Uma fina dor de cabeça
(da ausência de café na mesa)
afina a minha benquerença
por esta amena sobremesa
que me lembra a tua presença
depois de saída à francesa
(antes de chegada a despesa):
- nossa conversa ao pé da orelha
sobre assunto que deu na telha...
sexta-feira, 11 de setembro de 2015
quinta-feira, 10 de setembro de 2015
EPICURISTA III
fragmento
... sobre a dor e a morte
crê dispor de sorte!
- uma aporta o norte
do prazer que corte;
- outra é outro aporte
sem prover que importe...
quarta-feira, 9 de setembro de 2015
REVISITA 91: MANHÃ SONHADA
16º poema de À procura de Nefertari
A linha sinuosa do teu corpo ao lado
(cobra insinuante a quebrar o compasso
lenta descontinuando o instante lasso)
varre a minha mente de pretéritos cacos
e ocas previsões; envelopa-me parvo
ao preciso e ao sagrado, a sedas abraçado
num sossego conquistado duramente fátuo...
Respiras o silêncio, subindo em staccato
a leve pluma morna e agridoce do teu hálito;
sonhadora interrompida, dorminhoca entre atos
(quase toda espreguiçada, quase nada acordada)
reviras, quase tanto distraída, à procura do acaso
da minha boca - do beijo bojudo que findo roubas
num grande e gracioso e perfeito movimento...
E num segundo gordo, toda a hora se ilumina
quando índio nu acendo, apache a fogueira
teus sentidos nos tecidos finamente consentidos
de lícitos cuidados, e ilícitos - a ordem contrafeita;
e depois esfumaço púrpuro e rubro, amarelo e branco
quando ao mundo anuncio, descansada da refrega
a paz derretida das hordas satisfeitas...
[logo finda a alegria, pois desperta a rotina
da vida incontornável dividida ao meio-dia]
21/04/2005
terça-feira, 8 de setembro de 2015
EPICURISTA II
Que prazer, que cansaço
contemplo
no que disponho diante
do espaço
mas indisponho adiante
no tempo?
Que dizer que embaraça?
Que fazer que estiraça?
Que porvir os abraça
do seu negror radiante?...
...
[com tempo
o espaço
contemplo
confiante]
segunda-feira, 7 de setembro de 2015
SETE DO NOVE
No dia da pátria
das minervas suas
há septimátrias
na areia das raias
por mais tropicália
à beira das ruas...
No dia da pátria
há minervas nuas
na ombreira das alas
dobradas nas puas
douradas nas praias
sombreadas às duas...
Na data da pátria
eu lembro que a pátria
é a ideia de pátria:
- bandeira dos xátrias
grilheta dos párias
é uma visão casta
que maya, não basta
(aos brâmanes, nada)
domingo, 6 de setembro de 2015
NO ZÊNITE DA SECA
sinais
O tempo do limite
expor sua dinamite.
É pálido o grafite.
Lento qualquer trâmite.
Há falta de apetite.
Nossa a neurodermite
vossa a pneumonite
(parecem proctites
aquelas vaginites).
Rareiam teus palpites.
Da ausência de convites
padecem socialites.
Entre a plebe e as elites
vivos dão mortos quites...
sábado, 5 de setembro de 2015
REVISITA 90: FRAGMENTO VULNERÁVEL
15º poema de À procura de Nefertari
De ouvir-te leve, alegre voz distante
independente de qualquer instância (parece!)
e de um favor disposto a qualquer instante
correu-me grega as veias tal tristeza espessa
a saber impotente o exigente sentimento.
Lava grossa debulhou-me em lágrimas
fútil magma, cristalino afogamento:
- o que tem o amor a ofertar mais generoso
se a sofrer tão doloroso, qual cão purulento
à míngua pelas ruas e vielas deste mundo?...
[pressinto vão saber, o nervo exposto
em riste, mudo acusando a intempérie]
18/04/2005
De ouvir-te leve, alegre voz distante
independente de qualquer instância (parece!)
e de um favor disposto a qualquer instante
correu-me grega as veias tal tristeza espessa
a saber impotente o exigente sentimento.
Lava grossa debulhou-me em lágrimas
fútil magma, cristalino afogamento:
- o que tem o amor a ofertar mais generoso
se a sofrer tão doloroso, qual cão purulento
à míngua pelas ruas e vielas deste mundo?...
[pressinto vão saber, o nervo exposto
em riste, mudo acusando a intempérie]
18/04/2005
OTÁVIO
Meu amigo querido
partiste teu destino
num número infinito
de possibilidades
que as probabilidades
igualam no sentido
da gratidão que sinto
por teres existido.
sexta-feira, 4 de setembro de 2015
REVISITA 89: DAS CELAS DE JANELAS
14º poema de À procura de Nefertari
Ali, outro domingo luminoso desidratando
a hora, e quase convidativo: um deserto silencioso
de sentidos. Aqui, um zoológico de pensamentos híbridos
errando deveras a jaula em que erras agora.
[toda vez que abro o dia azul na clara tela
das idéias, o teu par oblíquo, fitando-me janela
(moldura melancólica de um ébano poético)
quietamente ao búfalo arrasta, magnético
da minha mais funda, encerrada cela]
Servi café amargo a todos os bichos
aos pássaros endoidecidos; penados
seguirão pressurosos, solidariamente
a tua alma errante pelo ciberespaço
(embora acreditem, presunçosos e pios
que erras acerca da liberdade em questão
cyber-cerca, na verdade - a tua alada prisão)
17/04/2005
quinta-feira, 3 de setembro de 2015
A ESTA ALTURA DA EPOPEIA
Ressecada a ressacada
das ideias contra a tela
(recomputadorizada
por mais letras sobre as teclas)
em mais outra temporada
de estações estacionadas
talvez caiba na cadeia
das palavras descoradas
das finadas de poética
melopeias afinadas:
- analfa ou alfabéticas
orais ou hipotéticas
a esta altura da epopeia
cantilenas encurtadas!...
REVISITA 88: SONETO MORTO DE AMOR
13º poema de À procura de Nefertari
Densa, e escura, e pesada - absinto
drogada pasmaceira à tarde, a sexta
saudade devora fígados, a paciência
lenta comigo nesse momento-abismo
(e um desejo de amor imenso
paraíso se tudo fosse farto
deita a correr meu tempo
agoniza sem morrer de fato)
A gravidade pesa o meu cansaço
em toneladas; a esperança de banhar
o espírito em confiança, esvai-se regular
pois tudo esbarra monstruosa ausência:
- além dos sentidos, a tua fina lembrança
fria lâmina, despedaça-me a garganta...
15/04/2005
drogada pasmaceira à tarde, a sexta
saudade devora fígados, a paciência
lenta comigo nesse momento-abismo
(e um desejo de amor imenso
paraíso se tudo fosse farto
deita a correr meu tempo
agoniza sem morrer de fato)
A gravidade pesa o meu cansaço
em toneladas; a esperança de banhar
o espírito em confiança, esvai-se regular
pois tudo esbarra monstruosa ausência:
- além dos sentidos, a tua fina lembrança
fria lâmina, despedaça-me a garganta...
15/04/2005
quarta-feira, 2 de setembro de 2015
ELETROCARDIOGRAMA
Minha vida caminha
apesar de sozinha.
Minha vida encaminha
sopesar que avizinha
em ondas esquisitas
[medidas de batidas
de choques, de subidas
descidas de vencidas
(berloques de feridas)]
aquela reta linha
que a máquina vindica
enfim das cavas lidas
das sondas exauridas
rente à tela - à tardinha...
apesar de sozinha.
Minha vida encaminha
sopesar que avizinha
em ondas esquisitas
[medidas de batidas
de choques, de subidas
descidas de vencidas
(berloques de feridas)]
aquela reta linha
que a máquina vindica
enfim das cavas lidas
das sondas exauridas
rente à tela - à tardinha...
terça-feira, 1 de setembro de 2015
CENSO DOMÉSTICO
senso animal
Amiga
formiga
me diga
se a lida
- na cozinha da Vandecira
é a vida
querida...
Amiga
formiga
me diga
se a lida
- na cozinha da Vandecira
é a vida
querida...
PROJETO DE VIDA
Sob o teto
céu a pino
amarelo
sobre um piso
arquiteto
interciso
o que é belo
dividido
(paralelo
e adstrito)
entre um teto
antevisto
e o novelo
onde piso.
segunda-feira, 31 de agosto de 2015
FACE A MEDIOCRIDADE
nenhuma honestidade
Toda vez que me sento
diante da tela, tento
(é assim que me apresento)
protegê-la do invento
centrípeto de um vento
(é assim que o represento)
que-interno-ocupa-o-hiato/vácuo-do-pensamento.
Desrespeito o momento
[o vazio do texto]
pretextando um evento?
Ou respeito o cinzento
intentado, a despeito?...
[qual mesmo o sentimento
de fraude em movimento?]
...
{diante da tela, avento}
Toda vez que me sento
diante da tela, tento
(é assim que me apresento)
protegê-la do invento
centrípeto de um vento
(é assim que o represento)
que-interno-ocupa-o-hiato/vácuo-do-pensamento.
Desrespeito o momento
[o vazio do texto]
pretextando um evento?
Ou respeito o cinzento
intentado, a despeito?...
[qual mesmo o sentimento
de fraude em movimento?]
...
{diante da tela, avento}
domingo, 30 de agosto de 2015
DOMINGA III
À noite posso
dizer que nosso
amor de conto
labor perdura
no contraponto
da hora escura.
sábado, 29 de agosto de 2015
REVISITA 87: DIÁRIO (PUBLICADO) DE UMA PAIXÃO
12º poema de À procura de Nefertari
Em textos convertidos, vivemos
registros mal lembrados de tempos
quase esquecidos; dos papéis sumidos
às páginas soterradas milhares pelos anos;
porém, ao escrevermos e guardarmos
na memória dos recônditos armários
impressões das chaves que usamos
(cônscios vez ou outra de abri-los)
recordamos tanto a matéria-prima dos sonhos
quanto o barro modelado em feitos; o que somos
da construção de espaços há muito transitados.
[o grande livro da capa verde
sobre o longo rio em sofrimento
está pronto; ele não mais te pertence;
que então ganhe as ruas, e quantas mentes
libertem outras tantas, de todas as correntes
recentes do passado - oxalá triste pretérito
não mais presente, não mais devido]
{... e quão nobre missão a tua!
Reabrir justa, pelo mundo
teu recôndito coração puro!...}
10/04/2005
sexta-feira, 28 de agosto de 2015
quarta-feira, 26 de agosto de 2015
REVISITA 86: SUMA ASTROLÓGICA
11º poema de À procura de Nefertari
Acordei da névoa lusco-fusca
entre os olhos e a consciência;
e o véu anestésico dobrou escuro
o segundo gasto a ter certeza
afinal de tua existência.
O café, a música, a tela brilhosa
inseparáveis da manhã crepuscular
derramaram-se pelos cantos múltiplos
recontando, extáticos, as tuas estórias;
nestas antevi, sonolento embora, a tua vitória:
- a vitória óbvia do desejo sobre o medo
pelo teu horizonte inimigo dos cubículos;
- o predomínio das cores vivas sobre a cinza
dor recidiva; o triunfo dos afetos em flor
apenas por brotarem, testemunhas viças
do quão fértil és, em realidade e fantasias;
- a prevalência definitiva, sem mais idas
da inocência incontida dos propósitos
no espírito da tua herança adolescente;
- e na tua hora hoje adulta, algo retida
a escolha real dos impulsos, ora temperados
logo virá no molhar da camisa, a jogar a vida.
Por fim, a minha nobre, oportuna astrologia
dourando vespertina essa questão matutina
(no avançar inexorável deste lindo dia)
concedeu-me derradeiro o conhecimento
limpo - sem nuvens - do teu destino:
- nele um amor rendido, franco
plenamente correspondido
será coroado soberano.
09/04/2005
terça-feira, 25 de agosto de 2015
CECIL
ao espécime que o matou
O que se esconde
por trás dos montes
de um horizonte
sem brutamontes
ou caçadores insatisfeitos
a despeito de quase perfeitos?
Imaginemos:
- rinocerontes
brancos e negros?
- sigmodontes
por aqui mesmo?
- bichos com fronte
chifres/presas/pelos/penas/pontes
para as mil fontes do viver pleno?...
...
[imaginemos
retrocedendo: os eucariontes
antes do superior Pleistoceno]
O que se esconde
por trás dos montes
de um horizonte
sem brutamontes
ou caçadores insatisfeitos
a despeito de quase perfeitos?
Imaginemos:
- rinocerontes
brancos e negros?
- sigmodontes
por aqui mesmo?
- bichos com fronte
chifres/presas/pelos/penas/pontes
para as mil fontes do viver pleno?...
...
[imaginemos
retrocedendo: os eucariontes
antes do superior Pleistoceno]
segunda-feira, 24 de agosto de 2015
NA MINHA CIDADE
todo fim de tarde
como toda arte
que outrossim nos arde
(como se avant-garde)
repete-se à parte
singularidade.
como toda arte
que outrossim nos arde
(como se avant-garde)
repete-se à parte
singularidade.
DOMINGO À NOITE
possibilidades
Todo fim de domingo
(do bom tempo, o respingo
que insistimos distinto)
desatina sentidos:
- é a pior hora de muitos
por calarem seus uivos;
- é a pletora de poucos
por ouvirem-se moucos;
- talvez a espora de outros
considerados loucos
[então nascidos potros
talvez crescendo lobos]
{senão nascidos outros
desenvolvendo os lobos}
Todo fim de domingo
(do bom tempo, o respingo
que insistimos distinto)
desatina sentidos:
- é a pior hora de muitos
por calarem seus uivos;
- é a pletora de poucos
por ouvirem-se moucos;
- talvez a espora de outros
considerados loucos
[então nascidos potros
talvez crescendo lobos]
{senão nascidos outros
desenvolvendo os lobos}
sábado, 22 de agosto de 2015
SENSÍVEL II
O que o brilho do sol anima
(aponta, aquece, aporta, alia)
em sua diária travessia
se logo é tarde fugidia
em minha solitária ilha?
Por que, da solidária trilha
(de estrela que a tudo rebrilha)
presumem-no ser que ilumina
a toda e qualquer superfície
se pródigo, à noite desiste?...
[ainda que vença a madrugada
pontualmente, a cada jornada
o que ao brilho do sol resiste
em mim, se padece com nada]
(aponta, aquece, aporta, alia)
em sua diária travessia
se logo é tarde fugidia
em minha solitária ilha?
Por que, da solidária trilha
(de estrela que a tudo rebrilha)
presumem-no ser que ilumina
a toda e qualquer superfície
se pródigo, à noite desiste?...
[ainda que vença a madrugada
pontualmente, a cada jornada
o que ao brilho do sol resiste
em mim, se padece com nada]
REVISITA 85: LÓTUS
nono poema de À procura de Nefertari
Lótus. planta aquática (Nymphaea lotus), de folhas orbiculares, denteadas e belas, e grandes flores brancas, com pétalas externamente róseas e estames amarelos, nativa da África, especialmente do Egito, muito cultivada como ornamental, e pelos rizomas e sementes comestíveis; loto-sagrado-do-egito, lótus-sagrado-do-egito, nenúfar, ninféia.
Quero-me jardineiro
dos vasos aguadeiro
sob o sol do deserto
perto de ti, e amado.
Procuro-te, às margens do rio
sagrado; se do teu agrado
voltarei, caso não te encontre
no caminho da barca de Caronte.
Quero-te cultivar as flores
generosas; pois das piores dores
sofrem vidas sem a beleza
dos caprichos, vítimas da natureza.
Procuro-me, de corpo e alma
ao procurar-te, às margens do rio
sagrado; se bom jardineiro e aguadeiro
retornarás morena ninfa, alva Rainha!...
[quero jardins de vasos abaulados
vertendo calmos as águas distantes
que conosco vicejem, em instantes
róseas ninféias, nenúfares alados]
08/04/2005
sexta-feira, 21 de agosto de 2015
REVISITA 84: DAS HORAS
oitavo poema de À procura de Nefertari
Esta manhã cedo amiga, ensolarada
antiga luz de arcos, flores de sacadas
clara coloriu crepúsculo pensamento:
- pintou de azul-puro o meu desejo
de andar contigo, as mãos dadas
bobas sorrindo pelas calçadas.
Quando o calor enfadou o dia, a tarde
encontrou-me contigo no interstício
do mais saudável, o quarto cochilo:
- quase acordados sonhando vagares
de largas asas levando-nos pelos ares
à insustentável jornada de que falaste.
Dali a noite invisível, opaca cegueira
introverteu-me cinestésico o espírito
para coisas mínimas que são tuas:
- finíssimas fraturas diminutas
dedilhando certeiras sílabas ligeiras
a varar agudas madrugada escura.
[quero-me seta e alvo, a escala do relógio
no espaço inteiro desse tempo a teu respeito]
08/04/2005
Esta manhã cedo amiga, ensolarada
antiga luz de arcos, flores de sacadas
clara coloriu crepúsculo pensamento:
- pintou de azul-puro o meu desejo
de andar contigo, as mãos dadas
bobas sorrindo pelas calçadas.
Quando o calor enfadou o dia, a tarde
encontrou-me contigo no interstício
do mais saudável, o quarto cochilo:
- quase acordados sonhando vagares
de largas asas levando-nos pelos ares
à insustentável jornada de que falaste.
Dali a noite invisível, opaca cegueira
introverteu-me cinestésico o espírito
para coisas mínimas que são tuas:
- finíssimas fraturas diminutas
dedilhando certeiras sílabas ligeiras
a varar agudas madrugada escura.
[quero-me seta e alvo, a escala do relógio
no espaço inteiro desse tempo a teu respeito]
08/04/2005
quinta-feira, 20 de agosto de 2015
PEQUENEZES
aos cãezinhos de Luis Fernando Verissimo
Nossas certezas
intempestivas
nossas destrezas
inexpressivas
- na ventania
respectiva -
quando coincidem
impositivas
cheiram fuligem:
- pulverulentas
ferem as ventas
ao colidirem
poeira apenas.
quarta-feira, 19 de agosto de 2015
VICE-VERSARIA?
vela e parede, parede ou vela
Teu muro macio
dispensa o que eu digo.
Pura alvenaria
dispensa que eu diga.
Se há cura auditiva
dispensa que o diga...
[dispenso que o digas
(se então recíprocas);
dispenso o que alisas
(duras cantarias);
repenso armistícios
(se os urde 'bem-vindos')]
***
Teu muro maciço
me amura preciso
em duplo sentido.
Teu muro macio
dispensa o que eu digo.
Pura alvenaria
dispensa que eu diga.
Se há cura auditiva
dispensa que o diga...
[dispenso que o digas
(se então recíprocas);
dispenso o que alisas
(duras cantarias);
repenso armistícios
(se os urde 'bem-vindos')]
***
Teu muro maciço
me amura preciso
em duplo sentido.
terça-feira, 18 de agosto de 2015
ANTES DO GELO
à cupidez tropical
Acima, o mundo é solar
mesmo na noite polar...
Abaixo, muito está no ar
arrebentando o colar
bestializando o falar
contaminando o pomar
envenenando o lagar
(submetendo o lugar
vitaminando o dólar)
degenerando polar...
Acima, o mundo é solar
mesmo na noite polar...
Abaixo, muito está no ar
arrebentando o colar
bestializando o falar
contaminando o pomar
envenenando o lagar
(submetendo o lugar
vitaminando o dólar)
degenerando polar...
segunda-feira, 17 de agosto de 2015
REVISITA 83: POEMA TORTO DO AMOR SENSATO
sétimo poema de À procura de Nefertari
Tenho de falar do amor que me aluga
perplexo, andares inacessíveis de mim;
do meu amor-invólucro sobre as pernas
esguias dela - bípede passante, sem nexo
movendo incessante o cardíaco plexo
(que sonho, louco, daqui a pouco habitar)
de caminhante solitária das vias obstruídas.
Tenho de tratar do amor que me ocupa
carente das largas e verdes perspectivas;
faz-me doente dela a tristeza dos poemas
que escrevinha; ponteiros mal partidos
guias perdidas, lembranças desmemoriadas
de um tempo não vivido (como então lhe digo
que sou a vida, a verdade - o caminho?...).
Tenho de cuidar do amor que me inunda
de lágrimas virtualmente investidas, vertidas
pelas janelas semiabertas quando fecham
instantâneas, implacáveis no cerrado soslaio
das intenções, desconfiadas de atenções
(porque a cyber-dor que se realmente sente
deveras desmente-se na terra do nunca).
Tenho de amar o amor que me cura
definitivamente; há tanta sanidade oculta
debaixo das palavras, por cima das estrelas
das toalhas plásticas de mesa; e beleza
nas minúcias que o olho não capta da poeira
dourada de coisas corriqueiras, ordinárias
e mágicas - o limiar onde afinal te encontro...
07/04/2005
domingo, 16 de agosto de 2015
ZORRO, SOCORRO!...
retomar Sísifo, suponho
Quando não corro
domingo, eu morro
descendo o morro
caindo o forro
enquanto borro
minguando o jorro
sumindo o esporro...
[velho cachorro
bicho chinchorro!...]
sábado, 15 de agosto de 2015
REVISITA 82: OS FLUXOS DAS COISAS QUE ME CERCAM E CONSTITUEM...
sexto poema de À procura de Nefertari
... não apontam caminhos, saídas, redenções, outro ser derivado
das coisas que me cercam e constituem; o tempo, num momento
tudo paralisa, friamente convertido na expectativa
do ato à frente: mas qual tentar, se meus pés-troncos
lançaram grossos suas raízes?
Os fluxos das coisas que me cercam e constituem
não contemplam quedas definitivas nos abismos
do branco desespero; circulares, circulam-me
entre as coisas que me cercam e constituem
sem trégua, sem a régua-e-apontador
de uma infância guia.
Os fluxos das coisas que me cercam e constituem
não se abalam febris em reta direção à praia das imagens
abertas, mornas, areadas, arejadas que emancipam; eu queria
uma vez só as coisas que me cercam e constituem prisioneiras
de vontade incontrolável, avassaladora, torrente veloz e massiva
da sanguínea pressão alta de um homem livre.
Os fluxos das coisas que me cercam e constituem
não te incluem entre as coisas que me cercam e constituem
exceto como fantasia; sonho em sonos sem tratativas
com lugares e estares teus, espaços além de quaisquer visitas
do corpo; neles, projeto desdobrado meu largo interior desabitado
numa tapeçaria infinita: o chão aéreo dos teus etéreos passos
aquém do que é preciso.
05/04/2005
... não apontam caminhos, saídas, redenções, outro ser derivado
das coisas que me cercam e constituem; o tempo, num momento
tudo paralisa, friamente convertido na expectativa
do ato à frente: mas qual tentar, se meus pés-troncos
lançaram grossos suas raízes?
Os fluxos das coisas que me cercam e constituem
não contemplam quedas definitivas nos abismos
do branco desespero; circulares, circulam-me
entre as coisas que me cercam e constituem
sem trégua, sem a régua-e-apontador
de uma infância guia.
Os fluxos das coisas que me cercam e constituem
não se abalam febris em reta direção à praia das imagens
abertas, mornas, areadas, arejadas que emancipam; eu queria
uma vez só as coisas que me cercam e constituem prisioneiras
de vontade incontrolável, avassaladora, torrente veloz e massiva
da sanguínea pressão alta de um homem livre.
Os fluxos das coisas que me cercam e constituem
não te incluem entre as coisas que me cercam e constituem
exceto como fantasia; sonho em sonos sem tratativas
com lugares e estares teus, espaços além de quaisquer visitas
do corpo; neles, projeto desdobrado meu largo interior desabitado
numa tapeçaria infinita: o chão aéreo dos teus etéreos passos
aquém do que é preciso.
05/04/2005
NO MUNDO DO TRABALHO
ilusões de aço
Eu caço
(mormaço)
eu laço
(cansaço)
eu faço
[bagaço]
eu passo...
{baraço}
...
eu _ (traço!)
sexta-feira, 14 de agosto de 2015
REVISITA 81: DA SUPREMA SANIDADE
quinto poema de À procura de Nefertari
Toma a minha mão, venha comigo
calma a chegar algum lugar;
rir e chorar dos caos do mundo
achada e perdida de tudo
também posso - mas junto.
Durma aqui mesmo, de um jeito
que sinta no peito o teu rosto
profundo e sossegado de sonhos
anis; longe da fumaça branca
a não mais cobrir a estrada.
E acordada, faça da luta
dos corpos estranhos no cio
o prazer úmido, misterioso
insensatamente sadio
das secas almas desconhecido:
- a paz doce dos músculos vadios.
04/04/2005
Toma a minha mão, venha comigo
calma a chegar algum lugar;
rir e chorar dos caos do mundo
achada e perdida de tudo
também posso - mas junto.
Durma aqui mesmo, de um jeito
que sinta no peito o teu rosto
profundo e sossegado de sonhos
anis; longe da fumaça branca
a não mais cobrir a estrada.
E acordada, faça da luta
dos corpos estranhos no cio
o prazer úmido, misterioso
insensatamente sadio
das secas almas desconhecido:
- a paz doce dos músculos vadios.
04/04/2005
segunda-feira, 10 de agosto de 2015
REVISITA 80: LA SORCIÈRE
quarto poema de À procura de Nefertari
Fora, a noite cobre tudo que amanso
com seu manto estrelado de cabalas;
por dentro, a noite debate-se; e se tanto
em frente, a tela é frente - de batalhas!...
Luta amorosa, e doce, e tormentosa
por teus vários fragmentos; pelo entendimento
inteiro de ti vaporosa; da musa eletrônica
chave de todas as portas:
- dos portais daquele espaço há tempos
que noite embora (lida de ventos e cansaços)
[de escuros interiores e exteriores vastos]
{dos obscuros significados}
a manhã renova - e com ela, outros obstáculos;
... mas que um dia, numa hora
(marcada muito atrás por nossos ancestrais)
reunirá contemporâneos os pedaços
da menina-princesa de outrora
aos meus sonhos tão planos - de pisados;
e torto então, incompleto (completamente humano)
o cair imperfeito das peças no cotidiano
celebraremos - nas nuvens, como hiatos contando
o quebra-cabeças redentor do amor - a eterna cola.
02/04/2005
domingo, 9 de agosto de 2015
VAN HALEN 1978 II
punturas
Eddie - tua faca
aprimorada
[por meu tempo de escuta da estrada]
Alex, crava
Mike, agrava
Dave, abraça...
Eddie - tua faca
aprimorada
[por meu tempo de escuta da estrada]
Alex, crava
Mike, agrava
Dave, abraça...
REVISITA 79: A MOÇA
terceiro poema de À procura de Nefertari
- em que rósea sacada
de almas tristes morada
vive a sofrer minha amada?
pergunto, vagando becos
até o fim dos tempos
só, sem termo.
- sob que lua ardente
tragando fogo recente
tomaste rota descrente?
questiono, distraindo dedos
com outras, enquanto meço
teu pressentir imenso:
- da feiticeira vítima
de bruxaria íntima
achada morta - e viva, a perfídia...
31/03/2005
- em que rósea sacada
de almas tristes morada
vive a sofrer minha amada?
pergunto, vagando becos
até o fim dos tempos
só, sem termo.
- sob que lua ardente
tragando fogo recente
tomaste rota descrente?
questiono, distraindo dedos
com outras, enquanto meço
teu pressentir imenso:
- da feiticeira vítima
de bruxaria íntima
achada morta - e viva, a perfídia...
31/03/2005
VAN HALEN 1978
Neste sábado aprisionado
- cedo rosário de demandas
seculares e cotidianas
apequenando-me - são tantas!
Eddie, David e os rapazes
(será que fizeram as pazes?)
tocam ouvidos impudentes
(e nervos que adentro os espelhem)
de algum movimento que esquente
algum nó cego da corrente
deste passo domesticado.
***
Como de ontem foram capazes
(rookies, rockers especulares)
de vir tão espetaculares?...
- cedo rosário de demandas
seculares e cotidianas
apequenando-me - são tantas!
Eddie, David e os rapazes
(será que fizeram as pazes?)
tocam ouvidos impudentes
(e nervos que adentro os espelhem)
de algum movimento que esquente
algum nó cego da corrente
deste passo domesticado.
***
Como de ontem foram capazes
(rookies, rockers especulares)
de vir tão espetaculares?...
quarta-feira, 5 de agosto de 2015
PROBLEMA LÓGICO-POLÍTICO
para as vestais de plantão e os puros de ocasião
(além de nós e de vós)
A hipocrisia
(sua recidiva
reiterativa)
nos admira:
- por que seria?
- por que haveria?
[admitamos:]
1. A hipocrisia
é seletiva
- mas extensiva.
2. A hipocrisia
generaliza
- mas discrimina.
3. A hipocrisia
pormenoriza
sem empiria.
[e perguntemos:]
4. A hipocrisia
ética alia
se jurídica?
5. A primazia
da hipocrisia
reconcilia?...
(além de nós e de vós)
A hipocrisia
(sua recidiva
reiterativa)
nos admira:
- por que seria?
- por que haveria?
[admitamos:]
1. A hipocrisia
é seletiva
- mas extensiva.
2. A hipocrisia
generaliza
- mas discrimina.
3. A hipocrisia
pormenoriza
sem empiria.
[e perguntemos:]
4. A hipocrisia
ética alia
se jurídica?
5. A primazia
da hipocrisia
reconcilia?...
terça-feira, 4 de agosto de 2015
PARA ALÉM DESTA CIVILIZAÇÃO
fora do lugar, 'bora pra Uranos!
O mundo - tal como o conheçamos
(talvez nem mais o reconheçamos)
desmorona - e vem acelerando
com solidez que o desconheçamos.
A despeito de estranho, entretanto
a carnavais e tais (por enquanto)
quiçá me reste e arraste, salvando
(desta cor que nos finge de brancos)
a minha pele o Cacique de Ramos:
- já que tem cinquenta e quatro anos
de inclusividade desfilando
de solidariedade sambando
de amor pela cidade sobrando
quem sabe abrigue um contemporâneo?...
REVISITA 78: VERSEJAR INGÊNUO
segundo poema de À procura de Nefertari
De um longo e fundo silêncio
hesitante entre ser outro (aí falante)
ou anônimo (irrelevante)
venho querendo assim, à espreita
embora escorreito
antes enfraquecido - agora decidido
mas sempre em movimento
te falar.
Declarar só o possível
o vivível rés ao chão:
- domínio da fruta depois do inseto
ao alcance das mãos;
- do halo seco de antes da relva
precipitar-se acima, verde-molhada
perfumada.
Contrastar os prazeres do alto
dos afazeres de baixo
em favor destes:
- porque daqueles não depende
o deleite dos sons, imagens
das texturas, paladares
os cheiros bons do mundo.
Sussurrar, e te convencer
a abraçar o risco do labor-viver
entre flores e abelhas:
- polinizando o tempo
de cores, e até desejando
de vez em quando
o aço dos ferrões;
- para que meu carinho curativo
enfim faça, de todo o fazer
o derradeiro sentido.
29/03/2005
segunda-feira, 3 de agosto de 2015
O MACHADO DE ITAGUAÍ
no pescoço de alguém daqui
Neste momento da vida nacional
(além desta ficção individual
em que ínfimos nos situamos - na qual
cremos pios como a tal - vida real!)
um midiático Simão Bacamarte
opera de Curitiba, com arte
outra demão de Joseph McCarthy.
Para além do horizonte da experiência
no altiplano dos heróis da inconsciência
(pousada de clamores por decência!)
terceirizamos o que nos compete:
- consertar o que partido apetece.
Neste momento da vida nacional
(além desta ficção individual
em que ínfimos nos situamos - na qual
cremos pios como a tal - vida real!)
um midiático Simão Bacamarte
opera de Curitiba, com arte
outra demão de Joseph McCarthy.
Para além do horizonte da experiência
no altiplano dos heróis da inconsciência
(pousada de clamores por decência!)
terceirizamos o que nos compete:
- consertar o que partido apetece.
domingo, 2 de agosto de 2015
REVISITA 77: MEDICINA PARA NÁUFRAGOS
primeiro poema de À procura de Nefertari, obra inédita
As vertigens do escolher são a paga
dos espíritos livres.
Embora acrófobo, sigo os teus passos
à procura das tuas mãos etéreas
(nervosas, ligeiras, elusivas: creio ainda firmes)
no fundo azul das telas;
fugaz, o teu ar rarefeito
sustenta nas alturas o granito pesado do meu medo.
As quelóides na alma são da saga
dos seres libertos.
Se virtual te rastreio o espaço
(hipertextualizando trilhas)
tropeço nos vestígios das batalhas
que travaste contra as fissuras
que te partem em duas, três, várias
doces criaturas.
A vida em pedaços vem da calha
do tempo repassando novidades.
Circunstancialmente atrasado
(ainda a relógios acorrentado)
contemplo o teu caminhar alto
fechando circular
(os dedos pelos pés, dos sonhos prenhe)
hic et nunc:
- o que cura neste lugar
e aos egos junta, agora
trago no descompasso
desta quase-hora.
27/03/2005
As vertigens do escolher são a paga
dos espíritos livres.
Embora acrófobo, sigo os teus passos
à procura das tuas mãos etéreas
(nervosas, ligeiras, elusivas: creio ainda firmes)
no fundo azul das telas;
fugaz, o teu ar rarefeito
sustenta nas alturas o granito pesado do meu medo.
As quelóides na alma são da saga
dos seres libertos.
Se virtual te rastreio o espaço
(hipertextualizando trilhas)
tropeço nos vestígios das batalhas
que travaste contra as fissuras
que te partem em duas, três, várias
doces criaturas.
A vida em pedaços vem da calha
do tempo repassando novidades.
Circunstancialmente atrasado
(ainda a relógios acorrentado)
contemplo o teu caminhar alto
fechando circular
(os dedos pelos pés, dos sonhos prenhe)
hic et nunc:
- o que cura neste lugar
e aos egos junta, agora
trago no descompasso
desta quase-hora.
27/03/2005
sábado, 1 de agosto de 2015
sexta-feira, 31 de julho de 2015
TEMPLO DE VIDRO
No aeroporto
meu desconforto
com o ostensivo
senso acrítico
de um modernismo
moderno pouco
(um entre os ismos
do consumismo
mais boquirroto)
é meu conforto
[não ser tão tolo]
quinta-feira, 30 de julho de 2015
O INDESEJADO DA HORA
e suas formas: história, lembrança, memória
Adentro, agora mesmo
afora, neste momento
o passado, meio a esmo
perpassa, desenterrando
meu passado: vem por todo lado!
Um passado, de repente
repassando no presente
repassando no presente
debruçado no meu poente
se convém pouco avistado;
ente de outro continente
embrulhado de presente
sobrevém de trás à frente:
- na vigília, no sono
na penúria do sonho;
na geleia que ponho
na peleja que colho
sem ideia de como;
sem que eu o passe a limpo
sem que eu o queira vindo
sem que cerveja ou vinho
sem que eu o inveje findo...
O passado me vaza
eu o vazo trespassado:
- ambos ultrapassados
datados, etiquetados
e eu tentando desabraçá-los!...
[o instante - enorme lá fora
o adiante - o que me resta por ora
nesta vida implorando por vida
(o bastante - a estante, a prosa
a poesia corrida, a corrida...)
- e vem o passado e sua tropa
assando o esvaziamento das tripas?!...]
Não bastasse eu estar lento
não bastasse desatento
(nem brancos meus pelos nem negros
nem peles castanhos crescendo
a boca, escurecendo
a mente, se espremendo
nenhum sentimento)
e me apagasse contra o vento
se é passado - vem desconvidado:
- demônio verdoengo
importuno legado!...
terça-feira, 28 de julho de 2015
NO DESERTO
retirado da Laguna
Me sinto um Rommel
um Camisão
- um coronel
sem kamikazes
se retirando
com seus bordados
nos seus farrapos
meio acercado
by Montgomerys
- but del Chaco...
...
(sonhei o Rommel de camisão
esburacado num carroção)
[já não bastasse
o lado errado
em vão custasse
estar errado]
Me sinto um Rommel
um Camisão
- um coronel
sem kamikazes
se retirando
com seus bordados
nos seus farrapos
meio acercado
by Montgomerys
- but del Chaco...
...
(sonhei o Rommel de camisão
esburacado num carroção)
[já não bastasse
o lado errado
em vão custasse
estar errado]
domingo, 26 de julho de 2015
EM SUMA
Eu comecei assim
sem fundo.
Sem forma, conteúdo
vazio no todo.
Depois, veio o mundo
e eu, enfim
recheio de tudo
(e o saco cheio, de novo):
- do cubo, dos tubos
da roda, do tempo
da rosa dos ventos
do quadrado em que circulo.
Agora, escaleno
subo a escada de cupins
para os fins que contemplo
[dos insumos no capim pela raiz]
sábado, 25 de julho de 2015
REVISITA 76: ALADO
Um muro súbito teria erguido
Ou este hiato é o abismo abrindo
Rachando o piso?
(pergunto, ruflando as asas)
As nossas coisas escuras
Embora às vezes pontiagudas
Amo sem arestas - de graça;
Embora contraditórias
(talvez porque delicadas)
Amo-as claras - paradoxalmente
Sem dores, pendores ou amarras.
Mas enquanto eu dormia, abraçado
Às certezas que o teu corpo trazia
Tais coisas se fizeram prisioneiras
De prozaques, efexores, aropaxes:
- a neurotransmissora guerrilha
promessas guarda datadas
qual dia das mães - o que delas não teríamos
da felicidade de branco vestida
laboratorialmente obtida
encapsulada?
Química da alma que vaza
Torpor que beijo algum desperta
De beleza adormecida...
27/08/2002
sexta-feira, 24 de julho de 2015
SEXTA, 24
maio, 17
segunda, 14
julho, 29
quinta, 27
fevereiro, 8
domingo, 1º
outubro, 32...
Quantos calendários
- tanto os necessários
(a favor, contrários)
quanto os arbitrários
(com itinerário)
e os involuntários
(esses, temerários) -
que o tempo oferecer
no espaço de viver
terei de perecer?...
quinta-feira, 23 de julho de 2015
AS LEIS DO IÊ-IÊ-IÊ
na pedagogia da cenoura
{ei-las:}
{ei-las:}
1. instrução
ensino
educação
é (sic) motivação
motivação
mo-ti-va-ção:
motivação
mo-ti-va-ção:
- motivação
para participação.
1(b). participação
- é instrução;
1(c). instrução
- é ensino;
1(d). ensino
- é educação;
1(e). educação
- é lazer;
1(f). lazer
- é entreter;
1(g). entreter
- é prazer;
1(h). prazer
- é felicidade;
1(i). felicidade
- é motivação:
- motivação
para participação nos processos e seus resultados.
{questões (im)pertinentes:}
(mas, e quanto ao resultado dos resultados?)
[e quanto ao(s) termos/efeitos/derivações/consequências
do resultado dos resultados?...]
{questões (im)pertinentes:}
(mas, e quanto ao resultado dos resultados?)
[e quanto ao(s) termos/efeitos/derivações/consequências
do resultado dos resultados?...]
{assim sendo}
x. qual daqueles sempre é cedo?
(o que deles vem primeiro?)
y. qual desses nunca é tarde?
[sua contabilidade?]
quarta-feira, 22 de julho de 2015
TECNOLÓGICA
Os meios
são os fins
dos meios
são afins
aos meios
são a fim
de meios...
São meios
o meio
dos meios:
- são o fim
dos meios
e o fim
dos fins.
[quanto aos fins
enfim...
(alheios)]
GAMIFICAÇÃO
na educação: questão
... enquanto virtual
(se meio virtual
para um fim real)
o quanto real?...
[se quando real]
... enquanto virtual
(se meio virtual
para um fim real)
o quanto real?...
[se quando real]
GAMIFICAÇÃO II
na educação: lógica
Jogo:
- logo
posso.
Jogo:
- logo
passo
[de fase
de turno
de classe
de curso
de quase]
Jogo:
- logo
posso.
Jogo:
- logo
passo
[de fase
de turno
de classe
de curso
de quase]
terça-feira, 21 de julho de 2015
CONFEITARIA
Vandecira
natalícia
a delícia
do teu dia
(doceria)
[padaria]
{poderia}
todo dia!...
20/07/15
natalícia
a delícia
do teu dia
(doceria)
[padaria]
{poderia}
todo dia!...
20/07/15
sábado, 18 de julho de 2015
REVISITA 75: TEZ
Esses dias lassos correm saturados
da tua presença; naturalmente a tua
tez escura, por sobre nossas farturas
sobe aos lábios quenturas, pernas e abraços...
Teu tempo absoluto, presente agora
corta-me dentro e fora; da carne exposta
reviro outras vísceras, antes de ativas
solvendo carências no gozo corrente...
Mas o irrevogável, maré recorrente
quase revoga-me; como se à lua nova
se pedisse estagnasse a água grossa
que sal tortura uma velha queimadura...
O velho à tarde, indo destarte - que importa?
Cedo eu gostaria de outros dias e horas...
(esta nudez, antiga
face a tua tez, por ora
na verdade, saliva
rediviva, jaz morta)
30/08/2001
sexta-feira, 17 de julho de 2015
INSONOLÊNCIA
Nesta estadia
da calmaria
(noites e dias
de calmaria)
[sem vento ou brisa
pois calmaria]
o que haveria?
O que teria
tal calmaria?
O que teria
tal calmaria?
O que seria
(definiria)
bem calmaria?
(dela veria
que acalmaria?)
(dela veria
que acalmaria?)
Que pensaria
(em calmaria)
dessa estadia
sem vento ou brisa?...
[na calmaria
à noite há dia:
- pernoitaria
anomalia
que o dia adia
e a noite expia]
***
{o que teria
tal calmaria
a ver com minha?}
***
{o que teria
tal calmaria
a ver com minha?}
quinta-feira, 16 de julho de 2015
KAMIKAZE
uma afinidade
... avindo
talvez calhe
tão lindo
do teu talhe
ubíquo
o rebrilho
o rebrilho
de um detalhe:
- dois entalhes
oblíquos
sumindo
sorridos
de tua face.
terça-feira, 14 de julho de 2015
INTERGERACIONAL
Vozes dos descendentes
que em mim falam, crescentes
no seu frescor recente;
vozes adolescentes
que a mim faltam, descrente
do favor da corrente
dizem pedir, ardentes
ao futuro silente
que eu não me assuste, à frente:
- não será diferente
do que foi, finalmente
com quaisquer ascendentes.
segunda-feira, 13 de julho de 2015
REVISITA 74: NO ESPELHO
É esta a sala de espelhos
onde te buscando venho
nas ondas entre reflexos
quando disso nada tenho
(em que nada disso fico)
- nas confusões meio perdido
das pororocas que te agito...
No entanto atento o quanto
remanescerei todo
alheio admirando
o que oco e luminoso
esvazia do insosso
recheio a tua espuma?...
11/04/1999
domingo, 12 de julho de 2015
QUEREIS MAIS?
when enough is never enough
Sempre mais!
Sempre mais!
Nunca é mais!
Nunca a mais!
- ademais
algo a mais
é demais?
(um a mais
dois a mais
três a mais
não cessais?)
[dez a mais
cem a mais
mil a mais
não contais?]
Sempre mais
nunca é mais!
{dedo e mais
mão e mais
braço e mais
eu jamais}
Sempre mais!
Sempre mais!
Nunca é mais!
Nunca a mais!
- ademais
algo a mais
é demais?
(um a mais
dois a mais
três a mais
não cessais?)
[dez a mais
cem a mais
mil a mais
não contais?]
Sempre mais
nunca é mais!
{dedo e mais
mão e mais
braço e mais
eu jamais}
sábado, 11 de julho de 2015
REVISITA 73: GAROTA SÉRIA A PASSEIO
Vejo a gêmea da garota da lua
pés de mimo retos pela rua
num passo, acho, de um lugar passado
que ainda pressinto;
canto de alameda colorida de menino
que tornei cinza;
sonho róseo dos meus olhos
desbotado no azar dos meus óculos...
A moça que leve andava, caraminholada
tão agora concentrada, penso, absorvida
(seria a mente minha?)
passa rápida, a mover-se tão precisa
(e à minha imaginação torcida)
que parece jogar, num já indo pela vida
a próxima cartada - garota danada!...
Sua fronte ruiva riscada (preocupada?)
faísca sob o sol, cega a minha vista
(mal acordada)
da imagem mais alva, deusa mais grega
quanto enfim irreal;
quando assim a vejo, uma criatura de marcas
ondula concreta, a tempo de garras...
[mas como a pressinto funda, e pura
driblando o lado escuro da lua
importa nada: apesar de mim, de ruas
de pesadelos, horrores, loucuras
a cartada é sempre dela, tua; e toda a vida]
26/07/1998
sexta-feira, 10 de julho de 2015
BRASILIENSE
poema sobre a estação seca
Ouro brilha
de planilhas
pela ilha
das vasilhas:
- da côncava
grã-matilha
à convexa
camarilha
rabadilhas
encarquilham
de quadrilhas
que encorrilham
armadilhas
e partilhas...
quinta-feira, 9 de julho de 2015
REVISITA 72: SETAS
três haicais
O meu quarto
acordou suado
o teu verão.
***
De que arco
refez-se à frente
o ar riscado?
***
A seta cede
da seda tua
a nua pele.
1997
quarta-feira, 8 de julho de 2015
VELHO CAVALO A DOMAR
da luta que reluta
Como cuidar de um corpo
contra si, de alma e corpo?
Como movê-lo agora
cedo, que é boa hora?
Como ter provimento
antes de vê-lo ao vento?
Exercitá-lo um pouco:
- exercitar o corpo
como se fosse idoso?
...
Antes que a alma o deixe
resfriado como um peixe
1. gerar primeiro um passo
(o mais difícil ato);
2. encaminhá-lo a marchar
(é mais fácil, de fato);
3. evoluí-lo até trotar
(mas galope, nem pensar)
[velho cavalo sem ar]
Como cuidar de um corpo
contra si, de alma e corpo?
Como movê-lo agora
cedo, que é boa hora?
Como ter provimento
antes de vê-lo ao vento?
Exercitá-lo um pouco:
- exercitar o corpo
como se fosse idoso?
...
Antes que a alma o deixe
resfriado como um peixe
1. gerar primeiro um passo
(o mais difícil ato);
2. encaminhá-lo a marchar
(é mais fácil, de fato);
3. evoluí-lo até trotar
(mas galope, nem pensar)
[velho cavalo sem ar]
terça-feira, 7 de julho de 2015
REVISITA 71: RUIVA ORQUÍDEA
Enfocar, e abordar, e estudar.
Anatomizar.
Transparecer, desdizer...
Classificar o caleidoscópio floral semeado
por um par divino de lábios
no sapo pródigo do princípio:
- perderá seu mágico encanto, metafísico
se sob olhar raso, analítico - de óculos?
Talvez outras cores. Mas não a flor dos meus ósculos
de zangão; de perfumes e amores
(de feição irredutível, natureza insubmissa)
alheios a razões que não as das paixões.
Ruiva orquídea, excêntrica - flor de única formosura
túmida, terapêutica beleza - capricho em minha estufa
síntese indizível dos cheiros e humores
(e odores de jardineiros)
do Éden primeiro das criações...
06/07/1997
IN THE MIDST OF WINTER
Uma tarde calorenta
à vontade e desatenta
cai pesada sobre a mesa.
É uma tarde fraudulenta
que nos arde e desalenta
a que estraga a sobremesa:
- nem que ensolarada seja
ou nublada se arrependa
se poeira esquenta - é poeirenta!...
QUE O MÉTODO DURE
e o tolo perdure
Sonhei que cairia
que suicidaria
(a vida caíra
depois se acabara);
mas sonho não mata
(sua cova é mui rasa)
- e assim percebida
a queda não vinha;
e como não veio
(sou eu que o descrevo)
que sinto, que penso
do tempo suspenso?
Se é sonho lógico
se é pedagógico
- tentativa e erro?
[se for pesadelo
tentativa que erro?...]
Sonhei que cairia
que suicidaria
(a vida caíra
depois se acabara);
mas sonho não mata
(sua cova é mui rasa)
- e assim percebida
a queda não vinha;
e como não veio
(sou eu que o descrevo)
que sinto, que penso
do tempo suspenso?
Se é sonho lógico
se é pedagógico
- tentativa e erro?
[se for pesadelo
tentativa que erro?...]
segunda-feira, 6 de julho de 2015
QUADRA (QUASE) RETIRADA
... este cotidiano banal-burguês
em vão citadino, tão descortês
- quisera não querer mais seu freguês!
[pudera aposentar-me de uma vez!...]
HAJA DÊ-ERRE CONSIGO MESMA!...
Vamos falar de expectativas.
Conversar sobre expectativas:
- aquilo entre nós que recíproco
é mutuamente respectivo.
Vamos tratar de expectativas.
Cuidar de conciliar diferenças
nas costas largas desta querença:
- diferenças de crença, descrenças
de personalidade, nascenças
de projeto, vontades, ensinos;
- diferenças de classe, partidos
de transporte, passagens, destinos
recursos, escolhas, equívocos
da longa lista constitutivas.
[no tatibitate dos corações
redesenhando infantis soluções
cuidemos de operar seus sentidos
(de vedar de olhar seus orifícios):
subtrair, dos cafés, cafunés
rodapés a trair parangolés]
Conversar sobre expectativas:
- aquilo entre nós que recíproco
é mutuamente respectivo.
Vamos tratar de expectativas.
Cuidar de conciliar diferenças
nas costas largas desta querença:
- diferenças de crença, descrenças
de personalidade, nascenças
de projeto, vontades, ensinos;
- diferenças de classe, partidos
de transporte, passagens, destinos
recursos, escolhas, equívocos
da longa lista constitutivas.
[no tatibitate dos corações
redesenhando infantis soluções
cuidemos de operar seus sentidos
(de vedar de olhar seus orifícios):
subtrair, dos cafés, cafunés
rodapés a trair parangolés]
domingo, 5 de julho de 2015
ANIMA MORTIS
O desânimo
pusilânime
que me acomete
magnânimo
faz-se equânime:
- o que oferece
do que promete
(que se repete)
por exânime
não acontece.
sábado, 4 de julho de 2015
REVISITA 70: SOBRE O MEU AMOR POR TI
Se o que existe de bom na vida
perdura em alguma florada eterna
num canto de galáxia,
buscarei, e trarei a água azul-clara
que lembrar-te-á, e às rosas da tua sacada
o que existe de bom na vida.
O que perdura em alguma florada eterna
num canto de galáxia.
03/07/1997
sexta-feira, 3 de julho de 2015
POESIA TEMPORAL
... oito e trinta e quatro
da manhã divinal!...
(da manhã ancestral)
[do amanhã eternal]
{de manhã, habitual}
... oito e trinta e cinco
pelo açúcar e o sal...
(pouco não fará mal)
... oito e trinta e sete
e um sol fenomenal...
... oito e trinta e oito
(que farei, afinal?)...
... oito e trinta e nove...
... oito e trinta e nove...
... oito e trinta e nove...
quinta-feira, 2 de julho de 2015
PELA DEMOCRACIA
contra a plutocracia
A dívida grega.
A lívida grega
da foto funérea
(mulher de beleza).
[cadê deusa Atena?
Leônidas? Péricles?
suas efemérides?]
A dívida etérea
(qual dívida aérea)
- e a dúvida pétrea.
Que a dúvida grega
rejeite quem pensa
(da Helena que ajoelha)
que a Grécia já era!...
quarta-feira, 1 de julho de 2015
REVISITA 69: O CANTAR DA HORA PRÓXIMA
Sob o troçar das nuvens, a conversa com o tempo
Ora calma ou sibilante, vez tronante, acareada
Converte-se, na calçada, meu passo ao léu do vento
Em tardes de pensamento, contigo e um sol brilhante;
Mas quando o clima hesita - e a brisa, então tão tímida
Mal caminha - num momento esquecido de venturas
Toca o rosto dos teus dedos meu medo de perdê-los
Embora fina a chuva, sob um céu último de ilha;
O ser crestado que briga contrafeito a tua falta
Cansado dos pedaços travestidos de certezas
Quer a paz das inteirezas - o rito dos abraços;
O ar frio que anoitece o entardecido no horizonte
No desvão da lua, pela costura das estrelas
Enternece, da líquida memória - o fim da chuva...
02/07/1997
terça-feira, 30 de junho de 2015
segunda-feira, 29 de junho de 2015
REVISITA 68: BRINCOS DE ANIVERSÁRIO
Para ornar o sorriso
Dos teus olhos
E as covas onde o meu desejo
- beijo - se perde
(e aparar o que ouves
da música desigual do mundo)
Dois pedaços de lua prata
Seis janelas do fundo azul.
17/06/1997
SERÁ FALTA DE VINHO?
Há um desespero fino
neste sofá de linho
nesse sofá de vinho
que emborco acontecido.
Nesse sofá tecido
de linho amarelado
por desesperos idos
(depois de amarelados)
há um desespero, creio
(receio exasperado)
de falta de sentido.
De um significado
que, bem acomodado
possa, bebericado
ser enfim digerido
ao invés deste hiato
desse vácuo emborcado;
que possa ser sentido
ao invés de, sentado
dissolver-se, pensado
que deveria, vivo...
terça-feira, 23 de junho de 2015
REVISITA 67: GAROTA DE LUA
A menina dos meus olhos não é tão loira
Nem parece assentada.
Mas acredite! É gêmea da garota da lua:
- tem a mente tão caraminholada
quanto dourada, e pura.
Esvoaça entre véus, espreguiçada
Da mesma forma, no banco da rua:
- se sob o sol, imagem tão ruiva
ou enluarada, grega coluna
(alva de tanta brancura)
Não importa: captura a alma num anseio
Que não é mais desejo
- é sonho e loucura!...
02/06/1997
DA RAZÃO MECÂNICA
de estelar distância
Claridade tanta
(matematizada)
de extração quântica
(teórica, aplicada)
na vida penada
(tida cartesiana)
nessa nossa escala
(larga a observância)
escurece os quanta:
- quando e como o quanto?...
- de onde, aonde o plano?...
- quem o quê, portanto?...
[porque, por enquanto
(onda ou partícula)
pouco cotidiano
tampouco ilumina]
domingo, 21 de junho de 2015
SERÁ QUE SAIO?
Nublada e frienta
seca e opaca
passada lenta
(lesa e coçada)
parada esteja:
- manhã de lesma
lamber a pedra
(manhã da mesma
correr depressa)
sábado, 20 de junho de 2015
A ESPIRAL VITAL
É doce esta lembrança
de quando fomos crianças
e éramos só esperança...
Adiante, a recordação
da adolescência em ação
(embora a sua história, não).
Futuros, quando à frente
dispõem-nos diferente
de agora, vãos presentes...
Agora, aquela idade
distante das vontades
(distante da verdade
próxima das vaidades)
impõe-se realidade
picada de saudades;
e o desencanto que vem
o escatológico trem
- é a estação também, meu bem!...
...
[o desenlace, depois
tudo trivializa, pois
não se trata de nós dois]
quinta-feira, 18 de junho de 2015
MAS SERÁ POR QUÊ?
Ando cansado
passo cansado
corro cansado
vivo cansado
morro cansado.
(ando cansado
mas não sei do quê)
[corro cansado
e não sei pra quê]
{irei cansado
mas não de você}
REVISITA 66: DENVER INTERNATIONAL AIRPORT
Se é a mim que mira
teu turbilhão de dúvidas
aquém do mar bravio
- refém da noite escura
da bruma espessa
da vida turva
apague a chama
tome a harpa
bata as asas!
No outro, vasto
lado do continente
(a pé de um pesadelo)
meu sonho-aeroporto
aparará teu vôo
pelo raiar do dia...
02/06/1997
quarta-feira, 17 de junho de 2015
MINHA NETA
A Cecília
conhecida
- a mais bela
- a mais linda
- a mais lida
que poetisa
(senão poeta)
- foi menina
ou moleca?
- foi boazinha
ou sapeca?
- se Cecília
(pois sabia)
mais querida?...
***
A Cecília
que vem vindo
- se poética
ou prosaica
- se moderna
ou arcaica
- ascética
- hedonista
- profética
- niilista
da delícia
tão bem-vinda
que pressinto
é a primícia!...
REVISITA 65: VARAL
A leveza aérea, nervosa, ligeira
com que penduras no futuro o meu presente
(na hora transitória de lua insinuada
entardecendo um tempo sem lugar)
convida certo olhar, que a mim já não pertence
a estender o horizonte, ou ao ventre retornar
***
Minha dúbia natureza vibra a freqüência
do bater elétrico de tuas asas
(o cuidado alegre de tuas lides);
entre as tuas antenas, sob a ruiva coroa
conjugam-se no espírito as tuas idéias
(rosário eterno que à minha vida ocupa)
***
Nas asas de vidro, janelas para o infinito
(fendas por onde passo) um pássaro calo
à noite espantado (nem tanto do espaço)
sob a tenda estrelada onde voa, etéreo
(a pretender teu ventre no leito do horizonte)
num governo que a mim já não pertence...
25/05/1997
TRANSIÇÃO
o papel branco
a tela branca
caneta branca
teclado branco
o papel brando
a tela plana
caneta manca
teclado quando
o papel suja
a tela pena
caneta vaza
teclado pifa
no papel penso
da tela sinto
caneta tento
teclando minto
o papel dança
a tela avança
caneta cansa
teclando ranço
terça-feira, 16 de junho de 2015
ELAS FOGEM DE MIM
Às pencas, elas somem de mim.
As palavras. E somem assim
- sentidos de frases, sentenças
em versos de estrofes de poemas
quando meu fracasso em lavrá-las
(jazidas ou fertilizadas)
deteriora, indeterminado
indefinindo, incerto e vago
talvez do cansaço - o que faço?
...
Anteontem. Ontem, por exemplo
sumiram. Parecia que iam
em meio a um lamento do tempo
exausto - como em desavenças
expelindo tal descontento
do que significariam.
...
Porque as mediocrizo lavradas
palavras em vão, são difíceis:
- o talento a menos faz crível
seu crivo tampouco acessível.
segunda-feira, 15 de junho de 2015
QUADRA SECA DE VONTADE III
Um tempo pantanoso
ressecando espantoso
(como certo desgosto)
percorro doloroso!...
domingo, 7 de junho de 2015
QUADRA SECA DE VONTADE II
Num dia preguiçoso
que parte comatoso
(como já fosse agosto)
eu corro buliçoso!...
sexta-feira, 5 de junho de 2015
A PREFERÊNCIA É MINHA
embora relativa
Pergunto, vez em quando
sobre Leo e Cristiano.
Me perguntam, todo ano
entre Messi e Ronaldo
- com quem a mais me encanto?
Embora a preferência
entre a força e a magia
por tal arte ou qual ciência
mais futebolística
seja somente minha
a minha (in)competência
cria e conclui infinda:
- mais importa quem, do alto
ao outro, alça mais alto!...
REVISITA 64: PRINCIPESCA
Sob a chuva intensa, parede de um céu desmoronando,
Alagada inteira a floresta, prenhe, inchada de oceanos,
Meu olhar batráquio, encantado, boiando vítreo, extático,
Pétreo te contempla borboleta, princesa dos meus sonhos!...
Sob um cogumelo envergado, no suspenso espaço,
Suspendo as palavras - encerrada a bocarra enigmática
Em dúvidas - embora às tuas asas, submissas borrifadas
Destile, principescas - colar de caricatas gentilezas...
O sapo sapo! que sou aguarda, paciente,
Um arrastar teu de asa, sapiente?
Antes que passe a água, e a borboleta espreguice;
O sapo príncipe? que não pareço barganha, pedinte,
O teu ósculo improvável, haja sapo a engolires
Entre os vários verdes pétreos que remanescem...
23/05/1997
quinta-feira, 4 de junho de 2015
QUADRA SECA DE VONTADE
Num dia glorioso
que arde luminoso
junho/julho, a gosto
eu corro até o osso!...
Assinar:
Postagens (Atom)