quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Da relação entre sujeito, ciência e poesia quanto a que realidade

Calvino, sobre Lucrécio

"Será lícito extrapolar do discurso científico uma imagem do mundo que corresponda aos meus desejos? Se a operação que estou tentando me atrai, é porque sinto que ela poderia reatar-se a um fio muito antigo na história da poesia.
De rerum natura, de Lucrécio, é a primeira grande obra poética em que o conhecimento do mundo se transforma em dissolução da compacidade do mundo, na percepção do que é infinitamente minúsculo, móvel e leve. Lucrécio quer escrever o poema da matéria, mas nos adverte, desde logo, que a verdadeira realidade dessa matéria se compõe de corpúsculos invisíveis. É o poeta da concreção física, entendida em sua substância permanente e imutável, mas a primeira coisa que nos diz é que o vácuo é tão concreto quanto os corpos sólidos. A principal preocupação de Lucrécio, pode-se dizer, é evitar que o peso da matéria nos esmague. No momento de estabelecer as rigorosas leis mecânicas que determinam todos os acontecimentos, ele sente a necessidade de permitir que os átomos se desviem imprevisivelmente da linha reta, de modo a garantir tanto a liberdade da matéria quanto a dos seres humanos. A poesia do invisível, a poesia das infinitas potencialidades imprevisíveis, assim como a poesia do nada, nascem de um poeta que não nutre qualquer dúvida quanto ao caráter físico do mundo."

Italo Calvino, Seis propostas para o próximo milênio. Tradução de Ivo Barroso. São Paulo: Companhia das Letras, 1990, pp. 20-21.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

BRACHIARIA

Agudas

agulhas

escuras
(a depender de qual luz as cura)

espalham-se, bandoleiras

por todo espaço que as proteja.

São alísias

dançarinas

elusivas
(na desfeita coreografia);

plantam-se, radiais

radiantes que tais

oriundi perhaps - de ancestrais carnavais!...

***

[a despeito deste olhar estreito
(de reizinho de pedacinho elísio)
que orgulhosamente amanheço
me estofo sim - disso mesmo]

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

FUTURO A PASSAR

aos interessados de sempre

A rapidez da mudança sucessiva da andança
disto que se diz rotina

- de viradas repentinas
mal-lembradas como antigas

(das discretas às secretas
das soberbas, rídículas)

desequilibra, todavia: uma vez demais rolados
tais dados, capacitados

a possibilitarem como fatos alternativas

desgastam-se, aparados
das outras perspectivas:

- amparados toda vida
por noções preconcebidas
de transformações queridas
por aqueles que não se vão...

[fauna cuja imobilista
amoralidade desdiz;
que qual rica flora habita
tal saída; e esvaída
à vez retorna, lívida
(límpida máscara, a tez)
da sordidez intestina]

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

DEZEMBRO II

Enfim, férias que prolongar-se-ão:

- nelas, a preguiça cresce pernas
estica sombras, alonga as feras

mas minha vontade, na verdade

- caniça de reeducações alimentares
prostituída por cafeínas regulares

reporá logo o troço todo no modo padrão...

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

CEB, SOM E FÚRIA

esqueçam McLuhan

Martelam-nos as melhores crônicas
que a civilização eletrônica

(mesmo o que nela funciona)

ademais demanda eletricidade:

- força eletromotriz
adiante do nariz
(a bem da segurança).

***

Pois bem. Quando dançamos
na escuridão romântica imprevista
típica da quebradiça rotina

escassamente cogitamos

máquinas de toda metragem
postes fincados nas paisagens

estações, usinas, barragens
transmissores - comutadores
e torres - torres, muitas torres!...

(e rios a fio perdidos
em cascatas insustentáveis)

***

E menos pressupomos
(rabos de cães circulares)
tensão/potência/corrente
watts em volta, ampères:

- capacidade de torra
d'além de mais grãos - dos lares
de coisas das gentes (ora
inadvertidamente)

***

Porém trópicos, cerrados
são carregados cenários

de nuvens, agruras e raios
naturalmente desviados:

- onde se abre compassos
entre inações e fracassos
na amplidão do mormaço

e onde depois de refeitas
todas cagadas perfeitas
copia-se à exaustão...

[mau cidadão, aqui passo

***

mas não sem lamentá-lo:]

tétrica, aquela companhia
- desluzida, deletéria, fugidia

dependura minha vida
em linha sem energia;

e pendurada, a dita
engordurada, frita...

domingo, 27 de novembro de 2011

SHOWMISSA

Ontem ouvi
preclara voz do passado.

Embrulhada
em papel acetinado

proclamava
futuro retrogradado.

Quão custoso, todavia
tal espelho:

- se só via acompanhando
o prelado

- que ambula, parafrástico
conservando

- e reunirá, prometéico
anulando...

(entrementes
somente sacrificando)

sábado, 26 de novembro de 2011

SÁBADO

Amanheci lasso, baço
nos braços da transição repentina
da madrugada pro dia.

Hoje por isso passo. Tê-lo anoitecido
na rua sem lua, a idade madura, dá nisso
- cansaço alvorecido.

Até se quer, participativo
da cidade prevista ser visto;

o custo, todavia
não pode transferi-la
a futuro longínquo

(como antes acontecia
 quando jovem o fígado).

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

VIÚVO É O MORTO

a Verônica

Morto não fala. Morto não anda.
Morto não janta.

Não move montanhas
não chove castanhas

não torra a poupança
(decerto em gastança)

não mostra as entranhas
(embora a estranhos... em circunstâncias).

Viúvo é o morto! Nada lhe vem atrás!
Portanto pedimos - deixemo-lo em paz! Se não religião
por uma só razão:

- se morto, tens o pudor
de respeitares a dor

que tão triste mais fica
emparedada no amor

partido que petrifica.

(por isso, mais silencias...)

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

SOLIPSISTA

Minha poesia - é pequena.

Nela, não há maior tema
- nem poema.

Não inova
não renova
não provoca;

como forma - não vale a pena.

Mas talvez seja
(de vez apenas)

estratagema

contra esta surdez tão pessoal:

deseducada
animalesca

- um cipoal
que atormenta.

(então poesia
de impedi-la que cresça
que prevaleça)

RACHADURA

Tu te lembras
das travessas

bentas eras
que atravessas

- as avessas
a tragédias

quando tragas
essas pedras

das medusas
criação?

Quando enlutas
tua mão

e não relutas?

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

VIVA LITERATURA

a Ana Flávia

Escrever
mais importa que viver?

O que melhor seria? A literária vida
ou literatura vivida?

Ela, tratar-se-ia
de uma dúvida vívida
ou musa que se não duvida?

De dívida - de usura
hipotética?

Hipotenusa
a toda reta?

E mais pergunta
- física? - tísica?
- abstraída?...

Lívido com tanto assombro
(ante o abismo pro tombo)
aliterando escapulo:

- se se não vive
não não se escreve
nada que preste!...

terça-feira, 22 de novembro de 2011

À TARDE

Após a siesta
(pesada à beça)

abro picada
pela floresta

desta jornada
amalucada:

- fiesta diária
da lida vária...

ÀS SEIS

Acordo cedo
pois tenho medo

do que me perco
depois do cerco

- da noite funda
que me desnuda
todo o desejo
quando não vejo...

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

INSEPULTA

Alguém pediu que voltasse
um trem da história.

Solicitou que contasse

uma estória
sobre outrem
de outrora.

(dita cuja
cabeluda
malcheirosa)

- Mas qual, repliquei
se mal as registrei
nos confins da memória?

Enfim resposta
tartamudeei
(discursiva tartaruga de lei)
ao fim e ao cabo pedregosa;

porque tardia embora
menoscaiba querença maldita,

melhor agora - ainda de dia...

domingo, 20 de novembro de 2011

CONTRA O MÉTODO

ao confessor em mim

Ante esta excrescente
complacência indecente
- pegajosa, recorrente

(incidência inconsciente?)

de fim-de-ano-na-escola

que a tudo engolfa
'tupindo aortas
por trás das portas,

irrito as veias
pra que ligeiras

movam obreiras placas obesas:

- toda rasteira... e preguiçosa...

viçosa certeza.

(catraca estreita
que nos espreita)

sábado, 19 de novembro de 2011

PARA ALÉM DE SEXISTA (duas questões)

a Rafaela

Perspectivamente, minha atenção
lamenta sua procura ansiosa;

perscruta a linha enxuta, sinuosa
que se insinua apetitosa; senão

por que seria a vista dadivosa
a mais sentida paixão masculina

pela forma? Prospectivamente
então, que passo reordenaria

essas desencontradas correrias
por marias, letícias, margaridas

à luz de mais razões - mas sem despi-las
das coloridas vias nas quais se dão?...

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

TEMPOS DEPOIS

Com sua graça costumeira

- da palavra certeira lavrada perfeita -

minha bela parceira passou por aqui...

Bem-vinda! Que assim seja!...

Tempos depois

Tempos depois, retorno à tela escura com a mesma vontade de esparramar minhas letras. A vida continuou no sábio ritmo de sempre, o tempo passou na mais previsível cadência. Ainda assim, com tudo na exata e esperada harmonia, vejo toda diferença. Porque tudo está diferente. O momento, as expectativas, os sonhos.

Rodei um pouco procurando as letras e, ao juntá-las, não enxerguei sentido. Refiz todas as frases, reli parágrafos, apaguei textos. Quebrei regras, inventei prosas, trapaceei línguas e apaguei tudo de novo. Simplesmente porque foi difícil me encontrar para me trazer de volta. Que encantos me levaram? Que estradas foram essas que me arrastaram para tão longe? Por que meus vôos não me ofereceram retorno?

Enquanto busco entender os recentes capítulos da minha vida, deixo cair os dedos num teclado estridente para polvilhar letras neste quadro negro, que me convida a me expor. E, mais uma vez, como tantas outras lá no passado, cá estou eu a contar o que se passa comigo, a dividir pensamentos, a escancarar de novo meu coração. Se ainda houver aqui dentro um coração a ser decifrado em prosa...

Ju

MICROBIANA

ao querido Pierre

As pequenas coisas
irresolvidas

(pregos sem estopa
mesquinharias)

rolam da mesa, saem da vista
todos os dias;

mas se caem esquecidas
entre as sobras da vigília
(hibernais de eras priscas)

pelas sombras, ganham vida;

e retornam, descabidas
entre horas distraídas
(canibais deveras iscas)

devorando caramanchões:

- aqueles construídos nas tendas da rotina
nada gratuita; serões
que animavam salões
minimizando senões - até tal revisita

sísmica, fortuita?
Dos bichinhos-papões!...

terça-feira, 15 de novembro de 2011

NUMA (RESOLUTA) TARDE AQUI DENTRO

Já que o vento externa sua discordância
quanto à minha singela, cotidiana

interna andança pelo jardim,

avento que sim - o frio cinzela
o dia de hoje como caverna:

- quando cabe agasalhar-se - e a ela
primeira idéia a abandonar-se

- a inércia.

AMANHÃ DE NOVEMBRO II

Melancólico, o tempo
quando empoça-se chovendo;

empoça-o, esse banho
poeirento de antanho:

- pois memória, rediviva
entre paredes do crânio

(esse vácuo, que aninha
só relíquias, por enquanto...).

domingo, 13 de novembro de 2011

ANONIMATO-ME

Quem me lê?

Quem me vê?

Quem me antevê
e prevê?

Que me quer ver
na tevê?

E me bem ter
para ser...

(co-erguer
deste obscuro buraco

eu e você)

VITAE

Que currículo?

Vivaz
ou vivo?

Atrás
ou isto?

Capaz
ou misto?

Detrás
ou visto?

Antraz
ou minto?...

Qual registro?

THROUGH THE NIGHT

A medida da madrugada
(creio, confiante
de sua firme espessura opaca)

é seu avanço pela alma desarmada - esperança

de que pouco será mais que nada - o bastante
para atravessá-la

- a palavra.

sábado, 12 de novembro de 2011

AMANHÃ DE NOVEMBRO

Que suave luz é esta
tão claramente bela

que se traduz em brisa
(ôndula partícula)

e tudo textualiza
(obreira indistinta)

de funda alegria?...

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

B-52

Chegou a hora de deixar
as bombas todas no hangar.

Voar leve
(sem brevê que o carregue)

segundo carta doutro plano
anteposto - deste ano anticorpo

(vez que o mapa de antanho
esqueceu-se, descuidado
coisas tolas em contrário).

Chegou a hora de largar
a tralha toda num lugar.

Voar breve
(sem querer-se muito alegre)

porque amanhã, quando, quem sabe?

(se ascendente branco ultraleve)

domingo, 6 de novembro de 2011

ASSIM

Cansei de esperar por estas pernas
desejarem caminhar enfim despertas

ao encontro do mar sóbrio de horizontes.

São todos interiores - os muros, as escarpas, os aclives
que somados a deslizes

fincaram-me aqui arborescente

e lentamente - numa indolência virtuosa que desmente
uma antiga urgência dos porões incandescentes

desta casa outrora incendiada - mas agora

parecendo sólida e segura - a porta

amadurecendo a fechadura...

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

DISCREPANDO

Finados, como esperado
taciturno e bacento - pro gasto

colide comigo avesso
doutro pródigo feriado.

O café eufórico - que faço
sorvido é de pronto - amargo

a ponto de servir aos biombos
com que divido os humores

- as decorações interiores.

sábado, 29 de outubro de 2011

DOMÉSTICA QUESTÃO

A primeira tempestade no novo mundo:
- raios, trovões - tudo!

E clarões por sobre os portões.

E cavalos trotando do lado do muro
molhando esporões.

Mas por que razão
a água, no chão
(corrida do céu iracundo)
empoça minha atenção?

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

BONITA

Teus olhos, lindos
se verdes ou azuis - são lindos

ornamentam misteriosos
(de tão límpidos)

os claros complementos expressivos

dos teus vários sorrisos.

E, ao urdirem sucessivos

- ao combinarem - os ciclos
de tais cores e brilhos -

trazem o mar longínquo
(se verde ou azul - não firmo)

a este árido interior que sinto:

- a tua perspectiva, umedecida
da mais humana simpatia

irriga de imaginações
- de emoções antevistas -

a minha secura, retrospectiva
à mercê de monções - da vida

que tal clima
oscila...

01/10/2011

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O CASAL

último poema na antepenúltima morada

No topo de uma torre - dessas de celular
que a tecnologia espeta - uns horrores - na paisagem
de toda urbana vizinhança

entardece um par de gaviões carcarás - de passagem
vestidos - magníficos - daquela luz oblíqua
que a todos esperança.

Parecem pacientes - ou serei eu, pormenorizante
observando-os horizontes de um sonho? As asas abrigam altivas
um silêncio alpino - sem o vítreo ruído do frio

porque trópico o sinto. Pressinto-os casal distinto
em sua lógica curva de reta elegância - a despeito da rotina
de pombos e ratos que nossa desordem multiplica

[diga-se, rapina distinta
da sanha imobiliária que nos vitima:
a cidade, a sociedade - diga-se, vizinhas
de suspeita fidalguia].

Ao fim neles, vislumbro - comovido - a economia
dos vôos medidos - sem o desperdício
típico de toda mesquinharia

porque fundo o ressinto. Mal poder isto ou aquilo
por esclerose progressiva - dos projetos de vida
os olhares dissocia - de vontades
em função das atrofias que o tempo assina

(a contragosto, contando as gotas - de tinta)

e ensina.

30/07/2011

quinta-feira, 30 de junho de 2011

À ESPERA

Há momentos
em que devemos
contabilizar - o ritmo lento
dos batimentos.

Aguardar. Fiscalizar o tempo.

Encher balões
de especulações - entendendo
a contingência do ar
nessas condições

e o imperativo - relativo
de se despreocupar
os botões.

Sob o céu limpo, ao estar fino
reflito - sob a rendição de esperar.

[pausa]

Neste chão da estrada
de beiras descansadas de poeira perfumada
ao alcance das narinas renovadas

faço-me confortável
(neste posto de gasolina
que a imaginação propicia)

sem espreguiçar:
- importa atentar à premissa
que o virar a esquina
possibilita em seguida.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

O CASTELO

Lá estão - as paredes amigas
frias de solidão. E telhas, por cima
de tudo que o espaço abriga.
Encaixadas, parelhas - as andorinhas

verão a hora ansiosa da chegada:
- esta, não se perderá por nada
tão aguardada, uma vida adiada
da jornada que em vão adiava.

Aproxima-se a hora prestimosa
da couraça repousada. Dos arreios
nos correios - para quem merecê-los

e mais a carga. Assim, vez em casa
cuidarei do jardim, talvez da mansão
do silêncio, então - a maior construção.

domingo, 26 de junho de 2011

QUESPERANÇA

Num instante que me abarca
claro e discrepante - um instante
sem trapaça - sem sair do mapa,

um interesse andante
- um quixote balouçante

desloca-se jusante
para aquém daquela larga
atenção constante.

E outros de mesma marca
que lhe seguem controversos
mas a bem de conhecerem
de quais pontos e diversos

puxam-se, empurram-se, embora
medianos e perfilados - meridianos alinhavados
pela agulha indiana da história:

- trêmula bandeira, lanterna por estórias
indispostas em buracos da memória;

facho sobre sanchos - ambos
êmulas fileiras - de certezas
escorreitas escapando-lhe agora

pelas beiras desta hora
verdadeira...

(da consciência rarefeita dos interesses em questão
- de sua escuridão perfeita)

quinta-feira, 16 de junho de 2011

AGORA II

Um presente absoluto
concentra meu cansaço do futuro.

As pernas, fortes
pesam - são músculos
recém-adquiridos de estudos

de reter-se a tentativa
por juventude e vida
(o que em vão seria).

A fronte, embora refrescada
do ar-condicionado da madrugada
às mãos firma - e me apóia, esgotada

mas não a ponto
de querer mais nada
(a partida, a jornada).

E os pensamentos
especialmente aqueles mesmos
tesos - os referentes a intentos

parecem adensamentos
paralíticos de momentos
ansiolíticos

[o fio do tempo
rompeu-se, creio
num cio - tão cedo
que não vi-o vindo
- o medo...].

domingo, 12 de junho de 2011

Carpe diem

adaptação do clássico de Horácio (de 23 a.C.)
a partir de traduções disponíveis

Não procures saber, Leucona
- por ser inútil -
qual fim os deuses nos destinaram.

Não consultes sequer
os números babilônicos:
- Melhor aceitar! E venha o que vier!

Que Júpiter te dê ainda muitos invernos
ou seja este o último que agora desfaz
em rochedos hostis, as ondas do mar Tirreno.

Viva com sensatez, cuide do teu vinho
encurte a longa esperança
- pois a vida é breve!

Enquanto falamos, foge ávido o tempo:
- Aproveite bem o dia de hoje
que o amanhã não nos merece...

domingo, 17 de abril de 2011

ANTE A LUA CHEIA

Este sábado noturno e claro
(réstia de um dia obtuso, ensolarado)
põe-me em soturno estado
algo alegre - que madruga entregue

a seu febril contrário - e revirado
remete-me àquele diáfano
momento abril em que escapo
(incrustado num ente qualquer)

pra mal perto de Alenquer:
- a um passado que não comando
por não ser do tempo sequer

mas tão necessário quanto
comer e beber, se der - e se tanto
por bem esquecer como é...

segunda-feira, 14 de março de 2011

PRIMEIRO DE JANEIRO

O céu baixo
escuro, algodoado
pisca branco o seu espanto
como um gato

miando, amuado
o distante rugido de ontem:
- doutro ano de cão, tigre, rato
de gato escaldado

que de morto
só o casco
há molhado

tuberculoso
de um descaso
do calendário

mas neste dia
que triste mia
às sete vidas

(mal despedidas)

prefere a minha - agasalhar de melancolia.

Gaiato...

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

ALGO ATRASADO

WALL STREET

Nas bolhas
as bolsas

perfuram

os bolsos
nos olhos.

Bilhões, a rodo
(a fuligem)
sobrevoam o negrume do jogo.

Senões, de modo
(imaginem!)
que se perfumam por sobre o esgoto.

No chão coberto do branco
do pó de papéis em desalinho
caídos
das telas de dígitos sumindo

um cano, num claro burburinho
de tubular proporção rompe-se antigo
no imperfeito coração da vizinhança:

- uma ambição em desarranjo
que regurgita explicitando
sua cíclica, imorredoura vocação
por oportuna governança

[a cobiça renascida pela vida da savana
de outra perspectiva - da hiena rediviva;
pelo mar inexistente da savana, a poeira do ar
inexistente de montanha; por terras, oh céus! e animais
de savanas e savanas sideralmente literais]

(como os juros de certas dívidas
de acordos, promessas e garantias
e mais vítimas leoninas)

[numa pródiga pretensão
de toda fístula que se doura derivativa
pílula

e quando à deriva
tosse, espirra - e deletéria
a assassina bactéria democratiza].

22/01/2009
(04/01/2011)

domingo, 26 de dezembro de 2010

IT KEEPS ME RUNNING

Os deuses do azul que se deitam em luz
na largura matinal desta avenida mal-entregue
a nós, eventually runners, neste dominical mass ritual
(ascese)
pelo bem-estar universal

ofuscam os obstáculos
(tentáculos a tentar abraços)
de cada passo desta surda e ruidosa
e calosa e sedentária - dolorosa e solitária
corrida cinquentenária.

Por tais passadas
entre eles, declaro

(quieto o pensamento
honesto o sentimento
num agradecimento

insinuado neste aperto
da boca ressecada)

que corro por nada:

- nem por saúde, ou o prazer
amiúde de percorrer
com o olhar.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

PRELIMINAR

Depois de tanto tempo
de assim mesmos - do calendário
obeso

(comigo quando? por quanto peso?
retardatário
não lembro)

De esquecer-me, por dentro
de um canto, num silêncio
jazigo - de já ditos
(em termos)

Venho, a tempo
(que seja vento, e forte)
De varrer-me, de sorte
que volte

E não mais me evite:
- e drible o drible
do deus-me-livre
que se omite.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Enfim

... retornar a este espaço é possível? Somente, creio, se a poesia apresentar-se novamente como desafio - e um prazer imenso, meticulosamente cerzido, como outrora.

É hora?

domingo, 5 de julho de 2009

TORPEDOS ESQUECIDOS

... aqui, a brise é doce /
e o agora, suave /
como se só bastasse /
um triz da tua imagem /
(mas sei, e não tarde /
que é só quase...)

04/02/09, às 11:28:06

***

... torpedo /
sumido /
dum beijo /
perdido /
que deixo /
urdido /
no tempo /
que giro /
e esqueço /
consigo... /
(mas disso /
me lembro /
contigo /
eu mesmo)

17/03/09, às 10:29:03

terça-feira, 21 de abril de 2009

NO CAMINHO

Parado
a tempo
do escuro
no silêncio

escuto

(fatídico)

o movimento
granítico
do momento
absoluto.

Da relação entre mito e poesia

"O mito é como um organismo: desenvolve-se, transforma-se e se renova sem cessar. É o poeta que realiza essa transformação. Mas não a realiza em obediência a um simples desejo arbitrário. O poeta estrutura uma nova forma de vida para o seu tempo e interpreta o mito de acordo com as suas novas evidências interiores. O mito só se mantém vivo por meio da contínua metamorfose da sua idéia. Mas a idéia nova é transportada pelo veículo seguro do mito."

Werner Jaeger, Paidéia: a formação do homem grego. Tradução de Artur M. Parreira. São Paulo: Martins Fontes, 2001 (4ª ed.), p. 96.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Homero como educador

"A arte tem um poder ilimitado de conversão espiritual. É o que os Gregos chamaram psicagogia. Só ela possui ao mesmo tempo a validade universal e a plenitude imediata e viva, que são as condições mais importantes da ação educativa. Pela união destas duas modalidades de ação espiritual, ela supera ao mesmo tempo a vida real e a reflexão filosófica. A vida possui a plenitude de sentido, mas as suas experiências carecem de valor universal. Sofrem demais a interferência dos sucessos acidentais para que a sua impressão possa alcançar sempre o grau máximo de profundidade. A filosofia e a reflexão atingem a universalidade e penetram na essência das coisas. Mas atuam somente naqueles cujos pensamentos chegam a adquirir a intensidade de uma vivência pessoal. Daqui resulta que a poesia tem vantagem sobre qualquer ensino intelectual e verdade racional, assim como sobre as meras experiências acidentais da vida do indivíduo. É mais filosófica que a vida real (se nos é lícito ampliar o sentido de uma conhecida frase de Aristóteles), mas é, ao mesmo tempo, pela concentração de sua realidade espiritual, mais vital que o conhecimento filosófico."

Werner Jaeger, Paidéia: a formação do homem grego. Tradução de Artur M. Parreira. São Paulo: Martins Fontes, 2001 (4ª ed.), p. 63.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Recado a Pierre

Meu querido, não se aborreça com silêncios. Aquieto-me porque insignificante diante da imensidão de tudo que acontece comigo. Aquieto-me porque, prosaico, abraço o arcaico: tornei-me integralmente sofista sem talento, a vender-se oralmente somente àqueles dispostos a mensalidades. Todas as manhãs úteis, e três dias à noite. Atendo pela alcunha "professor"...

sábado, 10 de janeiro de 2009

Nunca ali estive

Este blog não está morto. Ainda. É que atravesso outro território - onde folhas e flores trocam cores, e frutos vitimam pássaros e formigas; onde prados são escarpados, e vizinha a mais remota montanha. Absorto, observo: embora sinta o ar mudar de lugar, e os passos sigam a hora lassa de agora, eternamente logo retornarei (eu sinto, é óbvio)...

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

TORPEDOS XXV

... as muitas coisas /
que quase doidas /
passeiam loiras /
apenas moitas /
clareiam a mão /
(da imaginação) /
de escuridão...

27/10/08, às 21:58:51

***

... este ardor /
é calor /
a torpor /
nosso amor...

30/10/08, às 08:44:58

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

TORPEDEIRO

... torpedeio /
teu bloqueio /
porque meio /
não se veio...

02/10/08, às 09:11:58

***

... torpedeio /
teu bloqueio /
de anseios /
corriqueiros...

02/10/08, às 09:27:08

***

... torpedeio /
os teus seios /
dos meus beijos /
doutros jeitos...

02/10/08, às 09:34:09

***

... torpedeio /
e protejo: /
permaneço /
remanesço /
e aquiesço /
por um preço...

02/10/08, às 09:42:41

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

SETEMBRO

Ante o fim da seca
Nos confins da gente
(onde a porta emperra
mal a alma geme)

Há uma luz que deita
Só e fracamente
De má consciência
Por sobrevivente

À desnatureza
Que naturalmente
Mostra-se dureza

Mesmo umedecida:
- Desde quase sempre
verde expectativa...

sábado, 4 de outubro de 2008

TORPEDOS XXIV

... tu'água /
(que nado) /
deságua /
n'anágua /
por nada...

02/10/08, às 08:50:25

***

... esta boca /
só te solta /
se já hora /
bate à porta...

02/10/08, às 09:00:38

TORPEDO XXIII

... sono - um sono /
de nenhum sonho /
que fosse escombro /
de hoje outono...

02/10/08, às 08:32:15

sábado, 27 de setembro de 2008

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

QUESTÃO DE ESTAÇÃO

A questão
(da transição)
Da estação:

- Se chuva vinha

se convinha

(ao parasita)

não soube; mas vizinha

à seca ministra

(quer visita)

não houve.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

OUTRO TORPEDO

... meu amor tece /
breve /
um leve /
rumor de prece /
que permanece...

19/09/08, às 20:12:17

UM TORPEDO

... parado, o ar encosta /
inclinado, à memória /
daquelas horas, de hordas /
crepitando langorosas...

11/09/08, às 20:32:05

domingo, 14 de setembro de 2008

EXPLICAÇÃO

Não há tempo de escrever poesia
Não há desejo, vontade espicaçada
De ressentida - um avesso de vida

A felicidade é estéril
Não rima com fértil
Com arte, destarte
À míngua

Não combina, erétil
Carpe diem diarista

Não nessa língua...

terça-feira, 9 de setembro de 2008

TORPEDO MINERAL

... que animal /
tão vegetal /
este específico /
estar geral...

08/09/08, às 16:00:26

domingo, 7 de setembro de 2008

TORPEDOS AVULSOS

... e é lá /
bem longe /
o de cá /
horizonte...

04/07/08, às 16:50:02

***

... minha, companheira /
amada, solteira /
tua falta, certeira /
sem eira, me deixa /
à beira de queixa /
quiçá verdadeira...

25/07/08, às 21:20:46

***

... o tapete invertido /
traz, acima escondido /
um mistério passivo /
de si contemplativo...

28/08/08, às 18:09:25

sábado, 6 de setembro de 2008

TORPEDOS DESMEMORIADOS

... teu hábito /
do hálito /
perfumado /
por acaso /
é estória /
da memória /
desgostosa /
do agora...

23/07/08, às 15:09:24

***

... da fresta da memória /
vem sempre uma estória /
de como, por agora /
demoro nesta hora...

23/07/08, às 15:23:24

***

... a festa da memória /
é sempre uma estória /
de como, quando febris /
(do quanto somos febris) /
repomos pingos nos is...

29/08/08, às 09:23:02

domingo, 31 de agosto de 2008

Hiato agostino

Viver substituiu qualquer outra coisa. Impressão de que definitivamente. Impressionante: todas as unidades parecem extrapolar - pólvoras espaço-temporais.

Logo que pudesse, daria início à série Prazeres domésticos... Quem sabe sem necessariamente num buraco negro?

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Hiato julino

... neste mês, predominou viver - e ler - sobre escrever. Quando bem se vive e muito se lê, o tempo bojudo toma conta de tudo...

domingo, 22 de junho de 2008

TORPEDOS XXIII

... espere /
que, breve /
(ultraleve) /
rei serei /
sob a seda branca /
da luz que anda...

18/06/08, às 11:23:02

***

... a minha tese /
e tua antítese /
têm na ascese /
(do que padece /
de boa índole) /
a sua síntese...

18/06/08, às 21:48:45

***

... visto que a noite /
frio de açoite /
cede o pernoite /
vou, e que me espere /
(se for doce e leve) /
meu ninho em breve...

20/06/08, às 22:18:33

***

... não demoro /
porque gosto /
(e re-gosto /
a teu gosto...)

20/06/08, às 22:29:36

segunda-feira, 9 de junho de 2008

TORPEDO XXII

... sim, fiz /
com bis /
(eu quis) /
e vis /
a vis /
que diz /
"abris!" /
(e giz /
na tez /
feliz /
de vez...)

09/06/08, às 11:20:58

sexta-feira, 6 de junho de 2008

TORPEDOS XXII

... eu rio /
de frio /
o frio /
do rio...

03/06/08, às 10:41:50

***

... camadas de ar /
descem devagar /
para abrigar /
este acobertar /
da hora a vagar...

03/06/08, às 10:52:06

***

... te amo /
e tanto /
que quando /
o quanto /
levanto /
assomo /
assombro /
d'escombro...

03/06/08, às 11:01:01

sábado, 24 de maio de 2008

sexta-feira, 23 de maio de 2008

A FORÇA DE UM

Uma gota
Sequer, gota
Conta, se gota
Boa.

No conta-gota
Do tempo à toa
A gravidade, a força
Do que ressoa

(se justa, se bela, se doa)

Predomina - a pessoa.

TORPEDOS CINZENTOS

... a saudade /
da idade /
só me bate /
quando arde /
(tal maldade) /
cedo ou tarde...

19/05/08, às 10:47:52

***

... se triste a poesia /
se mesmo descabida /
amo-a de partida /
para dar vez à vida...

19/05/08, às 10:59:53

***

... e se for, que importa /
tanto amor, se a hora /
toda amargor agora /
muito interior devora /
mesmo a dor, por fora?...

20/05/08, às 19:46:46

TORPEDO DA MEMÓRIA

... fresca /
recente /
luminosa /
passas clara /
(na memória) /
pela clarabóia...

19/05/08, às 10:27:16

sábado, 17 de maio de 2008

DESDOBRADIÇO

Todas rupturas
Ferem costuras
(paciências do presente)
Segundo repulsas
Estupidamente

Por todos lados - pilhas de fatos
Constrangedores, carentes vereadores
De poentes verdadeiramente

Interessados
Na gente.

Descansamos. O fardo dum coração pesado
Quebrado, encarnado a vácuo

Vem com a dor - ente ambíguo
Não sabido vegetal, ou mineral
Se animal divino, demônio angelical
De tudo o fundo absoluto, resoluto

Num pio

Veludo, reconfortante, enganador
Macio de amor...

TORPEDO SÓ

... quero o colo /
que adoro /
(porque toco /
o teu solo) /
pr'adormecer /
este querer
de você ter /
e mais poder...

16/05/08, às 20:48:09

terça-feira, 6 de maio de 2008

TORPEDOS REFLEXIVOS

... meus torpedos /
são tormentos /
agridoces /
das mil cores /
do só querer /
(e não poder) /
te ver terçã /
toda manhã...

28/04/08, às 10:43:00

***

... um torpedo /
a contento /
fragmento /
tempo adentro /
avizinha /
da tua vida /
a que é minha /
indevida...

02/05/08, às 13:38:07

domingo, 4 de maio de 2008

TORPEDOS XXI

... hoje estive /
num declive /
sem deslize /
que sentisse /
(mas eu disse /
tal acinte /
e desdisse /
qual pedinte) /
inclusive...

24/04/08, às 21:41:33

***

... uma brecha /
à distância duma flecha /
em curva /
abrupta /
encurta /
esta ânsia matutina...

28/04/08, às 09:14:44

sábado, 3 de maio de 2008

TORPEDO XXI

... eu acho /
(não raro) /
que lavro /
orvalho /
num jarro /
teu vasto /
carvalho /
dum maio /
dourado...

23/04/08, às 21:48:31

quinta-feira, 1 de maio de 2008

DUAS BALAS

... a lua /
é nua /
na rua /
se tua...

23/04/08, às 20:29:57

***

... senão /
é sim /
então /
tim-tim?...

23/04/08, às 20:37:21

quarta-feira, 30 de abril de 2008

BÁRDICO TORPEDO

... meu amor /
que má dor /
o calor /
de supor /
teu mentor /
um vetor /
a dispor /
antemão /
de razão /
(coração?...)

22/04/08, às 09:51:07

terça-feira, 29 de abril de 2008

TORPEDO XX

... um pio /
assovio /
de tuiuiú perdido /
cortou o ar /
(inadvertido) /
que desvio para o mar...

22/04/08, às 09:31:04

segunda-feira, 28 de abril de 2008

TORPEDOS XX

... o cansaço /
é mormaço /
que me lembra /
a água fresca /
da tua presença...

15/04/08, às 09:30:06

***

... do silêncio das paredes /
a memória de prazeres /
antecede os quereres /
que não tarde os deveres /
hão de ser antes de teres...

17/04/08, às 18:00:32

***

... embora norte /
(embora a sorte) /
você não pode /
o que eu posso: /
olhar defronte /
e ver a fonte /
lugar aonde /
eu simples moro...

19/04/08, às 10:17:12

***

... visto que o presente /
ontem teve um poente /
e hoje, de repente /
te vi lua crescente /
sigo astros, mormente /
astrologicamente...

22/04/08, às 08:18:30

domingo, 27 de abril de 2008

COLEIRA

Não escrevi mais
Por não precisar demais
Aquelas coisas tais
Que urtigam barcos no cais.

Não descrevi mais
Porque o talento da ambição
O desejo do impulso a mais
Não dessalgaram a questão.

Só o cão do vizinho
No seu parco destino
Tão circunscrito

Ao latido querer
O dever reverter
Eu mediocrizo.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

TORPEDO LUNÁTICO

... há uma jóia suspensa no céu /
e eu queria estar cá /
ao léu /
para contemplar /
o céu /
eu breu enluarado /
ao léu...

08/04/08, às 19:16:15

sábado, 5 de abril de 2008

TORPEDO E FRAGMENTO

... sob o sol /
girassol /
sou, e mal /
torto a tal /
ponto, qual /
bom sinal /
ao final...

01/04/08, às 11:30:09

***

... no pau-de-arara /
a veia cava /
só te chamava...

03/04/08, às 09:18:34

quinta-feira, 3 de abril de 2008

TORPEDO XIX

... o meu amor /
não vem da flor /
(nem por amor /
da rosa cor): /
vem do labor /
com que ardor /
roubo calor /
do sol-de-pôr...

29/03/08, às 14:19:56

quarta-feira, 2 de abril de 2008

TORPEDOS GEOGRÁFICOS

... o sol abriu /
no azul anil /
comigo a mil /
milhas de ti /
sem colorir /
um colibri /
deste Brasil /
em Paraty...

25/03/08, às 11:05:56

***

... em Goiânia /
nossa ânsia /
de estância /
foi tamanha /
que saímos /
pianinhos /
na debanda...

25/03/08, às 11:30:22

terça-feira, 1 de abril de 2008

TORPEDOS XIX

... o sol das plantas /
de flores tantas /
invejo - por ter /
(seu morno beijo) /
acesso ao ser /
que mal desejo /
das entranhas!...

19/03/08, às 14:12:46

***

... por sobre a grama /
aquele que ama /
te mira - e acerta /
retinha, a flecha /
com tal, qual arte? /
que nele mal cabe...

22/03/08, às 11:55:03

sexta-feira, 28 de março de 2008

CONSCIÊNCIA CORPORAL

O uso
Avulso
Do pulso

Do chão
(o apoio)
Aos céus
(num arrojo)

E másculo - o músculo

Impele - de todo

Tudo:

- Desde que sorvido
prático, o sumo
suco que abundo.

quinta-feira, 27 de março de 2008

TEMPO E POESIA: TORPEDOS

... sábado /
quiçá domingo: /
tempo tinto /
e vário /
de antepasto /
com afinco /
desmedido /
do tecido /
há fino /
partilhado...

15/03/08, às 11:46:35

***

... quando cinza /
o dia /
a vida /
lida, a poesia /
acalma /
anima /
e conforta: /
e, uma hora /
nos mostra /
próxima /
a porta...

18/03/08, às 19:54:11

quarta-feira, 19 de março de 2008

TORPEDOS XVIII

... neste momento /
um fragmento /
de pensamento /
de ti ao vento /
pousou atento /
ao que sou lento /
noutro momento...

13/03/08, às 12:04:28

***

... o azul veludo /
do céu escuro /
respiro fundo /
quando sozinho /
(e só contigo) /
caminho limpo /
o chão que piso...

13/03/08, às 20:05:39

segunda-feira, 17 de março de 2008

TORPEDOS FILOSÓFICOS

... segue meu 'te amo' /
romântico /
semanticamente /
cândido /
cartesianamente /
(entretanto) /
plano sintético /
desse mistério...

10/03/08, às 13:13:47

***

... Tadeusz /
rima com Deus /
rima com meus /
medos teus /
seios de cristal delicado: /
um sonho-pássaro /
a pedir tanto cuidado...

12/03/08, às 18:30:23

domingo, 9 de março de 2008

O ESTRANHO MUNDO DO SÉRGIO

Deito-me, quieto.

Penso-me, decerto
No tranqüilo limbo acolchoado
Descolado do resto.

Membros, eu peso
E deles vos despeço
Conceitualmente incompleto; deito-me

Horizonte, a nascente
Levemente contente
Sorvendo por trás o poente...

Chumbo. Solda. Pouco
Sou antes da hora

Insuficiente. Mortiço, só
Literariamente

Já que muito me desmente.

sábado, 8 de março de 2008

TORPEDO XVIII

... embotado, sou /
ar compacto /
recortado, ou /
do redor, ato /
mitigado, vou /
abalroado...

03/03/08, às 15:44:01

TORPEDOS DO AMOR ESCANCARADO

... cadê meu pretexto /
pra te ver, um contexto /
que nos dê, a contento /
o que seja, sem alarde /
antes cedo que tarde?...

27/02/08, às 11:35:35

***

... meu amor /
a consciência do amor /
é dor /
e cor: /
consciência da flor...

03/03/08, às 17:37:33

***

... no décimo-quinto dia /
pensei no que eu traria /
ao amor que ilumina /
teus passos de escolhida...

05/03/08, às 17:54:38

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

TORPEDOS XVII

... sangue /
murmurante /
espada /
flamejante: /
a memória /
tesa, flácida /
da refrega /
doce, áspera /
da espera /
encontrada...

25/02/08, às 13:59:06

***

... a consciência /
do que aspiro /
não é a mesma /
da que expiro: /
a diferença /
está contigo...

25/02/08, às 18:15:36

***

... teus olhos /
inda nebulosos /
e orvalhados /
(recém-acordados) /
residem rotineiros /
(da retina vizinhos) /
no meu dia ao meio...

26/02/08, às 11:30:49

***

... nas Casas Bahia /
junto à freguesia /
da sala, da cozinha /
da lavanderia /
morro em pé, nesta fila /
só por tua companhia...

26/02/08, às 15:35:15

domingo, 24 de fevereiro de 2008

TORPEDO XVII

... teu perfume /
(meu costume) /
alimenta /
a presente consciência /
dessa calma abstinência: /
a certeza /
enfim de resolvê-la...

22/02/08, às 10:33:37

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

TORPEDO ZEN

... hoje medi /
e meditei /
(e se vi /
aí não sei /
mas revivi) /
sentindo que /
por ser daqui /
a bem querer /
reconheci...

20/02/08, às 14:16:44

domingo, 17 de fevereiro de 2008

TOMADA DE POSIÇÃO

Sem televisão: contato mínimo com a conjuntura
Sem pressa - na superfície passadiça que perdura
As mãos nos ossos da estrutura

Yôga, descompressão, literatura
Conversação com quem me atura
Delicadeza, antevisão, compostura

Paciência:

- Desta vez, eu no comando
das exigências do que amo.

LONGÍNQUA

Longínqua, és linda
Hipermetropia; nuvem
Cujo cinza esfria, algodão
(quando à mão convém)
Que baixo principia solidão;

Longínqua, dali turvas
Mil atenções das curvas
Untadas de neblina; os sãos
(os que desviam de antemão)
São teus fantasmas nesta via;

Longínqua, de lá secas
Minha língua paladina
Para coisas que se ditas
(inações correspondidas)
Pelas coxas trairias;

Longínqua, és olímpica
A quarteirões de vista:
- Se dura água-marinha
da razão mais cristalina
por que tanto quererias
tão errada companhia?

- E longínqua dos meus dedos
(da beleza dos momentos)
maldirias a rotina
da delícia dos folguedos
requebrando os brinquedos
redeixados ao relento?...

- E mais longe, indiferente
à coisa vária que altera
de remédios a comédias
que questões esquecerias
(quais senões recordarias)
da gravidade que encerras?

Longínqua, seda fina
Se quiseres, mais ainda
Ser pandorga pela vida
(tua turística ambrosia)
Solte a linha, solte a linha!...

(daqui, maravilhado
do teu poder multiplicá-lo
Dédalo enraizado
torcerei por um bom clima)

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

GRAVIDADE ZERO

Enquanto, recoleto
Repasso, circunspecto
Os mínimos parvos gestos
Do trivial funcional no deserto

A menos de um centímetro
Do imenso inteligível
De um ângulo apreensível
Do âmbito hipodérmico insensível
Que anestésico sinto

Desmorono, suavezinho
Retroativo - retrospectivo

Sem empuxos, repuxos, muxoxos
Parco, solto - graniticamente disposto
Numa linha do destino, opaco
Vezes asno resoluto

Até o vácuo absoluto
Dos órgãos pulverizados
Dos acórdãos etéreos

De gravidade zero:

- Onde a casca-pólen que removo
de novo, menos leve que fútil
não é exatamente breve
(posto que útil)
para os fins a que serve.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Poema da hora

a arte de perder, na célebre apreensão de Elizabeth Bishop

"Uma arte

A arte de perder não é nenhum mistério;
tantas coisas contêm em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subseqüente
da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio da mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

- Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escrevo!) muito sério."

Elizabeth Bishop, O iceberg imaginário e outros poemas. Tradução de Paulo Henriques Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, p. 309.