segunda-feira, 11 de abril de 2016

REVISITA 130: ETÍLICA V

A tarde cai
pesada opala agastada
à minha frente.

Será que é
hora de zarpar?

Não ainda, replica a loura gelada
sussurrando os meus lábios:

- há gente chegando
ilusões se renovando...

10/03/1999

domingo, 10 de abril de 2016

REVISITA 129: ETÍLICA IV

Estou tomado da impaciência
de um contrato que não assino;
de uma uretrite
que resolvi curar a cervejas...

Por que tanta irritação, meu deus
demônio a quem nenhum casaco serve?

Além de pressentir os botões arrebentando
projetando-me puto entre as mesas

o que sei?...

10/03/1999

sábado, 9 de abril de 2016

REVISITA 128: ETÍLICA III

Desta vez
não haverá outros colchões
de carne macia.

Cuidarei das asperezas da perda
como quem corre nu
por uma mata de espinhos.

Nada de anestésicos
entretimentos
consolos de qualquer tipo:

- tratarei da tua perda
como quem sai do velório
de um ente querido.

10/03/1999

sexta-feira, 8 de abril de 2016

REVISITA 127: ETÍLICA II

Bem que podíamos
ser o que quiséssemos;
tratar francamente
das coisas do nosso encanto;
seríamos felizes, estou certo
num castelo solidamente erigido
em meio ao caos.

Mas intercomunicantes
vasos indispomos
invólucros que somos.

Seguir assim, esqueçamos!
Se desconhecemos
que almas temos:

- se asas recolhemos
e patas escolhemos!...

10/03/1999, 27/12/2001

quinta-feira, 7 de abril de 2016

REVISITA 126: ETÍLICA


Num canto de agenda
recomeça o suplício
do ter o que dizer
e não saber como fazer.

Travada, a palavra pede
o óleo de uma cerveja de beirute;
solta e imatura, a dita cuja, enfim
agride a literatura.

Melhor calar, e contemplar
o silêncio das mesas vazias
do meu bar eventual;
de esperanças flertando frustrações
à espera de nada.

10/03/1999

QUADRA BACTERIANA

pós-virótica

O corpo tosse
(a alma sofre)

[como meu fosse
comeu enxofre]

segunda-feira, 4 de abril de 2016

INTERESTADUAL

Pau de arara

- a quebrada
(esta estrada)

quando acaba?

Bem rodada
nau que vaga
pela plaga

- quando para?

Mal que sara

vê-lo seco
(tal qual sê-lo)

- que repara
pela graça?

- quanto paga
de desgraça?

Pau de arara

- onde acabo

quanto acaba
da jornada?...

28/03/16

REVISITA 125: BUENA VISTA SOCIAL CLUB

É a música daquela ilha
tão além de qualquer tempo que espaçar aspiraria
quanto bela fantasia; nos meus termos, que desconheço
é a dona estranha amiga dos salões escuros que abrigo.
Vem de um lugar distante - se próximo, questão não faria
de evitar a morte rubra das tardes de vento fresco:

- porque as imagens da ilha dançam aquela música
em pistas inacessíveis da imaginação;
faces quase reconhecíveis, perfumes fundamente gravados
no que há de então remoto em mim.

(ali, a vontade de ir, colada num calor prenhe de desejos
quer ter nunca de voltar ao barro das certezas que não certificam)

Sonho com a ilha daquela música
febril e molemente; respirando gardênias
entre corpos que pressinto; sorvendo a água morna
das poças de uma chuva para além daqui.
Mas aqui, paralisado de ir ou menear, de virar
e dormir, estaco - entre paredes que impossibilitam.

A tortura de viver tão longe de Buena Vista
aquém dos sentidos de um destino cultivado
em sons e passos, não mata de todo.
Mesmo atado, quase assim morto
sei ainda do paraíso que ouço:

- a música do passado, que a mim tem protegido
do ferir impiedoso do mundo
pergunta-me afinal - onde haveria
de cair a tarde última, rubra, de vento fresco?...

06/03/1999

sexta-feira, 1 de abril de 2016

QUADRA ANTIGOLPISTA

Brasília, 31 de março de 2016

Quando a diversidade
da vida em sociedade

tem a oportunidade
senão de explicitá-la

- a coisa misturada
nas veias da cidade
então comunitária -

à tarde (talvez tarde)

a noite ensolarada
avance a madrugada!...

quinta-feira, 31 de março de 2016

REVISITA 124: GATO PRETO

a Paw

Espelho de mim, ensina-me a caminhar maneiro, perfeito
Pelos becos e ruelas do meu bairro turvo, leito de sombras
Por entre pedras redondas, onde sem quedas ou percalços
Desapercebido iria, o passo mudo entre vultos familiares...

Na vizinhança calma dos sentidos, felino, o olhar vítreo
Brincaria de ser meu teu par amarelo de contas de brilho
Rasgos luzidios no negro hiato dum silêncio emparedado
Coalhada a mente de andares virgens e lugares esboçados...

O que de ti percorrido sou, reflexo alquebrado de fundo falso
Lago fugidio de telhados escuros que ligeiros passeiam, altos
Solicita o arranjo noturno do que não vejo sob as horas claras;

Dos impulsos que retenho impassível face à madrugada opaca
No vento quieto, agasalho frio de esperanças a fio natimortas
Nutro o desejo morno do teu equilíbrio suspenso em estrelas...

17/04/1997

Nota sobre o Projeto Revisitas

Este Projeto chega finalmente à sua última fase - pouco mais de três dezenas de poemas, escritos entre 1997 e 2006, reunidos numa pasta intitulada "poemas soltos".

Os critérios para a sua seleção e postagem, já mencionados neste blog, continuam os mesmos.

M. B.

quarta-feira, 30 de março de 2016

NOTA PREGRESSA

desde Belmiro?

Não há poesia
que conseguisse

naquela vida
que lhes servisse

nem nesta. Vidas
que conduzissem

sem as vertigens
de algaravias

icterícias
de companhias

de portarias
capitanias

[de aleivosias
que nos maldigam

desde a província]

27/03/16

MANHÃ JUIZ-FORANA

O sol do Paraibuna

sai. Caem, uma a uma

as luas de suas ruas

despetalando nuas

(anzóis no Paraibuna)

27/03/16

terça-feira, 29 de março de 2016

ANIVERSÁRIO JUIZ-FORANO

singular e inesquecível

A festa das irmãs

(seresta da mamã)

gerou algum afã

de alguma lida grã

no círculo do clã;

a festa das irmãs

(à testa outras irmãs)

entre alegrias fãs

cevou condutas chãs

no círculo do clã;

a festa das irmãs

levou disputas vãs

(arestas pra amanhã)

pro colo dos divãs

no círculo do clã;

a festa das irmãs

intumesceu titãs

e envaideceu terçã

aquelas sabichãs

do círculo do clã...

...

[na festa das irmãs

a besta sem elã

que fui pela manhã

(os dentes nas maçãs)

trataram de tantã;

mas graças a Tupã

num desses amanhãs

recordarei louçã

(na boca uma hortelã)

da festa das irmãs]

quarta-feira, 23 de março de 2016

INFECCIOSA

à senhora da última semana

A dengue
consegue:

- canhengue
me segue

derrengue
que pegue

de um jegue
que rengue

xerengue
me entregue

perrengue
que chegue

e dengue
prossegue...

terça-feira, 15 de março de 2016

segunda-feira, 14 de março de 2016

QUADRA GOLPISTA VI

a propósito da recepção a Aécio Neves, Geraldo Alckmin
e Marta Suplicy na passeata de ontem em São Paulo

Vosso ovo da serpente

chocado diligente

irrompe (de repente!)

chocalhos insolentes...

domingo, 13 de março de 2016

QUADRA GOLPISTA V

embora soneteie a décima treva em marcha

Há o ar irrespirável

e a água corrompida;

o fogo incontrolável

e a terra consumida.

...

[desse quadro notável
um outro, adaptável

(cronicamente instável
perfeitamente em dia

com o antro inabitável
vipéreo das porfias)

emerge, abominável
auspício da neblina

(propício à surdina
cinérea das rapinas)]

quinta-feira, 10 de março de 2016

QUADRA GOLPISTA IV

embora relativa ao quarto dia deste março

Ao que ladra
pela vara

a sua tara
descarada

(e dispara
a culatra):

- por que ladras
entre ladrões?

- aceitação?
- bajulações?

(contracapas
de alguns patrões?)

- suposições?
- convicções?

- outras searas?...

- outros balões?...

...

[ao que ladra
por atenção:

- não se enquadra
percepções!...]

quarta-feira, 9 de março de 2016

PASTORIL

Não gosto dos sonhos que tenho
(aqueles que acordam no cenho).

Desgosto dos sonhos que tenho.

Noite à tarde, tarde cedo
cedo o dia ou dia ao meio

são melancólicos. Remotos.
Zigotos. Brotos. Ignotos.

São verdes e rotos. Neles nada empenho
porque nada desempenho.

Imoto piloto
da vida em que venho

pergunto que engenho
simbólico (católico, diabólico)

desenho ou desdenho

quando sonho e pesadelo
cada vez são mais o mesmo:

- em vez de sonhos bucólicos
por que não sonos bucólicos?...

(não gosto dos sonos que tenho)