sábado, 12 de maio de 2012

JOÃO VITOR

nascido a 7 de maio

Um neto
(meu neto
primeiro)

rosado
ereto
inteiro

e neto
direto
certeiro:

- contudo
que a vida
(e tudo)
lhe diga

querido

lhe trate
(destarte)
o amado

seu filho...

[do mundo
da vida
vivida
a fundo]

quarta-feira, 9 de maio de 2012

DOMINGO 16H

quando preconceito é paixão

Rola a bola
rente à grama
silenciosas
muambas, ambas

maltratadas
maratonas:

- a redonda
(com certeza)
faz de conta
(portuguesa)

que o relvado
não é mato;

a rés plana
(de pisada)
finge planos
(esburaca)

de justiça
nas conquistas...

[fora as pernas
(brasileiras)
as canelas
(brasileiras)

joelhos, braços
(coelhos, galos)

tornozelos
(entortados)
cotovelos
(os violentos)

dos perebas
(estrangeiros!)
que as destratam]

domingo, 6 de maio de 2012

A HARMONIA DA ILUSÃO

àquela anônima sensibilidade

Com vistas ao bem de nossas vidas
proponho a composição que vejo

às esferas/metades/polos que sejam
realidades, suas partes, um ensejo:

as paixões que desarrumam
- que à gravidade anulam (nos dois sentidos)

e as razões que as justificam
- que à gravidade explicam (sem corretivos)

dão-se duas mãos (as outras, repartidas)

em dupla imaginação restituída
originária, que perambularia...

sábado, 5 de maio de 2012

QUESTÃO INOPORTUNA

As datas - estacas várias
fincadas no calendário.

As efemérides, tidas
como comemorativas:

- por que tenho de lembrá-las
se dias de dromedário?

{se improdutiva a rotina
domesticado o trabalho
(apequenado o que faço)

[assim como]

determinados atalhos
(das incertezas de cima)
às inclemências do clima?...}

quinta-feira, 3 de maio de 2012

QUESTÃO MINHA

À tarde, venho cochilando
(surpreso, recapitulando)

sonhos desdobrados para trás

até verdes anos - quando anis
os planos, roxos os encontros

eram negros os pelos todos
rosadas as experiências

repintadas as indecências
na calada das madrugadas;

e compaixões, amareladas
por vermelhas verificações

repaginavam-se, centelhas
de cada novata esperança...

Por que tarde agora, cochilos
coloridos tão desbotados

sobre antigos fados - cochichos
por trás do tempo cortinado

ganham a hora, ecos do giz
da desmemória mais remota?...

(por que nesta hora de agora
quando aqui finco mastro e raiz?)

segunda-feira, 30 de abril de 2012

QUESTÃO MENOR

Que fizemos

que o mundo que temos
nos olha de menos?

[feroz
no indiferente atroz;

algoz

dos sonhos pequenos
(tenros)]

domingo, 29 de abril de 2012

PROCESSO CRIATIVO

a um suporte em extinção

O papel intermedia
o percurso da fagulha

da vista à tela
(e vice-versa).

Não, o papel só rabisca
sua acidentada trilha

da ideia à pedra
reconquistada.

Limpo, o papel redestaca
a brancura da pureza

(antes de ida
escura ainda).

Não, o papel nem obriga
o desenho da figura

da escrita, em suma
qualquer clareza.

O papel sujo argamassa
a feiura da beleza

até que de uma
a outra se esqueça.

Não, o papel mal registra
tal incerteza da agulha

quanto à costura
(quanto ao que fura).

sábado, 28 de abril de 2012

IRRELEVANTE

O silêncio azul-claro
(a cor deste sábado)
que reouço aziago

no caminho que arrisco
(da incerteza do traço)
e na mente refaço
(a tristeza do vácuo)

paradoxalmente
redescanso semente:

- pois qual a diferença
entre a somente ausência
e esta quieta presença
em que nada aconteço

nas quais nos aborreço?...

CARA DE COROA

Pelos da face
como disfarce

para um passado
prenhe de quases.

Descuidados
desgrenhados

malfadados

gordurosos - pelo tato.

(como sentimentos quase
repensados)

O espelho cogita
a barba do dia:

- a frase pedida, a oportunidade
perdida em imagem...

(como aquela viagem
desfeita nos planos
refeita nos danos)

***

A mãe diria:
- mas que medonha
(qual mais me doa?)

justificativa
contra assepsias!

Em princípio, a dona
do meu farto início

sim, acertaria

- mas um pardo indício...

sexta-feira, 27 de abril de 2012

CELESTINA

Afixado

à parede

o teu preço

numa rede

descalabro

e feneço:

se se paga

namorada.

[porque muito
que se sonhe
por descuido
se consome]

CAMPESTRINA

Encostando

na parede

o desejo

de uma rede

respirando

remanesço:

permaneço

namorando.

[numa sede
que destarte
nem ensejo
de casar-se]

MARÍTIMA

Encostado

na parede

fotografo

uma rede

nela feixe

dela peixe:

costurado

namorado.

[um pescado
que aproveite
ao azeite
congelado]

sexta-feira, 20 de abril de 2012

DO MAIS SECO AZUL

Um raio tácito
pouco esperado
por para-raios

(especulado
naqueles sábados
de apenas traço)

caiu, com certeza:

- tripartiu a cesta
azedando a sexta

tal a aspereza.

Que muito envelheça
(em razão dos desagravos)

a circunstância da esperteza

aceita-se como da natureza;

que caia defasado de mais tempo ido
(numa paródia nórdica de um deus falido)

finjo a surpresa!...

segunda-feira, 16 de abril de 2012

CONEXO COTIDIANO

O quadro da solidão absoluta
[é como]
o quadro de uma pintura sem moldura.

Uma clara atenção concentrada
sobre um tênue pedaço do nada

oculta a verdade da tela infinita:
[seja]
escura/cinza/colorida - contínua

sem nada que o substitua
[o quadro]
(porque continua);

nada que o separe da noturna

rua sob a prateada
face sem graça da lua.

Nem antes - ante o parapeito
de mais um precipício estreito

(ademais de um sonho desfeito)

o quadro da solidão absoluta

pinta a ruptura

da cósmica brutalidade
una - de qualquer realidade

última/primeira/terceira

- na segunda-feira.

sábado, 14 de abril de 2012

UM MARANHÃO

Grãos de areia de Caburé
entram em minh'alma toda
vez que uma lembrança tola
requeima a língua no café.

Areia do paraíso
equatorial que esqueço
sazonal quase impossível:
- Caburé, só distraído

face à distância do abraço
entre a memória e o fato
de não mais querê-la viva

tão longe deste cerrado
mental percorrido à míngua
ensimesmado de estivas...

[areal de Caburé:
no chão real esquina
da especulativa via até
se avistar o mundo de cima]

quarta-feira, 11 de abril de 2012

TAIS FILHAS

São três marias
(não, quatro lias)
letícias lindas
em vão meninas;

são quatro vidas
(não, trinta lidas)
contemplativas
enquanto vistas;

vê-las amigas
tão indivisas
(róseas espinhas)

lembra-me vias
quando floridas
sem herbicidas...

sábado, 7 de abril de 2012

SELETIVA

Esqueço
que o peso

de todo desprezo

é lento.

E lembro
(num susto)
que gosto de tudo

sereno.

Tanto esqueço
quanto lembro

estórias

(infeliz)
de menos.

[por um triz que se me cuide
de memórias tal virtude]

sexta-feira, 6 de abril de 2012

FORMOL INFORMAL

política num bistrô em Brasília

Gosto de tradição.
(às vezes, não)

Neste caso
(sobre a mesa ao lado)

guardo (como visão)
o cuidado

do trato à disposição:

- a exemplo do tato
murmurando um rio

à vasta navegação
(num tal desequilíbrio
que emudece os tecidos
do vestuário envolvido).

Suaves entre talheres
(muares com as mulheres)

quando harmonizam passivos
de anuências ressentidas?

(pois há sempre quem dance
a certeza do lance
antes da sobremesa)

quinta-feira, 5 de abril de 2012

À FRANCESA

a todos os carentes
atávicos, sem dentes

Depois da quinta
dose irrestrita

(periferia
do pensamento

de sentimentos
borracharia)

toca o celular:

- rima com tudo
que sufixa em ar

que amor prefixa
a condicionar

que promete vir
se o tempo ajudar...

Se der, contudo
(se meu juízo houver)

peço ao Alaor
(junto à de sair)

a conta da dor
o táxi de ir...

quarta-feira, 4 de abril de 2012

POR UM FIO

Teu timbre
ao telefone

permite
(caso estacione)

vislumbres

alhures

de longe...

segunda-feira, 2 de abril de 2012

ATEMPORAL

Será andante dama
adiante a que desperte

por este cavaleiro
seus anteriores passos?

(por este aposentado
seus interiores prados?)

Estertorantes pastos
ressecam meus cavalos

há tempos. Há veleiro
que partido navegue

este exato momento?

Vontades apascento
à vontade relendo

uns romances antigos:

- de mulheres sorrindo
à passagem (miragem)

deste eu aquiescido...

domingo, 1 de abril de 2012

HOUVESSE O AMOR LEVE

Ali não se foi antes
pois se conteve diante
dançante da surpresa
castanha que o deteve.

(tamanha ela podia
se presa tão quisesse
com pressa de quermesse
nem que esquentasse o dia)

Mas depressa - já via
(decerto ali desvia)
pediu ao fogo amigo
do bom senso restrito

do momento ausentar-se:
- ficasse sem consenso
dos nervos, por certezas
constrangido de menos...

[que tudo valeria
o nada que nadasse
- a fada que escapasse
que ludo esqueceria!...]

sábado, 24 de março de 2012

ROLLING

Enquanto espero
(fervendo interno)

na expectativa adocicada
por delícias bem-dispostas (posto
que as considero)

meus olhos erram

de mesa
(de presa)
da cesta

de moedas

etéreas que este cassino aéreo
me empresta...

quarta-feira, 21 de março de 2012

PERSPECTIVA

O horizonte total
(da absoluta inexistência de degraus)

que areja

a linha aturdida à frente da cabeça
(em dia)

talvez escureça
- tão claro o boquiaberto espaço em revista

a dita

antes que anoiteça.

segunda-feira, 19 de março de 2012

LAMENTO MUITO

Há dias não escrevo.
(talvez fingisse
que devia)

Tampouco cansado
por outras lidas.
(só ocupado)

Mas emagrecido
de mais contatos
regressivos:

- rotina contábil
(a vida retrátil)

que aos meus tratados
precariza.

domingo, 11 de março de 2012

O verso e a prosa, segundo o poeta

diferenças

"Se eu chegasse ao pé do leitor e lhe dissesse: 'Esse seu automóvel não é um veículo, porque não é puxado por cavalos', é provável que o leitor não aceitasse como bom, ou pelo menos como dito a sério, o meu argumento. Quando alguém chega ao pé de mim e me diz: 'Este poema não é poema porque está feito em linhas que não têm medida regular, que não têm rima, que se não podem medir nem ler como versos', essa pessoa [faz] uma afirmação em nada diferente daquela minha afirmação hipotética sobre o automóvel do leitor.

***

O verso difere da prosa não só materialmente, mas mentalmente. Se não diferisse, não haveria nem uma coisa nem outra, ou haveria só uma que fosse uma espécie de mistura de ambas. O estado mental que produz verso é diferente do estado mental que produz prosa. A diferença exterior entre a prosa e o verso é o ritmo; a diferença interior entre a prosa e o verso será a entre um estado mental que naturalmente se projecta em simples palavras, e um estado mental que naturalmente se projecta em ritmo feito com palavras.

***

Há ritmo na prosa, e há ritmo no verso. No verso, porém, o ritmo é essencial; na prosa não é, é acessório - uma vantagem, mas não uma necessidade. No fundo não há verso nem prosa..."

Fernando Pessoa, "Poesia e ritmo". In Obras de Fernando Pessoa, vol. III (poesia). Lisboa: Promoclube, pp. 105-106.

Aristotélico Pessoa

um apontamento

"A literatura dramática é uma subespécie de literatura narrativa, e esta uma espécie do género literatura.
A literatura é a expressão verbal de um temperamento; a literatura narrativa a forma objectiva dessa expressão verbal; a literatura dramática a forma màximente objectiva - ou seja, a forma sintética - dessa expressão objectiva. Um drama não é mais que um romance na sua forma máxima de síntese possível. É por atingir esta objectividade máxima que ele pode receber a aparência de vida, isto é, que ele pode ser simulado num palco por pessoas a que se chama actores.
As qualidades possíveis do drama resultam, portanto, de três origens. Há as que ele tem em comum com todas as formas literárias, visto que ele é literatura; há as que ele tem, mais particularmente, em comum com todas as narrativas literárias; e há as que lhe são próprias como forma màximamente sintética da narrativa literária.
Há três espécies de drama: o tipo sintético, que busca incluir em si, equilibrando-as, as três ordens de qualidades que ao drama são possíveis; o tipo analítico, que busca apresentar só as qualidades particulares e distintivas do drama; e o tipo misto, que busca reunir, conforme possa ser, as qualidades desses dois tipos.
O tipo sintético do drama atinge a sua plenitude no drama em verso. Por ser em verso atinge o máximo da expressão verbal de um temperamento, que em verso se acentua muito mais que em prosa. Por ser drama reduz essa [expressão] verbal à objectividade."

Fernando Pessoa, "Apontamento". In Obras de Fernando Pessoa, vol. III (poesia). Lisboa: Promoclube, pp. 103-104.

quinta-feira, 8 de março de 2012

FINA

E de banda
veio mínima

a lâmina
que me fulmina.

Fez a curva
(meia-lua)

reta e limpa
(não havia).

Evitá-la
descabia

(agilíssima);

simular desvio
(do fio) devia:

- a disfarçar a ida
da jugular ferida.

Ainda que esvaia
manter a linha

(de passos de praia).

[como a vida
quando grita

agonística

retinta

rejuvenescida]

segunda-feira, 5 de março de 2012

NO RITMO DA LESMA À FACA CONDENADA

a João Cabral de Melo Neto

Há um vibrato
sopesando

(mezzo atroz)

o agridoce
móvel cardo

me cortando
vagaroso

no que atento
legalmente

por tua voz.

[tratando-se
(ao telefone)

da presença
incorpórea
modulada
da memória]

domingo, 4 de março de 2012

LUZ

a Zaritè

Como não ser
previsível?

Imperturbar
tua beleza

- de estar nua
sem defesas

apressado?

Descaminhar
(rebobinar)

este filmar
precipícios?

Esquecê-los
num hospício?

As palavras
nos são caras

- certos atos
impagáveis

(e passados
e destinos);

desusá-los
impossível...

Como prever
(e te-bem-ver)

invisível?

quinta-feira, 1 de março de 2012

THE CAPTAIN CAUGHT HIS FIRST PREY

Deu pena.

Deixei apenas
gotas vermelhas

(umas dezenas)
pelo caminho.

As penas, aspirei
compungido:

- um passarinho
um filhotinho
(um desperdício).

***

Sei da natureza dele
de Cisco sobre um cístico
DNA explodindo:

- de instinto tingido à pele
do inocente que assassino
a contrapelo parece

Freddy Krueger
Jason Voorhees

simply Jack

numa segunda, 27.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

THE CAPTAIN IS CROSSING THE BORDER

Sob a lua crescente
um inteiro adolescente

pretende.

(a rua dentro dele)

E o coração aflige
quando em seu lento aclive
(de batimento triste)

resiste.

[lembro-lhe:
Cisco não nos pertence]

domingo, 19 de fevereiro de 2012

ARGUMENTO

Viver em atos
sim, é muito mais
importante que
de textos viver.

Dar de comer
aos sentidos
é muito mais
(nunca ademais)
relevante

que, elefante
estetizar
(tergiversar)
seu mal-estar.

Aos sentidos
dar de comer;

à arte só
só dar de ombros:

- porque, à hora agá

[da vitória resoluta deste acaso
que é o absoluto cansaço de ordenar]

tecer escombros
ninguém quererá.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

SONETO SONOLENTO

de um sonho carnavalesco

Há um sábado, domingo
a semana invadindo
que me estira o vadio
lagarto do espírito;

pela terça, a segunda
estica parecença;
de nada é moribunda
na feira em que aconteça:

- esta festa fluoresce
por dentro cem por cento
(destoa o pensamento)

[ao relento, coalesce
no máximo um mormaço
à toa, pardavasco]...

***

[na presença da cerveja
caroço da geladeira
o esboço da pasmaceira]

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

ININTERRUPTA

Brilham intensos
por trás das palavras
teus olhos morenos

(assim como o nada
que a tudo desarma);

rasgados, eu lembro
(também tuas palavras)
de há pouco tempo

aquém das fachadas
cortinas, fumaças
que o vento não sopra

num verso que sobra
imenso agora; enfim

há tua fala, que ri
(para além da hora)

teu largo marfim...

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

EM SUMA

Ressuscitada
desimpedida
repovoada
emagrecida

ensolarou-se;

decantada
rarefeita
expandida

prometeu-se;

da crise
refeita

em riste

esta alma (ouviste?)
bem que podia...

(ao em seguida)

domingo, 12 de fevereiro de 2012

MIX

Mormaço
mortiço

castiço e
mestiço

(típico
do início
em berço
de peso

granítico
derretendo):

- bruma de Burma
frio do estio...

[parda heterogeneidade

(opaco resultado da
climática mixagem)

que paira entre eu e a cidade]

sábado, 11 de fevereiro de 2012

PRECEITO LÓGICO DO NÃO

Nas horas em que
o vácuo se impõe

como faxina
interiorana
das intestinas

(da que revira
 em casa ainda)

se ora desanda
perspectivas

[a redundância
preconcebida!]

não dá pra escrever

se despretende
o que avizinha;

então pressupõe
não há prescrever:

- resistiria...

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

ANTEONTEM

Fui à noite da ostra prateada
sob o seio da enchumaçada
concha compreensiva.

Marmórea. Invertida.
Desestabilizada
(se etérea todavia
de impossível ruína).

A noite tectônica da abóbada
nada geológica. Aceleradas

suas placas sujas perfuradas
rodaram embaçadas

saias e anáguas

(a encardida algodoaria
dos bons-tons múltiplos do cinza)

congestionando vias do céu.

Faroletes havia
cabeças de alfinetes
- as digitais dos deuses
pespegando paredes

de absolutamente.

E meus olhos caixilhos
(na ótica dos trilhos)
molduraram os cantos
dos encantos da cena:

- no túnel redondo
louco espiralando
preso ao centro branco

um Pollock titânico
borrando a demão cistina
de um falso Michelangelo

abriu-fechando pernas
à madrugada mista

que há tintas não se via...

(dialética delenda
de eclética ferida)

[de prata a prataria
tão suspenso argento

por sobre a pradaria

(suspeito)
dinheiro algum briga]

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

CEDO

O azul contra
o céu claro

escuso

toda a sombra
tolda - ao lado

no muro.

SOB O SOL

De dia
o clima
com arte
desliza

desmaia
destarte
a tarde
em cinza;

e a lua
deitada
coberta
de tudo

aguarda
sua branca
mortalha
do mundo;

a noite
madruga
seu turno
da guarda

de ácaros
pássaros
passados
empalha;

e à parte
(tomara)
não tarda
um vento:

- alerta
mudança
na beira
do tempo

(inteira
contudo
a tempo
sua dança).

[das naves
em grupo
tais ares
presumo]

domingo, 5 de fevereiro de 2012

THE CAPTAIN HAD AN UNPLEASANT ENCOUNTER

Avisei ao Cisco:

- na república
socialista
do Belmiro

todos têm direito à moradia.

(do primata supostamente superior
aos supostamente retardatários
protozoários na evolução das espécies)

[inclusive as pequeninas
delicadas - e assertivas

vespas assassinas
que o telhado abriga]

CLARA E FLORIDA (E OBJETIVA)

A luz oblíqua
(que o café em seguida turbina)

logo inicia
a matutina aventura da rotina;

e combina com a brisa
(antes fresca que fria)
os bichos e a poesia

limpar a mesa, a vista
de poeiras, preconceitos

(dos ossos predispostos
farelos paralelos)

desvios de todo tipo
cegueiras e cia.

- com vistas ao didático
(escolástico a respeito)

espetáculo instrutivo
da vida-nicho ao domingo...

sábado, 4 de fevereiro de 2012

DIREITO

a Carolina

A busca do sentido

- do seu significado
duplamente qualificado
de sentimento consentido

ofusca
(anula?)
[obnubila]

primeiro
(segundo o terceiro
veredito)

seu último vestígio.
(o vespeiro indício)

NA MARCHA DO TEMPO

Como escapar da ausência
do que a juventude traz?

(a saúde, o vigor
sem paz da verdura
- a rigor, a desventura
amiúde da saudade)

Superar? Amadurecer?
Resignar envelhecer?

(como se o amanhecer
- a vez de ver primeiro -
não guardasse em quieto respeito
da experiência o desespero)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

CONTEMPLATIVO

Repousado
em mármore frio

(qual árvore
refresca o estio)

sou o precário
que administro.

Novo numa bolha eloqüente em folha
dos jardins ao fundo do mundo dos fins

contente consigo
(o submarino)

ouço cães e operários
espantando canários;
olho um gato (pausado)
as construções ao lado;

mães voltando de férias
(corrompidas de aflição)

observando as monções
(filhos, ratos, pilhérias
maridos em transição);

e retiro dos dias pacatos
- como se fossem os penúltimos de Pompéia
a ração necessária entreatos:

- dopamina para os últimos (antes da queda)
significados remotos
pautados por horizontes

[rinocerontes ao longe].

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

CONFISSÃO

Quando às vezes
insuportavelmente belo

torna-se tudo

os revezes
(insignificantes restos)

ouço-os fundo.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

DETALHE

...

loirinhos
pelinhos

pro lado
virados

(deitado
mosaico)

pros outros
desejo

(desenho
dos braços)

...

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

AQUILES

O que carregam
em sacrifício
teus calcanhares
enegrecidos?

O que ressentem
tão rente ao piso
dos muitos pares
desassistidos?

O que pressentem
ao pé do ouvido?
(olvidos os lares
porque longínquos)

O que acarretam
do morticínio
- se do teu Hades
serão cativos?...

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

SAZONAL

Antes do fim das águas
já mostra esgotamento
a lavra da página
no seu preenchimento.

O seu estreitamento. O seu esvaziamento.
Quebrou-se o catavento (do vento das palavras).

Tempo parado parece. Mas acontece
do tempo escorrer sem entreter, e mal tecer
a teia leve que carrega o esquecimento.

[doutro modo:]

Tornou-se o rio de há pouco
fiapo de curso custoso;
entornou do leito exposto

o leite da cura (caldo de cálcio)
da sua arenosa fratura.

Vertido o líquido, partiu-se o pacto
entre o de fora e o por dentro - daquele

meio metro inteiro
malfeito que muito conteve...

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

CALMARIA

O barco descansa a água polida
- o casco na superfície da linha.

Rasa colheita de expectativas
- de realidades que se acaricia.

(a léguas dos portos
de réguas, confortos

de bússolas, astrolábios
dos baralhos, assobios

que apontem quaisquer destinos)

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

VISITANTES

Um gato preto.
Um passarinho.

Este, colado ao vidro
hermeticamente protegido
(do Cisco).

Aquele - nem te digo
(felino característico).

Um, fotografável
- átimo desdobradiço!

Outro, aligeirado
por descuidado atentivo
(do Cisco).

[andarilhos
fronteiriços
(sãos e salvos)
do domingo]

domingo, 22 de janeiro de 2012

SOLAR

Enfim o triste clima
suspende sua cortina
cinza;

e incontida
a luz multiplica
os prazeres da retina.

Momento de sacadas
debruçadas, de varandas
estiradas - das calçadas

revoadas

em brancas caminhadas...

sábado, 21 de janeiro de 2012

ARCAICA ADVERTÊNCIA

a contemporâneos amigos de modismos

Cintilas

sílabas
vírgulas
posturas.

Acentuas
palavrinhas

(de leituras
entrelinhas)

reticências...

Adubas
alturas:

- sígnicos
inchaços
(hieroglifos
estilizados)
[os sentidos
aos pedaços]...

Avistas
fortunas
(de escritos)
em vias.

Respiras
umbigos
(ainda).

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

THE CAPTAIN AND HIS NEIGHBORS

Mais um conde discursivo
entretendo passarinhos?

Não exatamente. Falo
que há de fato intimidade
mútua e ambivalente;
e inexatamente porque

orgânica, tão antiga
quanto lava incandescente:

- os milhões de anos de pressa
evolutiva da presa
que ao predador apreende
(vitima quem o confirma).

Cisco em copas balouçando
com ciscos outros andando

- rolinhas, pardais vis-à-vis
bem-te-vis; mudos calangos
roliços de muros, e anus
cosmopolitas; mil tizius
e batráquios sumidos; e

no horário, pintando o quadro
trinados joões-de-barro
treinados metálicos, plus
miniaturas redivivas
voando de inseticidas -

minha admiração fixa
por criações ressentidas
do instante - não obstante

sua beleza infinita...

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O VISITANTE

Pela tarde caída um pardo
gato sua visita anuncia.

Desmedido
à vontade
distraído parecia

no dorso dos muros
o corso de árvores
douto se exibia

ocioso
(quase gordo)
na verdade com preguiça...

Todavia
cauteloso no limite
(um gato, ouviste?)

talvez perigoso:

- tal seu silêncio
em movimento
insidioso...

[por via das dúvidas o capitão
do meu coração recolheu-se tácito
ao palácio da sua condição
de (ainda) filhote]

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

HUMANO

Um contato fortuito
presumido que seja
- pedaço de carinho
largado no caminho

que seja!... Que converta
esta humana esperança
que malgrado aconteça

em outra contradança
de minha natureza...

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

CASSINO

Que esportiva azia
domingo domina!...

Se perco perdendo
ganhando só empato

num match impotente
de bola pro mato;

o quão tenazmente
distorço o presente

(o jogo dos fatos)

me é indiferente:

- caio eliminado
e decidualmente

logo de uma chance
(uma extravagante)

fora do baralho;

descarte, descanso
(destarte o trabalho)

resíduo latente:

- até deu próximo
meu ótimo game...

domingo, 15 de janeiro de 2012

PALETÓ

Afeto ambíguo
o que dedico

seu fio escorre
contido um rio

(eu encoberto
decorro disso).

O quão inverno
será num terno

seu verão frio
dirá no cio

(porque decerto
se aquentar, tiro...).

Embora incerto
seja seu risco

inteiro ou meio
meu predileto:

- põe-se completo
pois não espero

(tal a virtude
da incompletude).

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

THE CAPTAIN CONQUERS THE TREES

Seis meses de idade
- a figura

seis metros de altura
- as árvores;

e Cisco the kitten
na sua aventura
aérea noturna

(etérea ventura
que se desconhece)

encontra, em suma
o seu evereste...

(seu primeiro teste)

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

OUTRA DEFINIÇÃO

Clássico
- o que classifico.

(o resto
degredo perpétuo)

Clássico Calvino

conceitos e definições

"1. Os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: 'Estou relendo...' e nunca 'Estou lendo...'.
...

2. Dizem-se clássicos aqueles livros que constituem uma riqueza para quem os tenha lido e amado; mas constituem uma riqueza não menor para quem se reserva a sorte de lê-los pela primeira vez nas melhores condições para apreciá-los.
...

3. Os clássicos são livros que exercem uma influência particular quando se impõem como inesquecíveis e também quando se ocultam nas dobras da memória, mimetizando-se como inconsciente coletivo ou individual.
...

4. Toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira.

5. Toda primeira leitura de um clássico é na realidade uma releitura.
...

6. Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer.
...

7. Os clássicos são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo as marcas das leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram (ou mais simplesmente na linguagem ou nos costumes).
...

8. Um clássico é uma obra que provoca incessantemente uma nuvem de discursos críticos sobre si, mas continuamente a repele para longe.
...

9. Os clássicos são livros que, quanto mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos de fato mais se revelam novos, inesperados, inéditos.
...

10. Chama-se de clássico um livro que se configura como equivalente do universo, à semelhança dos antigos talismãs.
...

11. O 'seu' clássico é aquele que não pode ser-lhe indiferente e que serve para definir a você próprio em relação e talvez em contraste com ele.
...

12. Um clássico é um livro que vem antes de outros clássicos; mas quem leu antes os outros e depois lê aquele reconhece logo o seu lugar na genealogia.
...

13. É clássico aquilo que tende a relegar as atualidades à posição de barulho de fundo, mas ao mesmo tempo não pode prescindir desse barulho de fundo.

14. É clássico aquilo que persiste como rumor mesmo onde predomina a atualidade mais incompatível."

Italo Calvino, Por que ler os clássicos. Tradução de Nilson Moulin. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, pp. 9-15.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

AO DIA CHUVOSO

Cinza alvorecido
(tão cedo cediço)
tardo-antecipado
pardo crepuscular

do passo trevoso
desferido angular

(sei que a contragosto)

choras, aziago
(meu olhar ao largo)
teu úmido desgosto;

e sensibilizado
face ao drama de outra face
simpatizo, e à janela
até solidarizo:

- mas a trama natural
de natureza reversa

(qual a minha, interna)

solicita, tal a depressão
a tua internação...

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

SÓ ISSO

A coisa do estar só
sua força, é só

a profundidade

do buraco necessário ao cimento
- seu concreto preenchimento.

A boa gestão do empreendimento
pede alicerçá-lo - o momento

com solilóquios extremos
(sólitos ao mesmo tempo)

de sorte que sólido se evite
o solipso revide
de um precoce empalhamento

- da vida que ainda falta
(lidas que andam em falta)

sem lamentos de escuridão.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

ESPETACULAR

Hoje somente
(quanto freqüente)

cedo o meu coração
cedo a lunar borrão

no veludo azul-escuro
guarnecendo o céu noturno.

(do lar no chão
do ar seguro
tartamudo
admiro)

SÍNTESE SEMIOLÓGICA

Da poesia contemporânea
que me apresentaram

- consentânea, segundo entendidos
da sua primeira importância

faço-me o leitor desentendido

distraído até - por ignorâncias
(entre elas, a das boas regras
de repleta convivência literária)

que me cabe. Parece-me, todavia
que ergueram significantes palácios

detalhadamente decorados com retalhos
de mais significantes, sobre outros
amontoados formando gigantes pormenorizados
ou seres por vezes recombinados com o fito
do efeito inesperado (do gosto surpreendido)...
significantes tão liberados ao ponto de
assintáticos já que fragmentados - embora
podendo-se rizomáticos; mas se ao contrário
monossilábicos sem parentes serão, quando não
caças-palavras em quebras-cabeças claramente
indiciais... ou então (a depender
de quão tácitos os radicais)
tatibitáticos neurais

numa imensa estrutura
(que não sei se se segura)

à custa de quaisquer significados:

- pobres escravos
insignificantes...

sábado, 7 de janeiro de 2012

THE CAPTAIN MEETS THE KING INSIDE

O grande predador
da média área de caça
do meu pequeno reino

- de rei sancho estranho
se quixotesco primeiro

investe contra moinhos
de fina brachiaria
cortando o vento ferino.

Plástico, cirúrgico
elástico opera o felino
noturnos com tal graça

- qual garça estilizada
na alongada elegância

que me talha a carne fraca
(por reiteradas distâncias)

ao relento, oportuno
da tarde enluarada...

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

HUMANA SEJA

a Marion (de Asas do desejo, de Wenders)

Na lassa corda acima
de coisas pequeninas

um medo trapezista
engrossa a ventania;

recorda-nos o quanto

(escurecida a vida
pela variedade infinitiva dos enganos
de anjos e demônios)

somos breves pirilampos
sem aposentadoria...

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

DO INVÓLUCRO II

Tudo que consiste
no que em mim existe

percebo-o estreito

como se o sentisse
somente rarefeito

e apenas superfície
- risco em balão cheio:

- o quântico mistério
ao infinitésimo

(isso no que estreito
de desencontro ao peito).

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

NO HIATO CLIMÁTICO

Abriu-se hoje mais cedo
(aqui fora, ali dentro, lá...)
bem atípico janeiro:

- o cinza, desalojado
por vento limpo, ao deus-dará
no pico de sua estação

bateu-se por quase nada
(acaso, ocaso da atenção
o tiro pela culatra...)

e ainda na madrugada
sucumbiu - mas não tardará
a repintar firmamentos

(esta tarde, por exemplo).

***

Inda assim, livre o estio
da chuva por um momento

(a socorrer dois destinos
antecipando-se o tempo)

veio de abril um proveito
raro no mês de janeiro:

- depois da hora que aflora
luz que ora profana (o clima)

lavar sua própria perfídia

poderia (a consciência)
determinar a distância

de um malfadado silêncio
à sua decerta ânsia?...

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

DE VEZ EM JANEIRO

Às vezes, resvalo por um vão
entre placas tectônicas do cotidiano
- para onde, não.

(porque isso acontece
desaparece - em vão)

Profunda, quente-escura, a rachadura
(como a geológica correspondente)

revela da encoberta superfície
o que de casca nela sobrevive
- a vazão no limite;

e desacostuma, definidamente
da presente temperatura ambiente
este estar-bem magno que se fez idiota

e agora magma derrete - embora
por razões de emoções somente...

(o que entorna a fervura
 em fritura indigna de nota)

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

THE CAPTAIN, THE MICE

Por vezes ao acaso
me encontro no arcano

(neste caso, salvo engano)

em Cisco the kitten
e seus ratinhos de pano.

A cinética energia
prontamente transferida
do capitão ao seu bando

no espanto paralisa
a atenção em revista
do que seja o seu campo:

- graças ao staccato
gulosamente pleno
de cada movimento

guardando levezas
em caixinhas de surpresas
reabertas com encanto

(graça alcançável apenas
como poética notícia
de uma vida que inicia).

domingo, 1 de janeiro de 2012

PLÁCIDO DOMINGO

No extremo feriado

fechado mundo afora
à ponta revirada
caudatária do que vem

o que me resta ver, trato
sem alarde, abstraindo:

- faço café, rôo cookies integrais
- recolho cocô do kid Cisco
(já ressecado, nunca demais)

- extraio e-mails do brilho do screen
- me encanto restrito aos sites do bem

e após ler - o que nem está escrito
nos livros - por dever de compromisso

se o tempo desdobrar, escrevo isto...

(de sorte que de mortes - extravio)

sábado, 31 de dezembro de 2011

DA ROTAÇÃO

Arrastam-se, idosas
essas últimas horas

do período translacional supracitado.

Tranqüilas, tais senhoras
encerram-lhe as portas

cumprindo ademais o prístino combinado.

Mas do lado de fora, há certa agonia
(porquanto buliçosa)

entre a necessidade mais imperativa
da retrospectiva

e a festiva vontade (tamanha a preguiça)
de agora ir embora...

[quem sabe a gelada champanha lubrifique
contabilidade qualquer que se inicie?]

VICI?

Aos trinta e um de dezembro
de dois mil e onze, vejo

que o futuro que ensejo

não fundará no desejo
(aquele do qual me lembro)

maiores realizações.

[menos mal, argumento-me
ao vencê-lo - por um ponto

(convencido como Pirro
o tal - não fui mau general)]

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

À SAÚDE

Se pudesse, tocaria um alaúde
até média idade - ou antes da meia
entrada de cinema - quando amiúde
cantarolaria pela estrada inteira;

se soubesse, postergaria virtudes
desde que melhor tocasse o alaúde
- penso na economia das gertrudes
a sofrer mães por meninos com saúde;

mas quem, todavia, extravagaria
o percurso - se nem seu curso elegante
cogita esta era maldita ao romance?

[uma dica:]

No Google há Cervantes - cervejarias
amiúde inchando panças - todo dia
noites brindando à saúde - do ataúde...

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

QUEM DIRIGE NO DECLIVE?

O espelho, do seu jeito
me revela um receio

(se rumor passageiro
após o amor veremos):

- que a passagem do tempo
se dê por ele mesmo

apenas nos seus termos
a mim heliocêntricos.

(se senhor dos reflexos
porque cegos queremos)

***

[meu inflexo peter pan
ao fim tão quebradiço
que não esqueça disso:
quão postiço é amanhã!...]

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

CAPITÃO CISCO

Sisko, in English

Assanhado
mal-passado
- ajambrado;

intrépido - sem estrépito
porque algodoado;

vivaz
quieto e loquaz
(mordaz?)

ligeiro, certeiro
capaz
- um pouco demais;

afetuoso
tenebroso
das-louças-macaco;

errante/errado
e nada ferrado;

serelepe
mequetrefe
maquete de elástico;

vítreo
opaco

meio seqüelado;

sumido
achado

amigo - do anonimato

(futuro rei do telhado)

trançado
cesto de vidas
sortidas;

um raio
gaiato
novo no pedaço...

- e gato!

domingo, 25 de dezembro de 2011

BÁSICA

Presa
à atenção mais atentiva

(esta
cuja impressão se dá em argila)

fica tua presença, invertida
numa ausência que corporifica:

- a perfeição divina
do desenho preciso, de poucas linhas
que te imagina - e sintetizam

exatamente como me sinto
belo, incrível - inverossímil

reflexo do brilho que causas...

(à vítima incauta
de um nocaute florido)

sábado, 24 de dezembro de 2011

DIA BOM

Um bom dia, daqueles
de doces despedidas:

- boa noite, me destes
enquanto enternecias...

(quando claros castanhos
fixaram teus encantos
nos cantos da retina;

e palavras cortantes
pousavam nos semblantes
o beijo da esgrima;

e o pistache gelado
do teu imaginário
no meu se derretia)

[tão bom dia, que deles
jamais prometerias]

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

DAS DESAMARRAÇÕES

Face às mesmas ações
cujas repetições
configuram padrões

que fazes nos serões
de mais reproduções
desses mundos anões?...

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

SEGUNDO ISTVÁN

A velha senhora, de cócoras
- a vista próxima do gólgota

rui (sem barbosa que a sustente)
agora menos lentamente;

ruidosamente, cracks
estralam rachaduras
tornadas estruturas;

promoções de varreduras
nas vendas de guarda-chuvas

Jacks não resolverão:

- o economista clássico inglês
(neojurássico), não desta vez...

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

VENDO A BEIRA DO BURACO NEGRO

Distraído, o tempo prometido
do período - mesmo que corrido

parece ter ido antes disso:

- gravidade íntima, ínfima
num dado momento da partida

ata a nutrida expectativa
de tudo celebrar em seguida

à estaca funda do nada ainda...

(como se ungido fosse o destino
por um desconhecido distinto)

domingo, 18 de dezembro de 2011

PACHEQUISMO BIPOLAR

ao ufanismo futebolístico

O anverso: vamos todos recordar
a história a demonstrar:

- temos sido, além-mar
Campeões! Campeões! Lá

e ali - como aqui, no lar
de Muricy e Neymar!...

- e bla-bla-blá - e além-bar
(a imprensa a oba-obar)
bla-bla-blá, bla-bla-bla-blá

tra-la-lá, laririrá
tico-tico no fubá!...

***

[um, dois, três, quatro (ah não
meu deus, de quatro é oitão!...)]

***

O reverso: da ave mercenária
e seus comparsas, nada

queiramos, nada, nada
esperemos, pois nada

que fizerem, de nada
a nação humilhada

[de pelés e (zé) manés]
hoje nos redimirá.

(de lógicas binárias
ciclotimias, nada
nada nosso escapará)

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

CINZA

Langorosa
a chuva ali fora.

Pesada, e sólida
(porosa, embora)

engrossa e afina, rítmica
(a arritmia da alma)
numa batucada melancólica.

Lágrima. Urina divina.
Líquida - meteorologia.

(em resposta
aqui dentro incha
toda atividade nervosa)

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

ELUDIDOS

Quando me dizes mais
sabeis que empoeirais

a lisa superfície metálica
d'uma rara, perfeita linha d'água

de certos mananciais mentais:
- descuras conotações demais.

Quando menos, ao menos ignorais
que não sei o quanto - dado que mundos

entrelaçam-se inteiros no escuro
vácuo absoluto deste momento

minúsculo - obscuro porquanto
desconhecido de fato, de tudo...

Dois caminhos para a exatidão

Calvino bifurcado

"... minha escrita sempre se defrontou com duas estradas divergentes que correspondem a dois tipos diversos de conhecimento: uma que se move no espaço mental de uma racionalidade desincorporada, em que se podem traçar linhas que conjugam pontos, projeções, formas abstratas, vetores de forças; outra que se move num espaço repleto de objetos e busca criar um equivalente verbal daquele espaço enchendo a página com palavras, num esforço de adequação minuciosa do escrito com o não-escrito, da totalidade do dizível com o não-dizível. São duas pulsões distintas no sentido da exatidão que jamais alcançam a satisfação absoluta: em primeiro lugar, porque as línguas naturais dizem sempre algo mais em relação às linguagens formalizadas, comportam sempre uma quantidade de rumor que perturba a essencialidade da informação; em segundo, porque ao se dar conta da densidade e da continuidade do mundo que nos rodeia, a linguagem se revela lacunosa, fragmentária, diz sempre algo menos com respeito à totalidade do experimentável."

Italo Calvino, Seis propostas para o próximo milênio. Tradução de Ivo Barroso. São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p. 88.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

DEFINÍVEL

Entre o inconcebivelmente maior
e o incomensuravelmente menor

há

um número-balancete
de cabeças de alfinete.

Se tal desconhecemos
(ou mal o espetamos)

só

o saberemos contando desde o princípio
- como somando saímos do precipício.

Infinito indefinido

Calvino, cercando uma solução de Leopardi

"Para um hedonista infeliz, como era Leopardi, o desconhecido é sempre mais atraente que o conhecido; só a esperança e a imaginação podem servir de consolo às dores e desilusões da experiência. O homem então projeta seu desejo no infinito, e encontra prazer apenas quando pode imaginá-lo sem fim. Mas como o espírito humano é incapaz de conceber o infinito, e até mesmo se retrai espantado diante da simples idéia, não lhe resta senão contentar-se com o indefinido, com as sensações que, mesclando-se umas às outras, criam a impressão de ilimitado, ilusória mas sem dúvida agradável."

Italo Calvino, Seis propostas para o próximo milênio. Tradução de Ivo Barroso. São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p. 78.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

PRECISO

Quanto terá
rabiscado?

Quanto será
garimpado?

Quanto labor este rio
vocabular ressentido

de vários desvios em vão
- a mercúrio proibido

há de querer permiti-lo

(no exato vulcão que cogita
recurso da lavra à pepita)

à palavra - sua escrita?...

Um conceito e sua ilustração

Calvino, acerca do que procuramos, e dos tempos respectivos de Vulcano e Mercúrio numa estória chinesa

"O êxito do escritor, tanto em prosa quanto em verso, está na felicidade da expressão verbal, que em alguns casos pode realizar-se por meio de uma fulguração repentina, mas que em regra geral implica uma paciente procura do mot juste, da frase em que todos os elementos são insubstituíveis, do encontro de sons e conceitos que sejam os mais eficazes e densos de significado. Estou convencido de que escrever prosa em nada difere do escrever poesia; em ambos os casos, trata-se da busca de uma expressão necessária, única, densa, concisa, memorável."

"Entre as múltiplas virtudes de Chuang-Tsê estava a habilidade para desenhar. O rei pediu-lhe que desenhasse um caranguejo. Chuang-Tsê disse que para fazê-lo precisaria de cinco anos e uma casa com doze empregados. Passados cinco anos, não havia sequer começado o desenho. 'Preciso de outros cinco anos', disse Chuang-Tsê. O rei concordou. Ao completar-se o décimo ano, Chuang-Tsê pegou o pincel e num instante, com um único gesto, desenhou um caranguejo, o mais perfeito caranguejo que jamais se viu."

Italo Calvino, Seis propostas para o próximo milênio. Tradução de Ivo Barroso. São Paulo: Companhia das Letras, 1990, pp. 61 e 67, respectivamente.

domingo, 11 de dezembro de 2011

LADAINHA EM BOA LÍNGUA

a Paulo quando Samuel

Inculta e bela
porta ou janela

àquela mesma
- dona Tereza

não desimporta
qualquer querela;

que a portuguesa
que enrolamos
(senhora nossa
de planos tantos)

digamos tenha
mais seus encantos:

- delicadeza,
se maiúscula;

se minúscula,
musculatura;

pontos, vírgulas
entre fístulas;

diretamente
mesmo a desordem
(porque escrita,
incomunica);

e seus artigos
todos amigos
(pra definirmos
o definível
e bem tratarmos
os correlatos);

quanto a estilos
(desde os antigos)
que sejam claros
se objetivos;

e inteligíveis
os de sujeitos
algo sensíveis...

[como você, meu querido
nessas questões, meio ardido]

Rapidez

sobre o seu papel futuro no pensamento e na literatura, por Calvino

"... numa época em que outros media triunfam, dotados de uma velocidade espantosa e de um raio de ação extremamente extenso, arriscando reduzir toda comunicação a uma crosta uniforme e homogênea, a função da literatura é a comunicação entre o que é diverso pelo fato de ser diverso, não embotando mas antes exaltando a diferença, segundo a vocação própria da linguagem escrita.
O século da motorização impôs a velocidade como um valor mensurável, cujos recordes balizam a história do progresso da máquina e do homem. Mas a velocidade mental não pode ser medida e não permite comparações ou disputas, nem pode dispor os resultados obtidos numa perspectiva histórica. A velocidade mental vale por si mesma, pelo prazer que proporciona àqueles que são sensíveis a esse prazer, e não pela utilidade prática que se possa extrair dela. Um raciocínio rápido não é necessariamente superior a um raciocínio ponderado, ao contrário; mas comunica algo de especial que está precisamente nessa ligeireza."

Italo Calvino, Seis propostas para o próximo milênio. Tradução de Ivo Barroso. São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p. 58.

ADERINDO SEM CULPA

Se penso
em tê-lo

como não
querê-lo?

Como não
dizê-lo?

Como negá-lo
(no parto)

a parte
que me cabe?

(apesar do peso
do cavalar desprezo;

da consciência
da violência)

Trazê-lo - a peito:

- o senso comum
como bom senso.

sábado, 10 de dezembro de 2011

OCULTA

Me pergunto
se oculto
no discurso
tua sombra;

pois me contas
pelas tantas
várias outras
artimanhas

de ti acolá...

E aqui fico (vá lá!)
pensativo (acerca)
do (cercar o) emotivo

o motivo (escondido
do assim estar)

- como se não fosse comigo
(não fosse tão substantivo)...

[ao fim sujeito a ismos
de todo nenhum lugar

significativos
istmos a afundar]

AURORA

O primeiro
facho estreito
que mergulha
na penumbra

escorreito
de perfeito

faz direito
na segunda:

- quando a lua
a respeito

(a despeito
de ser tua)

põe-se em fuga
pela rua

(parapeitos
lhes perfura).

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

REMENDANDO

Quando cerzido
conto sombrio
sóbrio num canto.

Quando acontece
ébrio esclareço
- só o começo.

Raro, contudo
acontecê-lo
(quase um degredo):

- quando se tece
malha que preste

o que se falha
(e passa a sê-lo)

borda um segredo
(boa urdidura)

entre a costura
e o novelo...

AGORA III

Quinze minutos
para acontecer;

cinco mais cinco
mais cinco, se der;

dar, poderia
- dependeria?...

Senão, o resto
deste paredão

(toda a construção)
em vão seria:

- o que fará
emparedaria.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

EPICURISTA

No vácuo rítmico
do vazio

entre adensamentos
(do vento do tempo)
cíclicos

descanso um descaso
solícito.