quarta-feira, 3 de junho de 2015

REVISITA 63: CLARA AINDA DESERTA

Às vezes pressinto, quando alço a vista acima
Da rotina quase prazerosa, pacífica cotidiana,
O que de mim surpreso ainda não veio:

- um gesto cego, no espelho outra sombra
indo além do silêncio leve e tranqüilo
que hoje desfalece poeirento.

Às vezes penso, quando meço o tempo à frente
Do deserto luminoso atravessado na garganta,
No que de ti terá de vir, veio d'água em terra seca:

- a umidade das saliências, o suco das reentrâncias,
a promessa que a fotografia toda sorriso antecipa
do que hoje me impele a braçada na areia.

Amor, às vezes acho que sou tão teu,
Binóculo tão enfocado no que é teu,
Que te enxergo clara, duna ensolarada,
Nos grãozinhos da areada vida esfarelada;

Amor da foto quase poeira sobre a mesa,
Da bruma cega da promessa ainda futuro,
Traga a surpresa-oásis do vir-que-veio-mesmo!
Ao espelho vislumbrado quando alço o eu acima...

19/05/1997

terça-feira, 2 de junho de 2015

REVISITA 62: O MAGO

espelho das estrelas

O mago destino,
pintado o caminho,
convida-nos,
prenhe de futuros,
aonde quiseres ir.

30/03/1997

segunda-feira, 1 de junho de 2015

REVISITA 61: NINFAS

Sob a capa estrelada
(da lua nova, imaginada)

que veste de esperança o tempo

te concebo, refendida
(entre rosas, margaridas)

como as ninfas que desejo...

29/03/1997

domingo, 31 de maio de 2015

REVISITA 60: MEMÓRIA DE ABRIL

Meu já tão amor, tome esta rosa como lembrança
daquela tarde distraída, encostada e entreaberta
em que fui atenção tua, molhando os teus lábios
num caminho qualquer cruzando os meus passos

onde dadas as mãos ficamos, o olhar úmido boiando
dados os braços, as pernas, a anaconda que tornamos
a esticar devagar o tempo, amar as sestas, as sextas
sábados, domingos, feriados - dias úteis quanto santos:

- na celebração do que desanda facilmente
se negligentes achamos
que um réptil dura cem anos;

- na busca de flores sumidas entre os pêlos
que comungamos
num jardim eterno de cuidados.

30/03/1997

sábado, 30 de maio de 2015

CEDIÇO

Antes daquilo
parecer isto

(e parecendo
tê-lo esquecido)

fica a contento
sê-lo partindo...

REVISITA 59: BAILARINA

Que papéis nos rondam
no palco das coisas alheias?

Da vida trapezista só peço
teu olhar de bailarina

que enviesado me apruma
(e faz com que sigo)

direito ao longo dos dias...

30/03/1997

quinta-feira, 28 de maio de 2015

POLÍTICO

O invólucro
que te envolve

sobrelucro
contingente

(sobretudo)

indigente
ante a gente

te devolve
a este mundo

granítico
como dele

(sobretudo)

REVISITA 58: SILENCIOSAMENTE

Por sobre a neve opaca
de tantas horas confinadas

retidas em brancura gélida
fantasmagórica

deito olhar longínquo
por ti agasalhado da noite fria:

- pela presença cálida
fresca e luminosa

dos teus ires e vires
pelos cantos da memória...

01/03/1997

domingo, 24 de maio de 2015

sábado, 23 de maio de 2015

UM VELHO AMIGO

o que se esgueira

Rato ou ratoeira

o abismo espreita
qualquer colheita.

O abismo espreita
quem dele esqueça.

O abismo espreita
se cai da mesa

(a vida estreita
despenhadeira).

Repare. Veja
(senão mereça)

sua redondeza
abraçadeira

(em volta a mesma)

de natureza
fingida e besta.

REVISITA 57: À NOITE

À procura de um caminho, perco-me à noite
Entre vias que distraem e atalhos que enganam;
Dos impulsos caprichosos, sequioso permaneço
O desejo suspenso em encruzilhadas infinitas...

Dos rastros de sonhos desvanecidos, mal chega o dia
Maldigo as idas sem vindas, tão exaurida a busca, e exaustiva;
E na vigília que perdura, ao marcar a hora lenta
Paraliso a procura, a minha procura à tua procura...

Contudo, uma vez vivo, se insisto e acredito
Que o que ignoro e tu desvias esconde as pedras exatas
O chão inequívoco das certezas que não virão

Na inutilidade de tentar, seguro permanecerei:

- pois se invólucros sonhamos, e a noite é finita
seguirei te buscando e me perdendo, vez que sempre chega o dia...

08/07/1996

sexta-feira, 22 de maio de 2015

MAYA

all bubbles

Trabalhas

falhas, talhas
relhas, cilhas
quilhas, olhas
hulhas, bolhas.

bolhas. bolhas.

Muralhas

calhas, valhas
gelhas, ilhas
colhas, júlias
bolhas, bolhas

bolhas, bolhas.

Baralhas

alhas, quelhas
milhas, molhas
rolhas, tulhas
bolhas, bolhas

bolhas, bolhas...

Farfalhas

malhas, telhas
pilhas, silhas
tílias, folhas
grólias bolhas

bolhas, bolhas

bolhas, bolhas!...

Gargalhas

palhas, celhas, bilhas
solhas, trolhas, bulhas
bolhas, bolhas, bolhas

bolhas, bolhas, bolhas

bolhas, bolhas, bolhas!!!...

***

[caralhas

elhas - dálias, lélias
filhas, velhas, polhas

pulhas, bolhas

bolha]

quarta-feira, 20 de maio de 2015

REVISITA 56: ACORDO

... se por acaso
ou descuido imprevisto
a contabilidade dos momentos dissonantes não bater
não se inquiete:

- momento virá em que os modos distintos
humores contrários
então fundidos
temperados
encerrarão nossos lábios
num beijo.

21/05/1996

REPROVAS?

À prova
de cola

a prova

aprova,
decola,
descora:

1. aprovas?

2. decoras?

3. escoras?

4. descolas
de escolas?...

terça-feira, 19 de maio de 2015

ENTRE O ALMOÇO E O CAFÉ

... basta distraí-la
num cochilo - a vida

(a tida e presente)

para que a lembrança
numa estranha dança

cochiche à pestana

sua história ausente...

REVISITA 55: SEM TÍTULO

De um tempo que não te vejo, veio esta névoa
A turvar um olhar cansado de te faltar;
Sonolência de almoços, de sentidos entorpecidos,
De tardes mal digeridas, tanta a minha saudade!...

Vivo um sono irritado, letargia impaciente
Da tua ausência de um leito demente de tantos sonhos!...
Onde, por vezes medonhos, acordados ficávamos
De um medo paralítico, tanto o medo de acordar!...

Agora que estás não estando, para lá de horizontes,
Muito além de azuis quentes e negrores estrelados,
A névoa árida em que acordado turvo
Cochila pesada a minha saudade...

Mas até quando, por quanto tempo
Cansado de te faltar, almoço e tanto me entorpeço?

Respondo que provisório - espero!
Pois se cruzo as tardes indigesto,
É da ânsia de afogar, demente entre beijos,
A paralisia da tua ausência:

- o monstro acordado medonho
que paira por trás desta névoa...

02/05/1996

segunda-feira, 18 de maio de 2015

DÉJÀ VU

Do dia de ontem
no dia de hoje

que arde recém
(destarte refém)

no que vem à noite

do quanto houve
até que me contem

pressinto os poréns
(ressinto-os também)

sábado, 9 de maio de 2015

REVISITA 54: SECRETÁRIA

Nesta manhã sonolenta, preguiçosa
Uma luz branca pousa sobre a mesa.
Luz da memória, sobrevinda entre poeiras
De tua ausência, presente nos cantos da sala.

Das fotografias que a luz dispõe sobre a mesa
Guardo suave o lume de tua natureza, contida.
A promessa de retorno que fizeste, espera
Calmamente
Retida na imagem à frente, sobre a mesa
Colorida dos vestidos e sorrisos que refaz agora.

Das letras que alinhavo neste instante
Vem um desejo além dessa luz matutina
Além dessa mesa empoeirada
Dos cantos da sala
De fotos que simulam jardins:

- Se quieto fico, e mais passe devagar a hora
se ao tempo deixo contar os minutos
certamente os passos que te levaram
em segundos te trarão de volta!...

29/04/1996

SOBRE UM ASSOMBRO QUE SE REPETE

... essa frescura, tão sorridente
quão prematura

da punctura (mas reincidente)
de novas curvas

põe em alturas impenitentes
pra mais um tombo

um velho lombo
sobrevivente

sobre os escombros
de tanta gente

- e dando de ombros
de ombros somente!...

quinta-feira, 7 de maio de 2015

REVISITA 53: O TEU SORRISO

O sonho que sonho sorri
Branco um sonho de dentes perfeitos.

27/04/1996

DO ANALFABETISMO EMOCIONAL

fragmento pouco esclarecedor

... tua leitura teima
em toda sentença

ver o pé da letra

(tua leitura teima
o que então contempla:

- um sentido besta);

tua leitura teima
sempre uma presença

que inexiste a mesma;

tua leitura teima
no que desconhece

de própria e alheia

[tal leitura teima
no que desmerece

sua feitura plena];

tua leitura queima
o que a vista almeja:

- antes suspendê-la...

segunda-feira, 27 de abril de 2015

REVISITA 52: THE DAY AFTER

Hoje é o dia da saudade
de ontem.

Dia de lembrar o que a pele ainda guarda
do teu perfume e carícias.

Hoje não; nada de cuidados
(de beijos, afagos ou palavrinhas doces).

Só a apertada saudade do teu ser delicado
de ontem.

26/04/1996

AQUÉM DO EGÍPCIO

O sol, impassível
restou impossível

divindade crível

face a sua impotência ante o drama humano.

Sol impossível
embora ubíquo:

- embora caro

embora belo

de um amarelo

divino incrível!...

ESTADO DE CERCO

A vida sitia.
O mundo sitia.

- mas nada sentia
porque antes sentia

que tudo podia.

Agora, titia
o tempo sitia

- e o mundo dá vida
à sorte devida...

domingo, 26 de abril de 2015

REVISITA 51: DA LEITURA

Lês, se não tens como fugir à letra
Uma vez que tornaste armadilha:
- Não sabes escapar à minha indulgência de anos
que preenche as tuas horas vagas.

Tempo de leitura, de prisão com asas.

Lês porque és indulgente
Também.
Pedinte do que queres extrair de si
Na letra da minha indulgência de anos.

Tempo de espelhos e reflexos.

Enfim, lês acerca do que temos de mesmo.
Lês porque preciso saber
Preencher.

15/04/1996

QUADRA DO CORREDOR A TAUTOLOGIZAR

o que correr quando pensar

... ah, é corrida
tão concorrida
que tão corrida
é concorrida!...

REVISITA 50: CONVITE AO POUSO

o início de outro ciclo

Se chegares, bem-vinda! Que chegues num bom olhar
Nem muito atento, nem generoso por demais!
Condescendente, talvez morno
Que às vezes umedeça, de sincera pena
Da incompetência inconformada que busca, busca...

Se chegares, que chegues paciente:
- As arestas das linhas à frente
recusaram o polimento dos anos atrás.
Daí o verso repetido, o vocábulo circunscrito
Ao sopro desmedido que lhes deu sentido.

Se chegares, que chegues realmente
Pois preciso do teu chegar.
Teus olhos frescos - quem sabe?
Teu desconhecimento - talvez!
Prometem outra luz à mesmice da leitura

Destas páginas puídas de tantas revisitas...

11/04/1996

sábado, 25 de abril de 2015

QUADRA DEFENSIVA

Aquela curva

que à mente turva
que à mente curva

a mente turva.

CRÍTICA DO ESTADO DO PLÁSTICO NA ARTE

A efetividade

a fecundidade

a profundidade

da visualidade

de toda paisagem

de toda miragem

de qualquer imagem

sua animalidade

sua autenticidade

sua (a)normalidade:

- racionalidades

qual opacidades...

DESPERDICEI-O

Acordei cedo.

Acordei cedo

verde e sem medo.

Depois despertei

longe de bento

monte de vento

num pavimento

tarde do tempo

- pois desperdicei

o antes que veio

(quando despertei

desperdicei-o).

...

[acordei cedo

tarde no tempo;

depois despertei

do que antes veio]

quinta-feira, 23 de abril de 2015

PLATÔNICA

Amo abstrato
teu substrato.

Amo abstrato
decíduo e gaio:

- porque abstraio
nosso contrato

teu substrato
precípuo e esto

pode vir resto
de si prostrado

resíduo ao trato

contíguo ao quarto...

quarta-feira, 22 de abril de 2015

SINOPSE

de la petite mort

Prolapsa
sinapse

colapsa
monopse

em lapsos

de ilapsos

relapsos...

domingo, 19 de abril de 2015

BANDIDO

... esse descompasso

a pé, passo a passo
(da fé porque passo)

entre o meu tempo e o teu espaço

só nos faz cansados
só nos traz inchados

tanto os teus rins quanto o meu baço
do tanto de fins e de abraços

[enquanto o meu fim for teus braços]

sexta-feira, 17 de abril de 2015

DA MADUREZA

A natureza
a sutileza

a correnteza

do que é a beleza

na forma fêmea
de uma alma gêmea

pede clareza
pede firmeza

pede franqueza
(consigo mesma).

quinta-feira, 16 de abril de 2015

AOS MEUS ALUMNI CELULARIS

dica em dia de prova

Evitem a pressa
a noção de pressa
tentações da pressa:

- respirem sem pressa
meditem sem pressa
levitem a pressa...

Resistam à pressa
à ação com pressa:

- reação à pressa
da visão depressa
(depressiva, essa).

Assistam a pressa
seu andar depressa

sem andar depressa
se fazer de presas:

- indispensem compressas
se ao baterem a testa

debateram à beça!...

DADIVOSA

... tanta graça na presteza
tão feminina a leveza

com que a lua quando nova
com que a lua quando preta

subtrai-se de clareza
subtrai-me nesta cova

e vitamina a incerteza
do que faço sobre e acerca...

segunda-feira, 13 de abril de 2015

GOSTO

de Cecília Meireles

Não gosto de poesia discursiva.

Gosto da jovem Cecília
- da Cecília simbolista.

Discursiva a poesia, tem quem a prefira:

- aquela dissertação
que o mundo cão explica.

Se depender de mim, a poesia discursiva

(a que prosa, prosaica fica
mesmo se obra fina, crítica)

vai muito bem, desobrigada.

...

[gosto da jovem Cecília
porque sua melancolia

(de moça noturna em vigília
que a mocidade desperdiça)

se pudesse abraçá-la, o faria]

quinta-feira, 9 de abril de 2015

quarta-feira, 8 de abril de 2015

DEZOITO

caco pretérito V

Boneca
esperta!

Aquela
janela
futura
aberta
te espera!

Fraterna
te busca
sortuda
taluda
sapeca!

Desperta
interna
tua luta

maluca
quimera
por ela!...

27/08/09, 08/04/15

terça-feira, 7 de abril de 2015

QUADRA PROPEDÊUTICA

caco pretérito IV

... perfuma à toa
assim - a toda:

- moça tão boa
da popa à proa...

26/03/09, 07/04/15

TRIPLA QUADRA REENCONTRADA

cacos pretéritos

(torpedearei o meu amor
de loas, quantas em louvor
da vida que terei, do ardor
com que amo tanto o meu amor)

...

[do meu amor, os pés
encerram cafunés
que descubro à noite
no mais doce açoite]

...

{no meu amor, os peitos
me pedem, tão perfeitos
saraivadas de beijos
que mordo-os (os beiços)}

18/03/09, 07/04/15

segunda-feira, 6 de abril de 2015

SEXTILHA DA TUA VELHICE CHEGANDO

És um celerado
desacelerando

bonzinho esperando

(sozinho estercando)

[vizinho espetando]

{vinho especulando}

sábado, 4 de abril de 2015

Soa, precisamente, a minha pessoa

por Pessoa

"Que é viajar, e para que serve viajar? Qualquer poente é o poente; não é mister ir vel-o a Constantinopla. A sensação de libertação, que nasce das viagens? Posso tel-a sahindo de Lisboa até Bemfica, e tel-a mais intensamente do que, quem vá de Lisboa á China, porque se a libertação não está em mim, não está, para mim, em parte alguma. 'Qualquer estrada' disse Carlyle, 'até esta estrada de Entepfuhl, te leva até ao fim do mundo'. Mas a estrada de Entepfuhl, se fôr seguida toda, e até ao fim, volta a Entepfuhl; de modo que o Entepfuhl, onde já estavamos, é aquelle mesmo fim do mundo que iamos a buscar.
Condillac começa o seu livro celebre, 'Por mais alto que subamos e mais baixo de desçamos, nunca sahimos das nossas sensações'. Nunca desembarcamos de nós. Nunca chegamos a outrem, senão outrando-nos pela imaginação sensível de nós mesmos. As verdadeiras paisagens são as que nós mesmos creamos, porque assim, sendo deuses d'ellas, as vemos como ellas verdadeiramente são, que é como foram creadas. Não é nenhuma das septe partidas do mundo aquella que me interessa e posso verdadeiramente vêr; a oitava partida é que percorro e é minha.
Quem cruzou todos os mares cruzou sómente a monotonia de si mesmo. Já cruzei mais mares do que todos. Já vi mais montanhas que as que ha na terra. Passei já por cidades mais que existentes, e os grandes rios de nenhuns mundos fluiram, absolutos, sob os meus olhos contemplativos. Se viajasse, encontraria a copia debil do que já vira sem viajar."

Fernando Pessoa, "O livro do desassossego". In Obras de Fernando Pessoa, vol. X (prosa). Lisboa: Promoclube, pp. 217-218.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

RECADO DE FLOR

caco pretérito III

Olá... Meu nome é Florbela
- de Flor Florisbela!
Pra florir - e assim agradá-la
preciso de água - à beça!

E de adubo, da semana
à quinzena - pra bem cuidada
ô mana - enfim adubá-la
também (tua pausa cotidiana!)

E de sol, amica mia
meia-sombra! - só parte do dia
- de vida envasada à janela

pra ser sempre tua Florbela
- a Flor Florisbela

não só todavia!...

23/06/09, 02/04/15

INEXPRIMÍVEL QUERIDA II

caco pretérito II

Querida
chega de rima
de sereia e fantasia:

(o que finges desquerer
da delícia que antecipas)

- tratarei de te atrair
(a nadadeira fendida)
para o amplo, desconexo
(de parte marinha da vida)

industrioso belo sexo
(que descama, guelra, espinha
dança, acama, peleja, saliva
diante da vítrea vista)

que em terra nos abriga!...

23/06/07, 02/04/15

INEXPRIMÍVEL QUERIDA

caco pretérito

Querida
por que me miras
miragem afrodisíaca

- se areia
ainda ousadia
sei que não sou?

- se sereia
vinda maresia
sei que não és?

(mulher de outros papéis...)

23/06/07, 02/04/15

quarta-feira, 1 de abril de 2015

REVISITA 49: BRANCA

o fim de um ciclo

A lua de ontem prateou-nos
Etérea, embaçada, reencontrada
Poética
Lume dos teus olhos na água mais profunda.

Quando o teu olhar iluminado descansou
Pousou além de mim, sobre o lago escuro
Percorrido intermitentemente
Trapos de horizonte tecidos em paz.

Mas não só teus lumes gêmeos
Colheram pétalas do momento:
Um sorriso cálido, mãos ligeiras, teu traço sinuoso
Deixaram-me marcas.

E os segredos que teus lábios contiveram
O corpo revelou, pleno de palavras:
Cantou todo o teu ser
Minha alegria de saber mais de ti.

23/02/1989

terça-feira, 31 de março de 2015

TUCANO

uma singela homenagem (a propósito desta efeméride)

Nos planos
eu plano

maspiano

uspiano

marciano!

Todo ano
dos planos

ufano;

todo ano
teus planos

no cano
eu dano.

De planos
maspianos

uspiano
marciano

eu plano:

- mas piano
teus danos...

REVISITA 48: MEIA HORA

Um pouco de tempo, é só do que preciso entre textos
Que fingem trabalho, e os minutos do almoço
Que fogem rápidos no meio do dia

Para de novo empunhar o arco retesado
Ontem, e lançado infinito nas paredes do quarto
Em que pretendemos.

Onde, no pouco tempo que tivemos
Setas privilegiaram-nos como alvos convertidos
A prazeres lascivos, e ofensivos
Da alheia escassez de sua procura.

Perdidos na negra e comovida contorção
Da vertigem desmedida que alimenta a incerteza
Do outro, vimo-nos
Um no outro, e em buracos obscenos.

Mãos, pernas, termos e engasgos
Frustraram-se tão poucos para o vivido entre tanto.
Idas e vindas do desejo monolítico
Fundiram-se curvas de um quebra-cabeças enfim completo
Sem fissuras.

E se não gostamos destas crises do equilíbrio
Labirintites ciclópicas
Restou-nos líquido o alívio, ali vazado dos músculos
Derretidos.

[para o amor em questão
transfixar carnes de espírito, colher a fórceps gemidos
digerir dos sustos reticências
não houve maior estímulo]

28/09/1988 

segunda-feira, 30 de março de 2015

PRECISO DE VERDADE

mentira que desminta

Preciso de Cassandra
do mito de Cassandra:

- verdade que tamanha
mentira se acompanha!

Preciso de Cassandra
Cassandra se a troiana:

- daquela sacrossanta
embora doidivanas...

Preciso de Cassandra
da Cassandra, Cassandra

não mais de Cássia ou Sandra:

- cercada de africanas
decanas mariaranas
doutras marapitanas
paravianas, pauxianas!...

Necessito Cassandra
seus ritos de Cassandra:

- precisos entre humanas
necessidades tantas

que engano porque enganas!

Preciso de Cassandra
quer diva nas Guianas

pitonisa entre tanas
pulseiras, pelicanas

em nada doidivanas:

- verdade que acompanha
mentira se tamanha

tão mais que Cássia e Sandra...

domingo, 29 de março de 2015

quarta-feira, 25 de março de 2015

À DIREITA DAS ANTAS

de nós, andas

Cada
nada

[dada (a)
faixa]

{dada [a]
caixa}

nada
nada;

rio
nada

praia
nada

luxo
nada

lixo
nada;

riso
nada

siso
nada

raia
nada

cada
raiva.

Cara
jóia

(jóia
rara)

vezes
bóia

(fezes
óia!...)

terça-feira, 24 de março de 2015

REVISITA 47: PROMESSA

Se um veio líquido
Distraído
Solto ao menos num respingo
Suspenso no ar

Vindo da tua natureza, fronte longe de esgotar-se

Alcançar meu quase jardim
Intramuros, urbano e sem cuidados

Explodindo alamedas e azaleias coloridas
Constrangidas pelo chão até então cinza

Certamente os sons e os odores
E os paladares dessa fina química

Viajarão verticais

Aeroespaciais

À procura da beira d'água
Por ti posta inadvertida ao meu alcance.

04/05/1988

domingo, 22 de março de 2015

RÁDIO DOMINICAL

Barça e Real
em catalão
ou espanhol:

- que difusão
dirá global
meu portunhol?...

sábado, 21 de março de 2015

REVISITA 46: ADULTÉRIO

Jaz nos caracóis densos
Negra floresta
A mão de tantos cabelos.
Do frêmito da raiz ao pensamento
De um roçar milimetrado
Salta o rasgo insano.
Que faz a mente de um cálculo
Ao frio oportunista que aquece?
Sabem os dois, a rua sonolenta
Diária e suiçamente
Desfaz o plano perfeito:
Cortina cotidiana esticada até a esquina.
Que faz plástico o pente insurreto
Dos dedos da formosa dama?
Sob óculos vidrados
Varrida de toda impressão tola
Deita a angústia tesa de insatisfação.
Divide-se em duas, três mil fragmentos
De coerência comportamental sócio-exibida:
Querer um corpo para comer saciada
Uma alma para ter enganada
Um vetor do prazer consoante
Tutor do futuro
Escravocrata de plantão...
Que fazer do amor da eternidade em minutos
Gozo fátuo poderoso?
A infidelidade a ser
Consome muito mais.

10/01/1986

quinta-feira, 19 de março de 2015

QUADRA CHUVOSA REDUNDANTE

Uma regularidade
de chuva sobre a cidade

obra por sobra a cidade
de sua regularidade.

QUADRA NUM BLOQUEIO CRIATIVO

de um bloqueio
creio ativo

Este vácuo
de sentido

não consigo
evacuá-lo.

SOB O FIM DA ESTAÇÃO CHUVOSA

Sob o sol à tarde chuvosa
sobre a sombra da mão nervosa

talvez eu possa, uma vez possa
(antes do sol tarde, que empoça)

ver na contradição trevosa
da queda d'água luminosa

a tal escuridão brilhosa
alvinegra, negra formosa

daquela nuvem que me molha...

segunda-feira, 16 de março de 2015

INCONDICIONAIS

1. O ar que respiro, aspiro primeiro
e ar-condiciona o que vai ao peito.

2. O ar que respiro, aqueço de um jeito
que ar-condiciona o que sai perfeito.

3. O ar que respiro, embaça, a despeito
de vidro, vinil, polietileno

e ar-condiciona o que mais sujeito.

4. O ar que respiro, expira um veneno
que hidro, perfluorcarboneto

ar-condiciona o que esvai no leito.

QUADRA QUE NÃO REFORMATO

Há um formato no que escrevo

de onde vem eu desconheço

quando tento prescrevê-lo

eu medíocre prevaleço

....... ...... ..... .... ...

domingo, 15 de março de 2015

ÁGUA DAS ALTURAS

Às vezes as chuvas
parecem com uvas:

- parreira madura

um céu que perdura

sua plúmbea gordura

mais bagas segura

até que a soltura
fermente já branco
o nimbo que fura
seu sumo lá franco

por toda quebrada
de gente abeirada
do copo, da mesa
de bar, de represa...

segunda-feira, 9 de março de 2015

DÚVIDA LITERÁRIA

crítica literária
física literária            dívida literária
tísica literária

Um poeminha de amor

que não fale da flor

que não pintem de cor

que não trate da dor

nem se diga de cor

- será um poemão do amor?...

TEMPO NENHUM

Quinze anos no século vinte e um
quinze por cento do tempo de um

- em qual acrescentamos algum?

Quinze anos no novo milênio
quinze lapsos do milênio

- e não cultivamos silêncios?

Notamos avanços recentes
colhemos desfrutes crescentes

- e o que melhoramos na gente?

Quinze anos do século vinte e um
quinze por cento correndo e bum!

já pois aceleradamente
depois de já celeremente

- qual ética notadamente
em época de tempo nenhum?...

sábado, 7 de março de 2015

ESCOLA NO SÁBADO

prazer reincidente

Sábado na escola:

- por causa da hora
(da calma da hora)

do dia de agora
(um dia sem obras)

a calma de auroras
(por causa de agora)

sexta-feira, 6 de março de 2015

REVISITA 45: PORNOLAPSO

Daquela boca sacana
Quente bafeja a nuca
Uma brisa nua.

Entredentes a língua afiada
Esfaqueia as vestes entranhas
Insanas da anágua que encurta.

E a fechadura em espadas
rija sua chave escarlate...

22/07/1985

quarta-feira, 4 de março de 2015

REVISITA 44: PROSA DO ACASO

no que era senão o Setor Comercial Sul

Renova a impressão somente: o olhar perseguiu uns passos
Graciosamente perversos.
Balançando ao vento, um corpo pareceu atentar ao pudor
Do breve comprometimento
(do vício do papel à corrente do escrevente).

No pátio dos tratados, entre os muitos desse pátio
O suor da fixação bancou a jogatina:
- seria ela (a) a musa da intempérie
ou a coxa à mostra (b) um acaso provável?
Há muitos vestidos colorindo as ruas, e algumas intenções ocultas.

Entre atônita e obcecada
A massa anônima contornou as leves linhas de mulher
Distraída?
Na prova dos nove, mãos fictícias
Especularam carícias inconsequentes.

Mas a reação não brotou da pele fêmea indiferente.
Uivaram os lobos do meio-dia a uníssona dor que mia
O canto dos esquecidos.
Assoviado o vento oscilando aquele corpo ao largo
Decidiu-se estranho e íntimo da vontade coletiva.

E as formas macias dobraram a esquina
Como em todo dia útil: elusivamente perversas.
E a massa suada de carnes dissolveu-se em individualidades
Condoídas
Como em toda jogatina:

- à espera da próxima, que reverteria...

09/07/1985

terça-feira, 3 de março de 2015

A NOITE PERPETUA

A tua meia-lua
sorri sem peia a tua
presença seminua

que a mente em vão recua
àquela antiga rua

que o tempo me acentua
quando a lembrança sua

(tão longe aquela lua
que a noite perpetua)

BIO

Dio

mio

vi-o

fio

vi-o

rio

vi-o

pio

o vi

cio

(ouvi

chio)

ou vi

Dio

tio

mio...

domingo, 1 de março de 2015

POR QUEM PIA A COTOVIA

A poesia

poderia

(deveria)

ser a via

que duvida

se haveria

porque vida

sido havia.

...

[porque via

cotovias

quereria

porque pias]

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

REVISITA 43: BRISAS

Um vento lava a cara surrada dos dias
Limpa a mente das faltas do próximo
Percebe no ego o erro.
Para amar-se um cego basta ver, ao lado
O meio-fio doente.

Uma rajada varre a Brasília fiscal do tempo
Levanta a poeira dos atos legislativos
Cata a rara virtude.
Para querer-se um bem basta ser, acima
O santo da última chuva.

A brisa que sela a boca incauta dos homens
Trai a intenção oculta da palavra
Mostra o velho no novo.
Para livrar-se do mal basta saber, abaixo
A causa do barro nos pés.

08/07/1985

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

CAUDAS DO AULETE

a quem refere

Quantos verbetes
em ramalhete

são estiletes

sem definição
das incompreensões

que tais locuções
contêm de antemão?

Auriculares
em Buenos Aires?

Vernaculares
quando firmares?

Caudas no Aulete
soltas do calão

pintam o sete

no gabinete
das abstrações:

- rabos que virão
decomposições.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

QUASE DESAPERCEBIDOS

pelo desaparecido

Alguns amigos queridos
presentes de tempos idos

eu soube que têm partido.

Ausente, tenho sabido
por entes, dos ocorridos

por redes que informatizo.

Porém, quando o sei, longínquo
tão tarde do acontecido

(são diversos os caminhos)

à parte, os negligencio
amigos inesquecidos

por razões que desmotivo.

(distante, os tenho vivido
vezes em mim, qual Belmiro)

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

REVISITA 42: SEGUNDA SEGUNDO O DIÁRIO DA MANHÃ

Dia triste a segunda: recomeça preguiçosa a presteza
Tentáculos ciliares abundam nos olhos a realidade.
Os fatos correntes, vindos de sexta, estão à morte.
Os sábados, de ensandecidos, e os domingos esmaecidos
Coexistem inexistentes: a natureza da semana é só útil.

No para-choque do carro de trás, paralela ao chão
Paira a minha atenção.
O sono persistente examina o veículo
O motorista e seu lento ventrículo.
O executivo, a passeio, não passa dos quarenta
Pára sólido, quase velho, no limbo.

De máquina no papel, a letra pára (pausa).
No almoço distante, repouso a esperança
De um dia acordar.
No almoço presente, reclamante farto do horário
O discurso funcional cessa diante do prato.
De estômagos, estamos cheios.

Dia triste a segunda: recomeça o hábito
Da tristeza travestida de seriedade.
Deveres tentaculares amarram os braços na realidade.
Os fatos são as correntes, desde cedo nos pés.
Os dias ensandecidos, de apetites esmaecidos
Coexistem experientes:

- a natureza, se humana, é só fútil.

Dia triste a segunda: recomeça o falatório
Dos males alheios. Triste segunda
Segundo nossa condição de bestas dos outros.

08/07/1985

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

QUADRA JUIZ-FORANA XVI

No momento de partir
a vontade de sumir

some porque partirei

(mais conveniente, não sei)

12/02/15

NUNCA É CONTIGO

O inferno dos outros
pros outros é outro

o inferno do inverno

o inferno do interno

o inferno do incerto

o inferno do inverso

o inverso que é (o) Outro

[pros outros o eterno
inferno dos outros]

12/02/15

domingo, 15 de fevereiro de 2015

DA CONFUSÃO COM VOCAÇÃO

a confusão da vocação

a vocação da confusão

(a vocação pra confusão)

[pra confusão já vocação

a vocação dá confusão]

11/02/15

sábado, 14 de fevereiro de 2015

DO CURSO NATURAL

Visita ao hospital

(àquela que está mal)
[supostamente mal]

(idade e coisa e tal)
[provavelmente sal]

[mas longe de fatal]

{mais longo o seu final}

11/02/15

QUADRA JUIZ-FORANA XV

A cidade, sempre a mesma

à parte da realidade.

(sempre a realidade mesma
parte de qualquer cidade)

10/02/15

QUADRA JUIZ-FORANA XIV

A família compacta
a homilia que intacta
impacta e pactua
e jacta porque tua!...

09/02/15

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

REVISITA 41: VERIFICANDO O AZUL

Calmos vácuos atmosféricos descansam-te o corpo
Torpe de agressões; sem peso, invisível avolumas
Quietamente: o negror da noite oculta indivisivelmente
Tuas ambições; assim inchas, portanto
Livre de castigo aparente.

O bom lobo expande incógnito.

Mas o cerco azul da manhã não tarda
Com seu oxigênio; teus pecados, então passíveis de julgamento
Te esvaziarão à luz do dia; talvez a menor pena te livrará
Como ao romântico Nosferatu; talvez teu maior ganho de tudo isso
Será a sentença: a angústia da vida eterna.

Certo é que, precisamente
O cerco azul do amanhã não falha.

15/05/1985

DESCONSERTO

Um prego torto
que desacerta.

Um parafuso
da porca solto.

A faca cega
de tanto abuso.

O dedo roxo
do que martela.

Outro muxoxo.
Outro desuso.

Um dia chocho
que desconcerta.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

REPOUSADA

Daqui a pouco a madrugada
(que vem sempre e sempre passa)

terá feito cova rasa
(vala sempre e nunca cava)

do que se converte em sonho
(dos risonhos aos tristonhos)

daqui a pouco apenas sono

contrafeito coisa opaca

significando nada...

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

CÉU DO PEITO

Nuvens de asas
nuvens passas

(foste várias)

pelas tardes
enquanto ardes

sob aquele
que como este

debateste

(várias vezes)

ARGENTINA

no clima

Este azul que amarelo
e brota aonde vejo

que implode agora cedo
num dia paralelo

aqui em Brasília mesmo

parece o Boca Juniors
cores de Boca Juniors

mas inexatamente:

- se pouco amareladas
talvez luzes douradas

janelem nas sacadas
brancas avermelhadas

(mas que improvavelmente
saibam do River Plate)

domingo, 1 de fevereiro de 2015

MEU DOMINGO

No domingo

silencio.

Imbuído

eu consigo:

- seu ruído

diluído

elimino

do que sinto.

Sob a lua

sobre a rua

em que suo

não recuo:

- meu domingo

inextinto

é comigo

(eu consigo)

sábado, 31 de janeiro de 2015

REVISITA 40: À ESPERA DE TANCREDO

quando as coisas pareciam diferentes

Na antessala, à espera de notícia
Risoleta medita.
O amor seduz o temor
Mantém as raízes em Cláudio.

Na sala, à espera da sorte
Tancredo negocia.
Pelas massas de suor anônimo
Resiste ao aflitivo infortúnio.

Perplexa, a nação hesita a chama
Reduzida ao boletim otimista.
Estremece o chão das praças, dos sonhos
Sobre escombros do recente pesadelo.

Mas o coração da pátria pulsa forte
Sob o peito do homem convalescente.
Nos lembra que o mal é transitório
Confirma a esperança permanente.

21/03/1985

DOMÉSTICA

A luz das coisas
à luz das louças

sujas na pia

- cuja entropia
predisporia

é a das Moiras
de parcas roupas

(pois fiam outras)

no fim do dia

[não desconfias?...]

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

DA VIRTUOSA VIA

a Sêneca

por suas reflexões atemporais sobre a ira
e sobre a tranquilidade da alma

Do início, na ignorância
das causas e dos efeitos

ao fim, na sabedoria
contemplativa dos erros

em favor de mais acertos

no meio, onde desnorteio

- ânsia de filosofia!...

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

IMATURANDO

Entre o verde do mar
e o verde cerrado

verdejando o que olhar

verde tenho achado
verde considerar

que estou esverdeando
de tanto vegetar...

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

REVISITA 39: JOGO DA VELHA

O sol brilha sobre a miséria humana

Indiferente.

São muitas as formigas

Aparentemente atordoadas.

Horizontalmente, não há asas

Mas cabeças bordoadas.

Pelo espaço vertical

Bem mal explorados

Passam raios, grassam vários

Abençoando a agonia dos insetos.

Pela diagonal, correm os demais

Indiferentes.

20/12/1984

PACIÊNCIA

Emergindo da submersão
prolongada demais do verão

vem o corpo de sua lentidão

à superfície dos efeitos
no ponto em que estão rarefeitos

- pois um corpo recém refeito
de seus feitos contra a consciência

(ao contar com condescendências)

pede ciência de abstinências...

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

REVISITA 38: AS DE HELENA

I.

Na sala de espera
Reflito
Um fiapo de tempo, um instante
Livre dos temores habituais

Na sala de espera
Pára o relógio
A cuca descansa
Relax de fim de semana

Os sons do trabalho alheio
Passam ao largo da minha espera
Na sala alheia

Espero, e isso ali é tudo
A cadeira, as canetas, o quase silêncio
Imobilizam o olhar

Sala de espera da vida.

...


III.

O mal súbito
Que me aflige
É não saber quando
Teu olhar raso
Subitamente
Me atinge.

12/09/1984

domingo, 25 de janeiro de 2015

sábado, 24 de janeiro de 2015

ALEGÓRICA

foi-se o Recife do seu Instagram

Vandecirando
- isto é, amando

a manhã nova
a bossa nova
a supernova
a vida agora -

Mércia inicia
sua caminhada
por esta via
ensolarada:

- duas mãos dadas
duas aladas
(tô eu na raia)

juntas na praia
da Boa Viagem
por mil imagens
junto a mensagens!

[em João Pessoa
Pontas de Pedra

isso ressoa
facilidades

isso requebra
felicidades

de atividades
assim à toa...]

Mas à medida
que o tempo passa

- que o passo amplia
que a lua abrasa
e a rua brilha
sob a fornalha

Mércia amercia:

- e então o dia
como que acinza

sem que paisagem
qualquer postagem

sequer a viagem
disso difira...

Sobrecansada
(d'eu inclusive)

já convencida
do imenso aclive

Mércia querida
(a Vandecira)

depois de fada
maratonista
fotografada
consigo à vista

volta pra casa
(evita Olinda)...

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

VERÃO O FILME

Logo o Recife

quem nele vive

o que revive

(e quem os cite)

serão meu filme
[Verão, o filme]

- o que eu recite
de outra voz firme
e reconfirme.

{será que estive?...}

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

PARADISÍACA

11/01/15
Pontas de Pedra, PE

Um dia, devolveremos
este planeta a si mesmo.

Um dia, o devolveremos
àqueles que lhe pertencem

por natureza ou desvelo.

Um dia, o dispensaremos
dessas vontades sem termo

- desses desejos que tecem
nossa mortalha no tempo.

Um dia, sim, partiremos
deste planeta pequeno

e o deixaremos àqueles
por natureza excelentes

que lhe pertencem sem termo.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

NA FRALDA

10/01/15
Pontas de Pedra, PE

O mar se cansa
da minha andança.

O mar se cansa
da nossa dança.

Quando balança
o mar descansa

dessa bonança
que à rede lanço...

SUSPEITA

09/01/15
Pontas de Pedra, PE

... me parece que o luar

ao minguar
sua arma branca

ao se curvar
afia a lâmina

pra esfaquear
o negro mar.

QUESTÃO ETÍLICA

09/01/15
Pontas de Pedra, PE

O que minha embriaguez
mostra de lucidez

além de sensatez
com sua próxima vez?...

[uma segunda consciência
que se afaste da primeira

(à medida que se beba
na medida que a critique)

tal evidência consente
na bebedeira seguinte]