segunda-feira, 7 de março de 2016

REVISITA 123: FLORIPA EM CHAMAS

53º (e último) poema de À procura de Nefertari

- qual chance de fato tive
se não lá o bastante estive
que presenteasse realmente?

Lesada a alma, o corpo, esta
boca-de-fogo entrópica
fênix derreteu-se ciclópica
à mente sem meia-volta:

- em segundos derramou discursos
átimos escuros, fundos meteoros
furos, buracos lá e cá...

- chance tivemos de fato
alguma vez lado a lado
aqui, ali - passado algum

tempo no ciberespaço?...

22/04/2006

domingo, 6 de março de 2016

QUADRA GOLPISTA III

embora desde 1500

Seja eu cretino

um imbecil

flébil mental

débil moral

ou apenas um idiota
sem consciência civil

à mercê dos espertalhões
que esbulham o Brasil

- sinto o Brasil

fértil, hostil, servil, febril
(e a depender de nós) gentil

desde aquele longínquo abril.

sábado, 5 de março de 2016

QUADRA GOLPISTA II

embora décima

A baioneta
foi dispensada

pela gazeta
toga-e-escopeta

recombinadas
como espingardas:

- como trombetas
pela sarjeta

reencenada
na madrugada.

sexta-feira, 4 de março de 2016

REVISITA 122: DECLIVE

52º poema de À procura de Nefertari

... num fio quase secreto, remanescente,
mal encoberto por toda a recente razão
que aparta a paixão doente... Ali
preso redescubro, inda em brasa febril,
a incandescente projeção de mim
que és ausente... Em mim, o presente
vivo-morto de promessas, tempo
do aborto daninho das ervas - o fim
da Eva querida que sadia serias
se vadia, a verde-escura vida
nos abrisse uma trilha
fresca, sem facões ou senões,
recrudescida... E se camaleão,
um parvo Adão pudesse ao fundo
eu ser, incondicionalmente,
por tua certeza de eternamente...

19/02/2006

quinta-feira, 3 de março de 2016

AMOR À TARDE

A tarde

rodeio
de enleios:

- meneios
floreio

e os cheios
torneio.

À tarde

asseio
passeios

gorjeio
correios

e esteio
teus seios.

É tarde!

- sorteio
custeios

arreios
(seus freios)

e enfeio
uns meios.

E tarde

(alheio)

receios
folheio:

- a tarde

de anseios
não veio.

quarta-feira, 2 de março de 2016

QUADRA ATÔMICA

de venda e compra

Fácil, difícil

grácil (o míssil)

ágil - é císsil

[frágil de físsil]

terça-feira, 1 de março de 2016

REVISITA 121: DA FIDELIDADE

51º poema de À procura de Nefertari

Nem quando sincera, pediste
Ou mesmo terna, ignoraste;
Quando desventurada, achaste
Que desarmada, a cumplicidade

Do dragão teria;

Nem quando pensaste, desiludida
E pronta descartaste, como fortuita;
Quando desesperada, ordenaste
Que pelos ares, toda voasse

Foste atendida;

E menos ainda, quando sozinha
Te imaginaste, na mais escura
E erma passagem; num grotão
Avesso qualquer, da realidade

- eu soltei a tua mão.

26/11/2005

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

MINGUANTE II

Meu corpo irá durar
enquanto eu precisar.

Ele perdurará
enquanto seu xará

apesar do pesar
de pesar e pesar.

Embora um dia vá
embora do sofá

- da besteira de andar
à cadeira de andar

(e desta a um feio algar) -

meio corpo haverá
aqui antes de acolá:

- porque corpo solar
numa fase lunar.

DO VENTILADOR

curto o circuito

O noticiário

- seu comentário
vocabulário
itinerário;

- seus proprietários
e secretários
e adversários;

- seus corolários
porque breviários
porque arbitrários
(porque contrários) -

será ao contrário

seu temerário

destinatário.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

PREGUIÇOSOS

Um dia de sol

e eu com terçol

na alma.

...

Um dia de sol

e ele com tersol

nas mãos

(contra a escuridão)

...

[um dia de sol

(de guarda-sóis)

e ela nos lençóis

ainda]

sábado, 27 de fevereiro de 2016

QUADRA SUBJACENTE

[este langor ao escrever
(nesse torpor fingir sofrer)

vem de um amor a prescrever
(seu dissabor reconhecer)]

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

QUADRA A VACUUM

No século vinte e um

um régulo, de algum

há muito é de nenhum

(há muitos, e nenhum)

DECOREBA

paturebas

Nas fileiras
de cadeiras

encadeiam
tal conversa

por escadas
obversas

(de sacadas
submersas)

numa escala
adversa

[porque odeiam
bibliotecas]:

- esvaziam
as palavras

que extraviam
de outras lavras...

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

QUADRA GOLPISTA

embora setilha

A fala licenciosa

da mente facciosa
de gente fastidiosa

conjura, prodigiosa
conspira, pretensiosa

(prepara, silenciosa)

ciosa de si, ansiosa...

DO PROFESSOR GASTO

A sala vazia

das aulas cerzidas
modernas cantigas
(entre outras fadigas)

ecoa, vívida

coisa mais antiga
que pedagogias.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

REVISITA 120: HIATOS PREENCHIDOS

50º poema de À procura de Nefertari

Sopra suave aquela brisa
de algum lugar além daqui:

- pressentir a sua doçura
machuca, como se flores
de todas as cores esmaecidas
despetalassem inadvertidas
do que vive em mim de ti.

Toca uma canção inesquecível
num canto qualquer, inacessível:

- sabê-la festiva, no íntimo
fere de silêncios o ouvido;
e não me consola a ciência
de senti-la melodia de uma hora
menos serena que a nossa.

Paira entre versos, inimiga
a sombra de outra vida mais querida:

- pois aqui hesita nos vestígios
claros dos teus olhos límpidos
tão adorados - e fugidia
que às vezes parece teus lábios
furtiva num meio-sorriso.

15/11/2005

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

DO VALOR DA VISÃO

O preço de enxergar à frente

(e o custo de se fazer frente)

é o mediano medo da gente
(a mediocridade vigente)

face à aurora próxima ao poente

(anterior ao próximo expoente)

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

GISMONTI: ÁGUA E VINHO

álbum, canção

Adivinho

meu coração

num coração rapazinho;

num coração com espinhos
de sentimentos vizinhos

meu coração ribeirinho:

- embarcação sem alinho
(verde o timão na contramão)

enamorado e sozinho;

destemperado mocinho
inclinado a desatenções

burburinhos

trepidações

torvelinhos;

a inspirações

descaminhos

e abreviações

(de destinos...)

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Na Comercial da 413 Norte

o melhor poema de rua dos últimos tempos

"Fazer cocô

é obrigatório.

Fazer merda

é opcional."

REVISITA 119: DO PONTO ONDE NOS ENCONTRAMOS

49º poema de À procura de Nefertari

- o que há de tão errado
na fast curve do tempo
(à luz daquele cruzamento)
que circunscreva o espaço

de manobra necessário
ao suave pisar do freio
impeditivo (tormento!)
de espatifar-se o sentimento?

- o que há de tão difícil
(à luz daquele cruzamento)
em tratar-se, de início

do mergulho-equipamento
que a tua dor (de amor ileso)
resgataria do abismo?...

30/10/2005