ao querido Pierre
As pequenas coisas
irresolvidas
(pregos sem estopa
mesquinharias)
rolam da mesa, saem da vista
todos os dias;
mas se caem esquecidas
entre as sobras da vigília
(hibernais de eras priscas)
pelas sombras, ganham vida;
e retornam, descabidas
entre horas distraídas
(canibais deveras iscas)
devorando caramanchões:
- aqueles construídos nas tendas da rotina
nada gratuita; serões
que animavam salões
minimizando senões - até tal revisita
sísmica, fortuita?
Dos bichinhos-papões!...
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
terça-feira, 15 de novembro de 2011
NUMA (RESOLUTA) TARDE AQUI DENTRO
Já que o vento externa sua discordância
quanto à minha singela, cotidiana
interna andança pelo jardim,
avento que sim - o frio cinzela
o dia de hoje como caverna:
- quando cabe agasalhar-se - e a ela
primeira idéia a abandonar-se
- a inércia.
quanto à minha singela, cotidiana
interna andança pelo jardim,
avento que sim - o frio cinzela
o dia de hoje como caverna:
- quando cabe agasalhar-se - e a ela
primeira idéia a abandonar-se
- a inércia.
AMANHÃ DE NOVEMBRO II
Melancólico, o tempo
quando empoça-se chovendo;
empoça-o, esse banho
poeirento de antanho:
- pois memória, rediviva
entre paredes do crânio
(esse vácuo, que aninha
só relíquias, por enquanto...).
quando empoça-se chovendo;
empoça-o, esse banho
poeirento de antanho:
- pois memória, rediviva
entre paredes do crânio
(esse vácuo, que aninha
só relíquias, por enquanto...).
domingo, 13 de novembro de 2011
ANONIMATO-ME
Quem me lê?
Quem me vê?
Quem me antevê
e prevê?
Que me quer ver
na tevê?
E me bem ter
para ser...
(co-erguer
deste obscuro buraco
eu e você)
Quem me vê?
Quem me antevê
e prevê?
Que me quer ver
na tevê?
E me bem ter
para ser...
(co-erguer
deste obscuro buraco
eu e você)
VITAE
Que currículo?
Vivaz
ou vivo?
Atrás
ou isto?
Capaz
ou misto?
Detrás
ou visto?
Antraz
ou minto?...
Qual registro?
Vivaz
ou vivo?
Atrás
ou isto?
Capaz
ou misto?
Detrás
ou visto?
Antraz
ou minto?...
Qual registro?
THROUGH THE NIGHT
A medida da madrugada
(creio, confiante
de sua firme espessura opaca)
é seu avanço pela alma desarmada - esperança
de que pouco será mais que nada - o bastante
para atravessá-la
- a palavra.
(creio, confiante
de sua firme espessura opaca)
é seu avanço pela alma desarmada - esperança
de que pouco será mais que nada - o bastante
para atravessá-la
- a palavra.
sábado, 12 de novembro de 2011
AMANHÃ DE NOVEMBRO
Que suave luz é esta
tão claramente bela
que se traduz em brisa
(ôndula partícula)
e tudo textualiza
(obreira indistinta)
de funda alegria?...
tão claramente bela
que se traduz em brisa
(ôndula partícula)
e tudo textualiza
(obreira indistinta)
de funda alegria?...
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
B-52
Chegou a hora de deixar
as bombas todas no hangar.
Voar leve
(sem brevê que o carregue)
segundo carta doutro plano
anteposto - deste ano anticorpo
(vez que o mapa de antanho
esqueceu-se, descuidado
coisas tolas em contrário).
Chegou a hora de largar
a tralha toda num lugar.
Voar breve
(sem querer-se muito alegre)
porque amanhã, quando, quem sabe?
(se ascendente branco ultraleve)
as bombas todas no hangar.
Voar leve
(sem brevê que o carregue)
segundo carta doutro plano
anteposto - deste ano anticorpo
(vez que o mapa de antanho
esqueceu-se, descuidado
coisas tolas em contrário).
Chegou a hora de largar
a tralha toda num lugar.
Voar breve
(sem querer-se muito alegre)
porque amanhã, quando, quem sabe?
(se ascendente branco ultraleve)
domingo, 6 de novembro de 2011
ASSIM
Cansei de esperar por estas pernas
desejarem caminhar enfim despertas
ao encontro do mar sóbrio de horizontes.
São todos interiores - os muros, as escarpas, os aclives
que somados a deslizes
fincaram-me aqui arborescente
e lentamente - numa indolência virtuosa que desmente
uma antiga urgência dos porões incandescentes
desta casa outrora incendiada - mas agora
parecendo sólida e segura - a porta
amadurecendo a fechadura...
desejarem caminhar enfim despertas
ao encontro do mar sóbrio de horizontes.
São todos interiores - os muros, as escarpas, os aclives
que somados a deslizes
fincaram-me aqui arborescente
e lentamente - numa indolência virtuosa que desmente
uma antiga urgência dos porões incandescentes
desta casa outrora incendiada - mas agora
parecendo sólida e segura - a porta
amadurecendo a fechadura...
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
DISCREPANDO
Finados, como esperado
taciturno e bacento - pro gasto
colide comigo avesso
doutro pródigo feriado.
O café eufórico - que faço
sorvido é de pronto - amargo
a ponto de servir aos biombos
com que divido os humores
- as decorações interiores.
taciturno e bacento - pro gasto
colide comigo avesso
doutro pródigo feriado.
O café eufórico - que faço
sorvido é de pronto - amargo
a ponto de servir aos biombos
com que divido os humores
- as decorações interiores.
sábado, 29 de outubro de 2011
DOMÉSTICA QUESTÃO
A primeira tempestade no novo mundo:
- raios, trovões - tudo!
E clarões por sobre os portões.
E cavalos trotando do lado do muro
molhando esporões.
Mas por que razão
a água, no chão
(corrida do céu iracundo)
empoça minha atenção?
- raios, trovões - tudo!
E clarões por sobre os portões.
E cavalos trotando do lado do muro
molhando esporões.
Mas por que razão
a água, no chão
(corrida do céu iracundo)
empoça minha atenção?
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
BONITA
Teus olhos, lindos
se verdes ou azuis - são lindos
ornamentam misteriosos
(de tão límpidos)
os claros complementos expressivos
dos teus vários sorrisos.
E, ao urdirem sucessivos
- ao combinarem - os ciclos
de tais cores e brilhos -
trazem o mar longínquo
(se verde ou azul - não firmo)
a este árido interior que sinto:
- a tua perspectiva, umedecida
da mais humana simpatia
irriga de imaginações
- de emoções antevistas -
a minha secura, retrospectiva
à mercê de monções - da vida
que tal clima
oscila...
01/10/2011
se verdes ou azuis - são lindos
ornamentam misteriosos
(de tão límpidos)
os claros complementos expressivos
dos teus vários sorrisos.
E, ao urdirem sucessivos
- ao combinarem - os ciclos
de tais cores e brilhos -
trazem o mar longínquo
(se verde ou azul - não firmo)
a este árido interior que sinto:
- a tua perspectiva, umedecida
da mais humana simpatia
irriga de imaginações
- de emoções antevistas -
a minha secura, retrospectiva
à mercê de monções - da vida
que tal clima
oscila...
01/10/2011
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
O CASAL
último poema na antepenúltima morada
No topo de uma torre - dessas de celular
que a tecnologia espeta - uns horrores - na paisagem
de toda urbana vizinhança
entardece um par de gaviões carcarás - de passagem
vestidos - magníficos - daquela luz oblíqua
que a todos esperança.
Parecem pacientes - ou serei eu, pormenorizante
observando-os horizontes de um sonho? As asas abrigam altivas
um silêncio alpino - sem o vítreo ruído do frio
porque trópico o sinto. Pressinto-os casal distinto
em sua lógica curva de reta elegância - a despeito da rotina
de pombos e ratos que nossa desordem multiplica
[diga-se, rapina distinta
da sanha imobiliária que nos vitima:
a cidade, a sociedade - diga-se, vizinhas
de suspeita fidalguia].
Ao fim neles, vislumbro - comovido - a economia
dos vôos medidos - sem o desperdício
típico de toda mesquinharia
porque fundo o ressinto. Mal poder isto ou aquilo
por esclerose progressiva - dos projetos de vida
os olhares dissocia - de vontades
em função das atrofias que o tempo assina
(a contragosto, contando as gotas - de tinta)
e ensina.
30/07/2011
No topo de uma torre - dessas de celular
que a tecnologia espeta - uns horrores - na paisagem
de toda urbana vizinhança
entardece um par de gaviões carcarás - de passagem
vestidos - magníficos - daquela luz oblíqua
que a todos esperança.
Parecem pacientes - ou serei eu, pormenorizante
observando-os horizontes de um sonho? As asas abrigam altivas
um silêncio alpino - sem o vítreo ruído do frio
porque trópico o sinto. Pressinto-os casal distinto
em sua lógica curva de reta elegância - a despeito da rotina
de pombos e ratos que nossa desordem multiplica
[diga-se, rapina distinta
da sanha imobiliária que nos vitima:
a cidade, a sociedade - diga-se, vizinhas
de suspeita fidalguia].
Ao fim neles, vislumbro - comovido - a economia
dos vôos medidos - sem o desperdício
típico de toda mesquinharia
porque fundo o ressinto. Mal poder isto ou aquilo
por esclerose progressiva - dos projetos de vida
os olhares dissocia - de vontades
em função das atrofias que o tempo assina
(a contragosto, contando as gotas - de tinta)
e ensina.
30/07/2011
quinta-feira, 30 de junho de 2011
À ESPERA
Há momentos
em que devemos
contabilizar - o ritmo lento
dos batimentos.
Aguardar. Fiscalizar o tempo.
Encher balões
de especulações - entendendo
a contingência do ar
nessas condições
e o imperativo - relativo
de se despreocupar
os botões.
Sob o céu limpo, ao estar fino
reflito - sob a rendição de esperar.
[pausa]
Neste chão da estrada
de beiras descansadas de poeira perfumada
ao alcance das narinas renovadas
faço-me confortável
(neste posto de gasolina
que a imaginação propicia)
sem espreguiçar:
- importa atentar à premissa
que o virar a esquina
possibilita em seguida.
em que devemos
contabilizar - o ritmo lento
dos batimentos.
Aguardar. Fiscalizar o tempo.
Encher balões
de especulações - entendendo
a contingência do ar
nessas condições
e o imperativo - relativo
de se despreocupar
os botões.
Sob o céu limpo, ao estar fino
reflito - sob a rendição de esperar.
[pausa]
Neste chão da estrada
de beiras descansadas de poeira perfumada
ao alcance das narinas renovadas
faço-me confortável
(neste posto de gasolina
que a imaginação propicia)
sem espreguiçar:
- importa atentar à premissa
que o virar a esquina
possibilita em seguida.
quarta-feira, 29 de junho de 2011
O CASTELO
Lá estão - as paredes amigas
frias de solidão. E telhas, por cima
de tudo que o espaço abriga.
Encaixadas, parelhas - as andorinhas
verão a hora ansiosa da chegada:
- esta, não se perderá por nada
tão aguardada, uma vida adiada
da jornada que em vão adiava.
Aproxima-se a hora prestimosa
da couraça repousada. Dos arreios
nos correios - para quem merecê-los
e mais a carga. Assim, vez em casa
cuidarei do jardim, talvez da mansão
do silêncio, então - a maior construção.
frias de solidão. E telhas, por cima
de tudo que o espaço abriga.
Encaixadas, parelhas - as andorinhas
verão a hora ansiosa da chegada:
- esta, não se perderá por nada
tão aguardada, uma vida adiada
da jornada que em vão adiava.
Aproxima-se a hora prestimosa
da couraça repousada. Dos arreios
nos correios - para quem merecê-los
e mais a carga. Assim, vez em casa
cuidarei do jardim, talvez da mansão
do silêncio, então - a maior construção.
domingo, 26 de junho de 2011
QUESPERANÇA
Num instante que me abarca
claro e discrepante - um instante
sem trapaça - sem sair do mapa,
um interesse andante
- um quixote balouçante
desloca-se jusante
para aquém daquela larga
atenção constante.
E outros de mesma marca
que lhe seguem controversos
mas a bem de conhecerem
de quais pontos e diversos
puxam-se, empurram-se, embora
medianos e perfilados - meridianos alinhavados
pela agulha indiana da história:
- trêmula bandeira, lanterna por estórias
indispostas em buracos da memória;
facho sobre sanchos - ambos
êmulas fileiras - de certezas
escorreitas escapando-lhe agora
pelas beiras desta hora
verdadeira...
(da consciência rarefeita dos interesses em questão
- de sua escuridão perfeita)
claro e discrepante - um instante
sem trapaça - sem sair do mapa,
um interesse andante
- um quixote balouçante
desloca-se jusante
para aquém daquela larga
atenção constante.
E outros de mesma marca
que lhe seguem controversos
mas a bem de conhecerem
de quais pontos e diversos
puxam-se, empurram-se, embora
medianos e perfilados - meridianos alinhavados
pela agulha indiana da história:
- trêmula bandeira, lanterna por estórias
indispostas em buracos da memória;
facho sobre sanchos - ambos
êmulas fileiras - de certezas
escorreitas escapando-lhe agora
pelas beiras desta hora
verdadeira...
(da consciência rarefeita dos interesses em questão
- de sua escuridão perfeita)
quinta-feira, 16 de junho de 2011
AGORA II
Um presente absoluto
concentra meu cansaço do futuro.
As pernas, fortes
pesam - são músculos
recém-adquiridos de estudos
de reter-se a tentativa
por juventude e vida
(o que em vão seria).
A fronte, embora refrescada
do ar-condicionado da madrugada
às mãos firma - e me apóia, esgotada
mas não a ponto
de querer mais nada
(a partida, a jornada).
E os pensamentos
especialmente aqueles mesmos
tesos - os referentes a intentos
parecem adensamentos
paralíticos de momentos
ansiolíticos
[o fio do tempo
rompeu-se, creio
num cio - tão cedo
que não vi-o vindo
- o medo...].
concentra meu cansaço do futuro.
As pernas, fortes
pesam - são músculos
recém-adquiridos de estudos
de reter-se a tentativa
por juventude e vida
(o que em vão seria).
A fronte, embora refrescada
do ar-condicionado da madrugada
às mãos firma - e me apóia, esgotada
mas não a ponto
de querer mais nada
(a partida, a jornada).
E os pensamentos
especialmente aqueles mesmos
tesos - os referentes a intentos
parecem adensamentos
paralíticos de momentos
ansiolíticos
[o fio do tempo
rompeu-se, creio
num cio - tão cedo
que não vi-o vindo
- o medo...].
domingo, 12 de junho de 2011
Carpe diem
adaptação do clássico de Horácio (de 23 a.C.)
a partir de traduções disponíveis
Não procures saber, Leucona
- por ser inútil -
qual fim os deuses nos destinaram.
Não consultes sequer
os números babilônicos:
- Melhor aceitar! E venha o que vier!
Que Júpiter te dê ainda muitos invernos
ou seja este o último que agora desfaz
em rochedos hostis, as ondas do mar Tirreno.
Viva com sensatez, cuide do teu vinho
encurte a longa esperança
- pois a vida é breve!
Enquanto falamos, foge ávido o tempo:
- Aproveite bem o dia de hoje
que o amanhã não nos merece...
a partir de traduções disponíveis
Não procures saber, Leucona
- por ser inútil -
qual fim os deuses nos destinaram.
Não consultes sequer
os números babilônicos:
- Melhor aceitar! E venha o que vier!
Que Júpiter te dê ainda muitos invernos
ou seja este o último que agora desfaz
em rochedos hostis, as ondas do mar Tirreno.
Viva com sensatez, cuide do teu vinho
encurte a longa esperança
- pois a vida é breve!
Enquanto falamos, foge ávido o tempo:
- Aproveite bem o dia de hoje
que o amanhã não nos merece...
domingo, 17 de abril de 2011
ANTE A LUA CHEIA
Este sábado noturno e claro
(réstia de um dia obtuso, ensolarado)
põe-me em soturno estado
algo alegre - que madruga entregue
a seu febril contrário - e revirado
remete-me àquele diáfano
momento abril em que escapo
(incrustado num ente qualquer)
pra mal perto de Alenquer:
- a um passado que não comando
por não ser do tempo sequer
mas tão necessário quanto
comer e beber, se der - e se tanto
por bem esquecer como é...
(réstia de um dia obtuso, ensolarado)
põe-me em soturno estado
algo alegre - que madruga entregue
a seu febril contrário - e revirado
remete-me àquele diáfano
momento abril em que escapo
(incrustado num ente qualquer)
pra mal perto de Alenquer:
- a um passado que não comando
por não ser do tempo sequer
mas tão necessário quanto
comer e beber, se der - e se tanto
por bem esquecer como é...
segunda-feira, 14 de março de 2011
PRIMEIRO DE JANEIRO
O céu baixo
escuro, algodoado
pisca branco o seu espanto
como um gato
miando, amuado
o distante rugido de ontem:
- doutro ano de cão, tigre, rato
de gato escaldado
que de morto
só o casco
há molhado
tuberculoso
de um descaso
do calendário
mas neste dia
que triste mia
às sete vidas
(mal despedidas)
prefere a minha - agasalhar de melancolia.
Gaiato...
escuro, algodoado
pisca branco o seu espanto
como um gato
miando, amuado
o distante rugido de ontem:
- doutro ano de cão, tigre, rato
de gato escaldado
que de morto
só o casco
há molhado
tuberculoso
de um descaso
do calendário
mas neste dia
que triste mia
às sete vidas
(mal despedidas)
prefere a minha - agasalhar de melancolia.
Gaiato...
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