sábado, 8 de março de 2008

TORPEDO XVIII

... embotado, sou /
ar compacto /
recortado, ou /
do redor, ato /
mitigado, vou /
abalroado...

03/03/08, às 15:44:01

TORPEDOS DO AMOR ESCANCARADO

... cadê meu pretexto /
pra te ver, um contexto /
que nos dê, a contento /
o que seja, sem alarde /
antes cedo que tarde?...

27/02/08, às 11:35:35

***

... meu amor /
a consciência do amor /
é dor /
e cor: /
consciência da flor...

03/03/08, às 17:37:33

***

... no décimo-quinto dia /
pensei no que eu traria /
ao amor que ilumina /
teus passos de escolhida...

05/03/08, às 17:54:38

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

TORPEDOS XVII

... sangue /
murmurante /
espada /
flamejante: /
a memória /
tesa, flácida /
da refrega /
doce, áspera /
da espera /
encontrada...

25/02/08, às 13:59:06

***

... a consciência /
do que aspiro /
não é a mesma /
da que expiro: /
a diferença /
está contigo...

25/02/08, às 18:15:36

***

... teus olhos /
inda nebulosos /
e orvalhados /
(recém-acordados) /
residem rotineiros /
(da retina vizinhos) /
no meu dia ao meio...

26/02/08, às 11:30:49

***

... nas Casas Bahia /
junto à freguesia /
da sala, da cozinha /
da lavanderia /
morro em pé, nesta fila /
só por tua companhia...

26/02/08, às 15:35:15

domingo, 24 de fevereiro de 2008

TORPEDO XVII

... teu perfume /
(meu costume) /
alimenta /
a presente consciência /
dessa calma abstinência: /
a certeza /
enfim de resolvê-la...

22/02/08, às 10:33:37

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

TORPEDO ZEN

... hoje medi /
e meditei /
(e se vi /
aí não sei /
mas revivi) /
sentindo que /
por ser daqui /
a bem querer /
reconheci...

20/02/08, às 14:16:44

domingo, 17 de fevereiro de 2008

TOMADA DE POSIÇÃO

Sem televisão: contato mínimo com a conjuntura
Sem pressa - na superfície passadiça que perdura
As mãos nos ossos da estrutura

Yôga, descompressão, literatura
Conversação com quem me atura
Delicadeza, antevisão, compostura

Paciência:

- Desta vez, eu no comando
das exigências do que amo.

LONGÍNQUA

Longínqua, és linda
Hipermetropia; nuvem
Cujo cinza esfria, algodão
(quando à mão convém)
Que baixo principia solidão;

Longínqua, dali turvas
Mil atenções das curvas
Untadas de neblina; os sãos
(os que desviam de antemão)
São teus fantasmas nesta via;

Longínqua, de lá secas
Minha língua paladina
Para coisas que se ditas
(inações correspondidas)
Pelas coxas trairias;

Longínqua, és olímpica
A quarteirões de vista:
- Se dura água-marinha
da razão mais cristalina
por que tanto quererias
tão errada companhia?

- E longínqua dos meus dedos
(da beleza dos momentos)
maldirias a rotina
da delícia dos folguedos
requebrando os brinquedos
redeixados ao relento?...

- E mais longe, indiferente
à coisa vária que altera
de remédios a comédias
que questões esquecerias
(quais senões recordarias)
da gravidade que encerras?

Longínqua, seda fina
Se quiseres, mais ainda
Ser pandorga pela vida
(tua turística ambrosia)
Solte a linha, solte a linha!...

(daqui, maravilhado
do teu poder multiplicá-lo
Dédalo enraizado
torcerei por um bom clima)

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

GRAVIDADE ZERO

Enquanto, recoleto
Repasso, circunspecto
Os mínimos parvos gestos
Do trivial funcional no deserto

A menos de um centímetro
Do imenso inteligível
De um ângulo apreensível
Do âmbito hipodérmico insensível
Que anestésico sinto

Desmorono, suavezinho
Retroativo - retrospectivo

Sem empuxos, repuxos, muxoxos
Parco, solto - graniticamente disposto
Numa linha do destino, opaco
Vezes asno resoluto

Até o vácuo absoluto
Dos órgãos pulverizados
Dos acórdãos etéreos

De gravidade zero:

- Onde a casca-pólen que removo
de novo, menos leve que fútil
não é exatamente breve
(posto que útil)
para os fins a que serve.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Poema da hora

a arte de perder, na célebre apreensão de Elizabeth Bishop

"Uma arte

A arte de perder não é nenhum mistério;
tantas coisas contêm em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subseqüente
da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio da mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

- Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escrevo!) muito sério."

Elizabeth Bishop, O iceberg imaginário e outros poemas. Tradução de Paulo Henriques Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, p. 309.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

TRANQÜILO DESESPERO

Um silêncio
Inocêncio
Invertido.

O que tenho
Vertido
De um lago
Desconhecido
Por um lado
Invisível

Deseja

Irreprimível

Que nada aconteça

(além da presença
do indizível).

***

Demônios
(acredito)
Não assomam
Distraídos;

Demônios
Infernizam
Num suposto benefício
Da eternidade que aguarda
(os seus filhos)

Para depois do precipício.

***

Alguém
Sussurra

(comovido)

Uma surra
Do espírito.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

HIC ET NUNC

Achei que ia.

Achava que indo
Vinha - uma saída.

Vez saído
Resolveria?

Pois fico. E peço
Ajuda ao cafezinho:

- Inda vívido
o vivido.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

EXPOSTO II

O templo, imenso
Não tenho
Como guardá-lo, todo
A contento.

São uma, mil portas
Várias, as formas
Das frestas, fissuras
Janelas, aberturas

Por onde vem, soturno
O adubo
Da treva
Que opera:

- O cão negro de Churchill
(e branco, meu poodle).

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

QUE VENHA DALGUM LUGAR

Não sei bem quando
Um lado rés do clima
Acordou meu espanto
Para o chumbo branco
Que cinzela Brasília
(sua falta de esquinas)
Tarde da noite, e de dia;

Como se os vários deuses
Que aguamos no altiplano
Se limitassem, dali mesmo
Ao estio da liquidação - a esmo

Dos meses retrospectivos
Fadados ciclotímicos
Multipolares aqui;

E inertes, nada fizessem
Olimpicamente - solertes?
No bom auxílio a quem

(tão escrava, todavia
do mas contudo, senão
havia entretanto e porém)

Deles mais precisasse:

- Como se eu bastasse!...

domingo, 27 de janeiro de 2008

TORPEDO TERMINAL

... um rio morno /
escorreito, vazio /
vai na direção anterior /
do sentido, indo /
absorto, absorvido /
absolvido de todo...

19/01/08, às 22:06:04

sábado, 26 de janeiro de 2008

INTEIRO

A vida
qu'eu quis
é armadilha
vis-à-vis:

- Nela, caí
anil e viril
partido
a mil...

TORPEDOS RETARDADOS II

... o amor que lhe tenho /
sábio do vário tempo /
sabe-te sentimento /
por saber de si mesmo...

05/01/08, às 10:23:12

***

... que um dia, primavera /
meu cuidado, sem pressa /
seja atalho, promessa /
do trabalho do amor /
em ti, minha dor /
mais bela...

06/01/08, às 12:24:06

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

WISHFUL THINKING

Não brigo
mais comigo
(se demasiado
o atrito);

Opero
moderado
(é provável)
e contrito
(mais difícil)
pendulando
(vezes balançando)
do desejo
ao juízo;

Ambos senhores
indivisos
prescientes
inimigos
indo corredores
(à esquerda, à direita)
constitutivos
(à espreita)
do meu destino
antes do jazigo;

Por um caminho
a meio-termo
(de etéreos
paraísos
a honestos
precipícios)
embora estreito:

- Um desvio por dentro.

TORPEDOS RETARDADOS

Nove meses atrás /
comecei a pensar-te /
tão suave /
com tal arte /
que pensar-te depois /
mais, a dois /
não separei mais...

08/12/07, às 20:12:30

***

... a manhã é cinza-clara /
no compasso da jornada /
entre o que significa /
e de nada desconfia...

25/12/07, às 12:22:51

***

... o meu querer /
não descrevo /
de tão prever /
tal ensejo: /
o prazer /
de retê-lo /
ao te ver /
meu desejo...

28/12/07, às 14:57:01

***

... limpar os trilhos /
do que se ama /
pra bem andar /
a andança /
te põe maquinista /
alquimista /
a viga-mestra /
de tua vida...

31/12/07, às 09:29:50

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

À FELICIDADE FUGIDIA

Dela, que venha mais forte
A consciência da precariedade
De sua boa sorte - a fugacidade
(pra qu'eu não me demore)

De sua exaltação bem conforme
Uma fresta de luz que palco ilumine
Teu juízo perfeito - o teu ciclo inteiro
Que afaga, e destrata, e apaga - e, rarefeito
(o sentido sentimento), mordisca

Minha décima-sétima vida
Verde anoitecida cinza - opala invertida
Escaldada à beira-vista - escalada

Deste alto coqueiro em que nos encontramos
Solitários - solidários - por enquanto...

[meu amor - a cor
das ruínas
dos teus passeios
renascentistas

não é a minha
não é a minha

(mas é minha
esta pousada amiga
mandala acrílica - o prisma
que - pausadamente - arruínas)]

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Um ensinamento Yaqui

Don Juan segundo Castañeda

"Cada caminho é apenas um entre um milhão de caminhos. Você deve ter sempre em mente que um caminho é apenas um caminho; se achar que não deve segui-lo, não deve permanecer nele em nenhuma circunstância. Se achar que deve segui-lo, agora, deve fazê-lo. Qualquer caminho é apenas um caminho, e não há nenhuma afronta a você mesmo ou a qualquer um se largá-lo porque sua mente lhe diz para fazê-lo. Mas a sua decisão de ficar num caminho ou de deixá-lo deve ser livre de medo e ambição. Eu lhe advirto: observe de perto e deliberadamente cada caminho. Experimente-o quantas vezes julgar necessário. Então faça a você mesmo, e só a você, uma única pergunta: 'Este caminho tem um significado?' Todos os caminhos são os mesmos, conduzem ao nada. São caminhos que vão através do mato. A única questão é se o caminho tem um significado. Se o tiver, é um bom caminho; se não, não tem utilidade. Ambos os caminhos levam ao nada, mas um tem significado e o outro não. Um leva a uma caminhada alegre; enquanto estiver nele, estará bem. O outro fará com que amaldiçoe sua vida. Um o faz ficar forte, o outro o enfraquece."

Carlos Castañeda, Teachings according to Don Juan. Berkeley: University of California Press, 1968 (publicado em português com o título A erva do diabo). Citado por Leo Buscaglia no seu livro Amor. Tradução de André Feijó Barroso. Rio de Janeiro: Record: Nova Era, 1997 (19ª ed.), pp. 41-42 e 143-145.