sábado, 29 de outubro de 2011

DOMÉSTICA QUESTÃO

A primeira tempestade no novo mundo:
- raios, trovões - tudo!

E clarões por sobre os portões.

E cavalos trotando do lado do muro
molhando esporões.

Mas por que razão
a água, no chão
(corrida do céu iracundo)
empoça minha atenção?

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

BONITA

Teus olhos, lindos
se verdes ou azuis - são lindos

ornamentam misteriosos
(de tão límpidos)

os claros complementos expressivos

dos teus vários sorrisos.

E, ao urdirem sucessivos

- ao combinarem - os ciclos
de tais cores e brilhos -

trazem o mar longínquo
(se verde ou azul - não firmo)

a este árido interior que sinto:

- a tua perspectiva, umedecida
da mais humana simpatia

irriga de imaginações
- de emoções antevistas -

a minha secura, retrospectiva
à mercê de monções - da vida

que tal clima
oscila...

01/10/2011

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O CASAL

último poema na antepenúltima morada

No topo de uma torre - dessas de celular
que a tecnologia espeta - uns horrores - na paisagem
de toda urbana vizinhança

entardece um par de gaviões carcarás - de passagem
vestidos - magníficos - daquela luz oblíqua
que a todos esperança.

Parecem pacientes - ou serei eu, pormenorizante
observando-os horizontes de um sonho? As asas abrigam altivas
um silêncio alpino - sem o vítreo ruído do frio

porque trópico o sinto. Pressinto-os casal distinto
em sua lógica curva de reta elegância - a despeito da rotina
de pombos e ratos que nossa desordem multiplica

[diga-se, rapina distinta
da sanha imobiliária que nos vitima:
a cidade, a sociedade - diga-se, vizinhas
de suspeita fidalguia].

Ao fim neles, vislumbro - comovido - a economia
dos vôos medidos - sem o desperdício
típico de toda mesquinharia

porque fundo o ressinto. Mal poder isto ou aquilo
por esclerose progressiva - dos projetos de vida
os olhares dissocia - de vontades
em função das atrofias que o tempo assina

(a contragosto, contando as gotas - de tinta)

e ensina.

30/07/2011

quinta-feira, 30 de junho de 2011

À ESPERA

Há momentos
em que devemos
contabilizar - o ritmo lento
dos batimentos.

Aguardar. Fiscalizar o tempo.

Encher balões
de especulações - entendendo
a contingência do ar
nessas condições

e o imperativo - relativo
de se despreocupar
os botões.

Sob o céu limpo, ao estar fino
reflito - sob a rendição de esperar.

[pausa]

Neste chão da estrada
de beiras descansadas de poeira perfumada
ao alcance das narinas renovadas

faço-me confortável
(neste posto de gasolina
que a imaginação propicia)

sem espreguiçar:
- importa atentar à premissa
que o virar a esquina
possibilita em seguida.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

O CASTELO

Lá estão - as paredes amigas
frias de solidão. E telhas, por cima
de tudo que o espaço abriga.
Encaixadas, parelhas - as andorinhas

verão a hora ansiosa da chegada:
- esta, não se perderá por nada
tão aguardada, uma vida adiada
da jornada que em vão adiava.

Aproxima-se a hora prestimosa
da couraça repousada. Dos arreios
nos correios - para quem merecê-los

e mais a carga. Assim, vez em casa
cuidarei do jardim, talvez da mansão
do silêncio, então - a maior construção.

domingo, 26 de junho de 2011

QUESPERANÇA

Num instante que me abarca
claro e discrepante - um instante
sem trapaça - sem sair do mapa,

um interesse andante
- um quixote balouçante

desloca-se jusante
para aquém daquela larga
atenção constante.

E outros de mesma marca
que lhe seguem controversos
mas a bem de conhecerem
de quais pontos e diversos

puxam-se, empurram-se, embora
medianos e perfilados - meridianos alinhavados
pela agulha indiana da história:

- trêmula bandeira, lanterna por estórias
indispostas em buracos da memória;

facho sobre sanchos - ambos
êmulas fileiras - de certezas
escorreitas escapando-lhe agora

pelas beiras desta hora
verdadeira...

(da consciência rarefeita dos interesses em questão
- de sua escuridão perfeita)

quinta-feira, 16 de junho de 2011

AGORA II

Um presente absoluto
concentra meu cansaço do futuro.

As pernas, fortes
pesam - são músculos
recém-adquiridos de estudos

de reter-se a tentativa
por juventude e vida
(o que em vão seria).

A fronte, embora refrescada
do ar-condicionado da madrugada
às mãos firma - e me apóia, esgotada

mas não a ponto
de querer mais nada
(a partida, a jornada).

E os pensamentos
especialmente aqueles mesmos
tesos - os referentes a intentos

parecem adensamentos
paralíticos de momentos
ansiolíticos

[o fio do tempo
rompeu-se, creio
num cio - tão cedo
que não vi-o vindo
- o medo...].

domingo, 12 de junho de 2011

Carpe diem

adaptação do clássico de Horácio (de 23 a.C.)
a partir de traduções disponíveis

Não procures saber, Leucona
- por ser inútil -
qual fim os deuses nos destinaram.

Não consultes sequer
os números babilônicos:
- Melhor aceitar! E venha o que vier!

Que Júpiter te dê ainda muitos invernos
ou seja este o último que agora desfaz
em rochedos hostis, as ondas do mar Tirreno.

Viva com sensatez, cuide do teu vinho
encurte a longa esperança
- pois a vida é breve!

Enquanto falamos, foge ávido o tempo:
- Aproveite bem o dia de hoje
que o amanhã não nos merece...

domingo, 17 de abril de 2011

ANTE A LUA CHEIA

Este sábado noturno e claro
(réstia de um dia obtuso, ensolarado)
põe-me em soturno estado
algo alegre - que madruga entregue

a seu febril contrário - e revirado
remete-me àquele diáfano
momento abril em que escapo
(incrustado num ente qualquer)

pra mal perto de Alenquer:
- a um passado que não comando
por não ser do tempo sequer

mas tão necessário quanto
comer e beber, se der - e se tanto
por bem esquecer como é...

segunda-feira, 14 de março de 2011

PRIMEIRO DE JANEIRO

O céu baixo
escuro, algodoado
pisca branco o seu espanto
como um gato

miando, amuado
o distante rugido de ontem:
- doutro ano de cão, tigre, rato
de gato escaldado

que de morto
só o casco
há molhado

tuberculoso
de um descaso
do calendário

mas neste dia
que triste mia
às sete vidas

(mal despedidas)

prefere a minha - agasalhar de melancolia.

Gaiato...

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

ALGO ATRASADO

WALL STREET

Nas bolhas
as bolsas

perfuram

os bolsos
nos olhos.

Bilhões, a rodo
(a fuligem)
sobrevoam o negrume do jogo.

Senões, de modo
(imaginem!)
que se perfumam por sobre o esgoto.

No chão coberto do branco
do pó de papéis em desalinho
caídos
das telas de dígitos sumindo

um cano, num claro burburinho
de tubular proporção rompe-se antigo
no imperfeito coração da vizinhança:

- uma ambição em desarranjo
que regurgita explicitando
sua cíclica, imorredoura vocação
por oportuna governança

[a cobiça renascida pela vida da savana
de outra perspectiva - da hiena rediviva;
pelo mar inexistente da savana, a poeira do ar
inexistente de montanha; por terras, oh céus! e animais
de savanas e savanas sideralmente literais]

(como os juros de certas dívidas
de acordos, promessas e garantias
e mais vítimas leoninas)

[numa pródiga pretensão
de toda fístula que se doura derivativa
pílula

e quando à deriva
tosse, espirra - e deletéria
a assassina bactéria democratiza].

22/01/2009
(04/01/2011)

domingo, 26 de dezembro de 2010

IT KEEPS ME RUNNING

Os deuses do azul que se deitam em luz
na largura matinal desta avenida mal-entregue
a nós, eventually runners, neste dominical mass ritual
(ascese)
pelo bem-estar universal

ofuscam os obstáculos
(tentáculos a tentar abraços)
de cada passo desta surda e ruidosa
e calosa e sedentária - dolorosa e solitária
corrida cinquentenária.

Por tais passadas
entre eles, declaro

(quieto o pensamento
honesto o sentimento
num agradecimento

insinuado neste aperto
da boca ressecada)

que corro por nada:

- nem por saúde, ou o prazer
amiúde de percorrer
com o olhar.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

PRELIMINAR

Depois de tanto tempo
de assim mesmos - do calendário
obeso

(comigo quando? por quanto peso?
retardatário
não lembro)

De esquecer-me, por dentro
de um canto, num silêncio
jazigo - de já ditos
(em termos)

Venho, a tempo
(que seja vento, e forte)
De varrer-me, de sorte
que volte

E não mais me evite:
- e drible o drible
do deus-me-livre
que se omite.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Enfim

... retornar a este espaço é possível? Somente, creio, se a poesia apresentar-se novamente como desafio - e um prazer imenso, meticulosamente cerzido, como outrora.

É hora?

domingo, 5 de julho de 2009

TORPEDOS ESQUECIDOS

... aqui, a brise é doce /
e o agora, suave /
como se só bastasse /
um triz da tua imagem /
(mas sei, e não tarde /
que é só quase...)

04/02/09, às 11:28:06

***

... torpedo /
sumido /
dum beijo /
perdido /
que deixo /
urdido /
no tempo /
que giro /
e esqueço /
consigo... /
(mas disso /
me lembro /
contigo /
eu mesmo)

17/03/09, às 10:29:03

terça-feira, 21 de abril de 2009

NO CAMINHO

Parado
a tempo
do escuro
no silêncio

escuto

(fatídico)

o movimento
granítico
do momento
absoluto.

Da relação entre mito e poesia

"O mito é como um organismo: desenvolve-se, transforma-se e se renova sem cessar. É o poeta que realiza essa transformação. Mas não a realiza em obediência a um simples desejo arbitrário. O poeta estrutura uma nova forma de vida para o seu tempo e interpreta o mito de acordo com as suas novas evidências interiores. O mito só se mantém vivo por meio da contínua metamorfose da sua idéia. Mas a idéia nova é transportada pelo veículo seguro do mito."

Werner Jaeger, Paidéia: a formação do homem grego. Tradução de Artur M. Parreira. São Paulo: Martins Fontes, 2001 (4ª ed.), p. 96.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Homero como educador

"A arte tem um poder ilimitado de conversão espiritual. É o que os Gregos chamaram psicagogia. Só ela possui ao mesmo tempo a validade universal e a plenitude imediata e viva, que são as condições mais importantes da ação educativa. Pela união destas duas modalidades de ação espiritual, ela supera ao mesmo tempo a vida real e a reflexão filosófica. A vida possui a plenitude de sentido, mas as suas experiências carecem de valor universal. Sofrem demais a interferência dos sucessos acidentais para que a sua impressão possa alcançar sempre o grau máximo de profundidade. A filosofia e a reflexão atingem a universalidade e penetram na essência das coisas. Mas atuam somente naqueles cujos pensamentos chegam a adquirir a intensidade de uma vivência pessoal. Daqui resulta que a poesia tem vantagem sobre qualquer ensino intelectual e verdade racional, assim como sobre as meras experiências acidentais da vida do indivíduo. É mais filosófica que a vida real (se nos é lícito ampliar o sentido de uma conhecida frase de Aristóteles), mas é, ao mesmo tempo, pela concentração de sua realidade espiritual, mais vital que o conhecimento filosófico."

Werner Jaeger, Paidéia: a formação do homem grego. Tradução de Artur M. Parreira. São Paulo: Martins Fontes, 2001 (4ª ed.), p. 63.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Recado a Pierre

Meu querido, não se aborreça com silêncios. Aquieto-me porque insignificante diante da imensidão de tudo que acontece comigo. Aquieto-me porque, prosaico, abraço o arcaico: tornei-me integralmente sofista sem talento, a vender-se oralmente somente àqueles dispostos a mensalidades. Todas as manhãs úteis, e três dias à noite. Atendo pela alcunha "professor"...

sábado, 10 de janeiro de 2009

Nunca ali estive

Este blog não está morto. Ainda. É que atravesso outro território - onde folhas e flores trocam cores, e frutos vitimam pássaros e formigas; onde prados são escarpados, e vizinha a mais remota montanha. Absorto, observo: embora sinta o ar mudar de lugar, e os passos sigam a hora lassa de agora, eternamente logo retornarei (eu sinto, é óbvio)...