quinta-feira, 9 de agosto de 2012

DEDO NO OLHO

Teu dedo
no desenho

da linha
do cabelo

contorna
tua orelha
(a esquerda):

- capela
(à direita)
do segredo.

Meu olho
no desejo

da nuca
(tão nua
de teus pelos)

acompanha
teu dedo

atentos:

- pelas curvas
que aventuras...

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

[SEM ASSUNTO]

mas sempre mais é melhor que menos

Há que dizer
- se não o quê.

E desdizer
- mas com porquê.

A palavra
pedida, dê:

- mesmo que mal
se souber qual.

A sentença
esquecida

(ou a escrever
em bom dia):

- ache-a, e lê.

(que precisa)

terça-feira, 7 de agosto de 2012

NOTA TRISTE

Soube de uma linda menina
qu'em vão machucou-se brincando.

Soube que da vida uma esquina
feriu-a (talvez por engano).

Por que desandou seu bom anjo?
Por que distraído do ofício?

Por que tal amor de criança
exposto a tão frio se encontra?...

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

RECEITA DERRADEIRA

para assentar controvérsias
a tempo de compreendê-las

Uma noite entre dois dias
para melhor decidi-las:

- uma madrugada fria
(encerrada a ponderações)

quieta, escura, opaca - tida

como o tal berçário de ações
primitivo do animal são

que acorda, sobrevivido
entre os milhões que logo irão...

domingo, 5 de agosto de 2012

DEPOIS DE LÁGRIMAS

Antessalas.

Aço emparedado onde o tempo
ganha absoluto o seu peso.

O granítico castelo
do restelo desperdício.

O martelo quebradiço
(do vidro);
o que se revela agulha
(perfura).

Do vento
estufa
ao frio
propensa.

Infensa ao que passas.

Lâmina do instante
retalhando ânsias do viverá intenso.

Extremo
entre o último e o próximo céu...

ÓBVIA

rumo ao muro a cem por hora

Quando não se interfere

na tautológica
malsã trajetória

da paixão que se converte
em razão sempre alegada

o que então acontece?

(de tanto que se repete
cimenta-se ensimesmada?)

sábado, 4 de agosto de 2012

CLOSED

Fechar a porta
isola - o vento
a poeira, a aorta

do batimento
que se repete
no sentimento

de ser o mesmo
- o confeiteiro
dessa quermesse

(pois acontece).

Fechar a porta
trancar à chave
(jogá-la fora)

cultiva - a horta
verde-presente
do enfim é hora;

o pensamento
sonha ligeiro
até a aurora

do movimento
relojoeiro
marchando a horda...

Fechar a porta

- um capítulo
definitivo
do grande livro

aparta o lido
(o ido do vindo)
partido agora

entre o sabido
(porquanto outrora)

e este caminho
de vida nova...

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

ÀS TRÊS

Será cada consciência
a prisão de si mesma?

Saturada da essência
solitária do uno?...

***

Rasgou a noite passada
um inventário - o gelo da madrugada
acordou-me que estou frio
a esta altura da jornada;

interrompendo-a, quedou-me
à consciência danificada, havendo
a desmemória do erro:
- a leitosa amnésia em que me esqueço

de então enganos compreendidos
como suaves mal-entendidos

de restos de dívidas
(débitos afetivos)
líquidas, sucessivas

remotamente imaginadas
minuciosas se aproximadas...

(a boa distância, voa a lembrança
- nomes, pronomes, pessoas
situações constrangedoras
em geral particulares)

[diletas dietas de peso
batem cruéis a esta altura;

suspende-se o sono
evita-se o tombo

Pantagruel malabares]

terça-feira, 31 de julho de 2012

SEM TEMPO COM SENÕES

uma banana pras convenções

Questões agora, só as pessoais:

- se a pessoalidade vive de intimidades
a impessoalidade mata curiosidades.

(é bom ser íntimo
até da intriga que entrega;
e feio o curioso
mortificado que nega)

Assédios
saltando de prédios
é impessoal - sujeitos ao plural
dissolvem sua espessura subjetiva;

expedita
(a desconsolada suicida)
ao contrário, é tida
objetivamente desesperada...

Tópicos hoje, só os tropicais
(acerca de clientes especiais)

- e pacientes, os peridurais...

[se então alcanço
âmagos particulares

passos descalço
naquelas proximidades]

sábado, 28 de julho de 2012

AGAIN IN THE RAIN

Cá estou de novo à mesa
do carteado cósmico
já paleontológico
em eterna primavera;

retorno à bruta pedra
remido no consolo
de um sol que aperfeiçoa
sua próxima coroa;

assento-me primevo
(atrás um balaústre)
ensimesmado pleno:

- nas primeiras rodadas
escuso-me amiúde
de tépidas jogadas...

sexta-feira, 27 de julho de 2012

UMA QUALIDADE LITERÁRIA

sua dialética negativa

Um fôlego
preso ao instante
(a despeito
perseverante).

O fôlego
teso do infante
(a respeito
edificante).

Meu fôlego
presa do instante
resfolega
(principalmente)...

quinta-feira, 26 de julho de 2012

ESCONDERIJO

Um lugar, quanto mais comum
e ordinário, tal ancoradouro perdido

por um momento, este urdido
num ponto do fio cotidiano infinito

ao longo do qual ser mais um
eu poderia, inalcançável na multidão

tem maior seu atrativo:

- quando a solidão da razão
(ao respirar, comer, dormir)
infunde a de querer partir...

quarta-feira, 25 de julho de 2012

POÉTICA PARA O FUTURO

já que o presente é obscuro

Ininteligíveis
não quero as palavras

incompreensíveis
desservindo o nada

(ao nada-mistério
elusão opaca).

[mas/porém/contudo/todavia]

Se estéreis a nos servir
esteroides no porvir (para ainda piorar):

- veja a acadêmica poesia...

(ou seja, versos pra academia
da ginástica verborragia

- mônada fragmentária

objeto da intelligentsia
desavergonhadamente alheia

aos que passam à deriva)

Esqueça! Pois dela nada
(ao largo do nada)

toca o fundo de cada
um.

[que líricas extraordinárias
desinvernadas

de lidas desentranhadas diárias
prometam comuns]

terça-feira, 24 de julho de 2012

À SOMBRA

de uma cerveja à tarde

O formato da mesa
predispõe, num quadrado
franco, brancas cadeiras
- eu brando numa delas;

e nela bem-disposto
penso, subterrâneo
o rio que pressinto
- dela contemporâneo;

seus barcos, atracados
às margens do refeito
curso de cada evento;

seus cascos, rarefeitos
abajures que acendo
- lanternas amarelas...

segunda-feira, 23 de julho de 2012

ECONOMICS FOR LIFE

"és possuído por aquilo que possuis"
(sabedoria antiga)

Equivalências
correspondências

dadas de circunstâncias extremas:

- cálculo preciso do caráter
conjuntural da adversidade
(estrutural da necessidade).

(ação-reação
thereisnofreelunch
bumerangues
etc. etc.)

Outro modo de dizer seria
- a abundância nos é lucrativa?

(amores, amizades, confiança
água salgada, lixo, prolixos
shopping centers e desesperança)

[aquisição sem subtração
subtração com aquisição
aquisição com aquisição
subtração sem subtração]

Interessa o abundante
porque nada gratuito:

- como todo fortuito
o escasso no infinito...

domingo, 22 de julho de 2012

DO SOBRINHO

ao redor (aos dois anos)

Heitor:

- o amor

da mãe
da avó

das tias
e primas

de sangue
ou tidas;

distantes
vizinhas

falantes
curtidas

noviças, vividas
são todas queridas...

(mulheres meninas
que mal se percebem sozinhas)

sábado, 21 de julho de 2012

DESDOBRAMENTOS DO TÉDIO

mau impacto poético

Que te aborrece, amigo
que estás tão impulsivo?...

Irritado
arredio
combalido?

Pela conjuntura combatido?...

Pelas circunstâncias circunscrito

fragilizado
desprotegido

embora ainda não derrotado

(como os 'ados' nesta composição ridícula...).

[nada que na tarde amornada
desfaça uma Smirnoff Ice
redundantemente gelada]

JEKYLL AND HYDE

... sim, já estive aqui antes
(já os ouvi uivantes);

a despreocupação do espaço
a má disposição das coisas

quase igual de fato...

***

Nunca a vi pessoalmente
(desconheço-a realmente);

mas a disposição dos quadros
a doce ocupação das unhas

apetece ao tato...

***

[o chão rápido levanta o sol
na pontualidade da manhã;
e tão lépida quanto, a lua
a noite despencará terçã...]

DO BEIRUTE

outra perspectiva

As coisas da minha cidade
- prédios, avenidas, passagens
parques de craques, malandragens
(relíquias da modernidade)

vendo-as se mudam paulatinas
na medida da minha idade
tenho-as porém inconclusivas
- as graças da nossa cidade...

Pois hoje o desenho no asfalto
(das sombras de acontecimentos)
parece o de ontem - traço de algo

da curva dos seus monumentos;
mas se há muito não os contemplo
dá vazão meu rés chão ao tempo...

sexta-feira, 20 de julho de 2012

NA SOPA PRIMITIVA

Ensanduichado

entre a amplidão da imensidão da vastidão por cima
e a ação da transpiração da competição por baixo

simpatizo, até solidarizo-me com o clima
refogado entre as criaturas, acho...

quinta-feira, 19 de julho de 2012

COLORES DOLORES

Nas buganvílias, o vermelho
brota em meio ao verde espinhento.

Mas pela mão branca do vento

apercebe-se do azul seco
que a noite reveste de preto.

(de sorte que perspectiva
a ferida que mais combina)

quarta-feira, 18 de julho de 2012

INTACTO

o consolo de um aflito

Pelo risco
(de estar vivo)

vou-me, e arisco

arrisco

um dedo
(mindinho).

Concedo
a espinhos

furarem-me
o juízo

prometerem
prejuízos

ferirem-me
só um pouquinho:

- nada que comprometa
o sal que à incerteza

tempera de beleza...

VIDA PRECÁRIA

Quando menos se espera
a palavra, por uma fresta
(por um fio que preste)
telefona e acontece

puxar a gaveta das facas
benzer as mais afiadas
(re)partir peitos e asas

entre soluços e soluções
(concluídas as dissecações)

dos entes que tornamos abertos ouvindo-nos...

[pós-modernos, vivos (espertos?), vindos e idos]

segunda-feira, 16 de julho de 2012

OUTRORA NA AURORA

Outro sonho em pedaço que a memória descola
acordou-me alquebrado na antessala da aurora...

(fel me trouxe à boca
bem cedo cediça - comigo e com outra)

Magro nele sorrias
uns lábios distendidos;
triste neles caía
teu cabelo tão liso

que pouco do rosto expunha
de mais miúdo e sombrio:
- parecias recurva
mas o oposto dizias...

De lado estendida
reversa ao que eu via
(o corpo ao contrário)
tua fala insistia

qual conto do vigário
corresponder-te-ia...

[na antessala da aurora
se me passando outrora
esquecida de ida
(nesta vida esquecida)]

domingo, 15 de julho de 2012

ON THE MOVE

... e rápido andando
corrido, levado

(no entanto)
paulatinamente

por vento de antanho
(a ver simultâneo
de vir diferente)

carregado
transportando
o tal fardo
(o seu osso)

novamente
(a contragosto mormente)

o encaixotado cigano...

quarta-feira, 11 de julho de 2012

AOS QUE GOSTAM DE VEGETAR

desculpa pra não animar

Tenho tanta vontade de andar por aí
quanto de ficar assentado por aqui...

Partido, então fico
pensando, perdido

pelas viagens que outros lugares fariam
(pois endereços deslocam-se entre trechos).

Tenho vontade de errar por aí
tanto quanto de acertar por aqui...

Mas sendo apenas
(e longe Atenas)

indivisível criatura do aquém

escuso permanecendo ninguém
além de mim - assentamento assim...

POST-SCRIPTUM

O contraste
súbito

entre a brancura da tua superfície
e a negrura dos teus pelos em planície

cega-me
bruto

(como um flash inconveniente)

para a realidade.

P.S.: deixarei a questão acerca
do real - sua natureza de cerca
(assim como a das conveniências)
em aberto - tanta a certeza!...

terça-feira, 10 de julho de 2012

PANTANOSA

Entre várias coisas por fazer
nada faço - tal como o paliteiro
cheio, de onde um único, primeiro
mísero palito recusa-se a descer...

As muitas ideias, com prazer
todas postergo - refeito o cinzeiro
disfuncionalmente prisioneiro
dessa condição antisséptica de ser...

Num ventre mental (este perverso)
toco o mau momento em que demoro

congestionado, e verso expectoro
desempoçado ato, embora havendo

nenhum querendo prestar-se
ao papel de bem livrar-me...

GEORGE JÁ DESCREVEU POR NÓS

a Leoa,
uma tradução/adaptação livre de "Something"

ALGUMA COISA

Algo no seu movimento
atrai como nenhum amor.

Algo do seu jeito, como é feito.

Por isso, não quero sair
(não creio que tenha de ir).

Algo no seu riso sabe
que pouco preciso de mais.

Algo do seu jeito de ser que ri.

Por isso, não quero sair
(não creio que tenha de ir).

Se este amor irá florescer
mesmo não há como saber;
fique perto, poderia
mas não sei se deveria...

Algo do conhecimento
se revela, nisso penso.

Algo seu nas coisas que desvela.

Por isso, não quero sair
(não creio que tenha de ir).

***

SOMETHING

music and lyrics by George Harrison

Something in the way she moves
Attracts me like no other lover,
Something in the way she woos me.
I don't want to leave her now,
You know I believe and how.

Somewhere in her smile she knows
That I don't need no other lover,
Something in her style that shows me.
I don't want to leave her now,
You know I believe and how.

You're asking me will my love grow,
I don't know, I don't know.
You stick around now it may show,
I don't know, I don't know.

Something in the way she knows
And all I have to do is think of her,
Something in the things she shows me.
I don't want to leave her now,
You know I believe and how.

domingo, 8 de julho de 2012

MEUS BOTÕES, ONDE ESTAMOS?

a propósito de ouvir os Beatles a esta altura da vida

A curva vira

quando o que houve (parece)
determina o seguinte.

Determina. Condiciona. Dirige
o que quer que adiante não se evite.

Se a manhã de ontem
não amanhece

e tarde somente
tardia anoitece

sabe-se que vira (parece)
a curva esquina da velhice...

***

[Dear Prudence
 won't you come out to play?]

sábado, 7 de julho de 2012

MANHÃ DE LAGARTO

Silêncio musical no pedaço
sem vento das sacadas da aurora.

(do festival mundano de outrora
por que pano de fundo só agora?)

Nem tanto - cães, o sol, dois pássaros
encarregam-me de três cuidados:

1. de calado, um bom entendimento
2. no que faço, algum desprendimento
3. e mais diálogo entre sinto e penso...

Por isso, calango, silencio
mas nem tanto - já luz há nos bichos...

quarta-feira, 4 de julho de 2012

DE FÉRIAS

Refestela-te nesse torpor
entre a próxima e o anterior!...

Descansas? Providencia-se?
Fazes necessário no espaço

o hiato?

Questões, deixemo-las
como ao vento brando:

- para quando forte
soprá-las a sorte...

terça-feira, 3 de julho de 2012

NOITE ESTRELADA

São velhas as palavras
tão novas as estórias!...

(os mesmíssimos vocábulos
gastos, ressignificados)

Da noite que estrelamos
imprimo sua memória

no barro fresco dos efeitos:

- nos sentidos mundanos
do tempo desdobrando;

- nos sentimentos contínuos
dos nervos em desalinho
do músculo cardíaco...

Dos teus suspiros
a doce arritmia;

dos teus gemidos
aquela melodia...

(entre carícias
sob o carinho
do som dos Beatles)

***

[do som dos Beatles no fresco barro

reouço como o compasso
de tuas pernas com as minhas

separa tuas coxas macias
do meu peito quando aspira
a curva cheia dos teus ombros
- os sonhos da fantasia]

domingo, 1 de julho de 2012

CARVOARIA

Lava aflitiva!...

Então deslizas
por entre as tripas
assim cozidas

nas investidas
controvertidas
mais intestinas...

Anestesias
idas e vindas
que descaminhas

se tanto animas
de pantomimas
mal digeridas...

(entre vísceras
somos vítimas
desassistidas)

Mas não cansarás
(ou descascarás)
[como os carcarás]

até fruíres
me consumires
e concluíres

tua  perfídia.

Em se tratando do estreito percurso interno do amor

uma delícia!...

sábado, 30 de junho de 2012

PASMO

Hoje quis o mundo inexprimir-se.

Quer-se incognoscível
mesmo na superfície
da mais lisa possível

articulada fatalidade
(quão pode a lógica realidade).

Módico, revolveu em distrato.

Seu mau significado, claro
encachoeirou-se, tão encantador
(ao ponto de não mui lamentá-lo)

que fui inundado de amor
por contemplar navegá-lo:

- e tal profundo horror
(em meio à luz da cor)

por me dispensá-lo explicar-se.

[contudo, este minuto
ao fundo irá defunto...]

sexta-feira, 29 de junho de 2012

ESTAÇÃO DAS FLORES

Com o cenho todo brincando
(a querença de outros trincando)

que Vulcano girando o braseiro
do planalto central brasileiro

mais divide conosco
seu azul sem limite...

Quando o verde chuvoso, a visão de Dom Bosco

(do leite e do mel escorrendo
deleites de um céu lazarento)

se vão, aos pagãos dão, então

a festa dos deuses de beiços
rachados da seca lambendo

as dores dos espinheiros:

- para que de tarde da noite em vigília
possa o dia buganvílias coloridas...

domingo, 24 de junho de 2012

BROCA II

Perfuro meus olhos secos
(nesse relento de olhar-se)

do teu mirar escorreito

em queimação devida
à centração da vida

entre os pares.

Que qualidade o ar teria
- sua tessitura entre as partes?

Seus átomos, moléculas
libélulas a faiscarem?...

[perfura o olhar
também o meu par]

{e  por que, Afrodite
de Hefaísto, enfiaste

(como Vênus em Marte)
[entre Vênus e Marte]

um sol em mim?...}

sábado, 23 de junho de 2012

BROCA

Perfura-me este dia
com a ponta do compasso

do ritmo que determina
qual arrisco quantificá-lo:

- tanto naquele, por dele o espaço
quanto da minha monta estipulável.

Há pedras no curso da estiva
e atrasos no que se encaminha
da (má) companhia de atalhos:

- muito agregável esparso
que o acaso objetiva

em algarismos
que me angustiam

quando anotados...

quarta-feira, 20 de junho de 2012

EM RUÍNAS

... enfim, é tranquilo
viver num período

em que o antigo modo de ser
(de longo e prático declínio)

escancara-se decrépito

e fétido
seu método.

Quando é hora do velho
deixar mestre o recinto?

(antes de alguém mandá-lo)
Pedir prévio o aviso?...

(ao fim, tão egrégio
pacato o processo...)

(o fim é tranquilo)

***

[e quanto aos bárbaros, não
exatamente invadirão

pois sempre aqui entre nós
perfumaram-nos os lençóis]

quarta-feira, 13 de junho de 2012

O TEMPO II

Posso de fato
- como a pedra, a árvore, o abajur
viver parado
(mesmo estirado).

O mesmo acima - e embaixo. Nos quatro ventos
(a despeito de estações e empreendimentos)

estático. Poleiro
do sonho vário alheio
(às vezes tenho feito).

Estático. Extático também
(em respeito ao significado)

porém de movimento:

do tectônico ao sereno
o único que me interessa
amar de ter, sentir à beça

- o da obra aberta do tempo

(o que desdobra o tempo
do momento primeiro).

domingo, 10 de junho de 2012

RATIO ESSENDI

deste blog

Tanto o firmamento
quanto o pavimento

têm aqui seu centro.

Antropocêntrico
Belmirocêntrico

do buraco negro
do ego ergo, ergo

um contentamento
feito de si mesmo

perto de perfeito...

(embora cético
cênico, decerto)

sexta-feira, 8 de junho de 2012

VESPERTINA

Oblíqua tarde
incendiada;

melíflua arte
luzidia

da gratuidade
fugidia
da gravidade:

- de raios que caem
mortos à vontade...

(a solar voragem
fuzilando a vista
paralela à pista)

quinta-feira, 7 de junho de 2012

PRECE MUNDANA

fragmento

... e que a claridade

da tarde
despida

de parte
do dia

permita à cidade

povoar-se
de amores

pra tarde
da noite...

NOTA INTERNA

porque não rio do que sofro

Escrevo do que penso
que sinto que padeço.

Se fosse derradeiro
podia compreendê-lo
(sem a volvê-lo o tempo).

Mas não o é - e o sei.

(e que nunca saberei
a tempo de entretê-lo)

CONSTATAÇÃO II

A divina majestade
da paisagem que contemplo

do topo deste templo
(o mundo em que vivemos)

nesta hora descabida
que me estreita em verdades

é a absoluta medida
da maldita realidade:

- do absurdo que é a vida
em si quando desprovida...

quarta-feira, 6 de junho de 2012

SEMPRE NUNCA

... se esqueceria o longo brilho
daquele olhar esmaecido?...

[talvez nunca exagero:
- paixões tão assertivas
de modo a colidi-las
com a provecta eternidade do mistério]

Mas retornaria
(sempre que esquecida)

àquela luz profunda toda vez

que estivesse escuro
repensando o mundo...

terça-feira, 5 de junho de 2012

ESTUPIDAMENTE

lúcido rima com estúpido

O que de mim vence
quando beijo o frio

maciço, o altíssimo
muro da realidade
dos fatos empíricos?

A sensatez, o equilíbrio
do que viria com a idade
- o que chamamos juízo?

A mesquinhez da covardia
retravestida de bom senso

(mais uma vez)

a confiar na ação do tempo?

(a sorte - por que a temo?)

[desculpo a tudo
porque pequeno]

OURO E PRATA

Hoje cedo ergueu-se o sol
delicado e sonolento
de um lençol do firmamento

cismado parecendo de servir
o desjejum - um café celestial
como o divino néctar por vir

(um dia especial)

à sua dama alteada
do outro lado do horizonte
que pálida o entreolhava...

Testemunhou o casal toda a criação.

domingo, 3 de junho de 2012

AUTOPIRATARIA

Meus nervos de corsário

(tão frios, modificados
por ânsias e circunstâncias
num então justificado)

são do aço necessário

ao saque - ao assassínio
de todo bom juízo

que me acometa, contrito
no baque deste navio

com a realidade do aviso...

sábado, 2 de junho de 2012

CAMPO DE BATALHA

O chão da mais árdua disputa
se terrão que divide - e racha

razão tanta de estar cabeçuda
quanto ser de paixão desregrada

na luta que acaba nunca
do sacrifício por nada

é o que é difícil de encaminhá-la
- pelo que representa a campanha

por dentro da própria casa:

- o peito da pessoa acertada.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

TRUÍSMOS

A vida é curta.
O tempo, escuro

à distância, apuro.

Mal posso evitar

que se curvem, e me curvem
encurtados - e mais turvem

até que o fim suturem.

***

A vida é bela.
O espaço, claro.

Os segundos, escuto
que bem posso contá-los

minutos - e que minutos
não corram, até que morram

abraçados.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

INSTANTÂNEO

A moldura que teus lábios
coadunam de perfeitos

à tua língua desferida
em palavreados termos

caramela pouco acima
da tua linha fugidia

as lanternas amarelas
que adiante me confias

(as tranquilas assassinas
que sequelas cicatrizam)

sorrindo (de si por dentro)
a inapelável rendição

de antemão que te concedo...

SISTÊMICA, ORGÂNICA, NERVOSA, CRÍTICA (E CÍCLICA...)

sistema nervoso vegetativo (fisl) parte do sistema nervoso, constituído de neurônios sensitivos e motores, que regula funções como a respiração, a digestão, a excreção e a circulação, dividindo-se em sistema nervoso simpático e parassimpático, cujas funções se complementam de modo a coordenar o funcionamento de todos os órgãos... (Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa)

O parassimpático que há em mim
está nada, nada simpático
às minhas considerações, enfim...

De todos, o mais temido
reinstala-se - o conflito

que veste, confortavelmente
contradições do tronco à mente

entre o que repenso
e o que ressinto

o que me lembro
e o que pressinto

para ao novo dar um novo lugar:

- abrir a tapa a nova supervia
explodir na cara a supernova

(do vasto porão que rebrilha)

enfim...

quarta-feira, 30 de maio de 2012

PREMISSAS FRESCAS E FATAIS

O que sinto
(de destino)
só o sinto
como se nunca tivesse sentido.

O sentido
(do que sinto)
desconheço
como se nunca o quisesse sabido.

Seu mistério
(infinito?)
reconheço
como se sempre o vertesse destino...

terça-feira, 29 de maio de 2012

TRÊS FATORES CRUCIAIS

O primeiro, esqueço
resolvê-lo
(faço revolvê-lo).

O segundo (o primeiro
de fato), não lembro
direito.

O terceiro - no momento
complicado engenho -
passo...

domingo, 27 de maio de 2012

DUAS ARTES ENFIM IGUAIS

a todo sacrifício odioso

A arte da espera (que renuncia):

- decerto, a habilidade
de convencer o tempo

a tempo de exilar-me
de certo movimento.

A arte da renúncia (que desespera):

- aquela que me intima
(à via agonística)

a postergar a vida
pra certamente um dia...

DE ONDE O IMPULSO

O que arranha nervoso

o trajeto trevoso
oco do pensamento

antes de preenchê-lo:

- um arroubo do vácuo
do inconformado vazio - de plenitudes
de um destituído destino - de tais virtudes...

O hiato - o hiato intolera
(vacatio não se assume);

se o vazio deserta

o vácuo aderna...

(queixumes)

TUDO NUM SEGUNDO

Num canto do jardim interno
ao fim do meu verão eterno

há uma mesa de pedra antiga

contemporânea de sóis primevos
extemporânea do tempo mesmo.

Quedei-me junto dela - não lembro
contemplei-a ainda primavera;

e desde então, ressentindo invernos
nela as mãos alongando os músculos

à sombra do outonal crepúsculo
que se desdobra infinitesimal

te espero, contudo.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

O TEMPO

a Cruz e Sousa

... à frente, e também (o passado)
além, desdobrá-lo - e estendido

cumpre examiná-lo:

- das virtudes do tecido
aos buracos do acaso

de recosturas sem pano
a robustos desenganos

do seu plano americano
até pormenorizado

o fio, ao fim e ao cabo;

se igualmente, com o modesto fito
de não completamente ignorá-lo

- repetidas lições (quais sejam)
menos os senões (obstáculos)

no presente, ao poente

(do sol, o tapete)

recordá-lo...

segunda-feira, 21 de maio de 2012

O RISCO

Tuas lanternas, mel vítreo
balouçando entre destinos

escurecem, cristalinas
dos teus sábios desatinos;

dois escafandros dourados
dois caramelos marinhos

(amarelo-encouraçado
esmaecendo profundo

opaco o brilho
cortando a fundo...).

Se toda vez que me pego
fitando-as, embevecido

(e acompanhando as retinas
se tanto, um meio-sorriso)

escurecer-me é possível:

- se pretérito, que negue
o olhar que por ti arrisco

a perder-se quando abismo...

domingo, 13 de maio de 2012

NOTA CONTEMPORÂNEA

fragmento de significado

De fato alguém lá fora
meu coração aflora:

- a personagem-nome
de uma fatalidade
(sua virtualidade).

Embora além do espaço
(tempo que espaça largo
ao largo dos pronomes)

a de mais realidade.

{enquanto isso, me desespero
em pulsões de nervos concretos
invólucro refém dos mitos
dos sentidos empobrecidos...

[nada marca mais esta ausência
presente que vaga espectral
na nova necrópole virtual]}

sábado, 12 de maio de 2012

JOÃO VITOR

nascido a 7 de maio

Um neto
(meu neto
primeiro)

rosado
ereto
inteiro

e neto
direto
certeiro:

- contudo
que a vida
(e tudo)
lhe diga

querido

lhe trate
(destarte)
o amado

seu filho...

[do mundo
da vida
vivida
a fundo]

quarta-feira, 9 de maio de 2012

DOMINGO 16H

quando preconceito é paixão

Rola a bola
rente à grama
silenciosas
muambas, ambas

maltratadas
maratonas:

- a redonda
(com certeza)
faz de conta
(portuguesa)

que o relvado
não é mato;

a rés plana
(de pisada)
finge planos
(esburaca)

de justiça
nas conquistas...

[fora as pernas
(brasileiras)
as canelas
(brasileiras)

joelhos, braços
(coelhos, galos)

tornozelos
(entortados)
cotovelos
(os violentos)

dos perebas
(estrangeiros!)
que as destratam]

domingo, 6 de maio de 2012

A HARMONIA DA ILUSÃO

àquela anônima sensibilidade

Com vistas ao bem de nossas vidas
proponho a composição que vejo

às esferas/metades/polos que sejam
realidades, suas partes, um ensejo:

as paixões que desarrumam
- que à gravidade anulam (nos dois sentidos)

e as razões que as justificam
- que à gravidade explicam (sem corretivos)

dão-se duas mãos (as outras, repartidas)

em dupla imaginação restituída
originária, que perambularia...

sábado, 5 de maio de 2012

QUESTÃO INOPORTUNA

As datas - estacas várias
fincadas no calendário.

As efemérides, tidas
como comemorativas:

- por que tenho de lembrá-las
se dias de dromedário?

{se improdutiva a rotina
domesticado o trabalho
(apequenado o que faço)

[assim como]

determinados atalhos
(das incertezas de cima)
às inclemências do clima?...}

quinta-feira, 3 de maio de 2012

QUESTÃO MINHA

À tarde, venho cochilando
(surpreso, recapitulando)

sonhos desdobrados para trás

até verdes anos - quando anis
os planos, roxos os encontros

eram negros os pelos todos
rosadas as experiências

repintadas as indecências
na calada das madrugadas;

e compaixões, amareladas
por vermelhas verificações

repaginavam-se, centelhas
de cada novata esperança...

Por que tarde agora, cochilos
coloridos tão desbotados

sobre antigos fados - cochichos
por trás do tempo cortinado

ganham a hora, ecos do giz
da desmemória mais remota?...

(por que nesta hora de agora
quando aqui finco mastro e raiz?)

segunda-feira, 30 de abril de 2012

QUESTÃO MENOR

Que fizemos

que o mundo que temos
nos olha de menos?

[feroz
no indiferente atroz;

algoz

dos sonhos pequenos
(tenros)]

domingo, 29 de abril de 2012

PROCESSO CRIATIVO

a um suporte em extinção

O papel intermedia
o percurso da fagulha

da vista à tela
(e vice-versa).

Não, o papel só rabisca
sua acidentada trilha

da ideia à pedra
reconquistada.

Limpo, o papel redestaca
a brancura da pureza

(antes de ida
escura ainda).

Não, o papel nem obriga
o desenho da figura

da escrita, em suma
qualquer clareza.

O papel sujo argamassa
a feiura da beleza

até que de uma
a outra se esqueça.

Não, o papel mal registra
tal incerteza da agulha

quanto à costura
(quanto ao que fura).

sábado, 28 de abril de 2012

IRRELEVANTE

O silêncio azul-claro
(a cor deste sábado)
que reouço aziago

no caminho que arrisco
(da incerteza do traço)
e na mente refaço
(a tristeza do vácuo)

paradoxalmente
redescanso semente:

- pois qual a diferença
entre a somente ausência
e esta quieta presença
em que nada aconteço

nas quais nos aborreço?...

CARA DE COROA

Pelos da face
como disfarce

para um passado
prenhe de quases.

Descuidados
desgrenhados

malfadados

gordurosos - pelo tato.

(como sentimentos quase
repensados)

O espelho cogita
a barba do dia:

- a frase pedida, a oportunidade
perdida em imagem...

(como aquela viagem
desfeita nos planos
refeita nos danos)

***

A mãe diria:
- mas que medonha
(qual mais me doa?)

justificativa
contra assepsias!

Em princípio, a dona
do meu farto início

sim, acertaria

- mas um pardo indício...

sexta-feira, 27 de abril de 2012

CELESTINA

Afixado

à parede

o teu preço

numa rede

descalabro

e feneço:

se se paga

namorada.

[porque muito
que se sonhe
por descuido
se consome]

CAMPESTRINA

Encostando

na parede

o desejo

de uma rede

respirando

remanesço:

permaneço

namorando.

[numa sede
que destarte
nem ensejo
de casar-se]

MARÍTIMA

Encostado

na parede

fotografo

uma rede

nela feixe

dela peixe:

costurado

namorado.

[um pescado
que aproveite
ao azeite
congelado]

sexta-feira, 20 de abril de 2012

DO MAIS SECO AZUL

Um raio tácito
pouco esperado
por para-raios

(especulado
naqueles sábados
de apenas traço)

caiu, com certeza:

- tripartiu a cesta
azedando a sexta

tal a aspereza.

Que muito envelheça
(em razão dos desagravos)

a circunstância da esperteza

aceita-se como da natureza;

que caia defasado de mais tempo ido
(numa paródia nórdica de um deus falido)

finjo a surpresa!...

segunda-feira, 16 de abril de 2012

CONEXO COTIDIANO

O quadro da solidão absoluta
[é como]
o quadro de uma pintura sem moldura.

Uma clara atenção concentrada
sobre um tênue pedaço do nada

oculta a verdade da tela infinita:
[seja]
escura/cinza/colorida - contínua

sem nada que o substitua
[o quadro]
(porque continua);

nada que o separe da noturna

rua sob a prateada
face sem graça da lua.

Nem antes - ante o parapeito
de mais um precipício estreito

(ademais de um sonho desfeito)

o quadro da solidão absoluta

pinta a ruptura

da cósmica brutalidade
una - de qualquer realidade

última/primeira/terceira

- na segunda-feira.

sábado, 14 de abril de 2012

UM MARANHÃO

Grãos de areia de Caburé
entram em minh'alma toda
vez que uma lembrança tola
requeima a língua no café.

Areia do paraíso
equatorial que esqueço
sazonal quase impossível:
- Caburé, só distraído

face à distância do abraço
entre a memória e o fato
de não mais querê-la viva

tão longe deste cerrado
mental percorrido à míngua
ensimesmado de estivas...

[areal de Caburé:
no chão real esquina
da especulativa via até
se avistar o mundo de cima]

quarta-feira, 11 de abril de 2012

TAIS FILHAS

São três marias
(não, quatro lias)
letícias lindas
em vão meninas;

são quatro vidas
(não, trinta lidas)
contemplativas
enquanto vistas;

vê-las amigas
tão indivisas
(róseas espinhas)

lembra-me vias
quando floridas
sem herbicidas...

sábado, 7 de abril de 2012

SELETIVA

Esqueço
que o peso

de todo desprezo

é lento.

E lembro
(num susto)
que gosto de tudo

sereno.

Tanto esqueço
quanto lembro

estórias

(infeliz)
de menos.

[por um triz que se me cuide
de memórias tal virtude]

sexta-feira, 6 de abril de 2012

FORMOL INFORMAL

política num bistrô em Brasília

Gosto de tradição.
(às vezes, não)

Neste caso
(sobre a mesa ao lado)

guardo (como visão)
o cuidado

do trato à disposição:

- a exemplo do tato
murmurando um rio

à vasta navegação
(num tal desequilíbrio
que emudece os tecidos
do vestuário envolvido).

Suaves entre talheres
(muares com as mulheres)

quando harmonizam passivos
de anuências ressentidas?

(pois há sempre quem dance
a certeza do lance
antes da sobremesa)

quinta-feira, 5 de abril de 2012

À FRANCESA

a todos os carentes
atávicos, sem dentes

Depois da quinta
dose irrestrita

(periferia
do pensamento

de sentimentos
borracharia)

toca o celular:

- rima com tudo
que sufixa em ar

que amor prefixa
a condicionar

que promete vir
se o tempo ajudar...

Se der, contudo
(se meu juízo houver)

peço ao Alaor
(junto à de sair)

a conta da dor
o táxi de ir...

quarta-feira, 4 de abril de 2012

POR UM FIO

Teu timbre
ao telefone

permite
(caso estacione)

vislumbres

alhures

de longe...

segunda-feira, 2 de abril de 2012

ATEMPORAL

Será andante dama
adiante a que desperte

por este cavaleiro
seus anteriores passos?

(por este aposentado
seus interiores prados?)

Estertorantes pastos
ressecam meus cavalos

há tempos. Há veleiro
que partido navegue

este exato momento?

Vontades apascento
à vontade relendo

uns romances antigos:

- de mulheres sorrindo
à passagem (miragem)

deste eu aquiescido...

domingo, 1 de abril de 2012

HOUVESSE O AMOR LEVE

Ali não se foi antes
pois se conteve diante
dançante da surpresa
castanha que o deteve.

(tamanha ela podia
se presa tão quisesse
com pressa de quermesse
nem que esquentasse o dia)

Mas depressa - já via
(decerto ali desvia)
pediu ao fogo amigo
do bom senso restrito

do momento ausentar-se:
- ficasse sem consenso
dos nervos, por certezas
constrangido de menos...

[que tudo valeria
o nada que nadasse
- a fada que escapasse
que ludo esqueceria!...]

sábado, 24 de março de 2012

ROLLING

Enquanto espero
(fervendo interno)

na expectativa adocicada
por delícias bem-dispostas (posto
que as considero)

meus olhos erram

de mesa
(de presa)
da cesta

de moedas

etéreas que este cassino aéreo
me empresta...

quarta-feira, 21 de março de 2012

PERSPECTIVA

O horizonte total
(da absoluta inexistência de degraus)

que areja

a linha aturdida à frente da cabeça
(em dia)

talvez escureça
- tão claro o boquiaberto espaço em revista

a dita

antes que anoiteça.

segunda-feira, 19 de março de 2012

LAMENTO MUITO

Há dias não escrevo.
(talvez fingisse
que devia)

Tampouco cansado
por outras lidas.
(só ocupado)

Mas emagrecido
de mais contatos
regressivos:

- rotina contábil
(a vida retrátil)

que aos meus tratados
precariza.

domingo, 11 de março de 2012

O verso e a prosa, segundo o poeta

diferenças

"Se eu chegasse ao pé do leitor e lhe dissesse: 'Esse seu automóvel não é um veículo, porque não é puxado por cavalos', é provável que o leitor não aceitasse como bom, ou pelo menos como dito a sério, o meu argumento. Quando alguém chega ao pé de mim e me diz: 'Este poema não é poema porque está feito em linhas que não têm medida regular, que não têm rima, que se não podem medir nem ler como versos', essa pessoa [faz] uma afirmação em nada diferente daquela minha afirmação hipotética sobre o automóvel do leitor.

***

O verso difere da prosa não só materialmente, mas mentalmente. Se não diferisse, não haveria nem uma coisa nem outra, ou haveria só uma que fosse uma espécie de mistura de ambas. O estado mental que produz verso é diferente do estado mental que produz prosa. A diferença exterior entre a prosa e o verso é o ritmo; a diferença interior entre a prosa e o verso será a entre um estado mental que naturalmente se projecta em simples palavras, e um estado mental que naturalmente se projecta em ritmo feito com palavras.

***

Há ritmo na prosa, e há ritmo no verso. No verso, porém, o ritmo é essencial; na prosa não é, é acessório - uma vantagem, mas não uma necessidade. No fundo não há verso nem prosa..."

Fernando Pessoa, "Poesia e ritmo". In Obras de Fernando Pessoa, vol. III (poesia). Lisboa: Promoclube, pp. 105-106.

Aristotélico Pessoa

um apontamento

"A literatura dramática é uma subespécie de literatura narrativa, e esta uma espécie do género literatura.
A literatura é a expressão verbal de um temperamento; a literatura narrativa a forma objectiva dessa expressão verbal; a literatura dramática a forma màximente objectiva - ou seja, a forma sintética - dessa expressão objectiva. Um drama não é mais que um romance na sua forma máxima de síntese possível. É por atingir esta objectividade máxima que ele pode receber a aparência de vida, isto é, que ele pode ser simulado num palco por pessoas a que se chama actores.
As qualidades possíveis do drama resultam, portanto, de três origens. Há as que ele tem em comum com todas as formas literárias, visto que ele é literatura; há as que ele tem, mais particularmente, em comum com todas as narrativas literárias; e há as que lhe são próprias como forma màximamente sintética da narrativa literária.
Há três espécies de drama: o tipo sintético, que busca incluir em si, equilibrando-as, as três ordens de qualidades que ao drama são possíveis; o tipo analítico, que busca apresentar só as qualidades particulares e distintivas do drama; e o tipo misto, que busca reunir, conforme possa ser, as qualidades desses dois tipos.
O tipo sintético do drama atinge a sua plenitude no drama em verso. Por ser em verso atinge o máximo da expressão verbal de um temperamento, que em verso se acentua muito mais que em prosa. Por ser drama reduz essa [expressão] verbal à objectividade."

Fernando Pessoa, "Apontamento". In Obras de Fernando Pessoa, vol. III (poesia). Lisboa: Promoclube, pp. 103-104.

quinta-feira, 8 de março de 2012

FINA

E de banda
veio mínima

a lâmina
que me fulmina.

Fez a curva
(meia-lua)

reta e limpa
(não havia).

Evitá-la
descabia

(agilíssima);

simular desvio
(do fio) devia:

- a disfarçar a ida
da jugular ferida.

Ainda que esvaia
manter a linha

(de passos de praia).

[como a vida
quando grita

agonística

retinta

rejuvenescida]

segunda-feira, 5 de março de 2012

NO RITMO DA LESMA À FACA CONDENADA

a João Cabral de Melo Neto

Há um vibrato
sopesando

(mezzo atroz)

o agridoce
móvel cardo

me cortando
vagaroso

no que atento
legalmente

por tua voz.

[tratando-se
(ao telefone)

da presença
incorpórea
modulada
da memória]

domingo, 4 de março de 2012

LUZ

a Zaritè

Como não ser
previsível?

Imperturbar
tua beleza

- de estar nua
sem defesas

apressado?

Descaminhar
(rebobinar)

este filmar
precipícios?

Esquecê-los
num hospício?

As palavras
nos são caras

- certos atos
impagáveis

(e passados
e destinos);

desusá-los
impossível...

Como prever
(e te-bem-ver)

invisível?

quinta-feira, 1 de março de 2012

THE CAPTAIN CAUGHT HIS FIRST PREY

Deu pena.

Deixei apenas
gotas vermelhas

(umas dezenas)
pelo caminho.

As penas, aspirei
compungido:

- um passarinho
um filhotinho
(um desperdício).

***

Sei da natureza dele
de Cisco sobre um cístico
DNA explodindo:

- de instinto tingido à pele
do inocente que assassino
a contrapelo parece

Freddy Krueger
Jason Voorhees

simply Jack

numa segunda, 27.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

THE CAPTAIN IS CROSSING THE BORDER

Sob a lua crescente
um inteiro adolescente

pretende.

(a rua dentro dele)

E o coração aflige
quando em seu lento aclive
(de batimento triste)

resiste.

[lembro-lhe:
Cisco não nos pertence]

domingo, 19 de fevereiro de 2012

ARGUMENTO

Viver em atos
sim, é muito mais
importante que
de textos viver.

Dar de comer
aos sentidos
é muito mais
(nunca ademais)
relevante

que, elefante
estetizar
(tergiversar)
seu mal-estar.

Aos sentidos
dar de comer;

à arte só
só dar de ombros:

- porque, à hora agá

[da vitória resoluta deste acaso
que é o absoluto cansaço de ordenar]

tecer escombros
ninguém quererá.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

SONETO SONOLENTO

de um sonho carnavalesco

Há um sábado, domingo
a semana invadindo
que me estira o vadio
lagarto do espírito;

pela terça, a segunda
estica parecença;
de nada é moribunda
na feira em que aconteça:

- esta festa fluoresce
por dentro cem por cento
(destoa o pensamento)

[ao relento, coalesce
no máximo um mormaço
à toa, pardavasco]...

***

[na presença da cerveja
caroço da geladeira
o esboço da pasmaceira]

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

ININTERRUPTA

Brilham intensos
por trás das palavras
teus olhos morenos

(assim como o nada
que a tudo desarma);

rasgados, eu lembro
(também tuas palavras)
de há pouco tempo

aquém das fachadas
cortinas, fumaças
que o vento não sopra

num verso que sobra
imenso agora; enfim

há tua fala, que ri
(para além da hora)

teu largo marfim...

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

EM SUMA

Ressuscitada
desimpedida
repovoada
emagrecida

ensolarou-se;

decantada
rarefeita
expandida

prometeu-se;

da crise
refeita

em riste

esta alma (ouviste?)
bem que podia...

(ao em seguida)

domingo, 12 de fevereiro de 2012

MIX

Mormaço
mortiço

castiço e
mestiço

(típico
do início
em berço
de peso

granítico
derretendo):

- bruma de Burma
frio do estio...

[parda heterogeneidade

(opaco resultado da
climática mixagem)

que paira entre eu e a cidade]

sábado, 11 de fevereiro de 2012

PRECEITO LÓGICO DO NÃO

Nas horas em que
o vácuo se impõe

como faxina
interiorana
das intestinas

(da que revira
 em casa ainda)

se ora desanda
perspectivas

[a redundância
preconcebida!]

não dá pra escrever

se despretende
o que avizinha;

então pressupõe
não há prescrever:

- resistiria...

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

ANTEONTEM

Fui à noite da ostra prateada
sob o seio da enchumaçada
concha compreensiva.

Marmórea. Invertida.
Desestabilizada
(se etérea todavia
de impossível ruína).

A noite tectônica da abóbada
nada geológica. Aceleradas

suas placas sujas perfuradas
rodaram embaçadas

saias e anáguas

(a encardida algodoaria
dos bons-tons múltiplos do cinza)

congestionando vias do céu.

Faroletes havia
cabeças de alfinetes
- as digitais dos deuses
pespegando paredes

de absolutamente.

E meus olhos caixilhos
(na ótica dos trilhos)
molduraram os cantos
dos encantos da cena:

- no túnel redondo
louco espiralando
preso ao centro branco

um Pollock titânico
borrando a demão cistina
de um falso Michelangelo

abriu-fechando pernas
à madrugada mista

que há tintas não se via...

(dialética delenda
de eclética ferida)

[de prata a prataria
tão suspenso argento

por sobre a pradaria

(suspeito)
dinheiro algum briga]