sexta-feira, 27 de abril de 2012

MARÍTIMA

Encostado

na parede

fotografo

uma rede

nela feixe

dela peixe:

costurado

namorado.

[um pescado
que aproveite
ao azeite
congelado]

sexta-feira, 20 de abril de 2012

DO MAIS SECO AZUL

Um raio tácito
pouco esperado
por para-raios

(especulado
naqueles sábados
de apenas traço)

caiu, com certeza:

- tripartiu a cesta
azedando a sexta

tal a aspereza.

Que muito envelheça
(em razão dos desagravos)

a circunstância da esperteza

aceita-se como da natureza;

que caia defasado de mais tempo ido
(numa paródia nórdica de um deus falido)

finjo a surpresa!...

segunda-feira, 16 de abril de 2012

CONEXO COTIDIANO

O quadro da solidão absoluta
[é como]
o quadro de uma pintura sem moldura.

Uma clara atenção concentrada
sobre um tênue pedaço do nada

oculta a verdade da tela infinita:
[seja]
escura/cinza/colorida - contínua

sem nada que o substitua
[o quadro]
(porque continua);

nada que o separe da noturna

rua sob a prateada
face sem graça da lua.

Nem antes - ante o parapeito
de mais um precipício estreito

(ademais de um sonho desfeito)

o quadro da solidão absoluta

pinta a ruptura

da cósmica brutalidade
una - de qualquer realidade

última/primeira/terceira

- na segunda-feira.

sábado, 14 de abril de 2012

UM MARANHÃO

Grãos de areia de Caburé
entram em minh'alma toda
vez que uma lembrança tola
requeima a língua no café.

Areia do paraíso
equatorial que esqueço
sazonal quase impossível:
- Caburé, só distraído

face à distância do abraço
entre a memória e o fato
de não mais querê-la viva

tão longe deste cerrado
mental percorrido à míngua
ensimesmado de estivas...

[areal de Caburé:
no chão real esquina
da especulativa via até
se avistar o mundo de cima]

quarta-feira, 11 de abril de 2012

TAIS FILHAS

São três marias
(não, quatro lias)
letícias lindas
em vão meninas;

são quatro vidas
(não, trinta lidas)
contemplativas
enquanto vistas;

vê-las amigas
tão indivisas
(róseas espinhas)

lembra-me vias
quando floridas
sem herbicidas...

sábado, 7 de abril de 2012

SELETIVA

Esqueço
que o peso

de todo desprezo

é lento.

E lembro
(num susto)
que gosto de tudo

sereno.

Tanto esqueço
quanto lembro

estórias

(infeliz)
de menos.

[por um triz que se me cuide
de memórias tal virtude]

sexta-feira, 6 de abril de 2012

FORMOL INFORMAL

política num bistrô em Brasília

Gosto de tradição.
(às vezes, não)

Neste caso
(sobre a mesa ao lado)

guardo (como visão)
o cuidado

do trato à disposição:

- a exemplo do tato
murmurando um rio

à vasta navegação
(num tal desequilíbrio
que emudece os tecidos
do vestuário envolvido).

Suaves entre talheres
(muares com as mulheres)

quando harmonizam passivos
de anuências ressentidas?

(pois há sempre quem dance
a certeza do lance
antes da sobremesa)

quinta-feira, 5 de abril de 2012

À FRANCESA

a todos os carentes
atávicos, sem dentes

Depois da quinta
dose irrestrita

(periferia
do pensamento

de sentimentos
borracharia)

toca o celular:

- rima com tudo
que sufixa em ar

que amor prefixa
a condicionar

que promete vir
se o tempo ajudar...

Se der, contudo
(se meu juízo houver)

peço ao Alaor
(junto à de sair)

a conta da dor
o táxi de ir...

quarta-feira, 4 de abril de 2012

POR UM FIO

Teu timbre
ao telefone

permite
(caso estacione)

vislumbres

alhures

de longe...

segunda-feira, 2 de abril de 2012

ATEMPORAL

Será andante dama
adiante a que desperte

por este cavaleiro
seus anteriores passos?

(por este aposentado
seus interiores prados?)

Estertorantes pastos
ressecam meus cavalos

há tempos. Há veleiro
que partido navegue

este exato momento?

Vontades apascento
à vontade relendo

uns romances antigos:

- de mulheres sorrindo
à passagem (miragem)

deste eu aquiescido...

domingo, 1 de abril de 2012

HOUVESSE O AMOR LEVE

Ali não se foi antes
pois se conteve diante
dançante da surpresa
castanha que o deteve.

(tamanha ela podia
se presa tão quisesse
com pressa de quermesse
nem que esquentasse o dia)

Mas depressa - já via
(decerto ali desvia)
pediu ao fogo amigo
do bom senso restrito

do momento ausentar-se:
- ficasse sem consenso
dos nervos, por certezas
constrangido de menos...

[que tudo valeria
o nada que nadasse
- a fada que escapasse
que ludo esqueceria!...]

sábado, 24 de março de 2012

ROLLING

Enquanto espero
(fervendo interno)

na expectativa adocicada
por delícias bem-dispostas (posto
que as considero)

meus olhos erram

de mesa
(de presa)
da cesta

de moedas

etéreas que este cassino aéreo
me empresta...

quarta-feira, 21 de março de 2012

PERSPECTIVA

O horizonte total
(da absoluta inexistência de degraus)

que areja

a linha aturdida à frente da cabeça
(em dia)

talvez escureça
- tão claro o boquiaberto espaço em revista

a dita

antes que anoiteça.

segunda-feira, 19 de março de 2012

LAMENTO MUITO

Há dias não escrevo.
(talvez fingisse
que devia)

Tampouco cansado
por outras lidas.
(só ocupado)

Mas emagrecido
de mais contatos
regressivos:

- rotina contábil
(a vida retrátil)

que aos meus tratados
precariza.

domingo, 11 de março de 2012

O verso e a prosa, segundo o poeta

diferenças

"Se eu chegasse ao pé do leitor e lhe dissesse: 'Esse seu automóvel não é um veículo, porque não é puxado por cavalos', é provável que o leitor não aceitasse como bom, ou pelo menos como dito a sério, o meu argumento. Quando alguém chega ao pé de mim e me diz: 'Este poema não é poema porque está feito em linhas que não têm medida regular, que não têm rima, que se não podem medir nem ler como versos', essa pessoa [faz] uma afirmação em nada diferente daquela minha afirmação hipotética sobre o automóvel do leitor.

***

O verso difere da prosa não só materialmente, mas mentalmente. Se não diferisse, não haveria nem uma coisa nem outra, ou haveria só uma que fosse uma espécie de mistura de ambas. O estado mental que produz verso é diferente do estado mental que produz prosa. A diferença exterior entre a prosa e o verso é o ritmo; a diferença interior entre a prosa e o verso será a entre um estado mental que naturalmente se projecta em simples palavras, e um estado mental que naturalmente se projecta em ritmo feito com palavras.

***

Há ritmo na prosa, e há ritmo no verso. No verso, porém, o ritmo é essencial; na prosa não é, é acessório - uma vantagem, mas não uma necessidade. No fundo não há verso nem prosa..."

Fernando Pessoa, "Poesia e ritmo". In Obras de Fernando Pessoa, vol. III (poesia). Lisboa: Promoclube, pp. 105-106.

Aristotélico Pessoa

um apontamento

"A literatura dramática é uma subespécie de literatura narrativa, e esta uma espécie do género literatura.
A literatura é a expressão verbal de um temperamento; a literatura narrativa a forma objectiva dessa expressão verbal; a literatura dramática a forma màximente objectiva - ou seja, a forma sintética - dessa expressão objectiva. Um drama não é mais que um romance na sua forma máxima de síntese possível. É por atingir esta objectividade máxima que ele pode receber a aparência de vida, isto é, que ele pode ser simulado num palco por pessoas a que se chama actores.
As qualidades possíveis do drama resultam, portanto, de três origens. Há as que ele tem em comum com todas as formas literárias, visto que ele é literatura; há as que ele tem, mais particularmente, em comum com todas as narrativas literárias; e há as que lhe são próprias como forma màximamente sintética da narrativa literária.
Há três espécies de drama: o tipo sintético, que busca incluir em si, equilibrando-as, as três ordens de qualidades que ao drama são possíveis; o tipo analítico, que busca apresentar só as qualidades particulares e distintivas do drama; e o tipo misto, que busca reunir, conforme possa ser, as qualidades desses dois tipos.
O tipo sintético do drama atinge a sua plenitude no drama em verso. Por ser em verso atinge o máximo da expressão verbal de um temperamento, que em verso se acentua muito mais que em prosa. Por ser drama reduz essa [expressão] verbal à objectividade."

Fernando Pessoa, "Apontamento". In Obras de Fernando Pessoa, vol. III (poesia). Lisboa: Promoclube, pp. 103-104.

quinta-feira, 8 de março de 2012

FINA

E de banda
veio mínima

a lâmina
que me fulmina.

Fez a curva
(meia-lua)

reta e limpa
(não havia).

Evitá-la
descabia

(agilíssima);

simular desvio
(do fio) devia:

- a disfarçar a ida
da jugular ferida.

Ainda que esvaia
manter a linha

(de passos de praia).

[como a vida
quando grita

agonística

retinta

rejuvenescida]

segunda-feira, 5 de março de 2012

NO RITMO DA LESMA À FACA CONDENADA

a João Cabral de Melo Neto

Há um vibrato
sopesando

(mezzo atroz)

o agridoce
móvel cardo

me cortando
vagaroso

no que atento
legalmente

por tua voz.

[tratando-se
(ao telefone)

da presença
incorpórea
modulada
da memória]

domingo, 4 de março de 2012

LUZ

a Zaritè

Como não ser
previsível?

Imperturbar
tua beleza

- de estar nua
sem defesas

apressado?

Descaminhar
(rebobinar)

este filmar
precipícios?

Esquecê-los
num hospício?

As palavras
nos são caras

- certos atos
impagáveis

(e passados
e destinos);

desusá-los
impossível...

Como prever
(e te-bem-ver)

invisível?

quinta-feira, 1 de março de 2012

THE CAPTAIN CAUGHT HIS FIRST PREY

Deu pena.

Deixei apenas
gotas vermelhas

(umas dezenas)
pelo caminho.

As penas, aspirei
compungido:

- um passarinho
um filhotinho
(um desperdício).

***

Sei da natureza dele
de Cisco sobre um cístico
DNA explodindo:

- de instinto tingido à pele
do inocente que assassino
a contrapelo parece

Freddy Krueger
Jason Voorhees

simply Jack

numa segunda, 27.