sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

FAMÍLIA MINEIRA

toda cozinheira

As perguntas
- não fazemos;

as respostas
- não podemos;

resoluções
- comendemos

(os problemas
são os mesmos)...

As virtudes
- talvez menos;

os queixumes
- de somenos;

os mamutes
- pleistocenos;

os quitutes

- que venenos!...

...

A cidade
- o que vemos;

quantidades
- o que temos;

qualidades
- cultivemos

(as promessas
deveremos)...

Inquietudes
- mais ou menos;

longitudes
- dos acenos;

plenitudes
- os quitutes;

os quitutes

- com torresmo!

09/01/16

DÉCIMO ANDAR

Minha gente mora
bem alto, astronauta

num canto de rua
pingente da lua;

por isso demora
a ver certas coisas

pois a mesma cousa
se daquela altura.

09/01/16

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

DA CIDADE ENTRE AS SERRAS

nota de Juiz de Fora

(por serem acostumados)
pássaros engaiolados
(por seres civilizados)

é tradição no pedaço.

[gaiolas de concreto e aço
menores a cada passo

completam o vítreo quadro]

08/01/16

A CIDADE E AS SERRAS

por que será que penso
em Eça ali por dentro?...

A cidade entre as serras
motiva as motosserras?

Convida as motosserras
a urbanizar suas terras?

A cultivar suas terras
multiplicando a pedra

concretada e diversa?

[multiplicando a guerra
concreta contra as serras?]

...

{da cidade e das serras
hoje sobre charnecas

que pensaria o Eça?...}

08/01/16

SEXTILHA JUIZ-FORANA

O vento muda
rumos de chuva

pelas medidas
do Paraibuna.

[farol acima
seu sol confirma]

08/01/16

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

DAS IRMÃS & AMIGAS

... aquelas senhoras
imóveis auroras

no peso das horas
vão crepusculares

cuidando seus ares
demoras, melhoras

(seus lares, colares
penhoras, azares)

caminhando aos pares...

08/01/16

MINHA SEDA

Minha mãe vive num casulo
com sua tela para o seu mundo

numa novela sem fim nem fundo.

Nela, minha mãe tece a seda
dos vínculos em que se enreda

- os mais íntimos nos quais se encerra.

Como ela, outras vivem dos frutos
seus espalhados pelo mundo

- mamães incondicionais da Terra;

mas a minha, na sua novela
personagem de uma teletela

vive miragens, sobretudo

das borboletas do seu casulo.

07/01/16

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

QUADRA JUIZ-FORANA XX

Se vistas por estrangeiro

as galerias do Centro

pareceriam, adentro

o fundo de um mundo inteiro.

07/01/16

QUADRA JUIZ-FORANA XIX

... em jota-efe
a nuvem desce

e cresce as sebes
quem sabe leves?...

07/01/16

QUADRA JUIZ-FORANA XVIII

As três irmãs cajazeiras
(trinca terçã presepeira)

me cercam de gentilezas
do tempo das mamadeiras...

07/01/16

DA (NOSSA) HISTÓRIA JUIZ-FORANA

Entre elas

(donzelas)

janelas

novelas

panelas

querelas

tabelas

tutelas

há eras.

06/01/16

RODOVIÁRIA INTERESTADUAL

Encruzilhada
multiplicada

a cada braça
de cada peça

envidraçada
no vão da seta

que me prometa

chegar em casa

(seguir jornada)

05/01/16

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

QUADRA JUIZ-FORANA XVII

antes de vir

Juiz de Fora
sempre acorda
uma forma
de ir-se embora.

FOI ONTEM

... a chuva de hoje à tarde
me prendeu com alarde

debaixo da marquise
de sua esquisitice:

- corrente grossa d'água
(de água feita torrente)

corrente do pé d'água!...

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

REVISITA 113: 18:11 (DEZOITO E ONZE)

42º poema de À procura de Nefertari

Chegou enfim o momento
no qual o teu todo silêncio
tudo de mim tomou conta.

A mente, o peito, de resto

o exposto tão nervo
a tensão que o castiga
a tua falta de notícia.

Essa franzina agonia
que tudo de mim mobiliza

engana, longe ainda
suspensa clareira de vida:

- algo segura, sob a asa
invisível da guarda

do anjo que escorracei
em auxílio ao teu

(que ao fim protegerei)

30/09/2005

domingo, 3 de janeiro de 2016

EM JANEIRO

Brasília, nativa

passiva, vazia

nublada, verdinha

(escorregadia)

cultiva/

jardina/

cintila/

[à parte as quadrilhas
distantes, vizinhas

destas maravilhas]

- frisos e pastilhas

- aves em matilhas

- vias, aros, trilhas

- meu sentido de ilha.

QUINTILHA VELOZ

das férias

Na terceira madrugada

de cerveja na sacada

não há nada, nem a cada

que não veja ultrapassada

a primeira, pela quarta...

sábado, 2 de janeiro de 2016

DA MINHA PAISAGEM II

Teclados abaixo
(de um café ao lado)

ligo a tela à frente

do mundo presente
(mas só de repente);

janelas à frente
(do seu fundo ausente)

vazam noticiários
gritam comentários

pra consumo otário:

- fatos relativos
relativizados

segundo o partido
repartido dado;

teclados abaixo

caem pensamentos
(junto a sentimentos)

em nervosos dedos:

- quadras e quintilhas
sextilhas, sonetos

e outras rabadilhas
desta pescaria

nesta ilhada lida

dos poemeus que apenso...

Epistemológica Cecília

poema a respeito, de Cecília Meireles

"SONETO ANTIGO

Responder a perguntas não respondo.
Perguntas impossíveis não pergunto.
Só do que sei de mim aos outros conto:
de mim, atravessada pelo mundo.

Toda a minha experiência, o meu estudo,
sou eu mesma que, em solidão paciente,
recolho do que em mim observo e escuto
muda lição, que ninguém mais entende.

O que sou vale mais do que o meu canto.
Apenas em linguagem vou dizendo
caminhos invisíveis por onde ando.

Tudo é secreto e de remoto exemplo.
Todos ouvimos, longe, o apelo do Anjo.
E todos somos pura flor de vento."

Cecília Meireles, Poesia completa, vol. II. Organização de Antonio Carlos Secchin. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, pp. 1645-1646.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

PRIMEIRO DE JANEIRO II

O primeiro dia do ano
- o dia mais morto do ano

comemorado, no entanto
como o renovo do humano

é o contrário do arbitrado:

- antiquário solitário
de um recente, abandonado.

...

No momento
nem o vento

movimenta.

Seminua
nem a rua

sonolenta.

Nem a poeira
costumeira

se acrescenta.

Um silêncio
pré-tormenta

atormenta:

- onde há vida

se apresenta?

...

O primeiro de janeiro
- se dia de um dia a menos

[se trinta e um de dezembro

de um ano que não se lembre
do ano seguinte no ventre]

poderia, derradeiro

fechar o caixão do tempo.