sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

QUADRA ESPECULATIVA

08/01/15
praia do Coqueirinho, PB

... na Paraíba
mais caraíba
eu curtiria
bem pindaíba...

CURRAIS DE PEIXE

05/01/15
Pontas de Pedra, PE

... lá se vão criaturas de linha reta
de conduta ilibada (o olhar revela)

no caminho das gaivotas (que não presta)
pelos labirintos dos Minos da pesca

qual gado calado de fato submerso
(calado de barco de fado submerso)

na rota escorreita do matadouro depressa

a fim de perfeito com pimenta...

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

QUADRA DE PEDRA III

05/01/15
Pontas de Pedra, PE

A linha d'água na beira:

- a minha tornozeleira
desenvolvendo ligeira
decerto interdependência...

CRUSTÁCEA

04/01/15
Pontas de Pedra, PE

Cada conchinha da praia
é uma casinha habitada
por inquilino de guarda
- tal a iguaria salgada!

Cada casinha na praia
é uma conchinha sonhada
por inquilino a morada
- tal fantasia a salgada!...

Cada coisinha da praia
cada criatura da areia
no paraíso se espraia
na vida dura é alheia!

Mas o que aproximaria
concha e casa não seria
qualquer noção proprietária

- somos todinhos tilápias!...

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

MACROSCOPIA

03/01/15
Pontas de Pedra, PE

O luar polvilha
mar que rebrilha

lácteas vias.

QUADRA DE PEDRA II

03/01/15
Pontas de Pedra, PE

O céu do mar
é mar no céu

a verdejar
seu azular.

QUADRA DE PEDRA

03/01/15
Pontas de Pedra, PE

Em praia tão rasa

a água não passa

de poça espelhada

da coisa ajoelhada.

DUPLA QUADRA DE PEDRA

02/01/15
Pontas de Pedra, PE

areia grossa
areia fina
areia grossa
areia fina

areia grossa
areia fina
areia possa
mudar de sina

MICROSCOPIA

02/01/15
Pontas de Pedra, PE

Esta lâmina
marinha anima

melancolias.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

2015

Novamente o calendário
é uma peça de vestuário

de efêmera qualidade
diante da publicidade;

adiante, outro itinerário
da mesma modalidade

promete-se necessário
(não obstante arbitrário)

como se anuário ao contrário!...

QUADRA VETÊ

Do mar se vê
que na tevê
o mar belê
reencontra-se.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

OLINDA

Desde os quinhentos

pelos seiscentos
e setecentos

eram trocentos

de aventureiros
a açucareiros;

de portugueses

a brasileiros
desde os flamengos

foram trocentos

do seu mosteiro
ao seu convento;

dos oitocentos
aos novecentos

de bonecos mamulengos
aos bonecos gigantescos

sobre as casas centenárias
pelas ruas madrugadas

já são trocentos

mais de batuques coroados
e metais ensolarados...

Sempre aos trocentos:

- pois a história deste lugar
é proletária e popular.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

domingo, 28 de dezembro de 2014

QUADRA TSÉ-TSÉ

Sono à tarde, cedo ou tarde
vento contra, toma tempo
desde cedo, todo ou parte
deste sonho, desatento...

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

CORRENDO EM BOA VIAGEM

Dia sim dia não
venho de Jaboatão;

dia sim dia não
estou no calçadão

quase em movimento
(impressão do vento?)

sob um certo peso
deste firmamento

(de Nordeste ao centro)

até que o momento
(de antemão presente)

imponha que eu pense
no que ressinto então:

- podia ser sempre...

QUADRA DA PRAIA II

No Nordeste
brasileiro
contra o Agreste
caranguejo.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

TESE QUE DEFENDERIA

face a tanta maresia

A praia fatigaria
meu desejo de poesia.

O mar comprometeria
(embora estimule a liça)

mil ensejos de poesias.

A esmagadora maioria
das presenças naturais

- de homens a vela a peixes do cais

contra conspiraria:

- quando finco os pés na areia
a realidade impermeia

da natureza que brilha.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

QUADRA ANÊMICA DA AREIA

... de praia que subtraia
dos sentidos a palavra
ou de melhor descrevê-la

(seria convalescença?)

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

QUADRA DA PRAIA

... a praia serpenteia
pela vontade alheia
que me invade - areia
aranha de sua teia...

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

SEXTILHA ESTIVAL

Há uma brisa recifense

que parece que se sente

que aparece a toda gente

de um lugar independente

a vagar impunemente

do que se ache recifense.

QUADRA ESTIVAL

Da quentura ensolarada
que acomete a madrugada
cedo sobra a passarada
a cagar toda a sacada!...

MEIA QUADRA ESTIVAL

já no Recife

Este verão primaveril
me encontrará em que Brasil?...

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

BACK TO MY AMERICAN WEST

while listening to Chris Rea's

A memória da grande pradaria
terminando nas Rochosas, seria

(porque de poética melancolia)

mais um sintoma de que poderia
ter sido outra a via - uma outra vista

então surpreendente quão indistinta
da vastidão transcendente e finita

do que ofereceria qualquer vida -

que todavia, paralela à minha
(como realidade imaginativa)

coexiste pacífica alternativa.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

EM BRASÍLIA

última notícia

Do Gênesis, Noé
(sendo o nêmesis que é)

já desembarcou com seu dilúvio
autorizado de cima (o clima)

sobre a profecia que duvido.

Mas, em se tratando de Dom Bosco
é capaz de vir jantar conosco

sem que acabe o mundo num eflúvio

Noé, do Gênesis
(entre parênteses).

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

REVISITA 37: PRAÇA BATISTA CAMPOS

Belém do Pará

Sobram folhas caídas no banco da praça.

No cair das folhas
jaz o tempo inamovível

que passa-possante rápido-e-lépido

- o bólido do espaço indefinível
de velocidade inamovível.

Datas evocam imagens inalcançáveis
incansavelmente;

o passado é uma corda já roída
imprestável;

se quisermos sobrevergar o arco do destino
quais setas atingirão o alvo?

A saudade tapa a boca
de repente;

sons guardados na lembrança
animam o gramofone:

- a praça vazia testemunha
o que é de vida nenhuma.

O vento sibilante/balouçante/refrescante

ecoa inaudível

quando a paisagem foge à mente

(se morre o som
fantasmice)

A Batista Campos é o zoológico dos meus bichos interiores.

09/07/1984

Um desassossego de Pessoa

"Tenho mais pena dos que sonham o provavel, o legitimo e o proximo, do que dos que devaneiam sobre o longinquo e o estranho. Os que sonham grandemente, ou são doidos e acreditam no que sonham e são felizes, ou são devaneadores simples, para quem o devaneio é uma música da alma, que os embala sem lhes dizer nada. Mas o que sonha o possivel tem a possibilidade real da verdadeira desillusão. Não me pode pesar muito o ter deixado de ser imperador romano, mas pode doer-me o nunca ter sequer fallado á costureira que, cerca das nove horas, volta sempre a esquina da direita. O sonho que nos promette o impossivel já nisso nos priva d'elle, mas o sonho que nos promette o possivel intromette-se com a propria vida e delega nella a sua solução. Um vive exclusivo e independente; o outro submisso das contingencias do que acontece."

Fernando Pessoa, "O livro do desassossego". In Obras de Fernando Pessoa, vol. X (prosa). Lisboa: Promoclube, p. 38.

MODESTA

Quero agora sair da gaiola
aprisionada desta poesia

toda oxidando em maresia
cerrada - sem vista para orlas

de tal modo/maneira que empola
enquadrada de forma irrestrita;

quero romper o canto das rimas
(de um gabola que se acha da hora)

ora a corromper sua assimetria;

quero partir agora do poeta
e travestir-me a vera do esteta

pateta que sou e soou poeta!...

....

(mas que autocrítica mais severa!)

[a quem convenci-me de véspera?...]

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

QUADRA DA CORRIDA ENCAMINHADA

Aos cinquenta e cinco anos de idade
correr cinquenta e cinco minutos

é como andar de uma a outra cidade
sobre um par de joelhos resolutos.

sábado, 13 de dezembro de 2014

DE FÉRIAS SEM FÉRIAS III

pré-litorânea

Elusiva ou ilusiva
sensação animaria

outro ser subjetivo:

- mas bloqueia adjetiva
o que então alegraria

íntimo e substantivo
de certo ponto de vista.

Ilusivo ou elusivo
retro ou retrospectivo

(decerto pontos de vista)

este estar que objetivo
mudar introspectivo

abunda por tal motivo
aparências todavia.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

DE FÉRIAS SEM FÉRIAS II

É tanto tempo livre
que livre o tempo oprime;

é tanto tempo livre
que livre o tempo exige

justo o que nunca tive

- tanto que quando o tenho
é como inexistisse

(como se me punisse)

REVISITA 36: INTERROGAÇÃO

Os calos da imaginação
doem se calçados
com ideias pequenas.

Você lembra de um tempo
em que qualquer pensamento
era palavra

e esta a ação?
Não?

Deve ter sido antes de Cristo
antes da Criação
(inexistente, portanto
mas até quando?)

Deus nos deu o homem com preguiça
inacabado a quem coube a iniciativa
de completar-se

a ser feliz?

O que nos diz
a história da civilização
- dos percalços intransponíveis
aos quais pouco a adaptamos -

faz com que persista a questão:

- contemplar o completar-se, a ser feliz...

Os calos da imaginação
doem se calçados
com ideias pequenas.

03/05/1984

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

REVISITA 35: CLARIDADE

Pela claraboia passa a nova luz solar
luz solar nova porque manhã;
A manhã fresca, recente, luminosa
passa clara pela claraboia

Meus olhos namoram os flocos da luz solar
rastro de poeira da mobília sacudida;
Meu corpo transpassa o caminho para cima
solto fantasma na casa branquipálida

Passa a vida pela claraboia
vira o sótão um belo altar;
Oro sem querer, a vista para cima
à procura de um anjo no caminho luminoso

Na manhã clara boia branca a luz
de uma nova fresca a transpassar a idade;
Traz recente à mente a pálida fantasia
de um anjo nascente da poeira sacudida...

14/10/1983

BUTTON REVERSED

the trivial case of this Benjamin

(a Scott Fitzgerald)

A morrinha
se tem lugar

que aporrinha
de impacientar

seria no ar
que se aspira

e se expira
mais devagar

ao se espremer
(até me doer)

esta espinha
a adolescer

à tardinha
de envelhecer...

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

REVISITA 34: ALEGORIA DE UM SENTIMENTO

Meu amor
que as pedras te abandonem!...

As pedras que te tocaram
(tão frias e duras suas ásperas curvas)

terminaram te partindo em expansivos
fragmentos no tempo reincidindo

a dilatar o espaço
sideralizados.

E eu de tão triste
de precoce velhice

ansioso te acompanho acompanhável
interessado na trajetória dos teus pedaços no infinito.

Meu amor
por que cristal multifacetado

quebraste em milhares
de caquinhos irreconciliáveis?

Por acaso não teria eu forjado
para ti indivisível um aço inoxidável?

(bem sei do meu fracasso)

A chuva de estrelas cadentes
tangente ao firmamento
gera o sentimento inexplicável:

- por ti esfarelada
de mim angustiado...

Meu amor
(meu em vão sublime horror)

não escorra entre meus dedos
no vazio dos meneios;

cubra-me do teu pó divino;
deixe-me assim teu íntimo
(embora eu não possa mais ser teu amigo)

sol radiante entre belas negras nuvens!...

Depois cinza não ficaremos
faremos festa quando chover

- entrelaçados de longe
incontrastáveis atrás do horizonte...

25/07/1983

DE FÉRIAS SEM FÉRIAS

O muro sem trégua maciço das férias

- onde o corpo em repouso segrega a mente
até que esta o desregre impiedosamente -

elevou-se montanhoso à minha frente
sem régua a mil léguas de fato das férias...

... ... ...

... e por mais que eu alpinista decadente
despreocupe de escalá-lo noutra frente

(por saber que já não posso quem o enfrente)

do corpo e da mente preciso de férias...

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

REVISITA 33: DEDICATÓRIA

Quando em ti minhas mãos passeiam
alegres, soltas, agradáveis, febris

E tua pele arrepia; e a carne lateja
tesa e macia

Sorvemos cravados olhares do outro, dardos cadentes
dados do jogo incandescente

E nos tornamos cúmplices, verídicos
legitimamente cativos
da mesma emoção.

Paixão! A loucura senil dos velhos está na tua ausência!...

10/05/1983

domingo, 7 de dezembro de 2014

(RE)VIRANDO A (TREVA) CURVA

pistas

... da criatura apolítica
insatisfeita e acrítica

quando então conjectura

sua loucura política
travestida travessura:

- ver se estão ali na esquina

(se pregando uma doutrina)

[se golpistas na surdina]

{se um futuro que combina}

sábado, 6 de dezembro de 2014

NUBLADA IV

[agora chove
nos contrafortes
de alguma sorte

com epicentro
bem mais ao norte

(verão dezembro
então tropical
se parecendo
com outro Natal)]

NUBLADA III

Este sábado
exatamente

ensolarado
está somente?

(ou só a mente?...)

NUBLADA II

... este sfumato
chiaro cinzeiro

já ensolarando
tão brasileiro:

- por que Leonardo
não interveio

junto a São Pedro
(de Roma mesmo)

chover do afresco?...

NUBLADA

A cobertura
de baixa altura

tem curvatura
de ferradura

meio enterrada
de cavalgada

interrompida
da madrugada

amanhecida.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

(DES)SAZONAL

É todo interno
(nem sempre inverso)

o movimento
(decerto inverno)

que mal intento
agora mesmo.

Este dezembro
de veraneios

ainda não disse
ao que interveio

- por pouco triste
por pouco velho

tampouco quero
que seja menos.

Ainda que visse
no que me adentro

ainda que viesse
de outro novembro

talvez coubesse
dizer que acedo

se movimento
de outros momentos

[se primavera
de outonais eras

reconsidero]

MANÍACO-DEPRESSIVA

Seu olhar e seu sorrir
e o que mais de você vir

(da superfície opulenta
de entranhas aos quarenta)

[eu, se olhar você sorrir
o que mais seu existir
para outro antes de vir...]

quando meus em harmonia
(da vontade que só minha)
[pois tão meus e minha, ó linda!]

são inteiros de utopia
(aos pedaços todo dia)

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

REVISITA 32: VERBO II

Se tiveres em essência

Aquiescência

Tolerarás o absurdo

o obtuso

Dignamente farto...

11/03/1983

REVISITA 31: VERBO

o primeiro

O vento não afaga sua pele como penso
nem perpassa seus cabelos como meus dedos.

Não há chance para nós.
Não há duas palavras para a mesma impressão.

Mas se insisto
em abraçar limitado o infinito

sou um ponto no deserto
que você vê.

19/01/1983

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

REVISITA 30: E. T.

Para além do úmido olhar
no alto negro azul, pó de estrelas
manto dos magos
gráfico do infinito

vive o amigo
perto e viajante

o menino
terno visitante

pomba da paz intergaláctica...

O êxtase extraterrestre.

03/01/1983

DUPLA QUADRA UNIPOLAR

de que me adianta tentar?

Amanheço da alegria
que alvorece dolorida

neste ensolarado dia
de estação interrompida

já que plúmbea deveria
pela quadra duplicida

mal escrita, bem chovida:

- pluviosa sensaboria...

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

BENEFIT

Jethro Tull

... a paisagem de fora
e a de dentro, por ora

coincidem - o que acalma
minh'alma em sua vertigem

em sua sonora origem:

- a de imagem agora
daquela outrora virgem...

MEU RECIFE

do alterego inclusive

Arrecifes
em que estive

- desististe
ô Euclides?

O Recife
em que estive

(indo a pique)

insististe

- porque nosso amor inclusive!...

ESQUECÍVEL

Em dezembro
eu me lembro

de dezembros
contratempos

de outro tempo:

- quando o vento
(que soprava
contraventos)

alentava
turbulento

desalentos
que eu levava

desatento
todo o tempo...

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

DA CONSCIÊNCIA SEM

Jogar melhor o jogo das aparências
a fim de melhor refletir uma essência;

jogar melhor o jogo das aparências
a fim de melhor cultivar parecenças;

circular melhor pelas adjacências
na perspectiva afim de compreendê-las

(talvez melhor proteger as diferenças
e enfim administrá-las com prudência)

[ou] [ou] [ou]

... ou renunciar ao jogo das aparências
a fim de reconhecer sua impertinência

face à termodinâmica decadência;

ou mesmo argumentar pela inexistência
do jogo, das aparências, de uma essência

(talvez aquietar-se pela inexistência
de consequência alguma nessa existência)

domingo, 30 de novembro de 2014

sábado, 29 de novembro de 2014

REVISITA 29: TRÓPICO

original atualíssimo

Não há vontade, nem que má
nem ambição.
Nenhuma gota de voluntariedade.
Apenas um véu branco cobrindo o olhar
e maleita dormência.

10/12/1982

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

ALA DA SALA

dos professores
contemporâneos

enquanto atores
extemporâneos

sob fatores
controladores:

- educadores
edulcorando

um show de horrores
(dos educandos?...)

Sala das cores
ala das dores:

- dos estertores
de antes amores

diante dos mores
de outros valores...

[sala das cores que desbotamos
lavando o lodo através dos anos;

ala das dores que cultivamos
lavrando a todos do viés dos anos]

REVISITA 28: BEIJO MORENO

Ando mudo, sem procura
Bicho exposto à visitação pública;
Corroído pela mesmice perplexa
Cansado.

Mas te vejo, calmo o teu semblante
Tratando-me com tolerância carinhosa;
Mãe serena, cheia de filhos e filhas
De paciência, ante a imatura inquietude!...

Ando o mundo, sem procura
Bicho exposto aos de vista curta;
Coalhado de coisas, figuras mórbidas
Triste e opaco.

Mas quando pousa o teu olhar, ao vagar
Pássaro negro em rochedo oceânico
Diminui a solidão, um ponto no horizonte
Desmancha a espuma na infinitude das águas...

...

"À procura de mim, procuro-te

Nos teus lábios, de estranha doçura
Inquisidores da dúvida;

Nas palavras assim proferidas
Ecos de ti, íntimas;

No teu beijo moreno, meigo
Meu andarilho anseio...

Procuro-te, à procura de mim."

18/11/1982

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

DURANTE

Antes do temporal
esta paz surreal

empurra meus olhos juntos fugidios
escapulindo passarinhos furtivos.

O resto de mim não consegue.
Do lado de cá da janela

assiste comigo ao que segue
como se de si fosse a cela

ou sob tutela estivesse
(e toda cautela impusesse).

[diante do temporal
há passarinhos - presos ou fugitivos]

...

Depois do temporal

revolto a ver normal

esta paz sem igual.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

ELEGÍADA

de um maníaco

Este ar etéreo
te deixa aérea

na estratosfera
da indiferença!...

Então funéreo
eu me despeço

até que desças
ao andar térreo

da vida dessas
sem refrigério

e me umedeças
do que antes peço

de tua presença
em tua ausência!...

terça-feira, 25 de novembro de 2014

ESTE DESCOMPROMISSO

pretérito perigo

O abismo - me sorrindo
(do seu esconderijo)

o seu sorriso lindo

a esta altura - finjo
que não sou nada rijo

[no meu duplo sentido]

àquela altura (minto
senão que regozijo)

a fim de escapar disso

(de vez escarpar ido
este descompromisso)

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

REVISITA 27: A ESPERA

Bate a chuva
lenta, nula
atrás da porta:
agora, o lado claro de ser
pouco importa.

Pinga a mente
ressentidamente;
os pensamentos, vagam
semidirecionados
retros, menores
retroses de lã.

Dançam os dedos
multimeios
parecendo milhares:
"sê a seda, agulha relax
mostra-me a teia
tecida rarefeita
assim que se faz".

(antevista a carícia
a lembrança vicia;
quanto aos corpos, unidos
contorcidos de gemidos
resta a memória
da fé, sua pausa
o fim da retidão)

...

Se tola vem a mosca
à toa
pouco importa:
agora, clareia o ser
atrás da porta.

01/11/1982

sábado, 22 de novembro de 2014

MEFISTOFÉLICA

Vocábulos

de estábulos
literários

me encabulam:

- gritam pra sair
poder existir

se fazer ouvir

querem ter porvir

(querem ter PORVIR!!!)

[como se o futuro do presente
o garantisse postumamente]

...

{meu demônio e eu concordamos:

- melhor desapalavrar
de qualquer um avatar}

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

YES, RELAYER

lembrança progressiva

... meus portões do delírio
da adolescência - lírios

do campo da inocência -
abriram minha ciência

cedo e tarde (destarte
sua impermanência em arte

há muito e há pouco) - rios
de sons que ainda ouço

vindos daquele poço
de antigo colorido

que ainda desvario

- refletido em colírio
sonoro desde moço

para os olhos que olvido...

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

QUADRA DO DIA

A tristeza da melancolia
é mais triste porque indefinida:

- tristeza de si desconhecida
e mais triste porque não sabia...

REVISITA 26: JARDIM

A flor desnuda estanca o fluxo

do amor da abelha

centelha.

No pouso breve da folha de luxo

borboleta

tem telha.

Pássaro aventa, voa e derruba

da lua

quem telha.

27/10/1982

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

DESTA PRA PRÓXIMA

intergeracional

... para onde eles irão
(e outros que seguirão)

sem boa educação

- a do sim e do não
em livre oposição?

Para onde todos vão

se há deseducação
(a do 'sim, por que não?')

a induzir instruções
certas das conclusões

- dos meios ou senão
dos fins com deduções?...

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

EM RESUMO

será o eremita?

Dos meus jogos em tempos de abraços:

- eu gosto mais do primeiro tempo
(no segundo, me vem um cansaço);

- o intervalo, se faz necessário
(meus quinze minutos de vestiário);

- gosto menos do terceiro tempo
do quarto nos quintos, contratempos

(prorrogações do gasto de erários)

[quando os escrúpulos vão pro espaço]

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

PERIFERIA

refém do clima?

A capa cinza
de cor escura

sobre a cidade
que não Brasília

porque avizinha
a dor sozinha

da tempestade
então mais dura

retém ainda

água à vontade...

TEMPO E RENOVAMENTO

memória e esquecimento

Já tive seis
depois doze

dezoito, vinte e um

trinta e cinco
quarenta e dois;

passei cinquenta

e nada lenta

a vida em cada uma das idades

- nas cinquenta e cinco oportunidades
aniversariadas até o presente -

é sempre a da presente novidade:

- uma de cada vez, cada vez uma.

[um ano de cada vez, cada vez um
que antes de experimentado era nenhum]

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

MANOEL SE FOI

notícia repetida (de entristecida)
embora inexatamente verdadeira e
agora devidamente contextualizada e
acompanhada de uma inevitabilidade

... já cumpria travessia de
fauna para flora havia bom
tempo (bem lento na fusão
lavrada e apalavrada com
coisas de sua atenção).

Outro tempo bom e Barros
mineralizar-se-á - porque
sua obra (próxima da lenta
decomposição estelar), a
caminho de o ser, o é já.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

REVISITA 25: SOPRO

Passa o tempo
pássaro no vento;

e
marcando o passo
passo:

- inerte como rocha
oco feito concha
monte de lava
faz-de-conta.

29/09/1982

REVISITA 24: BREVIDADE

Por um instante
o fluxo da vida detém-se na análise passiva
conviva da preguiça

e o meu corpo fecha-se por completo
ansioso de algum sentimento
majestade sem coroa

e a tua vontade dorme solta
o sono arquetípico da lassidão.

...

(não saberemos a razão das coisas)

27/09/1982

ÂNGELA

Desde que me entendo por gente
teu rosto está em minha mente;

desde que me entendo com gente
teu rosto aqui está suavemente

rosto sorrindo desde sempre;

se me desentendo com gente
teu rosto então condescendente

ri novamente - mas somente

se eu não desentender da mente...

terça-feira, 11 de novembro de 2014

ANTES DE AS ESQUECER

É sempre assim antes de escrever:

- acho que as palavras vão morrer
antes de se permitirem ver

antes de me deixarem rever
o que poderiam vir a ser

se de fato as soubesse escrever.

SINONÍMIA ALAGADIÇA

Aquela flor no pântano
será uma flor de pântano

do charco o delgado encanto?

Aquela flor no lodaçal
será uma cor do tremedal

do aguaçal banhado de sol?

Em atascal que atola o sal
aquela flor tão brejeira

contrária a tal natureza
(de odor cediço à lameira)

seria a dor da beleza?...

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

SEM BOLA DE CRISTAL

Quando o tempo incita
que o momento excite

quando a hora avisa
que o agora vive

quanta água parada
deságua em deslize

poça apodrecida
de repente livre?

Quanta água pesada
desgasta a calçada?

Poça rediviva
movimenta a vida?

E quanto a espaçá-la
- calçando a calçada

enquanto espaçá-lo
- o momento dado

é de quem a alçada?

...

[sem bola de cristal
de gude, sem canal

(à frente o matagal)

me escuso after all]

QUADRA ANIVERSÁRIA

Cinquenta e cinco
se com afinco:

- definitivo
infinitivo...

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

QUADRA PÓS-ELEITORAL

heterodoxa

A rachadura
é na fervura

(é da fervura)
[dá em fervura]
{só é fervura}:

- tão mais sólida
quão insólita!...

terça-feira, 4 de novembro de 2014

DO LÉXICO GOLPISTA

de sua assustadora imprecisão assustadiça

Se aqui e agora

Brasil for Brazil
(Brazil for Brasil)

será que importa?

Será que exporta

se dois ou dez mil
se mais de cem mil

fizerem hora?

Se estão por fora
sem tais vezes mil

será que aporta?

Será que emborca?...

(se então aborta
calma ou Mallorca?)

[se aqui ou embora
por que varonil?]

...

Se houver pólvora
sob um véu anil

em qualquer Brasil

a flor no fuzil
será que aurora?...

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

CUSTOMIZADO

Amo o que escuto
escuto o que amo.

Amo o que leio
se leio o que amo.

Vejo que escuto
vejo que leio

vejo que os amo.

Mas sei o quanto
se além há muito

e aquém de tudo

o sinto mudo?

...

(vejo mais quando?...)

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

REVISITA 23: CONTAS DE BRILHO

Mostra-me como o silêncio
Com que envolves o melhor momento
Alimenta teu sonho

E de mim terás a promessa
De não violar tua cidadela
Castelo dos teus segredos

Peço-te ainda, e não mais que uma vez
Para ensinar-me o mergulho
Tenso, agudo, profundo
No negro lúcido dos teus olhos
Par de contas translúcidas

E de mim terás quase tudo
Quase a metade do mundo

A metade que te falta
Para saíres das sombras...

15/09/1982

CULTURAL

Agora a gravidade jaz seu serviço com incompetência...
Horizontalizou-me a paixão - mas sem crise de abstinência...

Agora a gravidade da condição me estrala sem demência...

(verticalizou-se em sazonalidade com demais consciência)

...

[o gravitacional
naturaliza mal]

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

REVISITA 22: A PENUMBRA

Viste dois flocos de neve, pequeninos
tirados da escuridão
- teus olhos, brancos de susto
arregalados diante de mim!

Faz-se de espelho, o meu ser
dos teus medos o reflexo de anseios
- do silêncio, onde não caminhas
por ser negro invisível

Vivos na penumbra, fogem as mãos
os pés, o corpo, vestidos
de tecido mais fino, sem estrelas
sem mais máculas...

De forma que, minha querida
foram só dois pontos claros, pequeninos
fazendo par, como nós
diante do desconhecido.

25/08/1982

REVISITA 21: FANTASIA MATUTINA

No limiar das trevas para a claridade
pululam dedos do incriado.
Vão luzes cortando o ar já refeito
das mazelas dos respirandos do dia anterior.

Da densa noite ficou um rastro
iluminado por desejos de um sonho.
Verde floresta de criaturas e cogumelos
perdeu-se incompletamente.

Sobe o sol por cima do real
movimentando o calor da angústia rotineira.
Rostos de reconhecida ambiguidade
são pedras jogadas no caminho.

Anda a roda gigante - logo densa outra noite
recobrirá o que descansa a vida.
Livre no sono a procura
sonhará perdida a floresta encantada.

27/07/1982

AO SENHOR DA CHUVA

O clima lava o mundo.
O tempo lava a fundo.

O clima muda a fundo
O tempo muda o mundo.

(é cíclico e profundo
de fato o raso mundo

encíclico e jucundo)

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

ON THE EDGE III

Há que destemê-lo:

- este fundo anelo
junto ao cerebelo.

ON THE EDGE II

... vida se apresenta
morte nos aguarda:

- entre tais certezas
por que a caminhada

pelas incertezas
mal nos representa?

(nossas inteirezas)

[vossa via larga]

{toda a repetência}

ON THE EDGE

... pois aqui já estamos
sem que percebamos:

- desde sempre andando
(desde que lutando)

ainda respirando;

pobre ou prosperando
rico ou conservando

nos precarizando

vivos entretanto...

domingo, 26 de outubro de 2014

QUADRA ELEITORAL

conjugações

Se candidato convincente
ou cotado com demérito

será futuro do presente
ou futuro do pretérito.

sábado, 25 de outubro de 2014

QUADRA QUÁDRUPLA DECADENTE

síntese & explicação

Trabalho
baralho

trabalho
baralho

baralho
baralho

paspalho
(caralho!...)

[eu trabalho
e embaralho

eu trabalho
e embaralho

se embaralho
mais baralho
(e o trabalho)

eu paspalho
pra caralho!...]

terça-feira, 21 de outubro de 2014

REGISTRO MECÂNICO

grilos?

Meu carro engoliu uns passarinhos
que agora comigo seguem rindo...

Meu carro engoliu dois passarinhos
quatro, seis, dez - ao invés de cinco

sete, treze, dezessete primos:

- pois pares formando casaizinhos
mostram porque estão reproduzindo...

domingo, 19 de outubro de 2014

QUADRA SOBRE DUAS PERNAS

homo ludens

Enquanto eu for isto
- o bípede arisco

meu prazer arrisco
sob o sol a pino!...

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

GÊNESE

a Sebastião Salgado

Curvo-me à majestade do bardo!...

Seu olho magnificado
por tudo fotografado

profunda o veio largo

extremo e próximo
(do meio tácito)

humanizado
agridoce

salgado.

AO SENHOR DO TEMPO IV

perfurando outubro

Ao senhor do tempo
(que não me ouve mesmo)

pelo contratempo
(de não me ouvir mesmo):

- haverá pois tempo
de oxalá esquecê-lo!...

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

DEMOCRÁTICA

uma diretriz

Da mídia a fera
a ser batida

é a atmosfera
da própria mídia

que vos sitia
em blogosfera.

O que se espera
que não se espera
(pois desespera)

- que poderia
- que deveria

pois mobiliza?

Da blogosfera
mais combativa

virá a esfera
que a publiciza:

a vida ativa
- mas coletiva.

domingo, 12 de outubro de 2014

REVISITA 20: O QUADRO

A parede do meu quarto pendurava uma curva
De uma estrada de pinheiros e árvores retorcidas
Encravando a sua forma em pedra fantasmagórica
Desde a tenra infância dos mistérios o fascinante

Quando eu nesse quadro mergulhava absorvido
Meus me tropeçavam os cascalhos do caminho
Eu jogava os olhos para trás do muro verde
Certo de encontrar muito melhor qualquer resposta

Ao chegar dobrando a vista da beleza de saber
Se a vida do outro lado da pedreira poderia
Restava acreditar já quando tudo escurecia
Dos receios desse tempo um então maior segredo

Agora há separados nós do quadro e do quarto
Longes do amado mundo e abandonando a alegria
Imaginando ainda que quanto mais escuro
Decerto encontrarão mais segredos qual respostas...

07/06/1982

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

DOM CASMURRO

udenista

No clima eleitoral
separo o bem do mal.

Se clima eleitoral
reparo o mal que tem:

- o aparo tal que o bem
(o bem daqueles sem)

ampara o zen no sal.

Desse modo o clima
prepara o tal que vem

da perspectiva
nada desmedida

de uma só medida:

- a minha!
- A minha!!
- A MINHA!!!...

terça-feira, 7 de outubro de 2014

À NOITE, TROVA

Dia de prova
vem e renova

que com a prova
que sem a prova

o que comprova
do que renova?

Que nem aprova?
Que nada prova?

Que desaprova
o que reprova?

Que basta a nota?
(que bosta a nota...)

[à noite, trova!...]

RECADO ELEITORAL

aos meninos que não viram

Findou o primeiro turno
de volta para o futuro:

- por isso, porém, contudo
verifique, antes de tudo

(entre cético e incrédulo)
o vigésimo século
dos pretéritos aécios:

-- quando a tal desigualdade
era desigualdade tal

que qualquer barbaridade
mostrava uma qualidade

naturalmente natural.

[a normalidade do mal
(sua banalidade real)]

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

SUPERQUADRA DA SAFADA FALTA DE LUZ

singela homenagem à CEB e carapuça àqueles que corrompem a política

À família

que famiglia

fez quadrilha

de Brasília.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

AO SENHOR DO TEMPO III

short report

Ainda tímida
timidazinha

(anágua antiga
de mariazinhas)

uma água arisca

numa descida
arrefecida

protochovia
tarde e vazia.

[chuvisca ainda]