem cuidar do que existia à margem delas. Não pisei nas flores, mas saltei sobre elas sem lhes sentir o cheiro e sem lhes perceber a cor.

De agora em diante, vou quebrar o retrovisor e fazer do coração o meu guia. Que ele imponha meu compasso! Não desejo colher todas as flores, mas quero apurar os sentidos para tirar delas a inspiração que preciso para recomeçar diferente.

Ju

MARINHA

O que evocas
Das focas
No extremo sul do mundo

A partir das docas
Ruidosas
No vaivém de tudo

Basta agora
(marujo)
Ao que me vem do fundo.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

ANTES DE VIRES

Onde estive
Anteontem?

Naquele tempo
De estranhamento
À flor da pele?

De paisagens
As tais miragens
Comigo à margem?

E de estios
À foz dos rios
Desentendido?...

O que de mim
Eterno esteve
Tão breve?

(agora que
encontra-se
tão leve?)

[quem souber
desavise]

terça-feira, 26 de dezembro de 2006

LIKE A STEADY ROLLING STONE

ao renitente Sísifo interior

Amanhã, sei que amanhecerei
Assim; sei, não estarei mais
Tão tranqüilo encruzilhado
Atracado em qualquer cais:

- Pendurando vácuos num varal de cenários
azuis tipicamente emoldurados
(senões estrangulando opções
as mãos gentilmente atadas)

A cimentar incertezas previsíveis
(estáveis as conclusões indizíveis)
Sei que não mais acidentarei

Inerte: rolarei o precipício
Do desnecessário sacrifício
De subir a escadaria comigo.

sábado, 23 de dezembro de 2006

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

Momento

O muro é muito alto e me traz insegurança. A queda promete ser grande, tenho medo das conseqüências. A escuridão à frente ameaça e me faz recuar um pouco.

Somado a tudo isso, não conheço nada do que está por vir. Recolho-me, então, no meu mundo e deixo em aberto todas as possibilidades futuras para quando eu acreditar mais no coração do homem.

Ju

O TERCEIRO PASSO

Meneio gracioso de dois dedos sinuosos
A mecha desatada por trás do teu ouvido
Desata outro dedo de atenção ao que digo:

- Cuide as palavras, ó Belmiro
cuide as palavras!...

(que dos lábios brote uma lavra
de vocábulos do amor bendito)

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

DO INESGOTÁVEL PODER DE QUERER-SE

Na tua tristeza de agora
(de árvore abatida descaminho)
Me situo; e solidarizo
Embora criatura doutro abismo

Mas transpiro, de todo jeito
Um desejo novo, e caseiro
De fazer a hora primeiro
Contigo; e logo a segunda

Conosco noutro caminho:
- Por entradas recém-picadas
todas conversíveis em estradas

(todavia, entre os movimentos
nenhuma algaravia; só silêncios
todos conversíveis em momentos)

terça-feira, 19 de dezembro de 2006

FRESTA

Que fátua visão silenciosa
A minha, extração distraída
(gráfica - embora tímida)
Dos meandros da memória:

- A curva linda dos teus ombros
de macia morenice, onde corvos
pousam negros teus cabelos; moldura
da suave meninice dos meus dedos
onde beijos bordam enlevos
tecedura sem pintura...

(embora vazada de brilhos
faróis a porem nos trilhos
este herói de ti recente, que pressente
sua hora encantada de príncipe chegar)

domingo, 17 de dezembro de 2006

sábado, 16 de dezembro de 2006

INCONDICIONAL

(não estás só
não estás só
não te deixarei só
cuidar-te-ei
darei
serei-te
eu somente...)

Um mantra martela um cérebro

[divisor/discriminador
analítico/sintético
ponderado/hesitante
(covarde num instante)
suscetível/maleável/mutável

funcionalmente hermético
moderadamente confiável]

Vindo do coração.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

MELHOR ASSIM

Um poema.
Pediste um poema
Nesta hora suprema:

- Da dor incontornável da perda
do que nunca se tem de verdade;

- Da saúde que se avizinha doença
no vácuo anterior à saudade;

- Do amor desenganado de véspera
que se colorido for novidade...

Um poema.
Pediste um poema
Nesta hora extrema:

[uma vez poema ruim]

- Melhor convidar tua beleza
(incontornável)
ir adornar qualquer mesa
(que se avizinhe amigável)
do mais próximo bar
(novidade!...)

Brindarei contigo a tudo que sobrevive.

Despedida

Fiz minhas malas. Guardei nelas o que cabia e joguei fora o resto. Não vou precisar desse excesso. Limpei as gavetas para não lhe deixar nada sujo. Limpei a garganta para manter a voz na nossa despedida. Ensaiei uma breve fala no espelho, avaliei minha postura e aprovei. Estava pronta para não chorar.

Com meu olhar derradeiro, gravei na memória todos os detalhes da casa. Cada um com sua história. Vivi uma década em cinco minutos. Envelheci outra década nos mesmos cinco minutos. Engoli a sensação de fracasso e perda para dar espaço à esperança de não ter que me retirar mais uma outra vez.

Encontrei seus olhos parados, fixos, aguardando. Eles traziam toda coragem que me faltava naquela hora. Não me lembrei de nada do que havia repetido tantas vezes para dizer a você. As malas pesavam e as deixei no chão. A cabeça pesava e a senti rodar. Saí sem olhar para trás, para não ter que dizer adeus à minha própria história.

Ju

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

SEMPRE SEI, MEU BEM

Eu sei
Quando rondas
Teu desejo

Quando vagas pensamentos
Aos pedaços noite adentro

(por frios caminhos
percorrido o silêncio)

Sei
Quando sonhas
O teu medo

Quando rufas tambores
Vários, parcos amores
Em opacas vitrines
Coloridas as fachadas

(quando fazes qualquer coisa
que te evite, imensa si mesma
que te oprime
colorida fachada...)

Sempre sei
Porque cá estive

(no teu lugar)

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

domingo, 10 de dezembro de 2006

THE LOCKED GATE I HAVEN'T SEEN

A linha logo adiante
partindo distante o espelho

(da aurora)

naquilo que morde agora
aquilo que escorre dentro

risca do momentâneo
quadro-negro
a possibilidade tão nossa

(tão tua)

do acolhimento.

sábado, 9 de dezembro de 2006

DEZEMBRO

Pendente, um sol pesa às costas
Viradas à úmida claridade;
Inclemente nas andanças, cozinha
No asfalto uns miolos da cidade.

Um sol-pivô ao meio-dia
Babel derrete a perder de vista:
- Desamarrota uns horizontes
sitiando azuis esta ilha.

Se leve a noite, ocasional
Madruga um reflexo sol
Passeando veleidades:

- Luz-de-vela celestial
traz à mesa, o pálido farol
um hálito de pomares.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

DO DICIONÁRIO V

Sonho: tão verdade
Cristalina quão negado
Na vigília.

Rendição

E então você me aparece, me abre braços e sorrisos, e diz que eu sou a dona do brilho dos seus olhos. E quer me convencer que seus melhores momentos são as nossas horas, que ninguém jamais o levou tão alto.

E eu, que andava disposta a deixar de lado a fantasia de me entender sua, que ensaiava discursos para sufocar suas triunfantes tentativas, me vi desabada, sem forças, sem razão.

Esqueci-me, então, das falas ensaiadas e me rendi à insensatez de nada calcular. Guardei a balança para não ver o peso da sua sedução. E agora, dos seus braços, nada vejo além de você e de mim, além de você em mim.

O mundo cinge nossa cama a cada vez que percebo que você me basta.

Ju

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

Comprovação

Inspirei-me nas doces palavras que ouvi de você e preparei o mais lindo dos textos. Pincelei meu discurso com o mel que suguei da sua boca, há pouco. Dei-lhe formato, cor e vida e lhe dediquei também um dono.

Mas vou guardar nossos momentos na minha memória e meu belo texto nos meus arquivos sem publicação. Tantas poesias, crônicas e sonetos, que se chocam... Difícil lidar com um coração tão grande!

Ju

domingo, 3 de dezembro de 2006

PROVAÇÃO

Silêncio. Ar condicionado.
O ruído do meu olho adensado
(errando certeiro a tua procura)
Corta estreito o espaço.

E afinal encontra, franzida
A tua atenção, constrangida
Num canto pensativo de sala
Ecoando distante dali:

- Da mão que gesticula, alada
quereres à larga entre deveres
tardiamente (do braço) desatada;

- Da boca cerrada nos dizeres
que contradizem tais quereres
porque deveres - de casa...

quarta-feira, 29 de novembro de 2006

Viagem

O pensamento voa por caminhos distantes, à minha revelia, nas minhas horas à toa. Ele me conduz, muda e serena, a lugares desconhecidos. Do outro lado, ouço você, que me chama em silêncio. Sem pressa nem urgência, me aproximo para sentir o calor do seu corpo e o toque dos seus dedos.

Vejo-me sempre encenando roteiros que a minha fantasia escreveu. Não existem regras, contra-regras, começo nem fim. Não há público, não há vaias, ninguém aplaude ou pede bis. Mas eu estou lá. Você também. É o bastante.

Se o toque do telefone vem adiar o desfecho, recobro-me do susto e retomo as rédeas da vida real. Se fico triste? Não. Junto os pedaços do meu sonho dilacerado, colo com a umidade que ele mesmo me provoca e levo até você. Agora de verdade. Algo me diz que você assistiu a tudo e me espera.

Ju

DO DICIONÁRIO IV

Espera: sincera
Disposição de trair
O tempo.

domingo, 26 de novembro de 2006

COMA INDUZIDO

Te quero tanto
Há tanto

Que embora espanto
Com o quanto

Finjo entretanto
Que espero.

sábado, 25 de novembro de 2006

quarta-feira, 22 de novembro de 2006

Tentativas

Tentei ficar distante, longe de você, para entender nosso caso. Pensei encontrar na sua ausência o sentido de querer tanto estar ao seu lado. Afastei-me, embora sempre colada nos seus passos, nos seus dias sem mim, nos dias em que buscou outros caminhos só para se esquecer de nós.

Tentei. Juro que tentei. Dormi horas de sono a mais nas minhas noites frias para não me perceber sozinha, mas as manhãs chegavam para denunciar meu abandono. Fiz dessas mesmas manhãs tentativas de nascer de novo a cada dia, só que você estava nos meus pensamentos a cada vez que o sol aparecia lá fora.

Tentei amá-lo um pouco menos; não consegui. Lutei para ser feliz longe da sua cama; não pude. Quis me esquecer do seu cheiro, mas ele ficou no meu corpo, assim como seu suor, como as marcas dos seus dedos, como o seu prazer. Hoje jogo a toalha. Perdi em todas as tentativas. Vencida, aqui estou eu, de novo. Não quero tentar mais nada.

Ju

MESMO FILME

- Fingida decerto
a desatenção que encanta
meu lábio mordido
em desalinho

pois dali o drama
do destino em aberto
não mais consigo

(levar a sério)

terça-feira, 21 de novembro de 2006

segunda-feira, 20 de novembro de 2006

DIALÉTICA DA UMIDADE

Cerveja num dia chuvoso
De vento frio no rosto
Possibilita, tão-somente
A aproximação da bruma
Na mesa em frente:

- E a percepção indiferente
de cunha apartando a gente
deste cinza-cigarro
pigarreado chuva.

domingo, 19 de novembro de 2006

COMEÇO DO FIM DE QUALQUER PRETENSÃO POÉTICA

(o porquê de bem cuidar do físico que mal registrar o anímico)

[não tenho mais vontade de escrever num silêncio amolecido de quem mal exercitava os sentidos e acabava encerrado num labirinto-com-labirintite e dores nos pés, nas costas, nos olhos desfocados borrando tudo (borrei o teu rosto da memória, meu bem!) - daí, que pensamentos, que sentimentos!...]

Adventício és, nublado horizonte
Claramente espírito nesta límpida apreensão
Ao alcance da mão trêmula:
- Flâmula ilusão, olímpica onipotência!

(embora senil onisciência
que não tardará tanto quanto pensa)

E passando asfalto, embaixo, o Eixão
Dos passos bissextos de atleta acavalado
Correndo urgente do destino geriátrico:
- De onde o medo, em qual enredo?

Os músculos, esqueço-os atrofiados
Na imaginação; se travam, recalcados
É da cristal disposição desta euforia
Anestesiada das vergonhas:
- Das peçonhas da idade...

(otimismo naturalmente dopado
por todas endorfinas do universo
disponíveis nas veias da cidade)

Se desentupo artérias, prometo férias
A tudo em mim que rui ruidosamente
Da gravidade em frenética atividade:
- Dores seculares cheias de vontades
na enfermaria encalacrada da razão.

(mas que não deterão esta quieta promessa
da decadência adiada em lenta queda
de flores sempre frescas sobre a tumba!)

[ah, que pensamentos, sentimentos
me acometem assim físico, o caldo bioquímico
desse humano sacrifício dominical!...]

sexta-feira, 17 de novembro de 2006

SOBRE A UTILIDADE DE TUDO ISSO

Se me lembro
De preencher o tempo
Com palavras:
- Concateno-as (enganadas)
na desordem do pensamento

(...)

E quando esqueço
Delas arrumadas desse jeito
Percebo enfim:
- Nada preciso de mim
se desconheço.

quarta-feira, 15 de novembro de 2006

Um ano

Passado um ano, é hora de fazer o levantamento. Começo o balanço e descubro que nada mudou. Seus olhos ainda dizem tudo no meio do nada. Seu toque ainda queima, arde e provoca. Você continua desnorteando meus caminhos e eu ainda sigo seus rastros, em busca das emoções que me uniram a você.

Ontem mesmo passei em frente à Adega. Aquela que nos serviu de palco quando nossa história procurava um cenário. Nela estreamos como protagonistas do melhor amor do mundo. Nela quero voltar para brindar com você o nosso primeiro ano.

Beba do vinho com a mesma sede. Crave-me os olhos com a mesma fome. Diga baixinho as coisas que só você sabe dizer e deixe que tudo continue como está, porque há um ano, ao seu lado, tornei-me muito melhor do que eu era...

Ju

domingo, 12 de novembro de 2006

Das artes que adivinham

(nota para o Café da Manhã, promissor jornal estudantil)

Astrologia. Tarô. I-Ching. Jogo de búzios, runas, numerologia. Borra de café turco. Tentativas de apreender o quase inapreensível - o que significa tratar-se de puro desejo, antever a fim de antecipar-se, corrigir antes de errar. Controlar o de outra maneira inteiramente humano.

Artes divinatórias nada têm a ver com ciência; nelas não se aplicam os processos típicos de validação, e a questão da confiabilidade é de outra natureza. O que a divinação encerra diz respeito ao território velado, semi-oculto do pressentimento; o que ela enseja (se devidamente compreendida e utilizada) é o acesso da consciência desarmada ao abismo interior - às várias ante-salas do que por dentro nos leva a tudo mais que existe. Não há nada nas cartas do Tarô que você, de alguma forma, já não saiba.

Aqui, cabe uma heresia: a rigor, não há distinção entre "boa" e "má" astrologia; horóscopos de jornal podem ser tão 'válidos' quanto os melhores trabalhos de Liz Greene (uma das minhas favoritas). Segue o porquê: se acreditarmos que o universo é uma totalidade estruturada operando segundo uma lógica a princípio identificável - isto é, que sempre há sentido nos fluxos e movimentos de suas partes constitutivas, percebidas como interrelacionadas direta e indiretamente em todos os níveis imagináveis e inimagináveis -, então a questão de se ler 'adequadamente' a realidade se reduz a um exercício de sensibilidade. Dado o caráter polissêmico de qualquer representação - seja fidedigna ou enganosa, até mentirosa -, o seu sentido - seja primeiro, intencional, fortuito, circunstancial ou derradeiro - dependerá do sujeito que percebe o que lhe apetece de si, dos outros, do tempo e do espaço.

Assim, se tudo tem sentido, isso necessariamente inclui quaisquer leituras para o bom leitor - no nosso caso, do presente que se adivinha prenhe de possibilidades...

sexta-feira, 27 de outubro de 2006

CONSTATAÇÃO

O que colapso
Adentro
Do tempo segundo
Meu conceito

Me ensina
Da sua passagem
Acima (e ao lado):

- Do amor
(embora amor se crê)
nada posso esperar.

domingo, 22 de outubro de 2006

Na longa estrada para a velhice

Meu labirinto bichou. Entre todas as afecções que imaginei adquirir quando a máquina que sou começasse a falhar, esta nunca cogitei. A leve tontura permanente que traz levou-me ao recolhimento - para senti-la melhor, se possível apalpá-la, decompô-la para saber dos seus limites, das mudanças que ela porventura trará ao resto de mim. Por enquanto, a registrar, a impressão desagradável de ter enfim de recorrer a outras instâncias que não a farmácia maravilhosa do corpo e sua mente, mobilizáveis num ato independente, solitário, de vontade de resolução.

No mais, a constatação de que o espelho não será, adiante, o único meio de checar existencialmente a passagem do tempo: a partir de agora, a máquina maravilhosa que habito torna-se relógio, creio, com um número crescente de ponteiros impossíveis de ignorar.

Começo - de fato, porque forçosamente consciente - a caminhada em declive.

sábado, 21 de outubro de 2006

DERROTA DE VESTIÁRIO

Do ardor que em tudo dispensa
O argumento que enfim despeita
Não falo (se tanto, tolo o sinto
preciso emborcando os sentidos)

E caso nele penso (no desvario
deliberado deste tiro perdido)
Desarmado, só calado dele faço
Palavreado sem registro, placa

Indicativa de nada, desapontada
Guia de caminhos que não digo
Estradas - desnecessárias vias
Sacras iluminadas avenidas:

- Por onde brancas faixas retilíneas
curvam a vista, que senão turva
acredita que desvia...

segunda-feira, 16 de outubro de 2006

NA TORRE

Às vezes, ainda reivindico
Do orvalho matutino, o imprevisto
Carvalho à sombra do cansaço
Da estrada poeirenta a pino;

É que quase acredito conceber
O mito de poder surpreender
O nada-a-fazer nisto; outras vezes, antecipo
Vicioso cenário de virtudes, pressuroso

Campanário emparedado partitura
Repetida, há muito urdidura
De canários restritiva, embora trilha

Sonora da estrada percorrida:
- Do imprevisto emparedado
campanário de carvalho.

sábado, 14 de outubro de 2006

Insônia

Deixe que eu encontre nos lençóis da sua cama o aconchego que me falta em dias como o de hoje. Quero ser a dona dos seus pensamentos e a realizadora de todas as suas fantasias. Deslize as mãos na minha pele até encontrar o que procura em mim e ali demore o tempo que quiser.

Dono da minha insensatez, é por você que vou juntar meus pedaços! E quando eu puder me contemplar outra vez inteira, que você esteja no mesmo espelho, dentro do mesmo olhar. Faça de mim a cúmplice dos seus segredos, seu brinquedo preferido. E que essa expectativa vença minhas noites de insônia e me faça dormir todas as horas que mereço.

Ju

sexta-feira, 13 de outubro de 2006

SALA DE ESPELHOS

Retorno aonde estive
Mil vezes, e neste piso
Gasto de revezes, repasso
Comigo o velho caminho

Até a porta dos mil erros
Novos, daqueles acertos
Tortos, desapercebidos
Prazeres que pressinto

Deveres com outrem:
- Algum desconhecido
aquém desse antigo

modo de ser abismo
opaco, qual narciso
que igual naufrago...

quinta-feira, 12 de outubro de 2006

QUE PERGUNTA É ESTA?

ao José Matias, de Eça de Queirós

Por que o destino
Qual esquina a dobrar

[véu, semente, a promessa
daquelas próximas férias;
o belo adormecido
(num descanso imerecido)
princípio feminino;
o que, desconhecido
assegura-se definitivo
tonificante capilar]

Eterna em outra rua
(noutra tarde, lua, lugar
à parte do sistema solar)
Cinderela andará?...

segunda-feira, 9 de outubro de 2006

TÃO CEDO ASSIM

Ao sentir o chão
Penosamente branco
Da manhã nascente

Entrando a estação
Úmida dos cacos
Pisados reluzentes

Reflito mães d'água
Iaras alquebradas:
- Sereias decadentes
de fala enluarada...

(caso recorrente
de mente fraturada:
- calçando o passo
até o poente)

domingo, 8 de outubro de 2006

FUGA NO BARQUINHO DE PAPEL

Quando chove forte, e a água pura
Lava a pedra imunda, e verticaliza
Ruidosa a expectativa de, em seguida
- ao inundar a hora, a rua, a vista -
Confirmar-se quase limpa

Tenho ímpetos de dissolver-me
Antiácido, sem efervescências
De consciência, ou sentimentos
Cristalizados açucareiros:

- Desobedecer a gravidade dos fatos, e tubular
(obedecendo estreito à gravidade dos ratos)
vazar de onde contrafeito estive
(num respeito fugaz ao declive)

para outro lugar...

sábado, 7 de outubro de 2006

CONTEMPORÂNEA

Às vezes desapareço
Sumidouro de vontades: e o apreço
Com que quase experimento a cidade
(da colina além-vazia de olhares
desarmada à vista de verdades)

Amesquinha-se vila, removida
Da sociedade magnífica dos prazeres
Vagarosamente palafita nos dizeres.

E às vezes se soergo (um braço)
Deste tédio pleno, vácuo
Chumbado ao leito, contrário

À cosmopolita urbanidade
De uma vida de oportunidades
(das cinzas fotografadas
em desdobradas paisagens)

Paro. Para tentar despovoar
Um cansaço secular.

Minhas histórias

Muito longe da calmaria da minha criancice, vivo amarguras que só conhecia nas histórias. Ainda me lembro do aperto no peito ao ler historinhas infantis e ver que o mal prevalecia tempo demais. O fim era bom, mas sempre achei que não era bom o suficiente para compensar a agonia do enredo. Fechava o livro, deixando entre as páginas minha repulsa, minha indignação.

Hoje me vejo personagem desses episódios. Vivo, de novo, as mesmas angústias. Sinto o peito apertado e sofro com o desenrolar das minhas histórias. Como na infância, aguardo ansiosa o final feliz, mas torço para que ele demore um pouco mais. Pois quando o desfecho chegar, e eu tiver que fechar o meu livro, no lugar da repulsa inocente entre as páginas, deixarei a madura anuência de quem já não acredita em bicho-papão.

Ju

sexta-feira, 29 de setembro de 2006

DO INESGOTÁVEL PODER DE ILUDIR-SE

Sempre houve um calmo dia
Macio que sonhei claro, de brisa
Morna, quase líquida carícia
Soprando aquém da via vivida

E nesse falso dia de eterna calmaria
(de superlativa falta de expectativa)
Noite a anoitecer havia, e não ver
Arrefecendo o que em seguida vinha

Despertava, da surpresa ira
(matéria escura que tortura a vista)
Esmagada certeza científica:

- Aquela ternura, infinita e obtusa
escorrendo onírica de tal pintura
evoca, no seu ocaso alaranjado
maior ternura ainda, inda obtusa...

BIOQUÍMICA DO EU

a Paulo Paniago

Não há quem viva bem
Se além do que limita
À razão cognitiva
Seu buraco condensado:

- O mínimo adocicado
de ração imperativa
para ação integrativa
ao nível molecular.

(significando que)

Sou carbono e hidrogênio
Num invólucro augusto
Cujo óxido contexto

Oxida por inteiro:
- Precipito-me egoísta
centrípeto a contento!...

terça-feira, 26 de setembro de 2006

Miopia

Ainda bem que a sua guerra é santa. Eu não suportaria vê-lo distante de mim porque sou míope, não enxergo de muito longe. Para vê-lo com mais clareza, preciso que esteja ao alcance das minhas mãos. Para sentir-lhe o calor, é necessário tocá-lo. E para descobrir o quanto o quero, não posso esperar que eu o perca.

Seria doloroso demais ter as mãos vazias: eu não saberia o que fazer delas. Um tormento sentir a realidade pungente da sua ausência: já me acostumei com seus afagos e preciso deles agora mais do que nunca. Fique um pouco mais, e um pouco menos distante: os sonhos ainda perduram e meus óculos se quebraram.

Ju

domingo, 24 de setembro de 2006

NA TURBA

A consciência espessa do ar
Aspira gradativa meu pensar
O momento; o vácuo denso
Que pressinto adentro

Preexiste inexato o espaço
E qualquer movimento; em silêncio
Pulsa paradoxo o composto
Precário de carne e osso

Que sobro - elo derradeiro
Da cadeia vária de passados
Que nada desencadearam

De peso - só esta aspirante
Aspereza de tal espessura
(do gás paralisante na rua).

sexta-feira, 22 de setembro de 2006

NÃO SEI LATIM

Não sei de onde, se ontem
A idéia tão cara da vida edificada
Numa dura jornada, tão magra
De vitórias e justificada de revezes

Veio em sono numa noite limpa
De angústia; nem sei se minha
A impressão de algo ex abrupto
Varrendo a hora, e clarificativo

Virou-me dormindo, de forma
Que sinto agora, dormente
Um passo de jornada, cativo

Do desejo de algo ex nihilo
Varrendo para fora do meu dia
Esta idéia tão cara de vida...

quarta-feira, 20 de setembro de 2006

Vigília

Prestes a assistir de muito perto o avesso preponderar, o gosto amargo na minha boca dita o sabor da saliva e do que mais eu venha a engolir. A dura sensação de estouro sobrepuja e faz com que eu não me preocupe com mais nada fora dos recentes acontecimentos. Sob meus pés, aos poucos, o chão vem-se rompendo, abrindo crateras que parecem ter vida e me querer lá dentro.

De longe, você acompanha o decorrer da história. Mas escolta, avalia, pondera e me dá a mão. E faz promessas de eterno e incondicional amparo. Essa vigília me conforta e faz de mim alguém quase capaz de impedir a ruína. Sim, apenas “quase”, porque me sinto sem forças para competir com a sorte.

Na esperança de que meu destino dê alguma trégua para que eu mesma o reescreva, corro ao seu encontro. Se eu não puder vencer, quero ao menos estar nos seus braços, no seu colo, quando meu solo se quebrar de vez. Permita que eu fique ali, quieta e distante de tudo, como mera testemunha do meu próprio desmoronamento.

Ju

A LÓGICA DA COVARDIA

Do meio da rua viva
Uma atenção empurra
O medo de atropelar-se
(à vista do longínquo)
Para a calçada segura

Porque, a bem ver
A ida, cabe, arisca
Uma tensão arriscada (e rica!)
Que só o meio da via
Ao olhar possibilita

Mas se tão curta vida
(atribulada em demasia)
Caminhar esta vista
(ao longo do fluxo de chumbo
que o risco caracteriza)

Não restará paisagem
Mal-retida em retina
(se verdade ou mentira
miragem longínqua)
De tal tentativa...

terça-feira, 19 de setembro de 2006

DE OUTRO SERTÃO

Quase fui como vários outros
Daqui - zeloso de órgãos
Dos gostos de manada; cedo
Quis esticar-me corda, afiar-me

Seta de qualquer inábil arco
Alheio de todo alvo, giratório
Tal que primeiro esquecesse
Qual animal e prisca flecha era

Contemporânea da pedra:
- O mediterrâneo ressecado
conterrâneo do vasto espaço

vago que, entre chapadas
cerrado ficara - eu, soldado
apetrecho imaginado, à pedra...

sábado, 16 de setembro de 2006

FENDA

Justo agora, há instantes
(neste gole, pouco antes)
Abriram-se vastas portas
Aos dias, meses e horas

Da memória; um silêncio voraz
Quanto aos anos a fio, estações
Nas quais peculiarmente ativo
(acredito) estive vivo, tal porteiro

Que desdevora o resolvido; insepulta
Passagens de granito neolítico, num ofício
Para crânios bem polidos, de propósito

Vazio; justo agora, floridos os sentidos
(entre damas da noite toda sorriso)
Perfuma, vívido - esse flash idiota!...

quinta-feira, 14 de setembro de 2006

Bom dia

Um passarinho me visitou hoje bem cedo, pela manhã, e contou que viu você olhando uma foto minha. Descreveu você deitado, com a cabeça sustentada por uma das mãos. Nos lábios repousava um breve sorriso e os olhos, marotos, sorriam também.

Enquanto eu lia, quieta, no quarto, ele entrou pela janela com uma rosa vermelha no bico. Um presente seu para mim. Deixou-a sobre a cama, contou o segredo, sem embaraços, e voou para fora, na mesma urgência com que entrou. Pela janela aberta vi-o pousado no fio por algum tempo, como quem espiasse meus atos para lhe enredar depois.

No quarto ficou o perfume da rosa. Nos meus lábios, seu sorriso. Na minha cabeça, sua imagem, tal qual ele descreveu. E no coração, o veemente desejo de que tudo não fosse apenas um sonho perfeito. Para mim, não há melhor forma de se começar um novo dia...

Ju

segunda-feira, 11 de setembro de 2006

Ontem

É num dia como este que quero me despedir - um dia de brilho, o tempo limpo, passarinhos, vozes calorosas de amigos. Do álcool afagando doce e lentamente os sentidos, de refeições parcimoniosas e música dançando por mim. É assim que quero um dia morrer - do tanto viver na indolência tranqüila, desculpada, de uma vida enfim apaziguada.

domingo, 10 de setembro de 2006

Castelos

A saudade hoje chegou bem cedo, antes mesmo do café e do jornal. Pensei em você e senti nosso cheiro no ar. Sua voz, quase real, me chamou e repetiu, baixinho, palavras que me fizeram estremecer. O vazio gelado me trouxe, então, a vontade louca de correr para você.

Incitando minha agonia, as horas quase correram para trás. Dei mais corda no velho relógio da sala, na tentativa frustrada de fazer acelerar o dia. Por fim, venci o tempo, os contratempos, desintegrei minha decência, abri portas que não devia e destruí paredes para estar ao seu lado.

A intenção era surpreender e bati de frente com a realidade: você não me esperava. Então me dei conta de que sua vida segue sem mim. Voltei os quilômetros percorridos com um bolinho nas amídalas e a certeza de que os castelos imaginados são bem mais coloridos que os de verdade.

É! Talvez não deva mais construir castelos. Mas se um dia voltar a fazê-lo, cuidarei para usar menos lápis de cor.

Ju

PESCARIA

Você vai
Sempre que a hora vem.

Nuvem escurecida de minúcias
Acerca do insuperável modo de ter de obedecer
À própria argúcia
Informada por esta decência
(sem sombra de dúvida)
Integralmente tua.

Você vai
Sempre que a hora ronda
Aquela porta desguarnecida; aquela
Ambígua, travestida
Parede:

- Inadvertida rede.

quinta-feira, 7 de setembro de 2006

LEI DA ATRAÇÃO

Ei ei ei
Presta atenção
Quando por um fio
Mal falo
O que digo:

- O que reviro
na contramão disto
(convertido granito)

digere o preciso
daquilo que nada chulo, todo chucro
um telefonema ambíguo

(costurado de sentido)
úmido escamoteia
do teu registro.

terça-feira, 29 de agosto de 2006

Clausura

Desejo estar ao seu lado, de novo, contida naquela mesma clausura que um dia inspirou meu poeta. Quero sentir o calor dos nossos corpos embaçando paredes e vidros, e ler todas as mensagens que me passam seus olhos quando se privam do resto para contemplar apenas os meus.

Desses momentos mágicos guardo todos os detalhes. Se durmo à noite, sonho com eles. Se não, ressuscito-os e os refaço na memória, sem arranjos. Tenho vivido das lembranças e do prazer que elas me dão. E da vontade de que tudo aconteça mais uma vez.

Deixe a porta sem chaves. Mantenha a cama vazia e a pizza quente. Abra seus braços, feche os olhos e permita que eu entre para cuidar de nós. Quero ficar com você pelo tempo que nos for permitido e me sustentar como estímulo à sua poesia que, como vinho, me embriaga.

Ju

domingo, 27 de agosto de 2006

ESTUFA

Luz, e ar fresco
Encontram-me atento
Num quase silêncio

À sombra, confortável
(em minha sombra)
Chacoalho por dentro

O que da tua miragem
Escapa, borrada
Indecifrável pintura

E uma vez que nada
(indo ou vindo)
Trinca este momento

Nesta clausura de vidro
Levemente batido
De vez silencio.

sexta-feira, 25 de agosto de 2006

A PINO

Melhor não esperar
Por ver verde o mar

A brisa de agora
Bem finge maresia

E se não fosse a hora
Tão próxima do meio-dia

Eu certamente desacreditaria

Perceber o ocaso da vida
Sem demora.

20/08/06

quarta-feira, 23 de agosto de 2006

Medo

Sempre que o medo vem, percebo o frio estender-se às extremidades do meu corpo. Não é um frio que se resolva com boa coberta, parece que a alma se congela e se cristaliza em cubos. E dói. Dói muito.

Mas hoje encontrei em você o alívio para o mal que me arrebenta. Bem cedo, corri para deitar minhas angústias no seu colo e senti, aos poucos, o degelo. A sensação viva da baixa temperatura foi-se dissipando. Seu toque aqueceu minha alma e derreteu os cubos, que escorreram, molhando a cama.

Saí dali sem resolver meus conflitos, mas o medo passou e, com ele, o frio. Dobrei a esquina, vendo-o miniatura pelo retrovisor do meu carro e ainda consegui sorrir, fiel à minha incessante fragilidade.

Ju

CHEGANDO

Onde caos havia
Haverá ordem de tipo
Florida;

Deserto, areia fina, o despenhadeiro
Enfim no qual seco beirei a vida
Verão, sob primavera eterna
O meu rio correr inteiro;

Noites enegrecidas, desditas
Entre partes de mim constitutivas
Outra sorte serão; e sobretudo
Circuncidando meu recém-mundo

- A minha mais querida
acaba de dobrar a esquina
e caminha...

domingo, 20 de agosto de 2006

DOMINGUEIRA

Passei inteiro o domingo
Cheirando rosas
Disputando com abelhas e vespas
O correr das horas

Nada mais pueril, portanto
Esse tempo anil, entre dízimos
Que a rotina (serpente envolvente)
Cobra...

- - -

Este, o hiato do meu domingo:
- A tua justa ausência
tão presente no meu espírito.

sábado, 19 de agosto de 2006

CARÍCIA DE AGULHA

Quando algo, o que seja
Qualquer obstáculo beija
E tal ósculo pontiagudo
Do contrário se convença

Triunfa, num já segundo
Um jaz-fundo cortando à toa
Qual licença em que não doa
Sua ausência perturbadora

E por este hiato perfurado
Ao enfiar-se, fenda abaixo
Modo vasto de ir interior

Revira a terra indagada
De estufa para a florada
Desprogramada do amor!...

quarta-feira, 16 de agosto de 2006

Paraninfando

(na formatura do Curso de Comunicação Social do Centro Universitário de Brasília, ontem)

"Nesta noite memorável, inesquecível para aqueles que aqui celebramos, a rigor só me cabe parabenizar o máximo discursando o mínimo, a fim de não resultar monótono e maçante em demasia. Na verdade, o que eu não queria era repetir as trivialidades típicas de ocasiões como esta, ou tratar de conteúdos cuja gravidade não combina com o espírito festivo desta noite. Vamos ver então o que consigo ler antes que as palavras escorreguem de vez do papel.
Parabéns ao corpo docente e à administração deste Curso, por manterem os trilhos no lugar para mais este trem do futuro passar. Não é fácil ficarmos na estação enquanto eles se vão. Confesso que preferia vê-los em sala de aula do que estar aqui nesta hora de despedida. Mas isso é só um surto egoísta de alguém que não sabe dizer adeus quando necessário. O nosso tempo com eles se foi, e a razão de ser maior desse tempo que tivemos juntos começa realmente agora.
Parabéns aos familiares de todo grau e tipo - pais, irmãos, avós, companheiros, agregados - por apoiarem os consagrados e consagradas nesta noite no limite da incondicionalidade. Só a família, em sua infinita paciência, é capaz desse tipo de coisa: acreditar que no fim tudo vai dar certo com seus membros em idade escolar, quando tudo o que eles parecem querer nessa fase é brincar.
Por fim, parabéns às formandas e formandos ... . Vocês me deram a honra e o privilégio de estar aqui como o Paraninfo de uma turma excepcional - talentosa, promissora, generosa nos afetos. Esta é a primeira vez que sou paraninfo; e como vocês sabem, a primeira vez a gente nunca esquece. Por esta, e por mil outras razões, eu nunca vou me esquecer de vocês.
Felicidades a todos, e muito obrigado!"

terça-feira, 15 de agosto de 2006

Metade

Enquanto você percorre caminhos ao encontro da metade que julga ser a sua, a vida lhe passa em silêncio e veloz, cerca-o por todos os lados e lhe brinda com amarguras. Se todos buscassem metades para, então, ser inteiros, o que faria quem se concebeu completo? Seria preciso deixar-se quebrar? Não, meu amor, ninguém nasce pedaço. As pessoas vão-se tornando assim quando se extraviam.

Para encantar, é indispensável ser absoluto, ser todo, esculpido de uma peça só. Quando você perceber que é esse o segredo, não mais terá que correr mundo se julgando início à busca de um fim. Você vai concluir que é ileso, sem limites, e jamais será fragmento. Por isso o distingui de tantos outros, me aproximei e permaneci: por sermos dois inteiros quando estamos juntos e não a soma de duas metades.

Ju

segunda-feira, 14 de agosto de 2006

FUGA DO QUE VEIO

Escrevo
Para do avesso
Botar-me travessura

(urdidura)

E com ternura
Encher-me indefeso
De qualquer vontade tua

Arreio.

quinta-feira, 10 de agosto de 2006

VEZES À NOITE

Não sei se devo
(pois não acedo)
Mas necessito, e padeço
(sem lamento)

Falar de dizer (tendo dito)
Gritar (se preciso)
Até estourar
(o teu tímpano)

O quão quieto, e lento
Este amor - rio imenso
(soturno fundo de tudo)

Desliza sozinho
(com frio)
Ao relento.

quarta-feira, 9 de agosto de 2006

QUASE A LIMPO

Se tiver de cair
Os miolos explodir
No granito amigo
(chão canino)
Da gravidade que acoberta
(o frio)

Mentirei agradecido
Por ter me permitido
O íntimo calor
Quase esclarecedor

(a pedagógica dor)

Do que em ti pena
Refletido.

segunda-feira, 7 de agosto de 2006

ILUSIVA

A natureza azul de tinta
Seca ao meio-dia
(à sombra de toldos
onde beijam brisas)

Pavimenta, lisa
Um desfile de intentos
De desconexos sentimentos

Que irrompem, fresca
(da veia entorpecida)
Uma promessa típica
Da fome ao meio-dia:

- O alinhavo de desejos
a pensamentos
numa costura limpa.

quarta-feira, 2 de agosto de 2006

Enquanto isso...

Enquanto a luz anda longe, sirvo-me de lanternas improvisadas, geradores criados para esclarecer o incompreensível. A lucidez se avizinha e, com ela, o desfecho. O frio e o enjôo me chegam ao ventre: qualquer dos caminhos à frente me inquieta e me angustia. A decisão iminente me transforma em quem não quero ser.

Enquanto isso, você espera, quase suave. E me observa, e me julga. Faz promessas que me levitam, constrói sonhos a dois, antecipa um futuro que me chama. Sacode tudo quando paro no tempo e nas minhas ações, priva-me dos perigos, mas me lembra que eles estão ali. Vejo-me, então, parte de um projeto louco, tentador e tão nosso!

Enquanto espero a magia da luz, deixo em suas mãos o meu corpo. Permito que você o percorra devagar e faça dele a sua casa. Toco de leve seus lábios para dissimular meus medos. E tudo parece certo, reto, justo. Sim, você me aguarda. Mas não imóvel, não sem vida...

Ju

domingo, 30 de julho de 2006

AQUI

Não há dicotomia
Entre noite e dia

Nem distinção
Entre sonho e vigília

(quaisquer hierarquias)

Somente um sol escuro
Do interior que brilha
E a tudo reconcilia.

quinta-feira, 27 de julho de 2006

MINGUANTE

Uma lasca, branca
(diáfana)
Aparada de unha
(de qualquer pálida figura escura)

Côncava, apruma
(luva)
A reta angústia deste olhar
(de globo ocular)

Fora de órbita!...

quarta-feira, 26 de julho de 2006

NUM SEGUNDO

Branco és, ao tato
De tão opaco;
Senão, sucessivas lentes de contato

Fatiar-te-iam, paulatinas
Em promissoras turmalinas:

- Os mil descaminhos cristalinos
do impulso desdobrado.

terça-feira, 25 de julho de 2006

BANDA CASTANHA

Teus olhos
De lado - assim
Alados

(voando pousados)

São pássaros diagonais
Riscando, sazonais
Meu quadro de estações.

sexta-feira, 21 de julho de 2006

O TRABALHO DE EMPURRAR

Este sono, latência
Que embota a consciência
E pulsa rítmica a dúvida

Entre ficar e ir
Tentar ou dormir

Empilha um granito de postergações que

Muro maciço

Abre o abismo que, mais fundo

Enfio

Goela abaixo...

quinta-feira, 13 de julho de 2006

BRAÇAL

Se ido, deposito
(circunspecto)
Uma finura no teu ouvido
(algo lerdo),
O deserto de sentido
(o correto)
Que tal confissão irriga

Analfabetiza

(decerto)

Esta lida que ainda
- de pedro a pedra, ladeira acima -
Encabeça uma lista

(sisifista)

Se-quer bem-vinda!...

Manhãs

Hoje acordei cedo e, antes mesmo de abrir os olhos, pensei em você. Tem sido assim nos últimos tempos: o pensamento invade a cama, procuro-o ao meu lado, não o vejo. Mas sinto que está ali, pois seu cheiro ficou em mim. Abraço meu travesseiro, que não se veste de gente, como os seus, mas que me entende como gente e me oferece conforto.

Amanhã quero acordar cedo novamente. Vou esperar que as lembranças se aproximem para que eu possa, então, abrir os olhos. Meu faro me dirá que você está ao lado. O calor do seu corpo há de confirmar sua presença. E, ao virar, minhas mãos o alcançarão. Quero deixar de lado o travesseiro para abraçar você, que não precisa se vestir de nada... Essa é a única rotina da qual não tenho medo.

Ju

Amanhecendo

... café, biscoitos, um torpor leve e gostoso denunciando o sossego profundo que tomou conta de tudo desde que certifiquei-me de ti. A tela escura que abriga estas palavras descansa os olhos para mais tarde, quando os sentidos serão postos à doce prova de te provarem. E de, contraditoriamente (já que labor retórico a princípio, não questão de pele), te convencerem de que estou certo.

terça-feira, 11 de julho de 2006

BOOGIE NIGHTS

Da mesa, vê-se o balouçar
Das estruturas móveis do bar:
- Carnes e panos destilando suores
cacos driblando de sonhos menores
lubrificando velhotes pagodes...

Da mesa, vê-se o que não é
(por faltar-lhe vida rebanha)
Uma viga nativa da festa:
- No espelho estrangeiro
um olhar meu alheio
ao sono que persiste aceiro
a isolar-me de tudo...

(na mesa, o momento
de lembrar o que aceito
derruba-me esquecido
de que sou apenas lento)

segunda-feira, 10 de julho de 2006

SONETO DO AMOR MARGINAL

Quando enfim, a mim escuto
A manhã nunca demora muito
Rasgar, num olhar, o véu escuro
Do céu; e achar-me ali, no brilho

Da fenda eterna do teu sorriso:
- Por onde sonho, e onde todo
lençol possível parece macio
(visto daqui de baixo)

E de onde cismo, vazado
Saudoso dos beijos, de gozos
Cabelos soltos pelo quarto:

- Do amor liso, sem arestas
polido entre as frestas
desta vida-pedra, enfim - que delonga...

02/03/06

domingo, 9 de julho de 2006

Adega

As mesas da adega estavam quase vazias, apesar da sexta-feira. As poucas pessoas sequer olhavam para os lados. O ambiente era perfeito para quem escolheu devaneios para a noite fresca. Eu mesma não os havia escolhido, mas eles me encontraram sem esforço, como presa fácil.
Notei seus olhos cravados nos meus. Era a primeira vez que os olhava de tão perto. Vi que percorriam, brilhantes, cada pedaço à mostra do meu corpo e que brilhavam um pouco mais na medida em que tentavam intuir o que estava encoberto.
O arrepio fez tremer. O desejo me permitiu. O vinho encorajou. E uma ousadia mútua fez daquele momento o prefácio da nossa história.
Ju

MEDO DE AMAR

Contido
Num artifício
De civilidade
(embora pio),
Arremedo;

Assim farto
(e vazio),
Menino
Remanesço
Tardio.

sexta-feira, 7 de julho de 2006

COMO AS OUTRAS

Que manhã sonhada!
Noutro lugar, soboutra ótica
Multifocal, colorida - mas desbotada
De tanta preguiça

E que frouxa, prazerosa - linda ainda
(de tanta preguiça)
Chafurdada lama original, medicinal
Doutra lógica!...

[mas aqui
eu ainda]

...

(a lombeira entre parênteses
que a circunstância, solene
solicita
escorre intermitente
das pálpebras caídas
entre sonos e vigílias)

[e porque afinal renasço todo dia
da réstia bruma de madrugada fria
- do contraste que se dissolve aurora
fatuamente tecida -,

imagino diuturna alternativa
à vida, sempre agora
embora elusiva!...]

Apresentando o alterego

alter ego/ [lat.] loc. subst. 1. um segundo eu; substituto perfeito. 2. grande amigo, pessoa em quem se pode confiar tanto quanto em si mesmo. 3. outro aspecto do próprio ego.

Este é o lugar de Mauro Belmiro, alterego virtual com pretensões literárias. Reflexo de mim, nele há o escuro e também o seu claro contrário, assim como o resto do que virtualmente posso. Vamos ver o que acontece.