sábado, 9 de abril de 2016

REVISITA 128: ETÍLICA III

Desta vez
não haverá outros colchões
de carne macia.

Cuidarei das asperezas da perda
como quem corre nu
por uma mata de espinhos.

Nada de anestésicos
entretimentos
consolos de qualquer tipo:

- tratarei da tua perda
como quem sai do velório
de um ente querido.

10/03/1999

sexta-feira, 8 de abril de 2016

REVISITA 127: ETÍLICA II

Bem que podíamos
ser o que quiséssemos;
tratar francamente
das coisas do nosso encanto;
seríamos felizes, estou certo
num castelo solidamente erigido
em meio ao caos.

Mas intercomunicantes
vasos indispomos
invólucros que somos.

Seguir assim, esqueçamos!
Se desconhecemos
que almas temos:

- se asas recolhemos
e patas escolhemos!...

10/03/1999, 27/12/2001

quinta-feira, 7 de abril de 2016

REVISITA 126: ETÍLICA


Num canto de agenda
recomeça o suplício
do ter o que dizer
e não saber como fazer.

Travada, a palavra pede
o óleo de uma cerveja de beirute;
solta e imatura, a dita cuja, enfim
agride a literatura.

Melhor calar, e contemplar
o silêncio das mesas vazias
do meu bar eventual;
de esperanças flertando frustrações
à espera de nada.

10/03/1999

QUADRA BACTERIANA

pós-virótica

O corpo tosse
(a alma sofre)

[como meu fosse
comeu enxofre]

segunda-feira, 4 de abril de 2016

INTERESTADUAL

Pau de arara

- a quebrada
(esta estrada)

quando acaba?

Bem rodada
nau que vaga
pela plaga

- quando para?

Mal que sara

vê-lo seco
(tal qual sê-lo)

- que repara
pela graça?

- quanto paga
de desgraça?

Pau de arara

- onde acabo

quanto acaba
da jornada?...

28/03/16

REVISITA 125: BUENA VISTA SOCIAL CLUB

É a música daquela ilha
tão além de qualquer tempo que espaçar aspiraria
quanto bela fantasia; nos meus termos, que desconheço
é a dona estranha amiga dos salões escuros que abrigo.
Vem de um lugar distante - se próximo, questão não faria
de evitar a morte rubra das tardes de vento fresco:

- porque as imagens da ilha dançam aquela música
em pistas inacessíveis da imaginação;
faces quase reconhecíveis, perfumes fundamente gravados
no que há de então remoto em mim.

(ali, a vontade de ir, colada num calor prenhe de desejos
quer ter nunca de voltar ao barro das certezas que não certificam)

Sonho com a ilha daquela música
febril e molemente; respirando gardênias
entre corpos que pressinto; sorvendo a água morna
das poças de uma chuva para além daqui.
Mas aqui, paralisado de ir ou menear, de virar
e dormir, estaco - entre paredes que impossibilitam.

A tortura de viver tão longe de Buena Vista
aquém dos sentidos de um destino cultivado
em sons e passos, não mata de todo.
Mesmo atado, quase assim morto
sei ainda do paraíso que ouço:

- a música do passado, que a mim tem protegido
do ferir impiedoso do mundo
pergunta-me afinal - onde haveria
de cair a tarde última, rubra, de vento fresco?...

06/03/1999

sexta-feira, 1 de abril de 2016

QUADRA ANTIGOLPISTA

Brasília, 31 de março de 2016

Quando a diversidade
da vida em sociedade

tem a oportunidade
senão de explicitá-la

- a coisa misturada
nas veias da cidade
então comunitária -

à tarde (talvez tarde)

a noite ensolarada
avance a madrugada!...

quinta-feira, 31 de março de 2016

REVISITA 124: GATO PRETO

a Paw

Espelho de mim, ensina-me a caminhar maneiro, perfeito
Pelos becos e ruelas do meu bairro turvo, leito de sombras
Por entre pedras redondas, onde sem quedas ou percalços
Desapercebido iria, o passo mudo entre vultos familiares...

Na vizinhança calma dos sentidos, felino, o olhar vítreo
Brincaria de ser meu teu par amarelo de contas de brilho
Rasgos luzidios no negro hiato dum silêncio emparedado
Coalhada a mente de andares virgens e lugares esboçados...

O que de ti percorrido sou, reflexo alquebrado de fundo falso
Lago fugidio de telhados escuros que ligeiros passeiam, altos
Solicita o arranjo noturno do que não vejo sob as horas claras;

Dos impulsos que retenho impassível face à madrugada opaca
No vento quieto, agasalho frio de esperanças a fio natimortas
Nutro o desejo morno do teu equilíbrio suspenso em estrelas...

17/04/1997

Nota sobre o Projeto Revisitas

Este Projeto chega finalmente à sua última fase - pouco mais de três dezenas de poemas, escritos entre 1997 e 2006, reunidos numa pasta intitulada "poemas soltos".

Os critérios para a sua seleção e postagem, já mencionados neste blog, continuam os mesmos.

M. B.

quarta-feira, 30 de março de 2016

NOTA PREGRESSA

desde Belmiro?

Não há poesia
que conseguisse

naquela vida
que lhes servisse

nem nesta. Vidas
que conduzissem

sem as vertigens
de algaravias

icterícias
de companhias

de portarias
capitanias

[de aleivosias
que nos maldigam

desde a província]

27/03/16

MANHÃ JUIZ-FORANA

O sol do Paraibuna

sai. Caem, uma a uma

as luas de suas ruas

despetalando nuas

(anzóis no Paraibuna)

27/03/16

terça-feira, 29 de março de 2016

ANIVERSÁRIO JUIZ-FORANO

singular e inesquecível

A festa das irmãs

(seresta da mamã)

gerou algum afã

de alguma lida grã

no círculo do clã;

a festa das irmãs

(à testa outras irmãs)

entre alegrias fãs

cevou condutas chãs

no círculo do clã;

a festa das irmãs

levou disputas vãs

(arestas pra amanhã)

pro colo dos divãs

no círculo do clã;

a festa das irmãs

intumesceu titãs

e envaideceu terçã

aquelas sabichãs

do círculo do clã...

...

[na festa das irmãs

a besta sem elã

que fui pela manhã

(os dentes nas maçãs)

trataram de tantã;

mas graças a Tupã

num desses amanhãs

recordarei louçã

(na boca uma hortelã)

da festa das irmãs]

quarta-feira, 23 de março de 2016

INFECCIOSA

à senhora da última semana

A dengue
consegue:

- canhengue
me segue

derrengue
que pegue

de um jegue
que rengue

xerengue
me entregue

perrengue
que chegue

e dengue
prossegue...

terça-feira, 15 de março de 2016

segunda-feira, 14 de março de 2016

QUADRA GOLPISTA VI

a propósito da recepção a Aécio Neves, Geraldo Alckmin
e Marta Suplicy na passeata de ontem em São Paulo

Vosso ovo da serpente

chocado diligente

irrompe (de repente!)

chocalhos insolentes...

domingo, 13 de março de 2016

QUADRA GOLPISTA V

embora soneteie a décima treva em marcha

Há o ar irrespirável

e a água corrompida;

o fogo incontrolável

e a terra consumida.

...

[desse quadro notável
um outro, adaptável

(cronicamente instável
perfeitamente em dia

com o antro inabitável
vipéreo das porfias)

emerge, abominável
auspício da neblina

(propício à surdina
cinérea das rapinas)]

quinta-feira, 10 de março de 2016

QUADRA GOLPISTA IV

embora relativa ao quarto dia deste março

Ao que ladra
pela vara

a sua tara
descarada

(e dispara
a culatra):

- por que ladras
entre ladrões?

- aceitação?
- bajulações?

(contracapas
de alguns patrões?)

- suposições?
- convicções?

- outras searas?...

- outros balões?...

...

[ao que ladra
por atenção:

- não se enquadra
percepções!...]

quarta-feira, 9 de março de 2016

PASTORIL

Não gosto dos sonhos que tenho
(aqueles que acordam no cenho).

Desgosto dos sonhos que tenho.

Noite à tarde, tarde cedo
cedo o dia ou dia ao meio

são melancólicos. Remotos.
Zigotos. Brotos. Ignotos.

São verdes e rotos. Neles nada empenho
porque nada desempenho.

Imoto piloto
da vida em que venho

pergunto que engenho
simbólico (católico, diabólico)

desenho ou desdenho

quando sonho e pesadelo
cada vez são mais o mesmo:

- em vez de sonhos bucólicos
por que não sonos bucólicos?...

(não gosto dos sonos que tenho)

segunda-feira, 7 de março de 2016

REVISITA 123: FLORIPA EM CHAMAS

53º (e último) poema de À procura de Nefertari

- qual chance de fato tive
se não lá o bastante estive
que presenteasse realmente?

Lesada a alma, o corpo, esta
boca-de-fogo entrópica
fênix derreteu-se ciclópica
à mente sem meia-volta:

- em segundos derramou discursos
átimos escuros, fundos meteoros
furos, buracos lá e cá...

- chance tivemos de fato
alguma vez lado a lado
aqui, ali - passado algum

tempo no ciberespaço?...

22/04/2006

domingo, 6 de março de 2016

QUADRA GOLPISTA III

embora desde 1500

Seja eu cretino

um imbecil

flébil mental

débil moral

ou apenas um idiota
sem consciência civil

à mercê dos espertalhões
que esbulham o Brasil

- sinto o Brasil

fértil, hostil, servil, febril
(e a depender de nós) gentil

desde aquele longínquo abril.

sábado, 5 de março de 2016

QUADRA GOLPISTA II

embora décima

A baioneta
foi dispensada

pela gazeta
toga-e-escopeta

recombinadas
como espingardas:

- como trombetas
pela sarjeta

reencenada
na madrugada.

sexta-feira, 4 de março de 2016

REVISITA 122: DECLIVE

52º poema de À procura de Nefertari

... num fio quase secreto, remanescente,
mal encoberto por toda a recente razão
que aparta a paixão doente... Ali
preso redescubro, inda em brasa febril,
a incandescente projeção de mim
que és ausente... Em mim, o presente
vivo-morto de promessas, tempo
do aborto daninho das ervas - o fim
da Eva querida que sadia serias
se vadia, a verde-escura vida
nos abrisse uma trilha
fresca, sem facões ou senões,
recrudescida... E se camaleão,
um parvo Adão pudesse ao fundo
eu ser, incondicionalmente,
por tua certeza de eternamente...

19/02/2006

quinta-feira, 3 de março de 2016

AMOR À TARDE

A tarde

rodeio
de enleios:

- meneios
floreio

e os cheios
torneio.

À tarde

asseio
passeios

gorjeio
correios

e esteio
teus seios.

É tarde!

- sorteio
custeios

arreios
(seus freios)

e enfeio
uns meios.

E tarde

(alheio)

receios
folheio:

- a tarde

de anseios
não veio.

quarta-feira, 2 de março de 2016

QUADRA ATÔMICA

de venda e compra

Fácil, difícil

grácil (o míssil)

ágil - é císsil

[frágil de físsil]

terça-feira, 1 de março de 2016

REVISITA 121: DA FIDELIDADE

51º poema de À procura de Nefertari

Nem quando sincera, pediste
Ou mesmo terna, ignoraste;
Quando desventurada, achaste
Que desarmada, a cumplicidade

Do dragão teria;

Nem quando pensaste, desiludida
E pronta descartaste, como fortuita;
Quando desesperada, ordenaste
Que pelos ares, toda voasse

Foste atendida;

E menos ainda, quando sozinha
Te imaginaste, na mais escura
E erma passagem; num grotão
Avesso qualquer, da realidade

- eu soltei a tua mão.

26/11/2005

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

MINGUANTE II

Meu corpo irá durar
enquanto eu precisar.

Ele perdurará
enquanto seu xará

apesar do pesar
de pesar e pesar.

Embora um dia vá
embora do sofá

- da besteira de andar
à cadeira de andar

(e desta a um feio algar) -

meio corpo haverá
aqui antes de acolá:

- porque corpo solar
numa fase lunar.

DO VENTILADOR

curto o circuito

O noticiário

- seu comentário
vocabulário
itinerário;

- seus proprietários
e secretários
e adversários;

- seus corolários
porque breviários
porque arbitrários
(porque contrários) -

será ao contrário

seu temerário

destinatário.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

PREGUIÇOSOS

Um dia de sol

e eu com terçol

na alma.

...

Um dia de sol

e ele com tersol

nas mãos

(contra a escuridão)

...

[um dia de sol

(de guarda-sóis)

e ela nos lençóis

ainda]

sábado, 27 de fevereiro de 2016

QUADRA SUBJACENTE

[este langor ao escrever
(nesse torpor fingir sofrer)

vem de um amor a prescrever
(seu dissabor reconhecer)]

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

QUADRA A VACUUM

No século vinte e um

um régulo, de algum

há muito é de nenhum

(há muitos, e nenhum)

DECOREBA

paturebas

Nas fileiras
de cadeiras

encadeiam
tal conversa

por escadas
obversas

(de sacadas
submersas)

numa escala
adversa

[porque odeiam
bibliotecas]:

- esvaziam
as palavras

que extraviam
de outras lavras...

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

QUADRA GOLPISTA

embora setilha

A fala licenciosa

da mente facciosa
de gente fastidiosa

conjura, prodigiosa
conspira, pretensiosa

(prepara, silenciosa)

ciosa de si, ansiosa...

DO PROFESSOR GASTO

A sala vazia

das aulas cerzidas
modernas cantigas
(entre outras fadigas)

ecoa, vívida

coisa mais antiga
que pedagogias.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

REVISITA 120: HIATOS PREENCHIDOS

50º poema de À procura de Nefertari

Sopra suave aquela brisa
de algum lugar além daqui:

- pressentir a sua doçura
machuca, como se flores
de todas as cores esmaecidas
despetalassem inadvertidas
do que vive em mim de ti.

Toca uma canção inesquecível
num canto qualquer, inacessível:

- sabê-la festiva, no íntimo
fere de silêncios o ouvido;
e não me consola a ciência
de senti-la melodia de uma hora
menos serena que a nossa.

Paira entre versos, inimiga
a sombra de outra vida mais querida:

- pois aqui hesita nos vestígios
claros dos teus olhos límpidos
tão adorados - e fugidia
que às vezes parece teus lábios
furtiva num meio-sorriso.

15/11/2005

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

DO VALOR DA VISÃO

O preço de enxergar à frente

(e o custo de se fazer frente)

é o mediano medo da gente
(a mediocridade vigente)

face à aurora próxima ao poente

(anterior ao próximo expoente)

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

GISMONTI: ÁGUA E VINHO

álbum, canção

Adivinho

meu coração

num coração rapazinho;

num coração com espinhos
de sentimentos vizinhos

meu coração ribeirinho:

- embarcação sem alinho
(verde o timão na contramão)

enamorado e sozinho;

destemperado mocinho
inclinado a desatenções

burburinhos

trepidações

torvelinhos;

a inspirações

descaminhos

e abreviações

(de destinos...)

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Na Comercial da 413 Norte

o melhor poema de rua dos últimos tempos

"Fazer cocô

é obrigatório.

Fazer merda

é opcional."

REVISITA 119: DO PONTO ONDE NOS ENCONTRAMOS

49º poema de À procura de Nefertari

- o que há de tão errado
na fast curve do tempo
(à luz daquele cruzamento)
que circunscreva o espaço

de manobra necessário
ao suave pisar do freio
impeditivo (tormento!)
de espatifar-se o sentimento?

- o que há de tão difícil
(à luz daquele cruzamento)
em tratar-se, de início

do mergulho-equipamento
que a tua dor (de amor ileso)
resgataria do abismo?...

30/10/2005

sábado, 20 de fevereiro de 2016

DEPOIS DA MEIA-NOITE

Bela noite.

Boa a noite

entrenoite.

Noite repleta

enquanto passa;

quando completa

noite fechada.

...

(à noite, outra noite

cruza a madrugada)

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

FANTASIA DA ALMA

ao gênio de Egberto Gismonti

Os dez dedos do Egberto
tocam o Brasil profundo

um Brasil redescoberto:

- da romaria ao entrudo
os meus ouvidos vão junto...

Os dez dedos do Egberto
trazem o Brasil mais perto

do que Villa fez facundo:

- proto-Brasil rico e rudo
o paraíso - contudo

um Brasil sonhado há muito
um Brasil possível junto:

-- meus ouvidos vão com tudo...

Os dez dedos do Egberto
na música do Egberto

(instrumentos em aberto)

tornam o Brasil transunto
do que há de melhor no mundo:

- do que pode, sobretudo
ser de belo, bom e justo.

[nos ouvidos, testemunho...]

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

SEXTILHA DO PONTO

na manufatura

Os olhos no horário
espelhado do átrio

(olhos descansados
de noites em claro)

o são no trabalho
que não enxovalham.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

REVISITA 118: A DESORDEM DOS FATORES

48º poema de À procura de Nefertari

Eu sigo precário
qual um condenado
ao desequilíbrio
do malabarismo:

- aspectos dissonantes
de térreos sonhos possíveis
desprendem-se fragmentos
de segmentos visíveis

e levam-me de mim mesmo
(o tal meu destino em riste)

ao vácuo absoluto
daquela queda livre:

-- o que findará primeiro?
   (meu segundo ou um terceiro?...)

30/10/2005

domingo, 14 de fevereiro de 2016

QUADRA SOLIDÁRIA

Neste domingo de calor

haverá solidão maior

que a daquele ventilador

na velocidade menor?...

sábado, 13 de fevereiro de 2016

ANÓDINO

a propósito da leitura de certos jornais

O discurso liberal
não faz bem - mas nem faz mal

como léxico trivial

de êxito entre comensais
(à parte seus serviçais)

de velhos salões ovais

[sejam burgueses ou reais
rivais ou patrimoniais]

...

O discurso liberal
- no que tem de literal

cabe mais aos carnavais
(sua ótica festival):

- flor exótica, estival
da estufa do capital...

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

ESPESSURA

do cerrado

Ar espesso
ar nublado

- qual seu peso
quase opaco?...

Ar espesso
adensado

- por que tempo
perdurado?...

Arremesso
malparado

indefesso
pendurado!...

Ar espesso
ar cansado

- que lhe peço
já regado?...

Ar opresso
muro d'água

- quando preso?
- quanto vaza?...

...

Ar espesso
no feriado

- se me custa
o que é dado

queira o vento
queira a chuva

remontá-lo
na segunda!...

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

CINZAS II

A quarta anuncia
a quinta em seguida

e depois a sexta
a segunda e a terça

talvez entrementes
(por indiferentes)

na vida das gentes
pregadas nas teias;

talvez o seguinte
o que as fortaleça

no sábado cresça

desopile as veias
explore outras vias

domingue e pereça...

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

TERÇA GORDA

Mas estou magro

de tanto agrado

fino, delgado

e delicado.

...

(troquei de horário

de itinerário

algo arbitrário

todo ao contrário)

...

(mudei a dieta

a lida, a meta

por uma siesta

pouco indigesta)

...

(já ao quadrado

caí de quatro

lasso e devasso

no sofá grasso)

...

[mas estou magro

(gordo ao contrário)

de tanto agrado

(seu corolário)]

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

REVISITA 117: ERRATA

47º poema de À procura de Nefertari

Redesenhar um poema
não é pouco, pequena:

- retorce o já tortuoso
recorte, já a gosto...

Retocar-lhe a palavra
o violenta, e o agrava

no que a escrita teria
desencontrado, lida...

Se queres chorar por ti
sente e verte, por ali

qual fadada a tua vida;

- mas não queira azulada
asa tal, fraturada

arremedo de tinta...

24/02/2005

domingo, 7 de fevereiro de 2016

DOMINGO GORDO

quadra carnavalesca

Estou presente

(digo 'fulgente')

malemolente

[tevê à frente]

sábado, 6 de fevereiro de 2016

DO SÁBADO DE CARNAVAL

pluvioso, pluviátil, pluvial

em Brasília
(Asa Norte).

Numa ilha
deste porte

desse clima
passaporte

(não que importe!)

pantomima
me transporte

me deporte
me suporte

noutra sorte:

- nesta ilha
ser de morte

sem quadrilhas
seguidilhas

sem virilhas
de novilhas

só mar forte

céu acima!...

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

ACERCA DO MOMENTO

político existencial

Quando me pergunto

- parando um minuto
- sobrando em segundo

sobre este quadro diminuto
aumentando ininterrupto

- do que me aborreço?
- e qual encabeço?

A bem do que apreço
respondo sem condescendê-lo

(onde punham preços
serão olhares nada vesgos):

- a hipocrisia de uns
- o fascismo de alguns

e o que têm em comum.

SURDO APITO

Zumbindo

ao fundo

de tudo

uma síntese do barulho
do mundo todavia escuto

no que silencio
enquanto enfastio

(toda a vida ruída em conjunto)

...

[uma síntese do que escuto

sumindo no ouvido

e dele revinda

aguda]

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

MANHÃ PINDÁRICA

bem-vinda à sombra!...

Ela espremeu-se
ensolarada

entre dois desses
períodos d'água

a fim de ver-me
a caminhá-la

ensolarados

(afora suado):

- mas este poema
por celebrá-la

(sem defendê-la
desobrigada)

tem precedência
por ora em casa...

...

[talvez mais tarde

(se aquela que arde
cruzar a tarde)

irei beijá-la
apaixonado

embora tarde

agora baça...]

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

SEXTILHA DA AÇÃO SELETIVA

uma questão para a justiça


... sobre o princípio da presunção

da inocência de um dado varão

é justa a falta, em sua aplicação

face ao que sobra, em comparação

com tal princípio na afirmação

da inocência de um dado barão?...

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

NO TOPO DA CADEIA

falimentar?

Homo sapiens:

- que de sapiens
de fato tens?

As origens?
(suas imagens?)

As linguagens?
(tuas mensagens?)

Personagens?
(homenagens?)

Abordagens?

Engrenagens?

(parolagens?)

Quais vantagens?
(vassalagens?)

As coragens?
(das roupagens?)

As vertigens?
(são selvagens?)

As bagagens?
(de tais viagens?)

As passagens?
(das paragens?)

As paisagens?
(das miragens?)

Homo sapiens!

- que de sapiens
mesmo tu tens?...

[tais bens - quais trens...]

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

CHANGESONEBOWIE

Ground control to major Tom...

A vida que aventura
além das imposturas

solicita a postura

de David para Stardust

(one with no time to adjust
to wherever he was thrust)

de Ziggy para Bowie

(more than the average woe
not to be Marilyn Monroe)

da fama para a vida

(sem que ela sobreviva
além do que musica)

Can you hear me major Tom?...

domingo, 31 de janeiro de 2016

INTERSTELLAR II

we'll take us everywhere

O Universo

é infinito
e infinitesimal.

Incomensurável
e inferencial.

Observável. Abstrato.
Relativo. Superlativo.

O nosso caminho

fora do escaninho
existencial.

...

Um dia, em novembro
(o século, não lembro)

apreenderemos
dos desdobramentos
dos seus fundamentos

ao tocar os tais extremos

(not extremes after all

once bended over the wall)

***

[na cabeça de um palito
no alfinete num tecido

na lente curva da vista
prismando o que fantasia

interestelar o sinto

(possibilitar o Olimpo)]

sábado, 30 de janeiro de 2016

REVISITA 116: DA HORA DECIDIDA

45º poema de À procura de Nefertari

A hora que aproxima
arqueia decisiva

o peso da consciência
no mundo da existência

do que se principia.

Na hora decisiva
a ficha - decidida

suspensa fica - aérea

numa vontade - à espera

da férrea que abdique
de idéia que a permita

ceder à circunstância
o seu poder agora:

- o medo que se estranha
ótimo de esperança

átimo - bate à porta!

24/10/2005

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

ASSALTADO

tenho pejo

O mercado

no varejo

eu pelejo

no atacado

(atacado

derrubado

eu arquejo

derrotado)

[o mercado

no varejo

é o desejo

ensejado]

{seu sobejo

abjeto

eu rejeito

despejado}

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

ANTEAURORA

Madrugada

adernada

penso cada

coisa vaga

cega, miga

soga, vulga...

...

(não é nada

acordada)

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

NA ESTAÇÃO

causação

Eu daqui

vejo que

pássaros
aguardam
ribeiros.

[e dali

o porquê

cântaros
desaguam
ligeiros]

DO DEUS DOS TEXTOS

na astrofísica e na física quântica

Deus é um mistério

nos textos sérios?

Se benéfico

se colérico

tem-se o mérito

dos textos sérios.

...

Deus - se mistério

(nos textos sérios)

é pretérito

no seu mérito:

- pois pretéritos

os textos sérios.

...

Deus - se mistério

(por um mérito

impretérito)

não é O Mistério

deste Universo

impretérito.

...

[maior mistério

do que O Mistério

deste Universo

já é o mistério

dos seus anversos

(sob inquérito)]

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

DA VIDA PROTEROZOICA

nos passamos não passando

Estou encapsulando.

Não estou mais respirando
como antes - mas como quando

quando eu era pré-cambriano

(nadava a ré no pântano
antanho a um antanho plano)

...

Estou encapsulando.

Mas estou mais respirando
neste fim de Cenozoico

porque estamos regressando
ao Éon Proterozoico:

- um período nada heroico
em que dois mil milhões de anos

se passaram não passando

(de vermes segmentados
de animais celenterados

de esponjas para limpá-los
contemporâneos de humanos)

...

Estar encapsulando

nesta altura desta história
nada paleontológica

merecemos (por enquanto).

domingo, 24 de janeiro de 2016

INTERSTELLAR

the (same) movie

Como as estações espaciais

sóis, luas, planetas terreais
quais capacetes de metal

se carecentes de algo mais
presencial (mesmo se virtual)

[desde que não nos faça mal
às mãos, pulmões, ao capital]

terráqueos os teremos - tais
de exploradores naturais

dos quarenta pontos cardeais
(de suas dores - colaterais)

em qualquer lugar especial
que convertamos em natal

desde tempos imemoriais.

sábado, 23 de janeiro de 2016

REVISITA 115: 23 DE OUTUBRO DE 2005

44º poema de À procura de Nefertari

... às 17:42 o Sol entrou em Escorpião, e às 18:34 começou a chover; há duas horas repliquei a mais um teu poema nesta disputa ferrenha por nós; lá fora, a chuva recrudesce exatamente agora - 18:38:50; está quente ainda, e que delícia o molho cheiroso da terra que vem às narinas!...

A cada momento
o meu pensamento
de ti sentimento
se trata em silêncio

(significando
seu variado ruído)

da luta que trava
junto à veia cava
e que à alma abala
ser branca de hospício

e ali flamejante
é tal caminhante
a ferros amante
buscando o sentido

em chamas pressentindo
uma doçura urgente, o delicado imperativo
de uma incandescência paciente
ao longo do caminho
contigo percorrido - embora tenha este
hipotético remanescido:

- abrasando o que não deveria
na medida do que quererá
ainda...

23/10/2005

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

ACERCA DE LIMITES

que a ignorância imite

A experiência do corpo

- do invólucro que morto
não sei se haverá outro -

restringe o meu escopo.

A experiência de um outro

- de um improvável corpo
transmigrável do morto -

de outrem restringe o escopo.

***

[o argumento da alma
- da existência da alma -

defende-se com alma
sem que nos traga a calma

- sem que nos livre a alma
do que irrestrita empalma]

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

DO AMOR

a Mércia

O tempo do tempo
é sem movimento.

O espaço do espaço
é este regaço.

O tempo do espaço
é o passo que tento.

O espaço do tempo
é o tempo que espaço.

Se assim for tal dispor
durar ao teu redor

qual seja o meu amor
enfim será maior.

QUADRA DO ENCONTRO

Virei-me, e teu sol

virou-se, a brilhar

sobre um girassol

que sobrei a olhar.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

CORRENTEMENTE

Chuva insistente

intermitente

superiormente

interiormente

onipresente:

- por sobre a gente

por sob a mente...

REVISITA 114: A ESTRADA REAL DOS SONHOS (ou "Tanto Faz Aqui Como Em Qualquer Outro Lugar Se É Só Pedra...")

43º poema de À procura de Nefertari

No que abstraímos de tudo

- da matéria rude e quase fresca do mundo
de poeira a estrelas, num segundo -

hiatos estacamos - e mesmo o cosmos viajando

o vácuo requentamos, ao lustrarmos
empregados o verniz dos mesmos hábitos

(senti)mentalmente revolucionários (?)
petrificados num movimento convulsivo

excessivo de (di)gerir:

- vez que a Estrada Real dos Sonhos
ao contrário, pede a troca dos carros

e certas cardiopatias; um norte intuído

e a coragem de um percurso gozoso
gentilmente deflorado (embora trabalhoso)

sem milhagem - passo a passo...

12/10/2005

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

CLIMATOLÓGICA II

enquanto o tempo padece retórico


Chumaços de chumbo

facundos ao fundo

no inchaço do espaço

terraço do mundo...


Bodoques, balaços

que vejo suspensos

(que penso sujeitos)

ao toque de bumbos

que avento suspeitos...

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

SEXTILHA EM BRASÍLIA

As águas ocupam
meu olhar acima

na forma de cinzas
mas das que não sujam:

- apenas relutam
em limpar o clima.

11/01/16

REPARTIDO

Hoje é dia
de partidas

de partidas
decisivas

divisivas
recidivas

todas elas
quereria:

- muitas delas
esportivas

uma delas
fugidia

[talvez desta
gostarias

toda ela
comovida]

10/01/16

O BELMIRO

Mal cuidado o tio Belmiro
(seria pedra ou granito?)

continua benedito

- pois continua inédito
de continuar insólito -

e prosseguindo expelido
não recua recôndito.

Mal cuidado o tio Belmiro

mais continua instituto
mais impoluto e irrestrito

e talvez absoluto.

[me situa convoluto
(pelo visto, devoluto)

pela vista que dedico]

09/01/16

domingo, 17 de janeiro de 2016

PRECE PELO VERDE

Velho aclive
dos meus olhos

tão sublime
dos abrolhos

verde andaime
dos meus sonhos

não decline
pelos outros

não decline
por tão pouco:

- pelos pulhas
das fagulhas

- pelos pombos
das agulhas

- pelos bolsos
de pampulhas

- pelos combos
de cambulhas...

Verde aclive
dos meus olhos

tão sublime
dos antolhos

santo daime
dos risonhos

se declive
de nosotros

- construtores
- destruidores

- dos arroios
estertores

- predadores
uns dos outros

nos perdoe
oportunos

pelos muito
moribundos...

09/01/16

sábado, 16 de janeiro de 2016

QUADRA [DUPLA} JUIZ-FORANA II

Juiz de Fora
me comove

muito embora
eu desgoste

[da cidade
na verdade?]

{da verdade
na cidade?...}

09/01/16

QUADRA [DUPLA] JUIZ-FORANA

Edifícios
espetados

nas paredes
dos penhascos

[que difícil
pendurados

pelas redes
dos sanhaços!...]

09/01/16

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

DAS FIGURAS

quais pinturas

Certas velhas
quando jovens

foram grelhas
sobre as nuvens

- como abelhas
incandescens

às centelhas
de seus polens -

em paletas
com suas gelhas

como em Rubens
mais parelhas!...

09/01/16

FAMÍLIA MINEIRA

toda cozinheira

As perguntas
- não fazemos;

as respostas
- não podemos;

resoluções
- comendemos

(os problemas
são os mesmos)...

As virtudes
- talvez menos;

os queixumes
- de somenos;

os mamutes
- pleistocenos;

os quitutes

- que venenos!...

...

A cidade
- o que vemos;

quantidades
- o que temos;

qualidades
- cultivemos

(as promessas
deveremos)...

Inquietudes
- mais ou menos;

longitudes
- dos acenos;

plenitudes
- os quitutes;

os quitutes

- com torresmo!

09/01/16

DÉCIMO ANDAR

Minha gente mora
bem alto, astronauta

num canto de rua
pingente da lua;

por isso demora
a ver certas coisas

pois a mesma cousa
se daquela altura.

09/01/16

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

DA CIDADE ENTRE AS SERRAS

nota de Juiz de Fora

(por serem acostumados)
pássaros engaiolados
(por seres civilizados)

é tradição no pedaço.

[gaiolas de concreto e aço
menores a cada passo

completam o vítreo quadro]

08/01/16

A CIDADE E AS SERRAS

por que será que penso
em Eça ali por dentro?...

A cidade entre as serras
motiva as motosserras?

Convida as motosserras
a urbanizar suas terras?

A cultivar suas terras
multiplicando a pedra

concretada e diversa?

[multiplicando a guerra
concreta contra as serras?]

...

{da cidade e das serras
hoje sobre charnecas

que pensaria o Eça?...}

08/01/16

SEXTILHA JUIZ-FORANA

O vento muda
rumos de chuva

pelas medidas
do Paraibuna.

[farol acima
seu sol confirma]

08/01/16

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

DAS IRMÃS & AMIGAS

... aquelas senhoras
imóveis auroras

no peso das horas
vão crepusculares

cuidando seus ares
demoras, melhoras

(seus lares, colares
penhoras, azares)

caminhando aos pares...

08/01/16

MINHA SEDA

Minha mãe vive num casulo
com sua tela para o seu mundo

numa novela sem fim nem fundo.

Nela, minha mãe tece a seda
dos vínculos em que se enreda

- os mais íntimos nos quais se encerra.

Como ela, outras vivem dos frutos
seus espalhados pelo mundo

- mamães incondicionais da Terra;

mas a minha, na sua novela
personagem de uma teletela

vive miragens, sobretudo

das borboletas do seu casulo.

07/01/16

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

QUADRA JUIZ-FORANA XX

Se vistas por estrangeiro

as galerias do Centro

pareceriam, adentro

o fundo de um mundo inteiro.

07/01/16

QUADRA JUIZ-FORANA XIX

... em jota-efe
a nuvem desce

e cresce as sebes
quem sabe leves?...

07/01/16

QUADRA JUIZ-FORANA XVIII

As três irmãs cajazeiras
(trinca terçã presepeira)

me cercam de gentilezas
do tempo das mamadeiras...

07/01/16

DA (NOSSA) HISTÓRIA JUIZ-FORANA

Entre elas

(donzelas)

janelas

novelas

panelas

querelas

tabelas

tutelas

há eras.

06/01/16

RODOVIÁRIA INTERESTADUAL

Encruzilhada
multiplicada

a cada braça
de cada peça

envidraçada
no vão da seta

que me prometa

chegar em casa

(seguir jornada)

05/01/16

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

QUADRA JUIZ-FORANA XVII

antes de vir

Juiz de Fora
sempre acorda
uma forma
de ir-se embora.

FOI ONTEM

... a chuva de hoje à tarde
me prendeu com alarde

debaixo da marquise
de sua esquisitice:

- corrente grossa d'água
(de água feita torrente)

corrente do pé d'água!...

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

REVISITA 113: 18:11 (DEZOITO E ONZE)

42º poema de À procura de Nefertari

Chegou enfim o momento
no qual o teu todo silêncio
tudo de mim tomou conta.

A mente, o peito, de resto

o exposto tão nervo
a tensão que o castiga
a tua falta de notícia.

Essa franzina agonia
que tudo de mim mobiliza

engana, longe ainda
suspensa clareira de vida:

- algo segura, sob a asa
invisível da guarda

do anjo que escorracei
em auxílio ao teu

(que ao fim protegerei)

30/09/2005

domingo, 3 de janeiro de 2016

EM JANEIRO

Brasília, nativa

passiva, vazia

nublada, verdinha

(escorregadia)

cultiva/

jardina/

cintila/

[à parte as quadrilhas
distantes, vizinhas

destas maravilhas]

- frisos e pastilhas

- aves em matilhas

- vias, aros, trilhas

- meu sentido de ilha.

QUINTILHA VELOZ

das férias

Na terceira madrugada

de cerveja na sacada

não há nada, nem a cada

que não veja ultrapassada

a primeira, pela quarta...

sábado, 2 de janeiro de 2016

DA MINHA PAISAGEM II

Teclados abaixo
(de um café ao lado)

ligo a tela à frente

do mundo presente
(mas só de repente);

janelas à frente
(do seu fundo ausente)

vazam noticiários
gritam comentários

pra consumo otário:

- fatos relativos
relativizados

segundo o partido
repartido dado;

teclados abaixo

caem pensamentos
(junto a sentimentos)

em nervosos dedos:

- quadras e quintilhas
sextilhas, sonetos

e outras rabadilhas
desta pescaria

nesta ilhada lida

dos poemeus que apenso...

Epistemológica Cecília

poema a respeito, de Cecília Meireles

"SONETO ANTIGO

Responder a perguntas não respondo.
Perguntas impossíveis não pergunto.
Só do que sei de mim aos outros conto:
de mim, atravessada pelo mundo.

Toda a minha experiência, o meu estudo,
sou eu mesma que, em solidão paciente,
recolho do que em mim observo e escuto
muda lição, que ninguém mais entende.

O que sou vale mais do que o meu canto.
Apenas em linguagem vou dizendo
caminhos invisíveis por onde ando.

Tudo é secreto e de remoto exemplo.
Todos ouvimos, longe, o apelo do Anjo.
E todos somos pura flor de vento."

Cecília Meireles, Poesia completa, vol. II. Organização de Antonio Carlos Secchin. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, pp. 1645-1646.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

PRIMEIRO DE JANEIRO II

O primeiro dia do ano
- o dia mais morto do ano

comemorado, no entanto
como o renovo do humano

é o contrário do arbitrado:

- antiquário solitário
de um recente, abandonado.

...

No momento
nem o vento

movimenta.

Seminua
nem a rua

sonolenta.

Nem a poeira
costumeira

se acrescenta.

Um silêncio
pré-tormenta

atormenta:

- onde há vida

se apresenta?

...

O primeiro de janeiro
- se dia de um dia a menos

[se trinta e um de dezembro

de um ano que não se lembre
do ano seguinte no ventre]

poderia, derradeiro

fechar o caixão do tempo.