sexta-feira, 11 de setembro de 2015

FÁTICA

Uma fina dor de cabeça
(da ausência de café na mesa)

afina a minha benquerença
por esta amena sobremesa

que me lembra a tua presença
depois de saída à francesa

(antes de chegada a despesa):

- nossa conversa ao pé da orelha
sobre assunto que deu na telha...

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

EPICURISTA III

fragmento

... sobre a dor e a morte
crê dispor de sorte!

- uma aporta o norte
do prazer que corte;

- outra é outro aporte
sem prover que importe...

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

REVISITA 91: MANHÃ SONHADA

16º poema de À procura de Nefertari

A linha sinuosa do teu corpo ao lado
(cobra insinuante a quebrar o compasso
lenta descontinuando o instante lasso)
varre a minha mente de pretéritos cacos
e ocas previsões; envelopa-me parvo
ao preciso e ao sagrado, a sedas abraçado
num sossego conquistado duramente fátuo...

Respiras o silêncio, subindo em staccato
a leve pluma morna e agridoce do teu hálito;
sonhadora interrompida, dorminhoca entre atos
(quase toda espreguiçada, quase nada acordada)
reviras, quase tanto distraída, à procura do acaso
da minha boca - do beijo bojudo que findo roubas
num grande e gracioso e perfeito movimento...

E num segundo gordo, toda a hora se ilumina
quando índio nu acendo, apache a fogueira
teus sentidos nos tecidos finamente consentidos
de lícitos cuidados, e ilícitos - a ordem contrafeita;
e depois esfumaço púrpuro e rubro, amarelo e branco
quando ao mundo anuncio, descansada da refrega
a paz derretida das hordas satisfeitas...

[logo finda a alegria, pois desperta a rotina
da vida incontornável dividida ao meio-dia]

21/04/2005

terça-feira, 8 de setembro de 2015

EPICURISTA II

Que prazer, que cansaço

contemplo

no que disponho diante

do espaço

mas indisponho adiante

no tempo?

Que dizer que embaraça?

Que fazer que estiraça?

Que porvir os abraça

do seu negror radiante?...

...

[com tempo

o espaço

contemplo

confiante]

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

SETE DO NOVE

No dia da pátria
das minervas suas

há septimátrias
na areia das raias

por mais tropicália
à beira das ruas...

No dia da pátria
há minervas nuas

na ombreira das alas
dobradas nas puas

douradas nas praias
sombreadas às duas...

Na data da pátria
eu lembro que a pátria

é a ideia de pátria:

- bandeira dos xátrias
grilheta dos párias

é uma visão casta
que maya, não basta

(aos brâmanes, nada)

domingo, 6 de setembro de 2015

NO ZÊNITE DA SECA

sinais

O tempo do limite
expor sua dinamite.

É pálido o grafite.

Lento qualquer trâmite.

Há falta de apetite.

Nossa a neurodermite
vossa a pneumonite

(parecem proctites
aquelas vaginites).

Rareiam teus palpites.

Da ausência de convites
padecem socialites.

Entre a plebe e as elites
vivos dão mortos quites...

sábado, 5 de setembro de 2015

REVISITA 90: FRAGMENTO VULNERÁVEL

15º poema de À procura de Nefertari

De ouvir-te leve, alegre voz distante
independente de qualquer instância (parece!)
e de um favor disposto a qualquer instante

correu-me grega as veias tal tristeza espessa
a saber impotente o exigente sentimento.

Lava grossa debulhou-me em lágrimas
fútil magma, cristalino afogamento:

- o que tem o amor a ofertar mais generoso
se a sofrer tão doloroso, qual cão purulento
à míngua pelas ruas e vielas deste mundo?...

[pressinto vão saber, o nervo exposto
em riste, mudo acusando a intempérie]

18/04/2005

OTÁVIO

Meu amigo querido

partiste teu destino

num número infinito

de possibilidades

que as probabilidades

igualam no sentido

da gratidão que sinto

por teres existido.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

REVISITA 89: DAS CELAS DE JANELAS

14º poema de À procura de Nefertari

Ali, outro domingo luminoso desidratando
a hora, e quase convidativo: um deserto silencioso
de sentidos. Aqui, um zoológico de pensamentos híbridos
errando deveras a jaula em que erras agora.

[toda vez que abro o dia azul na clara tela
das idéias, o teu par oblíquo, fitando-me janela
(moldura melancólica de um ébano poético)
quietamente ao búfalo arrasta, magnético
da minha mais funda, encerrada cela]

Servi café amargo a todos os bichos
aos pássaros endoidecidos; penados
seguirão pressurosos, solidariamente
a tua alma errante pelo ciberespaço

(embora acreditem, presunçosos e pios
que erras acerca da liberdade em questão
cyber-cerca, na verdade - a tua alada prisão)

17/04/2005

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

A ESTA ALTURA DA EPOPEIA

Ressecada a ressacada
das ideias contra a tela

(recomputadorizada
por mais letras sobre as teclas)

em mais outra temporada
de estações estacionadas

talvez caiba na cadeia
das palavras descoradas

das finadas de poética
melopeias afinadas:

- analfa ou alfabéticas
orais ou hipotéticas

a esta altura da epopeia
cantilenas encurtadas!...

REVISITA 88: SONETO MORTO DE AMOR

13º poema de À procura de Nefertari

Densa, e escura, e pesada - absinto
drogada pasmaceira à tarde, a sexta
saudade devora fígados, a paciência
lenta comigo nesse momento-abismo

(e um desejo de amor imenso
paraíso se tudo fosse farto
deita a correr meu tempo
agoniza sem morrer de fato)

A gravidade pesa o meu cansaço
em toneladas; a esperança de banhar
o espírito em confiança, esvai-se regular

pois tudo esbarra monstruosa ausência:

- além dos sentidos, a tua fina lembrança
fria lâmina, despedaça-me a garganta...

15/04/2005

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

ELETROCARDIOGRAMA

Minha vida caminha
apesar de sozinha.

Minha vida encaminha
sopesar que avizinha

em ondas esquisitas

[medidas de batidas
de choques, de subidas
descidas de vencidas
(berloques de feridas)]

aquela reta linha
que a máquina vindica

enfim das cavas lidas
das sondas exauridas

rente à tela - à tardinha...

terça-feira, 1 de setembro de 2015

CENSO DOMÉSTICO

senso animal

Amiga
formiga

me diga
se a lida

- na cozinha da Vandecira

é a vida
querida...

NATUREZA DO POENTE

antes que avermelhe

A beleza
pipoca
amarela

na panela
da hora
da reza.

PROJETO DE VIDA

Sob o teto
céu a pino

amarelo
sobre um piso

arquiteto
interciso

o que é belo
dividido

(paralelo
e adstrito)

entre um teto
antevisto

e o novelo
onde piso.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

FACE A MEDIOCRIDADE

nenhuma honestidade

Toda vez que me sento
diante da tela, tento

(é assim que me apresento)

protegê-la do invento
centrípeto de um vento

(é assim que o represento)

que-interno-ocupa-o-hiato/vácuo-do-pensamento.

Desrespeito o momento
[o vazio do texto]

pretextando um evento?

Ou respeito o cinzento
intentado, a despeito?...

[qual mesmo o sentimento
de fraude em movimento?]

...

{diante da tela, avento}

domingo, 30 de agosto de 2015

DOMINGA III

À noite posso
dizer que nosso

amor de conto
labor perdura

no contraponto
da hora escura.

DOMINGA II

Tarde que cura
tarde, que dura

temperatura
de cozedura

até que murcha

(de sol, a lua)

DOMINGA

Manhã manhosa
(manha brilhosa)

esta que acorda
em mim agora

a fim de nada
que mais parada.

sábado, 29 de agosto de 2015

REVISITA 87: DIÁRIO (PUBLICADO) DE UMA PAIXÃO

12º poema de À procura de Nefertari

Em textos convertidos, vivemos
registros mal lembrados de tempos
quase esquecidos; dos papéis sumidos
às páginas soterradas milhares pelos anos;

porém, ao escrevermos e guardarmos
na memória dos recônditos armários
impressões das chaves que usamos
(cônscios vez ou outra de abri-los)

recordamos tanto a matéria-prima dos sonhos
quanto o barro modelado em feitos; o que somos
da construção de espaços há muito transitados.

[o grande livro da capa verde
sobre o longo rio em sofrimento
está pronto; ele não mais te pertence;
que então ganhe as ruas, e quantas mentes
libertem outras tantas, de todas as correntes
recentes do passado - oxalá triste pretérito
não mais presente, não mais devido]

{... e quão nobre missão a tua!
Reabrir justa, pelo mundo
teu recôndito coração puro!...}

10/04/2005

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

REVISITA 86: SUMA ASTROLÓGICA

11º poema de À procura de Nefertari

Acordei da névoa lusco-fusca
entre os olhos e a consciência;
e o véu anestésico dobrou escuro
o segundo gasto a ter certeza
afinal de tua existência.

O café, a música, a tela brilhosa
inseparáveis da manhã crepuscular
derramaram-se pelos cantos múltiplos
recontando, extáticos, as tuas estórias;
nestas antevi, sonolento embora, a tua vitória:

- a vitória óbvia do desejo sobre o medo
pelo teu horizonte inimigo dos cubículos;

- o predomínio das cores vivas sobre a cinza
dor recidiva; o triunfo dos afetos em flor
apenas por brotarem, testemunhas viças
do quão fértil és, em realidade e fantasias;

- a prevalência definitiva, sem mais idas
da inocência incontida dos propósitos
no espírito da tua herança adolescente;

- e na tua hora hoje adulta, algo retida
a escolha real dos impulsos, ora temperados
logo virá no molhar da camisa, a jogar a vida.

Por fim, a minha nobre, oportuna astrologia
dourando vespertina essa questão matutina
(no avançar inexorável deste lindo dia)
concedeu-me derradeiro o conhecimento
limpo - sem nuvens - do teu destino:

- nele um amor rendido, franco
plenamente correspondido
será coroado soberano.

09/04/2005

terça-feira, 25 de agosto de 2015

CECIL

ao espécime que o matou

O que se esconde
por trás dos montes

de um horizonte
sem brutamontes

ou caçadores insatisfeitos
a despeito de quase perfeitos?

Imaginemos:

- rinocerontes
brancos e negros?

- sigmodontes
por aqui mesmo?

- bichos com fronte
chifres/presas/pelos/penas/pontes

para as mil fontes do viver pleno?...

...

[imaginemos

retrocedendo: os eucariontes
antes do superior Pleistoceno]

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

NA MINHA CIDADE

todo fim de tarde

como toda arte
que outrossim nos arde

(como se avant-garde)

repete-se à parte

singularidade.

DOMINGO À NOITE

possibilidades

Todo fim de domingo

(do bom tempo, o respingo
que insistimos distinto)

desatina sentidos:

- é a pior hora de muitos
por calarem seus uivos;

- é a pletora de poucos
por ouvirem-se moucos;

- talvez a espora de outros
considerados loucos

[então nascidos potros
talvez crescendo lobos]

{senão nascidos outros
desenvolvendo os lobos}

sábado, 22 de agosto de 2015

SENSÍVEL II

O que o brilho do sol anima
(aponta, aquece, aporta, alia)

em sua diária travessia

se logo é tarde fugidia
em minha solitária ilha?

Por que, da solidária trilha
(de estrela que a tudo rebrilha)

presumem-no ser que ilumina
a toda e qualquer superfície

se pródigo, à noite desiste?...

[ainda que vença a madrugada
pontualmente, a cada jornada

o que ao brilho do sol resiste

em mim, se padece com nada]

REVISITA 85: LÓTUS

nono poema de À procura de Nefertari

Lótus. planta aquática (Nymphaea lotus), de folhas orbiculares, denteadas e belas, e grandes flores brancas, com pétalas externamente róseas e estames amarelos, nativa da África, especialmente do Egito, muito cultivada como ornamental, e pelos rizomas e sementes comestíveis; loto-sagrado-do-egito, lótus-sagrado-do-egito, nenúfar, ninféia.

Quero-me jardineiro
dos vasos aguadeiro
sob o sol do deserto
perto de ti, e amado.

Procuro-te, às margens do rio
sagrado; se do teu agrado
voltarei, caso não te encontre
no caminho da barca de Caronte.

Quero-te cultivar as flores
generosas; pois das piores dores
sofrem vidas sem a beleza
dos caprichos, vítimas da natureza.

Procuro-me, de corpo e alma
ao procurar-te, às margens do rio
sagrado; se bom jardineiro e aguadeiro
retornarás morena ninfa, alva Rainha!...

[quero jardins de vasos abaulados
vertendo calmos as águas distantes
que conosco vicejem, em instantes
róseas ninféias, nenúfares alados]

08/04/2005

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

QUADRA DE FORA

fora de casa

Aqui e agora
sofro que a hora

que o sono adora
sonho por ora...

REVISITA 84: DAS HORAS

oitavo poema de À procura de Nefertari

Esta manhã cedo amiga, ensolarada
antiga luz de arcos, flores de sacadas
clara coloriu crepúsculo pensamento:

- pintou de azul-puro o meu desejo
de andar contigo, as mãos dadas
bobas sorrindo pelas calçadas.

Quando o calor enfadou o dia, a tarde
encontrou-me contigo no interstício
do mais saudável, o quarto cochilo:

- quase acordados sonhando vagares
de largas asas levando-nos pelos ares
à insustentável jornada de que falaste.

Dali a noite invisível, opaca cegueira
introverteu-me cinestésico o espírito
para coisas mínimas que são tuas:

- finíssimas fraturas diminutas
dedilhando certeiras sílabas ligeiras
a varar agudas madrugada escura.

[quero-me seta e alvo, a escala do relógio
no espaço inteiro desse tempo a teu respeito]

08/04/2005

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

PEQUENEZES

aos cãezinhos de Luis Fernando Verissimo

Nossas certezas
intempestivas

nossas destrezas
inexpressivas

- na ventania
respectiva -

quando coincidem
impositivas

cheiram fuligem:

- pulverulentas
ferem as ventas

ao colidirem

poeira apenas.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

VICE-VERSARIA?

vela e parede, parede ou vela

Teu muro macio
dispensa o que eu digo.

Pura alvenaria
dispensa que eu diga.

Se há cura auditiva
dispensa que o diga...

[dispenso que o digas
(se então recíprocas);

dispenso o que alisas
(duras cantarias);

repenso armistícios
(se os urde 'bem-vindos')]

***

Teu muro maciço

me amura preciso
em duplo sentido.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

ANTES DO GELO

à cupidez tropical

Acima, o mundo é solar
mesmo na noite polar...

Abaixo, muito está no ar

arrebentando o colar
bestializando o falar

contaminando o pomar
envenenando o lagar

(submetendo o lugar
vitaminando o dólar)

degenerando polar...

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

REVISITA 83: POEMA TORTO DO AMOR SENSATO

sétimo poema de À procura de Nefertari

Tenho de falar do amor que me aluga
perplexo, andares inacessíveis de mim;
do meu amor-invólucro sobre as pernas

esguias dela - bípede passante, sem nexo
movendo incessante o cardíaco plexo
(que sonho, louco, daqui a pouco habitar)
de caminhante solitária das vias obstruídas.

Tenho de tratar do amor que me ocupa
carente das largas e verdes perspectivas;
faz-me doente dela a tristeza dos poemas

que escrevinha; ponteiros mal partidos
guias perdidas, lembranças desmemoriadas
de um tempo não vivido (como então lhe digo
que sou a vida, a verdade - o caminho?...).

Tenho de cuidar do amor que me inunda
de lágrimas virtualmente investidas, vertidas
pelas janelas semiabertas quando fecham

instantâneas, implacáveis no cerrado soslaio
das intenções, desconfiadas de atenções
(porque a cyber-dor que se realmente sente
deveras desmente-se na terra do nunca).

Tenho de amar o amor que me cura
definitivamente; há tanta sanidade oculta
debaixo das palavras, por cima das estrelas

das toalhas plásticas de mesa; e beleza
nas minúcias que o olho não capta da poeira
dourada de coisas corriqueiras, ordinárias

e mágicas - o limiar onde afinal te encontro...

07/04/2005

domingo, 16 de agosto de 2015

ZORRO, SOCORRO!...

retomar Sísifo, suponho

Quando não corro
domingo, eu morro

descendo o morro
caindo o forro

enquanto borro

minguando o jorro
sumindo o esporro...

[velho cachorro
bicho chinchorro!...]

sábado, 15 de agosto de 2015

REVISITA 82: OS FLUXOS DAS COISAS QUE ME CERCAM E CONSTITUEM...

sexto poema de À procura de Nefertari

... não apontam caminhos, saídas, redenções, outro ser derivado
das coisas que me cercam e constituem; o tempo, num momento
tudo paralisa, friamente convertido na expectativa
do ato à frente: mas qual tentar, se meus pés-troncos
lançaram grossos suas raízes?

Os fluxos das coisas que me cercam e constituem
não contemplam quedas definitivas nos abismos
do branco desespero; circulares, circulam-me
entre as coisas que me cercam e constituem
sem trégua, sem a régua-e-apontador
de uma infância guia.

Os fluxos das coisas que me cercam e constituem
não se abalam febris em reta direção à praia das imagens
abertas, mornas, areadas, arejadas que emancipam; eu queria
uma vez só as coisas que me cercam e constituem prisioneiras
de vontade incontrolável, avassaladora, torrente veloz e massiva
da sanguínea pressão alta de um homem livre.

Os fluxos das coisas que me cercam e constituem
não te incluem entre as coisas que me cercam e constituem
exceto como fantasia; sonho em sonos sem tratativas
com lugares e estares teus, espaços além de quaisquer visitas
do corpo; neles, projeto desdobrado meu largo interior desabitado
numa tapeçaria infinita: o chão aéreo dos teus etéreos passos

aquém do que é preciso.

05/04/2005

NO MUNDO DO TRABALHO

ilusões de aço

Eu caço

(mormaço)

eu laço

(cansaço)

eu faço

[bagaço]

eu passo...

{baraço}

...

eu _ (traço!)

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

REVISITA 81: DA SUPREMA SANIDADE

quinto poema de À procura de Nefertari

Toma a minha mão, venha comigo
calma a chegar algum lugar;
rir e chorar dos caos do mundo
achada e perdida de tudo
também posso - mas junto.

Durma aqui mesmo, de um jeito
que sinta no peito o teu rosto
profundo e sossegado de sonhos
anis; longe da fumaça branca
a não mais cobrir a estrada.

E acordada, faça da luta
dos corpos estranhos no cio
o prazer úmido, misterioso
insensatamente sadio
das secas almas desconhecido:

- a paz doce dos músculos vadios.

04/04/2005

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

REVISITA 80: LA SORCIÈRE

quarto poema de À procura de Nefertari

Fora, a noite cobre tudo que amanso
com seu manto estrelado de cabalas;
por dentro, a noite debate-se; e se tanto
em frente, a tela é frente - de batalhas!...

Luta amorosa, e doce, e tormentosa
por teus vários fragmentos; pelo entendimento

inteiro de ti vaporosa; da musa eletrônica
chave de todas as portas:

- dos portais daquele espaço há tempos
que noite embora (lida de ventos e cansaços)

[de escuros interiores e exteriores vastos]

{dos obscuros significados}

a manhã renova - e com ela, outros obstáculos;

... mas que um dia, numa hora
(marcada muito atrás por nossos ancestrais)
reunirá contemporâneos os pedaços

da menina-princesa de outrora

aos meus sonhos tão planos - de pisados;

e torto então, incompleto (completamente humano)
o cair imperfeito das peças no cotidiano
celebraremos - nas nuvens, como hiatos contando

o quebra-cabeças redentor do amor - a eterna cola.

02/04/2005

domingo, 9 de agosto de 2015

VAN HALEN 1978 II

punturas

Eddie - tua faca
aprimorada

[por meu tempo de escuta da estrada]

Alex, crava

Mike, agrava

Dave, abraça...

REVISITA 79: A MOÇA

terceiro poema de À procura de Nefertari

- em que rósea sacada
de almas tristes morada
vive a sofrer minha amada?

pergunto, vagando becos
até o fim dos tempos
só, sem termo.

- sob que lua ardente
tragando fogo recente
tomaste rota descrente?

questiono, distraindo dedos
com outras, enquanto meço
teu pressentir imenso:

- da feiticeira vítima
de bruxaria íntima
achada morta - e viva, a perfídia...

31/03/2005

VAN HALEN 1978

Neste sábado aprisionado

- cedo rosário de demandas
seculares e cotidianas

apequenando-me - são tantas!

Eddie, David e os rapazes
(será que fizeram as pazes?)

tocam ouvidos impudentes
(e nervos que adentro os espelhem)

de algum movimento que esquente
algum nó cego da corrente

deste passo domesticado.

***

Como de ontem foram capazes
(rookies, rockers especulares)

de vir tão espetaculares?...

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

PROBLEMA LÓGICO-POLÍTICO

para as vestais de plantão e os puros de ocasião
(além de nós e de vós)

A hipocrisia

(sua recidiva
reiterativa)

nos admira:

- por que seria?
- por que haveria?

[admitamos:]

1. A hipocrisia
é seletiva

- mas extensiva.

2. A hipocrisia
generaliza

- mas discrimina.

3. A hipocrisia
pormenoriza

sem empiria.

[e perguntemos:]

4. A hipocrisia

ética alia
se jurídica?

5. A primazia
da hipocrisia

reconcilia?...

terça-feira, 4 de agosto de 2015

PARA ALÉM DESTA CIVILIZAÇÃO

fora do lugar, 'bora pra Uranos!

O mundo - tal como o conheçamos
(talvez nem mais o reconheçamos)

desmorona - e vem acelerando
com solidez que o desconheçamos.

A despeito de estranho, entretanto
a carnavais e tais (por enquanto)

quiçá me reste e arraste, salvando
(desta cor que nos finge de brancos)

a minha pele o Cacique de Ramos:

- já que tem cinquenta e quatro anos

de inclusividade desfilando
de solidariedade sambando
de amor pela cidade sobrando

quem sabe abrigue um contemporâneo?...

REVISITA 78: VERSEJAR INGÊNUO

segundo poema de À procura de Nefertari

De um longo e fundo silêncio
hesitante entre ser outro (aí falante)
ou anônimo (irrelevante)
venho querendo assim, à espreita
embora escorreito
antes enfraquecido - agora decidido
mas sempre em movimento

te falar.

Declarar só o possível
o vivível rés ao chão:

- domínio da fruta depois do inseto
ao alcance das mãos;

- do halo seco de antes da relva
precipitar-se acima, verde-molhada
perfumada.

Contrastar os prazeres do alto
dos afazeres de baixo
em favor destes:

- porque daqueles não depende
o deleite dos sons, imagens
das texturas, paladares
os cheiros bons do mundo.

Sussurrar, e te convencer
a abraçar o risco do labor-viver
entre flores e abelhas:

- polinizando o tempo
de cores, e até desejando
de vez em quando
o aço dos ferrões;

- para que meu carinho curativo
enfim faça, de todo o fazer
o derradeiro sentido.

29/03/2005

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O MACHADO DE ITAGUAÍ

no pescoço de alguém daqui

Neste momento da vida nacional

(além desta ficção individual
em que ínfimos nos situamos - na qual

cremos pios como a tal - vida real!)

um midiático Simão Bacamarte
opera de Curitiba, com arte

outra demão de Joseph McCarthy.

Para além do horizonte da experiência

no altiplano dos heróis da inconsciência
(pousada de clamores por decência!)

terceirizamos o que nos compete:

- consertar o que partido apetece.

domingo, 2 de agosto de 2015

REVISITA 77: MEDICINA PARA NÁUFRAGOS

primeiro poema de À procura de Nefertari, obra inédita

As vertigens do escolher são a paga
dos espíritos livres.

Embora acrófobo, sigo os teus passos
à procura das tuas mãos etéreas
(nervosas, ligeiras, elusivas: creio ainda firmes)
no fundo azul das telas;
fugaz, o teu ar rarefeito
sustenta nas alturas o granito pesado do meu medo.

As quelóides na alma são da saga
dos seres libertos.

Se virtual te rastreio o espaço
(hipertextualizando trilhas)
tropeço nos vestígios das batalhas
que travaste contra as fissuras
que te partem em duas, três, várias
doces criaturas.

A vida em pedaços vem da calha
do tempo repassando novidades.

Circunstancialmente atrasado
(ainda a relógios acorrentado)
contemplo o teu caminhar alto
fechando circular
(os dedos pelos pés, dos sonhos prenhe)
hic et nunc:

- o que cura neste lugar
e aos egos junta, agora
trago no descompasso
desta quase-hora.

27/03/2005

sábado, 1 de agosto de 2015

sexta-feira, 31 de julho de 2015

TEMPLO DE VIDRO

No aeroporto
meu desconforto

com o ostensivo
senso acrítico
de um modernismo
moderno pouco

(um entre os ismos
do consumismo
mais boquirroto)

é meu conforto

[não ser tão tolo]

quinta-feira, 30 de julho de 2015

O INDESEJADO DA HORA

e suas formas: história, lembrança, memória

Adentro, agora mesmo
afora, neste momento

o passado, meio a esmo
perpassa, desenterrando

meu passado: vem por todo lado!

Um passado, de repente
repassando no presente

debruçado no meu poente
se convém pouco avistado;

ente de outro continente
embrulhado de presente

sobrevém de trás à frente:

- na vigília, no sono
na penúria do sonho;

na geleia que ponho
na peleja que colho

sem ideia de como;

sem que eu o passe a limpo
sem que eu o queira vindo

sem que cerveja ou vinho
sem que eu o inveje findo...

O passado me vaza
eu o vazo trespassado:

- ambos ultrapassados
datados, etiquetados

e eu tentando desabraçá-los!...

[o instante - enorme lá fora
o adiante - o que me resta por ora

nesta vida implorando por vida

(o bastante - a estante, a prosa
a poesia corrida, a corrida...)

- e vem o passado e sua tropa
assando o esvaziamento das tripas?!...]

Não bastasse eu estar lento
não bastasse desatento

(nem brancos meus pelos nem negros
nem peles castanhos crescendo

a boca, escurecendo
a mente, se espremendo

nenhum sentimento)

e me apagasse contra o vento

se é passado - vem desconvidado:

- demônio verdoengo
importuno legado!...

terça-feira, 28 de julho de 2015

NO DESERTO

retirado da Laguna

Me sinto um Rommel
um Camisão

- um coronel
sem kamikazes

se retirando
com seus bordados

nos seus farrapos
meio acercado

by Montgomerys
- but del Chaco...

...

(sonhei o Rommel de camisão
esburacado num carroção)

[já não bastasse
o lado errado

em vão custasse
estar errado]

domingo, 26 de julho de 2015

EM SUMA

Eu comecei assim
sem fundo.

Sem forma, conteúdo
vazio no todo.

Depois, veio o mundo
e eu, enfim

recheio de tudo
(e o saco cheio, de novo):

- do cubo, dos tubos
da roda, do tempo

da rosa dos ventos
do quadrado em que circulo.

Agora, escaleno

subo a escada de cupins
para os fins que contemplo

[dos insumos no capim pela raiz]

sábado, 25 de julho de 2015

REVISITA 76: ALADO

Um muro súbito teria erguido
Ou este hiato é o abismo abrindo
Rachando o piso?
(pergunto, ruflando as asas)

As nossas coisas escuras
Embora às vezes pontiagudas
Amo sem arestas - de graça;

Embora contraditórias
(talvez porque delicadas)
Amo-as claras - paradoxalmente
Sem dores, pendores ou amarras.

Mas enquanto eu dormia, abraçado
Às certezas que o teu corpo trazia
Tais coisas se fizeram prisioneiras
De prozaques, efexores, aropaxes:

- a neurotransmissora guerrilha
promessas guarda datadas
qual dia das mães - o que delas não teríamos

da felicidade de branco vestida
laboratorialmente obtida
encapsulada?

Química da alma que vaza
Torpor que beijo algum desperta
De beleza adormecida...

27/08/2002

sexta-feira, 24 de julho de 2015

SEXTA, 24

maio, 17

segunda, 14

julho, 29

quinta, 27

fevereiro, 8

domingo, 1º

outubro, 32...

Quantos calendários

- tanto os necessários
(a favor, contrários)

quanto os arbitrários
(com itinerário)

e os involuntários
(esses, temerários) -

que o tempo oferecer
no espaço de viver

terei de perecer?...

quinta-feira, 23 de julho de 2015

AS LEIS DO IÊ-IÊ-IÊ

na pedagogia da cenoura

{ei-las:}

1. instrução
ensino
educação

é (sic) motivação
motivação
mo-ti-va-ção:

- motivação
para participação.

1(b). participação
- é instrução;

1(c). instrução
- é ensino;

1(d). ensino
- é educação;

1(e). educação
- é lazer;

1(f). lazer
- é entreter;

1(g). entreter
- é prazer;

1(h). prazer
- é felicidade;

1(i). felicidade
- é motivação:

- motivação
para participação nos processos e seus resultados.

{questões (im)pertinentes:}

(mas, e quanto ao resultado dos resultados?)
[e quanto ao(s) termos/efeitos/derivações/consequências
do resultado dos resultados?...]

{assim sendo}

x. qual daqueles sempre é cedo?
(o que deles vem primeiro?)

y. qual desses nunca é tarde?

[sua contabilidade?]

quarta-feira, 22 de julho de 2015

TECNOLÓGICA

Os meios

são os fins
dos meios

são afins
aos meios

são a fim
de meios...

São meios

o meio
dos meios:

- são o fim
dos meios

e o fim
dos fins.

[quanto aos fins

enfim...

(alheios)]

GAMIFICAÇÃO

na educação: questão

... enquanto virtual

(se meio virtual
para um fim real)

o quanto real?...

[se quando real]

GAMIFICAÇÃO II

na educação: lógica

Jogo:

- logo
posso.

Jogo:

- logo
passo

[de fase
de turno
de classe
de curso

de quase]

terça-feira, 21 de julho de 2015

VENTURA

Parada
(pintura)

mirada
[cintura]

corada
{puntura}

exalas

sacadas

floradas

exatas.

CONFEITARIA

Vandecira

natalícia

a delícia

do teu dia

(doceria)

[padaria]

{poderia}

todo dia!...

20/07/15

sábado, 18 de julho de 2015

REVISITA 75: TEZ

Esses dias lassos correm saturados
da tua presença; naturalmente a tua
tez escura, por sobre nossas farturas
sobe aos lábios quenturas, pernas e abraços...

Teu tempo absoluto, presente agora
corta-me dentro e fora; da carne exposta
reviro outras vísceras, antes de ativas
solvendo carências no gozo corrente...

Mas o irrevogável, maré recorrente
quase revoga-me; como se à lua nova
se pedisse estagnasse a água grossa
que sal tortura uma velha queimadura...

O velho à tarde, indo destarte - que importa?
Cedo eu gostaria de outros dias e horas...

(esta nudez, antiga
face a tua tez, por ora
na verdade, saliva
rediviva, jaz morta)

30/08/2001

sexta-feira, 17 de julho de 2015

INSONOLÊNCIA

Nesta estadia
da calmaria

(noites e dias
de calmaria)

[sem vento ou brisa
pois calmaria]

o que haveria?

O que teria
tal calmaria?

O que seria
(definiria)

bem calmaria?

(dela veria
que acalmaria?)

Que pensaria
(em calmaria)

dessa estadia
sem vento ou brisa?...

[na calmaria
à noite há dia:

- pernoitaria
anomalia

que o dia adia
e a noite expia]

***

{o que teria
tal calmaria

a ver com minha?}

quinta-feira, 16 de julho de 2015

KAMIKAZE

uma afinidade

... avindo
talvez calhe

tão lindo
do teu talhe

ubíquo
o rebrilho

de um detalhe:

- dois entalhes
oblíquos

sumindo
sorridos

de tua face.

terça-feira, 14 de julho de 2015

INTERGERACIONAL

Vozes dos descendentes
que em mim falam, crescentes
no seu frescor recente;

vozes adolescentes
que a mim faltam, descrente
do favor da corrente

dizem pedir, ardentes
ao futuro silente

que eu não me assuste, à frente:

- não será diferente
do que foi, finalmente
com quaisquer ascendentes.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

REVISITA 74: NO ESPELHO

É esta a sala de espelhos
onde te buscando venho

nas ondas entre reflexos
quando disso nada tenho

(em que nada disso fico)

- nas confusões meio perdido
das pororocas que te agito...

No entanto atento o quanto
remanescerei todo

alheio admirando
o que oco e luminoso

esvazia do insosso
recheio a tua espuma?...

11/04/1999

domingo, 12 de julho de 2015

QUEREIS MAIS?

when enough is never enough

Sempre mais!
Sempre mais!

Nunca é mais!
Nunca a mais!

- ademais
algo a mais

é demais?

(um a mais
dois a mais
três a mais

não cessais?)

[dez a mais
cem a mais
mil a mais

não contais?]

Sempre mais
nunca é mais!

{dedo e mais
mão e mais
braço e mais

eu jamais}

sábado, 11 de julho de 2015

REVISITA 73: GAROTA SÉRIA A PASSEIO

Vejo a gêmea da garota da lua
pés de mimo retos pela rua
num passo, acho, de um lugar passado
que ainda pressinto;
canto de alameda colorida de menino
que tornei cinza;
sonho róseo dos meus olhos
desbotado no azar dos meus óculos...

A moça que leve andava, caraminholada
tão agora concentrada, penso, absorvida
(seria a mente minha?)
passa rápida, a mover-se tão precisa
(e à minha imaginação torcida)
que parece jogar, num já indo pela vida
a próxima cartada - garota danada!...

Sua fronte ruiva riscada (preocupada?)
faísca sob o sol, cega a minha vista
(mal acordada)
da imagem mais alva, deusa mais grega
quanto enfim irreal;
quando assim a vejo, uma criatura de marcas
ondula concreta, a tempo de garras...

[mas como a pressinto funda, e pura
driblando o lado escuro da lua
importa nada: apesar de mim, de ruas
de pesadelos, horrores, loucuras
a cartada é sempre dela, tua; e toda a vida]

26/07/1998 

sexta-feira, 10 de julho de 2015

BRASILIENSE

poema sobre a estação seca

Ouro brilha
de planilhas

pela ilha
das vasilhas:

- da côncava
grã-matilha

à convexa
camarilha

rabadilhas
encarquilham

de quadrilhas
que encorrilham

armadilhas
e partilhas...

quinta-feira, 9 de julho de 2015

REVISITA 72: SETAS

três haicais

O meu quarto
acordou suado
o teu verão.

***

De que arco
refez-se à frente
o ar riscado?

***

A seta cede
da seda tua
a nua pele.

1997

quarta-feira, 8 de julho de 2015

VELHO CAVALO A DOMAR

da luta que reluta

Como cuidar de um corpo
contra si, de alma e corpo?

Como movê-lo agora
cedo, que é boa hora?

Como ter provimento
antes de vê-lo ao vento?

Exercitá-lo um pouco:

- exercitar o corpo
como se fosse idoso?

...

Antes que a alma o deixe
resfriado como um peixe

1. gerar primeiro um passo
(o mais difícil ato);

2. encaminhá-lo a marchar
(é mais fácil, de fato);

3. evoluí-lo até trotar
(mas galope, nem pensar)

[velho cavalo sem ar]

terça-feira, 7 de julho de 2015

REVISITA 71: RUIVA ORQUÍDEA

Enfocar, e abordar, e estudar.
Anatomizar.
Transparecer, desdizer...

Classificar o caleidoscópio floral semeado
por um par divino de lábios
no sapo pródigo do princípio:

- perderá seu mágico encanto, metafísico
se sob olhar raso, analítico - de óculos?

Talvez outras cores. Mas não a flor dos meus ósculos
de zangão; de perfumes e amores
(de feição irredutível, natureza insubmissa)
alheios a razões que não as das paixões.

Ruiva orquídea, excêntrica - flor de única formosura
túmida, terapêutica beleza - capricho em minha estufa

síntese indizível dos cheiros e humores
(e odores de jardineiros)
do Éden primeiro das criações...

06/07/1997

IN THE MIDST OF WINTER

Uma tarde calorenta
à vontade e desatenta

cai pesada sobre a mesa.

É uma tarde fraudulenta
que nos arde e desalenta

a que estraga a sobremesa:

- nem que ensolarada seja
ou nublada se arrependa

se poeira esquenta - é poeirenta!...

QUE O MÉTODO DURE

e o tolo perdure

Sonhei que cairia
que suicidaria

(a vida caíra
depois se acabara);

mas sonho não mata
(sua cova é mui rasa)

- e assim percebida
a queda não vinha;

e como não veio
(sou eu que o descrevo)

que sinto, que penso
do tempo suspenso?

Se é sonho lógico
se é pedagógico

- tentativa e erro?

[se for pesadelo
tentativa que erro?...]

segunda-feira, 6 de julho de 2015

QUADRA (QUASE) RETIRADA

... este cotidiano banal-burguês

em vão citadino, tão descortês

- quisera não querer mais seu freguês!

[pudera aposentar-me de uma vez!...]

HAJA DÊ-ERRE CONSIGO MESMA!...

Vamos falar de expectativas.
Conversar sobre expectativas:

- aquilo entre nós que recíproco
é mutuamente respectivo.

Vamos tratar de expectativas.
Cuidar de conciliar diferenças

nas costas largas desta querença:

- diferenças de crença, descrenças
de personalidade, nascenças
de projeto, vontades, ensinos;

- diferenças de classe, partidos
de transporte, passagens, destinos
recursos, escolhas, equívocos

da longa lista constitutivas.

[no tatibitate dos corações
redesenhando infantis soluções

cuidemos de operar seus sentidos
(de vedar de olhar seus orifícios):

subtrair, dos cafés, cafunés
rodapés a trair parangolés]

domingo, 5 de julho de 2015

ANIMA MORTIS

O desânimo
pusilânime

que me acomete

magnânimo
faz-se equânime:

- o que oferece
do que promete

(que se repete)

por exânime
não acontece.

sábado, 4 de julho de 2015

REVISITA 70: SOBRE O MEU AMOR POR TI

Se o que existe de bom na vida

perdura em alguma florada eterna

num canto de galáxia,

buscarei, e trarei a água azul-clara

que lembrar-te-á, e às rosas da tua sacada

o que existe de bom na vida.

O que perdura em alguma florada eterna

num canto de galáxia.

03/07/1997

sexta-feira, 3 de julho de 2015

POESIA TEMPORAL

... oito e trinta e quatro
da manhã divinal!...

(da manhã ancestral)

[do amanhã eternal]

{de manhã, habitual}

... oito e trinta e cinco
pelo açúcar e o sal...

(pouco não fará mal)

... oito e trinta e sete
e um sol fenomenal...

... oito e trinta e oito
(que farei, afinal?)...

... oito e trinta e nove...
... oito e trinta e nove...

... oito e trinta e nove...

quinta-feira, 2 de julho de 2015

PELA DEMOCRACIA

contra a plutocracia

A dívida grega.

A lívida grega

da foto funérea

(mulher de beleza).

[cadê deusa Atena?

Leônidas? Péricles?

suas efemérides?]

A dívida etérea

(qual dívida aérea)

- e a dúvida pétrea.

Que a dúvida grega

rejeite quem pensa

(da Helena que ajoelha)

que a Grécia já era!...

quarta-feira, 1 de julho de 2015

REVISITA 69: O CANTAR DA HORA PRÓXIMA

Sob o troçar das nuvens, a conversa com o tempo
Ora calma ou sibilante, vez tronante, acareada
Converte-se, na calçada, meu passo ao léu do vento
Em tardes de pensamento, contigo e um sol brilhante;

Mas quando o clima hesita - e a brisa, então tão tímida
Mal caminha - num momento esquecido de venturas
Toca o rosto dos teus dedos meu medo de perdê-los
Embora fina a chuva, sob um céu último de ilha;

O ser crestado que briga contrafeito a tua falta
Cansado dos pedaços travestidos de certezas
Quer a paz das inteirezas - o rito dos abraços;

O ar frio que anoitece o entardecido no horizonte
No desvão da lua, pela costura das estrelas
Enternece, da líquida memória - o fim da chuva...

02/07/1997

segunda-feira, 29 de junho de 2015

REVISITA 68: BRINCOS DE ANIVERSÁRIO

Para ornar o sorriso
Dos teus olhos

E as covas onde o meu desejo
- beijo - se perde

(e aparar o que ouves
da música desigual do mundo)

Dois pedaços de lua prata
Seis janelas do fundo azul.

17/06/1997

SERÁ FALTA DE VINHO?

Há um desespero fino
neste sofá de linho

nesse sofá de vinho
que emborco acontecido.

Nesse sofá tecido
de linho amarelado

por desesperos idos
(depois de amarelados)

há um desespero, creio
(receio exasperado)

de falta de sentido.

De um significado
que, bem acomodado

possa, bebericado
ser enfim digerido

ao invés deste hiato
desse vácuo emborcado;

que possa ser sentido
ao invés de, sentado

dissolver-se, pensado
que deveria, vivo...

terça-feira, 23 de junho de 2015

REVISITA 67: GAROTA DE LUA

A menina dos meus olhos não é tão loira
Nem parece assentada.
Mas acredite! É gêmea da garota da lua:
- tem a mente tão caraminholada
quanto dourada, e pura.

Esvoaça entre véus, espreguiçada
Da mesma forma, no banco da rua:
- se sob o sol, imagem tão ruiva
ou enluarada, grega coluna
(alva de tanta brancura)

Não importa: captura a alma num anseio
Que não é mais desejo
- é sonho e loucura!...

02/06/1997

DA RAZÃO MECÂNICA

de estelar distância

Claridade tanta
(matematizada)

de extração quântica
(teórica, aplicada)

na vida penada
(tida cartesiana)

nessa nossa escala
(larga a observância)

escurece os quanta:

- quando e como o quanto?...

- de onde, aonde o plano?...

- quem o quê, portanto?...

[porque, por enquanto
(onda ou partícula)

pouco cotidiano
tampouco ilumina]

domingo, 21 de junho de 2015

SERÁ QUE SAIO?

Nublada e frienta
seca e opaca

passada lenta
(lesa e coçada)

parada esteja:

- manhã de lesma
lamber a pedra

(manhã da mesma
correr depressa)

sábado, 20 de junho de 2015

A ESPIRAL VITAL

É doce esta lembrança
de quando fomos crianças

e éramos só esperança...

Adiante, a recordação
da adolescência em ação

(embora a sua história, não).

Futuros, quando à frente
dispõem-nos diferente

de agora, vãos presentes...

Agora, aquela idade
distante das vontades

(distante da verdade
próxima das vaidades)

impõe-se realidade
picada de saudades;

e o desencanto que vem
o escatológico trem

- é a estação também, meu bem!...

...

[o desenlace, depois
tudo trivializa, pois

não se trata de nós dois]

quinta-feira, 18 de junho de 2015

MAS SERÁ POR QUÊ?

Ando cansado

passo cansado

corro cansado

vivo cansado

morro cansado.

(ando cansado
mas não sei do quê)

[corro cansado
e não sei pra quê]

{irei cansado
mas não de você}

REVISITA 66: DENVER INTERNATIONAL AIRPORT

Se é a mim que mira
teu turbilhão de dúvidas
aquém do mar bravio

- refém da noite escura
da bruma espessa
da vida turva

apague a chama
tome a harpa
bata as asas!

No outro, vasto
lado do continente

(a pé de um pesadelo)

meu sonho-aeroporto
aparará teu vôo

pelo raiar do dia...

02/06/1997

quarta-feira, 17 de junho de 2015

MINHA NETA

A Cecília
conhecida

- a mais bela
- a mais linda
- a mais lida

que poetisa
(senão poeta)

- foi menina
ou moleca?

- foi boazinha
ou sapeca?

- se Cecília
(pois sabia)

mais querida?...

***

A Cecília
que vem vindo

- se poética
ou prosaica

- se moderna
ou arcaica

- ascética
- hedonista

- profética
- niilista

da delícia
tão bem-vinda
que pressinto

é a primícia!...

REVISITA 65: VARAL

A leveza aérea, nervosa, ligeira
com que penduras no futuro o meu presente

(na hora transitória de lua insinuada
entardecendo um tempo sem lugar)

convida certo olhar, que a mim já não pertence
a estender o horizonte, ou ao ventre retornar

***

Minha dúbia natureza vibra a freqüência
do bater elétrico de tuas asas
(o cuidado alegre de tuas lides);

entre as tuas antenas, sob a ruiva coroa
conjugam-se no espírito as tuas idéias
(rosário eterno que à minha vida ocupa)

***

Nas asas de vidro, janelas para o infinito
(fendas por onde passo) um pássaro calo
à noite espantado (nem tanto do espaço)

sob a tenda estrelada onde voa, etéreo
(a pretender teu ventre no leito do horizonte)
num governo que a mim já não pertence...

25/05/1997 

TRANSIÇÃO

o papel branco
a tela branca
caneta branca
teclado branco

o papel brando
a tela plana
caneta manca
teclado quando

o papel suja
a tela pena
caneta vaza
teclado pifa

no papel penso
da tela sinto
caneta tento
teclando minto

o papel dança
a tela avança
caneta cansa
teclando ranço

terça-feira, 16 de junho de 2015

ELAS FOGEM DE MIM

Às pencas, elas somem de mim.
As palavras. E somem assim

- sentidos de frases, sentenças
em versos de estrofes de poemas

quando meu fracasso em lavrá-las
(jazidas ou fertilizadas)

deteriora, indeterminado
indefinindo, incerto e vago

talvez do cansaço - o que faço?

...

Anteontem. Ontem, por exemplo
sumiram. Parecia que iam

em meio a um lamento do tempo
exausto - como em desavenças

expelindo tal descontento
do que significariam.

...

Porque as mediocrizo lavradas
palavras em vão, são difíceis:

- o talento a menos faz crível
seu crivo tampouco acessível.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

domingo, 7 de junho de 2015

sexta-feira, 5 de junho de 2015

A PREFERÊNCIA É MINHA

embora relativa

Pergunto, vez em quando
sobre Leo e Cristiano.

Me perguntam, todo ano
entre Messi e Ronaldo

- com quem a mais me encanto?

Embora a preferência
entre a força e a magia

por tal arte ou qual ciência
mais futebolística

seja somente minha

a minha (in)competência
cria e conclui infinda:

- mais importa quem, do alto
ao outro, alça mais alto!...

REVISITA 64: PRINCIPESCA

Sob a chuva intensa, parede de um céu desmoronando,
Alagada inteira a floresta, prenhe, inchada de oceanos,
Meu olhar batráquio, encantado, boiando vítreo, extático,
Pétreo te contempla borboleta, princesa dos meus sonhos!...

Sob um cogumelo envergado, no suspenso espaço,
Suspendo as palavras - encerrada a bocarra enigmática
Em dúvidas - embora às tuas asas, submissas borrifadas
Destile, principescas - colar de caricatas gentilezas...

O sapo sapo! que sou aguarda, paciente,
Um arrastar teu de asa, sapiente?
Antes que passe a água, e a borboleta espreguice;

O sapo príncipe? que não pareço barganha, pedinte,
O teu ósculo improvável, haja sapo a engolires
Entre os vários verdes pétreos que remanescem...

23/05/1997

quinta-feira, 4 de junho de 2015